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\mysection{aspecto-fisico}{Aspecto físico}
\mydate{2015jul20}

Eu tou em tratamento hormonal há 9 meses. Meu corpo tá mudando,
e meu cabelo também, mas ainda não mudaram o suficiente.

Às vezes alguma pessoa ``muito trans'' reclama de mim porque me
acha ``pouco trans'' - porque eu ainda não visto roupas femininas
nem maquiagem, nem peço pra me tratarem no feminino, e daí
não sofro discriminação nem transfobia.

Eu ficava me perguntando o que é ``ser mulher'' pra essas pessoas
``muito trans'' que me estranham... mas agora acho que hoje em dia
tenho perguntas bem melhores do que ``o que é ser mulher pra
você?'' - tipo: ``quando é que você viu que continuar a ser,
ou parecer, cis, era insuportável? Era insuportável porquê,
de que jeito?...''

Eu andei escrevendo sobre os meus motivos pra
transicionar\footnote{\url{http://angg.twu.net/s-c-r.html}}. O aspecto
físico era algo secundário pra mim, o central era eu poder
sinalizar que eu tinha tentado fazer algum tipo de ``papel de homem''
durante décadas, de muitos jeitos, e sempre tinha dado muito
errado, e agora foda-se tudo, esse negócio de ``homem'' é uma
farsa que eu não aguento mais.

O central pra mim é que eu funciono de um jeito completamente
diferente do ``lavou, tá novo''.

Quanto ao aspecto físico - as mudanças - pôxa, deixa eu lidar
com isso com mais tempo. Eu passei a minha vida ``de homem'' mal
conseguindo me olhar no espelho, e aproveitando que eu podia ser bem
largado. Por enquanto ainda é prático eu ficar mais ou menos
invisível.




\mysection{e-ai-comeu}{E aí, comeu?}
\mydate{2015jul27}

Às vezes eu tentava contar sobre alguém por quem eu tinha ficado
encantado, e conversado durante horas sobre coisas quase
inimagináveis, pra amigos meus que só ficavam perguntando: ``e
aí, comeu''?

Tem assuntos que impedem outros. A obsessão das pessoas por sexo
fez com que eu tivesse que procurar os nichos - raríssimos - onde
estavam as pessoas que, como eu, tinham carências emocionais muito
maiores do que as carências sexuais. Nesses nichos a gente
conversava sobre pessoas e relacionamentos, quase nunca sobre sexo.

Em julho/2015 uma amiga-de-amigos fez um
post\footnote{\url{https://www.facebook.com/sweetestacidgil/posts/1152200968130012}}
no Facebook que eu achei corajosíssimo, falando de como a coisa que
ela mais queria é ter uma vida afetiva normal, e como isso acaba
sendo difícil para pessoas trans. Eu pedi correndo pra virar amig
dela, e contei que eu tou há meses escrevendo sobre outras coisas
mas tentando chegar exatamente aí... só que era como se o termo
''vida afetiva'' fosse algo tão absurdo de mencionar, tão
ininteligível, que eu tivesse que preparar o caminho falando de
centenas de outras coisas antes.

Outras pessoas trans que eu conheço têm postado no Facebook
sobre cantadas absurdas que elas levam tanto ``no mundo real'' quanto
online, e os foras que elas dão nos caras, e as grosserias que elas
recebem de volta.

Fiquei pensando sobre como a gente {\it constrói relacionamentos}.
Muita gente que eu conheço começa por tesão e sexo, e daí
{\it algumas} relações com alguém com quem transar era
ótimo depois viram algo mais duradouro e mais profundo.

Durante décadas eu tentei conversar como a minha mãe sobre como
eu tentava sinalizar certas coisas claramente pra poder encontrar
pessoas compatíveis comigo e a gente começar relações com
as bases certas. Ela não entendia - ela achava que eu estava
complicando tudo, que relações aconteciam naturalmente, era
só a gente deixar acontecer sem racionalizar demais. Aí,
tentando ver isso como um conselho, eu tentava não pensar, e apagar
os traços do que eu já tinha pensado de um jeito parecido com
apagar os ``pensamentos de viado'' pra nunca nem lembrar que eu já
tinha pensado eles.

Hoje em dia eu acho que quase todas as relações que acontecem
``naturalmente'' vão ter uma bagagem enorme de padrões sociais -
a gente vai ser assombrado pelos padrões de sexo e beleza que a
gente vê nas revistas, filmes e TV, e a gente vai ter que lidar com
família e amigos dizendo que a gente deveria estar com uma pessoa
diferente e do jeito e tal e tal - e a gente não vai ter
ferramentas suficientes pra lidar com tudo isso.

Dxô contar uma coisa. Alguns dos meus relacionamentos que me
deixaram as lembranças mais preciosas, e que foram com pessoas das
quais eu sou muito amigo até hoje, foram sem ou praticamente sem
sexo; dois desses foram com pessoas que tinham com seus próprios
corpos uma relação mais ou menos tão difícil quanto a que
eu tinha com o meu. Cada um de nós era um ``porto seguro'' um pro
outro; nós começamos esses relacionamentos frágeis e
arrebentados, e nos reconstruímos juntos.

É praticamente impossível falar sobre esses relacionamentos no
Facebook.






\mysection{blindagem}{Blindagem emocional}
\mydate{2015aug02}

Outro dia uma amiga postou este
texto\footnote{\myburl{https://negrasolidao.wordpress.com/2015/07/18/e-preciso-ter-coragem-de-}{estar-sozinha/}},
que tem um termo que eu vou passar a usar: {\it blindagem emocional}.
A blindagem emocional é um elemento importante da {\it cultura da
  galinhagem} na qual a gente vive - nela uma das coisas que dá
mais pontos de valor na hierarquia social é a sua {\it capacidade
  de galinhar}, isto é, de pegar alguém (e alguém socialmente
aceitável!) rápido, e de nunca ficar solteiro e sem sexo durante
muito tempo. A sua capacidade de galinhar mostra pra todo mundo que
você é uma pessoa livre, feliz, bem-sucedida, desejável,
empreendedora, comunicativa, bem resolvida, etc. É claro que o
jeito como se cobra capacidade de galinhar das mulheres é muito
mais complicado e cheio de armadilhas que pros homens... qualquer
pequeno deslize e elas viram - ta-rááá! - ``galinhas''.

Só que não é sobre isso que eu quero falar. Os ``double
standards'' da cultura da galinhagem pras mulheres já forma
discutidos à beça por aí.

Outros elementos que são básicos pra blindagem emocional e pra
galinhagem são {\it descartabilidade} e {\it intercambiabilidade}.
Se um namorado, ou ficante, ou conhecido, ou amigo, diz ou faz uma
besteira grande a gente se fecha pra ele - ``a fila anda''! - e daqui a
pouco a gente põe no lugar uma outra pessoa do ``tipo'' que a gente
gosta.



\mysection{junkies}{Amigos junkies}
\mydate{2015aug13}

Quando eu tinha 12 anos o Carlos apareceu na minha turma. Não
lembro se ele só não se dava bem com o outro colégio ou se
ele tinha sido expulso mesmo.

O Carlos era mais esquisito que eu e lia tanto ou mais do que eu, mas
ele não era nada tímido. Nós viramos melhores amigos. Ele
levou um ano pra me convencer a experimentar maconha... mas, bom, o
que eu queria era falar dos meus amigos - os ``junkies'' - que eu
conheci através do Carlos.

A gente não queria ser hipócrita como a sociedade em torno de
nós. A gente queria encontrar jeitos de ter menos máscaras e
menos segredos - mas não era nada fácil. O trabalho era em
várias direções: a gente só se tornava capaz de lidar mais
abertamente com os nossos proprios segredos à medida que a gente
ajudava as outras pessoas com os ``segredos'' delas.

Esse grupo dos adolescentes junkies-cabeça me marcou por ter sido o
primeiro grupo em que eu estive no qual as pessoas eram {\it muito}
éticas - e essa ética estava sempre em discussão, e em
construção.

Algumas questões que volta e meia reapareciam nas nossas
discussões me marcaram muito, também. Tipo: e se a gente se
apaixonar por uma pessoa socialmente mal vista, que a nossa família
e os nossos amigos e conhecidos rejeitam? E: será que a gente já
consegue se fascinar pelas pessoas principalmente pelo que elas são
por dentro, ou a gente ainda é dominado pelos padrões sociais de
beleza? Como podemos não nos fechar pra pessoas incríveis? {\it
  E se a gente se apaixonar por um amigo do mesmo sexo?}

Eu tou usando o termo ``se apaixonar'', mas a gente ficava imaginando
que relações amorosas só valiam a pena se fossem mais do que
o que a gente tinha pelos nossos melhores amigos. Relações como
as das pessoas que começam a namorar, viram umas patetas e se
afastam dos amigos não nos interessavam - aliás, a gente achava
que havia algo de muito errado com elas.

Depois eu caí em grupos que funcionavam ao contrário dos meus
amigos adolescentes-junkies-cabeça - grupos nos quais era
ridículo você se expôr emocionalmente ou você se apegar
à pessoa com quem você está ficando ou namorando.




\mysection{expectativa-e-rejeicao}{Expectativa e rejeição}
\mydate{2015aug18}

Eu não entendo mais como as pessoas falam sobre sexo - qdz, como se
fosse algo físico.

{\it Expectativa} e {\it rejeição} são temas muito maiores, e
o assunto ``sexo'' impede que se fale deles.

Quando eu me aproximo de alguém eu tenho expectativas enormes, que
eu tento esconder porque me disseram que expectativas assustam as
pessoas. Tento dar o melhor de mim pra ter mais chance de no ser
rejeitado; e lido com o medo de ser rejeitado {\it agora}, e com as
memórias das rejeições passadas.





\mysection{impulsos}{Lidar com impulsos}
\mydate{2015aug21}

A lição mais importante que eu aprendi na minha adolescência
é que toda vez que eu me interessasse fisicamente por uma pessoa eu
ganharia um ``não''.

Às vezes as pessoas tentam descobrir se eu sou gay/hetero/etc me
fazendo uma pergunta que pra mim é bizarra: ``por quem você sente
atração?'' Pôxa, qual é a relevância de por quem a gente
sente atração quando a distância entre a gente sentir
atração e a gente fazer algo é praticamente infinita?

Quando eu era adolescente e me percebia tendo fantasias com os meus
melhores amigos isso gerava um segredo, e constrangimento, e medo - e
aí eu tinha que procurar jeitos de conversar sobre isso tudo com
esses amigos... porque afinal a graça de ter melhores amigos era a
gente ser o mais transparente possível com eles, e a gente volta e
meia tentar conversar sobre coisas sobre as quais a gente não fazia
idéia de como conversar...

\bigskip

Será que eu era um monstro por ter atração por amigos?
Será que eu era alguém que talvez devesse até ser deletado,
afastado e denunciado? Ou será que outros amigos sentiam coisas
parecidas também? Como eles lidavam com isso pra que não fosse
tão grave?

Tesão por {\it garotas} acabava sendo algo completamente diferente.
Havia uma pressão social enorme pra que transformássemos os
nossos {\it impulsos}, mesmo os menores, em {\it ação}, e os
``experts'' - estávamos cercados por eles em todo lugar - ficavam
nos bombardeando incessantemente com dicas que eram sempre formulinhas
de como fazer a pose certa e mandar a mentira certa.

Pra quem que, como eu, queria acima de tudo uma existência menos
bruta, menos burra e menos hipócrita, lidar com a atração por
amigos - longe das formulinhas e regrinhas! - acabava sendo algo bem
mais promissor que tesões heteros.

\bigskip

Um modo bem útil de classificar as pessoas - e repara, gays
procuram outros gays pra namorar, homens heteros procuram mulheres,
etc; é natural ``classificar'' as pessoas um pouquinho quando a gente
está procurando alguém que se encaixe na gente - é a partir
de como elas lidam com seus impulsos, e com o {\it agora} e o {\it
  depois}.

Tem um vídeo bem interessante (link
aqui\footnote{\url{http://www.youtube.com/watch?v=DeOIYcIqPOQ}}), de
uma vlogueira que eu geralmente acho sexocêntrica demais, no qual
ela fala de como as pessoas que eram esquisitas quando adolescentes
ficam diferentes quando adultas das pessoas que eram ``normais'',
''bonitas'' e ``desejáveis''; e ela termina o vídeo com
vários relatos que ela ouviu de casos em que as pessoas que
``sempre foram bonitas'' acabam sendo preteridas em entrevistas de
emprego porque supõem que elas sejam meio burras, ou que vão
distrair os colegas, criar situações sexuais no trabalho, etc.
Eu assisti esse vídeo pensando em como cada pessoa lida com seus
impulsos; nas minhas fantasias as pessoas que ``sempre foram bonitas e
desejáveis'' têm um modo bem mais direto que as outras de lidar
com os seus impulsos - pra elas interesse e atração facilmente
viram dar em cima, cantadas, sexo.

Já pras pessoas {\it muito esquisitas}, como eu, se eu conseguisse
que os meus impulsos e desejos não fossem sentidos como
inconvenientes, a minha vida já ficariam mil vezes melhor... em
poucas palavras: se a minha atração por pessoas fosse vista como
{\it elogio}, e nunca como {\it cantada}.

\bigskip

Outro ponto importante é que eu {\it não queria sexo}.

Na verdade isso é o melhor resumo em poucas palavras que eu tinha
para algo bem mais complicado.

Quando eu andava com os junkies a gente se preparava - ao longo de
anos! - pra experimentar coisas incrivelmente fortes, como Ayahuasca e
LSD, que a gente sabia que tinha gente que quando tomava não
conseguia dar conta da experiência, pirava e nunca mais voltava
direito.

A gente sabia que {\it quase} tudo que a gente veria numa
experiência com psicodélicos já estava na nossa cabeça de
alguma forma... tem muita coisa que a gente esconde da gente mesmo, e
a gente podia se deparar com algumas coisas destas - talvez
distorcidas! - e a gente ia ter que passar os meses seguintes lidando
com o que a gente viu.

Além disso, não fazia sentido a gente fazer merda - com os
outros ou com a gente mesmo - e depois dizer ``ah, desculpa, eu tava
doidão! Hahaha!''... a gente se preparava pra agir do modo mais
reponsável e consequente possível, mesmo que só 10\% da nossa
cabeça estivesse funcionando de um modo familiar e confiável.

Essa relação que a gente tinha com drogas fortes virou a minha
referência pra como eu deveria lidar com sexo. Sexo tinha o poder
de mexer com tantas coisas minhas enormes, como expectativas,
rejeições e medos, além das memórias que ficam como que
guardadas nas tensões corporais, que só fazia sentido fazer com
pessoas que soubessem que estavam fazendo algo que podia ser muito
grande - as pessoas ``normais'', pras quais sexo é ``bom'',
``natural'', ``simples'', ``acontece'', eram pessoas que eu tinha que
evitar a todo custo.

Acho que o único modo que eu tenho pra definir as pessoas que
``são o meu tipo'' é falando de modos de lidar com
atração, desejo, impulsos... eu sei que eu preciso de pessoas
que, como eu, quando sentem tesão por alguém simplesmente deixam
passar -

% (Continua)




\mysection{consensual}{Consensual}
\mydate{2015oct02}

Eu li este post
aqui\footnote{\url{https://www.facebook.com/malenamordekai/posts/10204025786280036}},
%
\begin{quote}
  ``Sexo consensual'' é só sexo. Usar este termo dá a
  entender que existe algo como ``sexo não-consensual'', o que
  não existe. Isso é estupro. É o que isso precisa ser
  chamado. Só existe sexo ou estupro. Não ensine às pessoas
  que estupro é só outro tipo de sexo. São dois eventos
  estritamente diferentes. Você não diz ``nadando respirando'' e
  ``nadando sem respirar'', você diz nadando e afogando.
\end{quote}
%
e pensei: essa não é a divisão que importa pra mim - PRA MIM.

Às vezes uma pessoa engana a outra. Ela finge que é confiável
e que entende bem as questões da outra, inclusive entende como sexo
funciona pra essa outra - e pra essa outra sexo é uma coisa enorme,
cheia de consequências, exatamente como tomar drogas muito fortes
ou fazer piercings complicados, e que só faz sentido numa
relação de confiança, com comprometimento, responsabilidade,
etc -

Aí essa pessoa come a outra e depois desaparece, banaliza e
distorce o que aconteceu, e passa a ser escrota e a sacanear a outra
de todos os jeitos possíveis.

Houve consentimento na hora? Sim. Mas os efeitos podem ser {\it bem}
graves - {\it aconteceu comigo}.

A sensação que me dá quando eu leio algo tipo esse ``só
existe sexo ou estupro'' é que isso é o discurso de um mundo com
ênfase demais no aqui e agora, e no qual as pessoas são 100\%
capazes de entender a linguagem verbal e corporal dos outros
rápido.

A divisão que importa pra mim - repito: PRA MIM - é entre
``inconsequente'' e ``atento, reponsável, consequente''. Só que
eu nem me atrevo a falar sobre isso, acaba que toda vez que eu tento
falar ou escrever sobre isso todas as palavras e expressões que me
ocorrem trazem a sensação de que não vão me entender, ou
vão me entender errado e até me sacanear, e eu engasgo, entalo.

Aí eu li este outro
post\footnote{\url{https://www.facebook.com/mgsaldanha/posts/977069769020948?fref=nf}}
- de alguém que conseguiu falar sobre essas coisas sem engasgar no
meio:

\begin{quote}
Tenho preguiça de cantada. Tenho preguiça de pegação.
Tenho preguiça de suruba. Tenho preguiça de gente que quer me
comer sem ter a menor curiosidade quanto ao ser humano que eu sou.
Tenho preguiça de Tinder. De Happn. De sexo casual. De sexo
virtual. De beijo sem contexto. De joguinhos. De aproximação
blasé. De ter que fingir que não estou tão interessada. Tenho
preguiça de homem que não é super atento ao prazer feminino.
De quem é cheio de frescuras e exigências com o corpo. De homem
que diz ``vamos nos falando''. Tenho preguiça de gente que não
gosta de compromisso. De quem confunde compromisso com propriedade.
Tenho preguiça de poliamor. Tenho preguiça de ``não estou
sabendo lidar com isso''. De quem não sabe dizer ``não''. De quem
fica se autoafirmando sexualmente. De quem não tem coragem de se
deixar emocionar. De quem tem discurso libertário e não ousa
viver o que diz. De quem acha que é muito longe pra gente ir. De
quem acha que estamos indo muito rápido. De quem não liga pra
lealdade. De quem não consegue ver o sagrado do outro. De quem
não entende o quanto eu sou grata ao feminismo por todas essas
preguiças. De quem tem medo de que eu fique sozinha, já que
aprendi a estar comigo. De quem caiu no conto do esvaziamento das
relações, de quem chama tudo isso de liberdade, de quem não
faz questão de ser resistência afetiva no mundo.
\end{quote}

{\it ``De fingir que não estou interessada.''} Eu me interesso por
pessoas sim, até com frequência, mas às vezes eu acho que
não tem mais jeito de uma pessoa me fazer sentir que ela é
confiável. Nem se ela jurar por escrito, com sangue, quatro vezes,
uma em cada fase da lua diferente. Nem se ela der mil provas
diferentes de integridade e sensibilidade. {\it Talvez} eu consiga
confiar, e aí me abrir de novo, com alguém que tenha tantas
cicatrizes quanto eu de lutar contra essa merda desse Rio de Janeiro,
em que a inconsequência, o ``lavou, tá novo'' e o ``sexo é bom e
gostoso e natural e etc'' são tão hegemônicos.




\mysection{desculpas}{Desculpas}
\mydate{2015oct14}

Há umas semanas atrás uma amiga minha - que fala sem parar, e
que é a pessoa mais masculina com que eu convivo com frequência
- chegou na minha casa num ataque de ódio, porque um
amigo-de-Facebook e crush dela com quem ela andava conversando horas
toda noite só falou com ela um pouquinho na noite anterior, e de
manhã ele reapareceu, veio falar com ela, {\it e se desculpou}.

Ela contava o que tinha acontecido, e a toda hora ela repetia: ``ele
não {\it precisava} se desculpar'' -

Eu tentei conversar com ela. Tentei falar que o que ela estava dizendo
era estranho, que tem diferenças importantes entre ``precisar'',
``poder'' e ``querer'', e tentei explicar as consequências da gente
proibir as pessoas em torno da gente de se desculparem porque a gente
vê {\it insegurança} como {\it culpa}. Ela ou não entendeu ou
não ouviu - ela fala muito e ouve pouco - e depois de, sei lá,
meia hora ou uma hora, eu explodi, disse que eu não queria ser
cúmplice daquilo, e que ela não {\it precisava} contar aquilo
pra mim, e que eu não {\it precisava} ouvir aquilo. Ela ficou meio
pasma, mas viu que era sério, pegou as coisas dela e foi embora.

A minha raiva levou horas pra passar, e no processo de lidar com ela
eu entendi um montão de coisas. Primeiro (e essa eu já sabia),
que eu já fui vítima de uma situação assim - no
relacionamento mais importante que eu já tive a pessoa, que no
início lidava super bem com vulnerabilidade e insegurança, virou
uma outra pessoa, que interpretava qualquer dúvida minha como sinal
de que eu estava escondendo algo grave - e eu tenho fobias enormes de
cair de novo numa situação dessas. Segundo, que as pessoas em
torno de mim lidam com se desculpar de jeitos {\it muito} diferentes,
e tem até
algumas\footnote{\url{http://angg.twu.net/desnevizacao.html}} que
não se desculpam de jeito nenhum, porque consideram que se
desculpar é coisa de gente inferior. E terceiro, e mais importante,
que é que muitas vezes eu emperro com pessoas que eu gosto {\it
porque eu queria me desculpar com elas} - por exemplo, por não ter
respondido à altura algum gesto simpático delas, ou por eu ter
sumido um tempão - mas eu fico com medo delas se incomodarem com
desculpas...

No mundo dos ômis quem manifesta insegurança leva porrada.

\bigskip

Um problema que eu tenho com cariocas é que toda vez que eu
concateno cinco pensamentos em sequência eles dizem ``ih, o cara,
aí, não complica, relaxa'', e eu fico imaginando que muita gente
faz algo parecido com quem se desculpa, que se as minhas desculpas
têm mais de duas frases e não são dadas com o sorriso casual
certo eu vou então eu vou receber uma espécie de ``ih, o cara,
aí, não complica, relaxa''...





\mysection{coracao}{Coração}
\mydate{2015oct18}

Há uns dois anos atrás eu comecei a escrever fragmentos pra um
texto grande sobre como eu acabei lidando com sexo e gênero; ele ia
se chamar ``sexofóbico como resposta'', e eu escrevi à beça mas
não consegui chegar nem perto de terminá-lo... a idéia
principal à qual eu queria chegar sempre pedia mais e mais
seções preparatórias, e o trabalho começou a parecer
infinito.

A obsessão atual com sexo, corpo e partes do corpo, me incomoda,
mas eu vi que algumas das coisas mais importantes que essa obsessão
nos impede de ver, pensar sobre e discutir, {\it podem ser localizadas
  em partes do corpo.}

Eu pretendia citar trechos de livros do Peter Brook - talvez sejam
todos do ``Ponto de Mutação'' - nos quais ele conta de duas
viagens da companhia dele na década de 1970, uma pelo interior da
África, outra pelo Afeganistão. Na viagem pela África eles se
apresentavam em aldeias minúsculas, nas quais muitas vezes
ninguém falava Inglês ou Francês, se apresentando sobre um
tapete grande, com pouquíssimos adereços ou objetos de cena. Na
viagem pelo Afeganistão eles estavam tentando preparar o terreno
pra filmar o ``Meetings with Remarkable Men''.

O que é preciso pra estabelecer boas relações com pessoas em
países distantes, com línguas e costumes muito diferentes? Por
``boas relações'' eu entendo relações de atenção e
gentileza, nem predatórias e nem egoístas... as idéias-chave
da resposta são ``ser {\it verdadeiro}'' e ``{\it coração
aberto}'', que são coisas que eu não consigo nem mencionar em
público sem muita, muita preparação.






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