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\mysection{homem-de-verdade}{``Homem de verdade'' não existe}
\mydate{2015jul17}

Eu tenho lembranças claras de quando eu era pequeno - 6, 7, 8
anos. Praticamente tudo, até os menores gestos, era dividido entre
``coisas de homem'' e ``coisas de mulherzinha/fresco/maricas/viado'', e a
gente vivia o tempo todo se testando uns aos outros e tentando passar
nos testes e ser ``homem de verdade'' e não ``viado''...

Era um pesadelo, e várias coisas que eu queria e achava legais
eram ``coisa de viado''. Isso me deixava muito grilado, e eu tentava
conversar sobre isso com a minha mãe e o meu analista (é, porque
eu era patologicamente tímido e a minha mãe era psicanalista,
então ela me pôs pra fazer análise muito cedo). Os dois
diziam:

\begin{quote}
``Homem de verdade'' não existe, e você não é viado.
\end{quote}

Acho que foi daí - de muitos anos de conversas frustrantes com a
minha mãe e com esse psicanalista farofa - que eu aprendi que
termos como ``homem'', ``mulher'' e ``viado'' têm muitos significados;
que pra dialogar sobre eles com alguém a gente tem que entender
quais desses significados a outra pessoa usa; e que algumas pessoas,
como a minha mãe e o farofa, acham que esses termos são
universais e querem dizer exatamente o significado que eles têm na
cabeça naquele momento...

Eu aprendi também que essas pessoas que acreditam no um
significado só são loucas e deveriam ser evitadas; e aprendi
também que elas são numerosas demais e estão perto de mim em
lugares demais, e evitá-las é impossível.




\mysection{coisa-de-viado}{Coisa de viado}
\mydate{2015jul17}

Tinha muitos tipos de pensamentos que eram ``coisa de viado''. Os
``homens de verdade'' {\it nunca} pensavam aquelas coisas. Só que eram
tantos tipos de pensamentos que eram ``coisa de viado'' que eu não
acreditava que os ``homens de verdade'' nunca tivessem pensado nenhum
deles.

O tom do modo como os homens falavam tinha certezas demais.

Eu fui chegando à conclusão de que os ``homens de verdade''
apagavam as memórias de terem pensado cada coisa que não deviam.
Quando eles diziam que nunca tinham pensado as coisas proibidas isso
não era exatamente uma mentira - eles acreditavam totalmente. Eles
viviam com muito poucas memórias, porque eles viviam num eterno
presente - sem memórias, e sem interior.

Essa sacação me fez entender um princípio básico do
masculino: o ``lavou, tá novo''. Nada se fixa: a cicatriz de um
machucado desaparece no dia seguinte, a dor de um chute na canela
passa em segundos, uma brincadeira babaca de um coleguinha daqui a
dois minutos a gente já esqueceu. Por trás disso tem a idéia
de que a gente está sempre se treinando pra ficar cada vez mais
fortes - e a gente sacaneia nossos amigos ``de brincadeira'' não
só porque ``é engraçado'', mas também porque quem é
sacaneado ri em triunfo quando vê que é já é forte o
suficiente, e a sacanagem não doeu.



\mysection{mentira-inferno-misterio}{Mentira, inferno, mistério}
\mydate{2015jul20}

O mundo masculino - pra mim - era uma {\it mentira}, porque era
baseado na gente estar sempre esquecendo coisas, fingindo que nada
doeu e fingindo que a gente gostava exatamente das coisas certas, um
{\it inferno}, porque a gente vivia em pânico e não podia baixar
a guarda um segundo, e um {\it mistério}, porque eu não
conseguia entender como os meninos e os homens adultos conseguiam ter
caras mais ou menos felizes vivendo daquele jeito.

Eu comecei a pensar muito sobre ``homens'' e ``mulheres'' e
``masculino'' e ``feminino'' desde bem pequeno, porque eu precisava
pensar em termos de {\it jeitos de funcionar}. As ``mulheres'' eram
verdadeiras, podiam prestar atenção nas coisas, e o modo delas
de conversarem incluía perceber como a outra pessoa funcionava, e
aí criar situações confortáveis nas quais a gente pudesse
até lidar com cuidado com coisas que doíam, como segredos. Eu
queria poder ser mais ou menos daquele jeito quando eu crescesse, mas
eu não conseguia visualizar bem como... por eu ser homem eu tinha
que manter uma casca de dureza, que não parecia compatível.

Quando eu era pequeno eu era um mini-nerd, e eu gostava muito de
ciência, talvez pra copiar o meu pai, que era engenheiro. Aí eu
achava que se eu fosse cientista, inventor e gênio eu seria livre
(num futuro distante).

Quando eu era adolescente eu já não dava mais bola pra
ciência - os caras que eu achava os fodões mesmo eram artistas,
principalmente diretores de cinema e escritores. Eu queria - ou {\it
precisava} - virar uma pessoa incrivelmente interessante quando eu
crescesse, pra eu poder ser amigo dos Mishimas e
Fassbinders\footnote{\url{http://angg.twu.net/s-c-r.html\#querelle}}.




\mysection{mafias}{Máfias}
\mydate{2015nov08}

Há muitos anos atrás eu assisti um filme sobre máfia que me
marcou muito. Eu adoraria saber o nome dele.

Um dos personagens é um adolescente que vive rondando seus dois
amigos que já são da máfia, esperando que eles o convidem pra
entrar pra máfia também. Um dias esses dois amigos levam ele pra
um porão pra um ``teste'', que ele só vai entender direito
quando chegar lá. Quando ele chega nesse porão tem um cara
amordaçado acorrentado a uma parede que ele vai ter que torturar e
matar.

Eu sempre vi o mundo masculino em torno de mim como uma máfia, uma
rede de relações baseada em cada um acobertar as escrotices dos
outros. Torturar os caras acorrentados no porão era um ritual de
pertencimento. Aprender a fazer coisas que antes te dariam engulhos
sem se incomodar, e aprender a gostar delas, era confundido com
coragem.

\medskip

A Julia Serano conta\footnote{``Whipping Girl: A Transsexual Woman on
Sexism and the Scapegoating of Femininity'', cap.4} que antes dela
começar a TH, na ``fase testosterona'' dela, era como se as
emoções dela estivessem sempre no fundo do palco, e era
facílimo fazer com que uma cortina descesse sobre elas e as
tornasse praticamente imperceptíveis e irreais - ela quase sempre
podia fazer isto num estalar de dedos. Depois da TH, na ``fase
estrogênio'', as emoções não se tornaram nem maiores nem
dominantes, só {\sl mais nítidas}.

% Acho isso uma descrição genial pra algo que aconteceu comigo
% também - antes eu me esforçava a beça pra perceber a
% intensidade real de cada coisa que acontecia comigo e não entrar
% em processos de negação, agora é bem mais fácil.




\mysection{sessao-coruja}{Sessão Coruja}
\mydate{2015nov08}

Eu tentava encontrar {\sl alguma} noção de homem que me fizesse
sentido, e que eu pudesse tentar ser. Eu lia muito, a TV Globo às
vezes passava coisas incríveis - como filmes do Sam Peckinpah - de
madrugada, o Cineclube Estação Botafogo abriu quando eu tinha 13
anos, e tinha outras cinematecas na cidade - então eu tinha muitas
referências estrangeiras pra usar.

% O melhor que eu consegui arranjar foi a seguinte: que ``homem'' é
% alguém que quer ser absolutamente coerente e responsável pelos
% seus atos, e que está disposto até a lidar com ser
% incompreendido durante anos, e até a ser banido, ou morto... só
% que essa idéia de ``homem'' era quase que totalmente
% incompatível com as dos homens (brasileiros!) em torno de mim, que
% eram baseadas em autoridade, honra e pertencimento... bom, pelo menos
% quando eu desisti de vez de ``ser homem'' eu já tinha as idéias
% razoavelmente organizadas, e eu podia explicar que eu tinha desistindo
% porque todos os homens que eu conhecia eram burros e covardes...

% O melhor que eu consegui foi uma noção de ``homem'' que
% incluía coragem - até pra peitar os colegas! - e incluía eu
% me sentir responsável por todas as consequências do que eu
% fizesse, e daí, de brinde, vinha a obrigação de entender
% como pessoas completamente diferentes de mim eram afetadas pelo que
% eu fazia...
% 
% O problema é que essa noção de ``homem'' não tinha {\sl
% nada} a ver com as das pessoas em torno de mim. Aos poucos eu fui
% desistindo de tentar ser ``homem''... acho que foi com 24 ou 25 anos
% que eu desisti de vez, e a minha atitude passou a ser ``eu não
% vou mais ser cúmplice desses caras em nenhum sentido, eu quero
% é que eles se fodam''. Quando isso aconteceu eu já tinha uma
% resposta preparada pra se eu precisasse explicar porquê - era
% porque todos os homens que eu conhecia eram burros e covardes.

O melhor que eu consegui foi uma noção de ``homem'' como
alguém plenamente responsável pelas consequências do que faz,
com a obrigação de entender como pessoas bem diferentes de mim
poderiam ser afetadas pelo que eu fazia, e com coragem pra peitar os
meus próprios colegas sempre que necessário... só que aos
poucos eu vi que essa noção de ``homem'' não tinha {\sl nada}
a ver com as das pessoas em torno de mim.

Lá pelos 24 ou 25 anos, quando eu desisti de vez de ser ``homem''
em qualquer sentido que fosse, a minha atitude passou a ser ``eu
não vou mais ser cúmplice desses caras em nenhum sentido, eu
quero é que eles se fodam''. E se eu precisasse me explicar eu
diria: {\sl todos os homens que eu já conheci são burros e
covardes}.




% E eu já tinha uma resposta pra se
% eu precisasse explicar porquê: 






\mysection{iniciative-e-marta}{Marta e iniciativa}
\mydate{2015jul24}

As mulheres ``dão mole''.
\par Os homens ``tomam a iniciativa''.
\par As mulheres dizem ``não'' (e riem).
\par Os homens ``insistem''.

Isso era uma das coisas nas quais eu não conseguia fazer ``papel de
homem'' de jeito nenhum, e aí eu me ferrava. Essa, em particular,
foi uma das coisas que mais me deixou suicida quando eu tinha 17 anos.
Eu era apaixonado pela minha melhor amiga, a Marta, e ela ficava me
provocando, me dando mole, me cobrando que eu ``tomasse a
iniciativa'', e toda vez que eu tentava ela me dava uma patada,
sinalizando que a minha iniciativa não tinha sido boa o suficiente,
que eu não tinha segurança, desejo e impulsividade suficientes,
e que eu tentasse outra vez.

A Marta era grande, forte e poderosa. Eu era magrelo, frágil,
encurvado pra frente, tímido e excessivamente cerebral. Às vezes
a gente ia na Mariuzinn de Copacabana, que era a uns 10 quarteirões
da casa dela, e quando a gente entrava na pista de dança ela num
instante virava o centro das atenções, dançando com todo
mundo ao mesmo tempo. {\it Eu queria ser como ela quando eu
crescesse}.











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