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{\bf Daniel e Iniciativa}

(5/maio/2013)

\medskip

Nas discussões sobre assédio e estupro que eu vejo eu sempre
tenho a sensação de que falta alguma coisa. Nos últimos dias
algumas idéias sobre o que falta começaram a ficar mais claras
pra mim - vou tentar escrever o INÍCIO disto agora, mas não sei
se vai dar pra escrever tudo de uma vez.

Durante dois anos, quando eu tava no fim da graduação e no
início do mestrado, o meu melhor amigo era um cara chamado Daniel.
Uma vez ele me disse isso aqui:

``Cara, se eu tivesse com as minhas amigas um décimo da intimidade
que você tem com as suas eu já tinha comido elas há muito
tempo.''

Volta e meia eu me lembro disso - e de outras coisas que ele dizia -
com horror e nojo. Esse tipo de macheza dele, aliás, teve a ver com
o que fez com a gente se separasse, mas vou deixar isto pra depois.

Então: o Daniel não PODIA ter mais intimidade com as amigas
dele, porque elas sabiam que ele estava sempre esperando a
oportunidade de poder agarrá-las.

Pro Daniel as coisas funcionavam assim: quando duas pessoas estão
dando mole uma pra outra em algum momento alguma ``toma a iniciativa''.
Aí elas se beijam. Se der certo, depois elas trepam.

Se uma amiga do Daniel deixasse de ser defensiva com ele ele poderia
achar que ela ``estava dando mole pra ele'', e ele ``tomaria a
iniciativa''.

Vou chamar a posição do Daniel de ``posição de predador''.

Quando os nossos amigos são predadores em potencial a gente tem que
tomar muito cuidado com eles. Se a gente diz que gosta deles eles
podem interpretar isto como uma espécie de ``dar mole'', e aí eles
podem ficar - deixa eu usar um termo do próprio Daniel aqui -
``apaixonados''; eles ficam viajando em expectativas delirantes, sobre
as quais eles não conseguem conversar - e eles entram num modo de
funcionar em que eles começam a pensar o tempo todo se podem tomar
a iniciativa ou não. É difícil tirá-los disso, e o
único modo óbvio é cortar essas expectativas, ``dar um fora''
neles. Isso magoa, e não queremos fazer isto, então não
podemos nem dizer muito abertamente que gostamos deles.

Uma coisa que vale a pena pensar é: porque é que os Daniéis
acham que a única coisa realmente concreta numa relacionamento, o
ápice de tudo, a finalidade última de todas as tentativas de
aproximação, e o que as pessoas mais almejam - é sexo?

Essa pergunta é central sim, mas me toquei de que a gente pode
pensar sobre ela melhor ainda se a gente for por uma outra
direção.

Eu faço um esforço enorme pra sinalizar pra todo mundo que eu
não compactuo com machezas, que os meus valores são outros, que
eu até já perdi empregos por ser incapaz de lidar com machezas,
e tal. Mas isso só funciona parcialmente.

Em algumas épocas eu acho pessoas muito mais fascinantes do que eu
deveria. É meio perturbador pra mim e pra elas, e é bem
possível que eu olhe pra elas de modos incômodos. Mas não sei
direito, é difícil conversar sobre isto.

Eu trabalhei a minha vida toda pra não ser visto como um ``predador''
- ou seja, como alguém insensível e perigoso com quem é
impossível conversar. Eu sei mais ou menos os porquês disto:
porque eu sei que num mundo cheio de Daniéis as minhas carências
mais importantes são impossíveis de satisfazer. Por exemplo -
vou ter que usar termos curtos - intimidade, confiança, poder
pensar junto sobre coisas difíceis, poder conversar sobre
inseguranças.

O que me intriga é porque é tão difícil ser reconhecido em
meios mais heteros - que são meio novidade pra mim, porque passei
mais de 10 anos afastado deles - como alguém que não vai ser um
``predador'' de jeito nenhum. Quando eu quase só andava com
lésbicas e gente trans era mais fácil.

O que eu saquei nos últimos dias - pode ser uma idéia ingênua
e pode ser viagem, mas achei que valia a pena compartilhar - é que
o problema tem a ver com {\it privilégio}. Por mais que eu não
{\it queira} ser um predador eu {\it posso} ser um predador. Vou
explicar: PODE SER que o meu discurso seja só pose; um Daniel que
soubesse passar uma aura de confiabilidade como a que eu tento passar
usaria isso pra comer todas as amigas dele - e o tal ``privilégio''
está em que no mundo hetero as pessoas acreditam que os homens
sempre têm Daniéis dentro de si, e uma manifestação do
Daniel Interior é algo tão normal que ninguém pode ser muito
culpado por isto.

Várias tentativas das mulheres dizerem que elas são seres
sexuais também, com desejos próprios e tal, são postas em
termos correspondentes a estes: uma mulher com desejos pode a qualquer
momento revelar o seu Daniel Interior.

Eu sempre tive muito problema com essa história de ``iniciativa''.
Uma das coisas que mais me levou à beira do suicídio quando eu
era adolescente foi uma amiga minha, por quem eu era muito apaixonado,
me pondo sempre contra a parede e me mostrando que eu deveria tomar a
``iniciativa'' - mas aquilo era algo totalmente alienígena à minha
personalidade, e das poucas vezes que eu tentei tomar algo parecido
com essas iniciativas foi patético.

Aos poucos bem depois eu fui conseguindo relações baseadas em
outros tipos de aproximação que não tinham nada a ver com
essa ``iniciativa''. Mas deu muito trabalho.


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