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% (find-angg "LATEX/rrj.tex")
% (find-dn4ex "edrx08.sty")
% (defun c () (interactive) (find-zsh "cd ~/LATEX/ && ~/dednat4/dednat41 rrj.tex && latex    rrj.tex"))
% (defun c () (interactive) (find-zsh "cd ~/LATEX/ && ~/dednat4/dednat41 rrj.tex && pdflatex rrj.tex"))
% (defun c () (interactive) (find-zsh "cd ~/LATEX/ && latex    rrj.tex"))
% (defun c () (interactive) (find-zsh "cd ~/LATEX/ && pdflatex rrj.tex"))
% (defun d () (interactive) (find-dvipage "~/LATEX/rrj.dvi"))
% (find-dvipage  "~/LATEX/rrj.dvi")
% (find-xpdfpage "~/LATEX/rrj.pdf")
% (find-evincepage "~/LATEX/rrj.pdf")
% (find-pspage   "~/LATEX/rrj.pdf")
% (find-zsh0 "cd ~/LATEX/ && dvips -D 600 -P pk -o rrj.ps rrj.dvi")
% (find-zsh0 "cd ~/LATEX/ && dvips -D 600 -P pk -o rrj.ps rrj.dvi && ps2pdf rrj.ps rrj.pdf")
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% (find-pspage  "~/LATEX/rrj.pdf")
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% (find-twupfile "tmp/")
% (find-twusfile "tmp/")
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% http://angg.twu.net/tmp/rrj.pdf
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% (ee-cp "~/LATEX/rrj.pdf" (ee-twusfile "tmp/rrj.pdf") 'over)
% (ee-cp "~/LATEX/rrj.pdf" (ee-twupfile "tmp/rrj.pdf") 'over)

% (find-man "1 psselect")
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% (find-sh0 "psselect 1,7,12,27,31,33,36,39                   ~/LATEX/rrj.ps /tmp/rrj-titles.ps && ps2pdf /tmp/rrj-titles.ps /tmp/rrj-titles.pdf")
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\selectlanguage{brazilian}

% Dar para:
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% % --------------------
% \\\\rrjday{\\1}
% ")
% 
% (fooi-re "\n\\[P \\[Q \\(\\([^\n]+\n\\)*[^\n]+\\)\\]\\]\n" "\n\\1\n")
% (fooi-re "\\[br\\]" "\\\\bsk")

% (fooi-re "\\([^ \n]+ +\\)\\([^\n]+\\(\n [^\n]+\\)*\\)" "\\1{\\2}")


% «.rrj»	(to "rrj")
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%*
% (eedn4-51-bounded)

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% «rrj»  (to ".rrj")
% (find-TH "rrj")
\rrjfile{RRJ}

% --------------------
\rrjtopday{Domingo 9/abr/2006}

Já faz mais de três anos.
Quando é que vão me perdoar por eu ter sido violado?

Quando é que gente como eu vai ter direitos?
A única coisa que pode me dar alguma segurança é eu ter centenas
    de amigos a quem eu possa recorrer se acontecer de novo.

A minha praga ainda não funcionou.

``Um dia alguém vai quebrar o nariz da Aline com um soco - e
esse alguém não vai ser eu.''

E os meus pesadelos continuam.

As pessoas dizem, ou diziam: ``vai passar''. Era pra eles terem
passado há anos.

Hoje na feira um cara - um feirante - tinha dado uma chave de
braço numa mulher e estava levando-a pra fora da feira. Não entendi se
ela era ladra, se ela tinha um caso com ele, ambos, ou o quê. Numa
hora ela até gritou ``ai, ai, ai, meu braço, tá me machucando''. Mas
soou falso e inadequado e ela não tentou de novo. Ainda bem.

Eu pensei: eu não tenho mais o menor interesse pelos direitos
das mulheres. Eu não vou mexer uma palha.

\bsk

Eu fui super claro a respeito de como eu funcionava: sexo pra
mim é um ninho de serpentes. Transar com alguém é mexer em medos,
expectativas, inseguranças, rejeições, paranóias - e numa disciplina
de anos pra tirar sexo da minha lista de prioridades e redirecionar a
energia para outras coisas.

Eu já tinha transado com duas pessoas e não queria transar com
uma terceira se não fosse algo muito especial. O meu neurônio do sexo
fica longe do meu neurônio do prazer e muito perto do neurônio do
medo: ``sexofobia''. E a Aline dizia que entendia.

Durante um ano depois dessa história eu não consegui olhar
direito nos olhos de ninguém. A gente sempre aprende com qualquer
relação, dizem. Eu aprendi que qualquer pessoa podia ser uma Aline.

Espera-se que eu seja feliz, que eu me envolva com outras
pessoas, que esqueça isso e supere. Será que alguém poderia me mostrar
o caminho? Será que alguém poderia se aproximar e me guiar pela mão?

Pouca gente hoje em dia sabe lidar com quem tem medo. E as
pessoas não ficam à vontade com quem tem segredos engasgados.



% --------------------
\rrjday{Terça 28/mar/2006}

Quando ele nasceu ele era considerado humano; depois passou. Foi
abatido aos 12.

\bsk

Volta e meia eu caio no meio de grupos de defensores dos direitos dos
animais, e a ingenuidade deles me irrita. É que o nosso público-alvo é
diferente: eles ficam chocados com o absurdo que são os abatedouros,
vaquejadas e laboratórios de testes em animais, e eles querem atingir
as pessoas que nunca nem pensaram que os animais sofrem como nós.
Porra, meu pai passou por campo de concentração, minha melhor amiga já
esteve em hospício, já vi policiais surrando pessoas na rua, e já me
senti o negro e o louco da minha faculdade; pra mim essas coisas -
crueldade contra o ``outro'', o que não é humano, o que não é um de nós
- são cotidianas, são o ar que eu respiro há anos.

Estou cansado de dizer que as pessoas que são cruéis com quem
elas não consideram humano são ``monstros''; não, se treinar para
desumanizar certos seres e tratá-los como objetos é um processo humano
demais, eu reconheço ele em mim - tem que ser possível dialogar de
igual para igual com essas pessoas, tem que ser possível usar esse
processo conscientemente e escolher quem vai ser tratado como coisa
-

Temos muitos inimigos muito muito grandes e nos contentamos em
bater nos mais fracos.



% --------------------
\rrjday{Sexta 17/mar/2006}

As minhas pessoas favoritas têm muito pouco e aguentam firme
enquanto suas famílias as chamam de parasitas.

% http://www.oceanstar.com/patti/lyrics/citizen.htm
% http://www.cs.umbc.edu/~evans/hollow.html

\begin{quote}
Lady Liberty, lend a hand to me
\end{quote}

\bsk

\begin{quote}
There, the eyes are
Sunlight on a broken column
\end{quote}



% --------------------
\rrjday{Quinta 16/mar/2006}

% http://www.mat.puc-rio.br/~edrx/rimbaud/port.txt

\begin{quote}
Rimbaud 0: Missão Abissínia -
\end{quote}

escrevi isso pouco depois de voltar do Canadá,
e mostrei pra muito pouca gente. Tá na hora de fazer esse texto ficar
um pouco menos secreto.



% --------------------
\rrjday{Quarta 15/mar/2006}

Acho que vou conseguir uma transferência para Campinas ou São
Paulo.

``Você não vai sentir falta da praia?''

Hm, qual foi a última vez em que eu fiquei sem camisa em algum
lugar público ou com pessoas amigas por mais de uns poucos
segundos?

Eu não lembro, mas deve fazer mais ou menos um ano.

``Mas as mulheres do Rio são tão bonitas.''

Eu tenho paranóias recorrentes com a Cláudia revoltada por eu
me manter esculhambado e descabelado e ``feio'' (na verdade esse
``feio'' era porque eu me punha à margem e agia defensivamente como se
eu fosse um proscrito, e aí eu ignorava de propósito muitos dos
códigos de comportamento usuais. Um dia eu tenho que escrever sobre
isso). Ah, e a Aline, que no início era gente boa, surtando cada vez
mais porque eu não me maravilhava com seus peitos e curvas e
vestidos.

\bsk

Eu quero um lugar onde as pessoas se olhem nos olhos.

Eu quero voltar a passar o meu tempo livre nos guetos.

Eu quero me mudar pra Montreal quando eu crescer.



% --------------------
\rrjday{Segunda 13/mar/2006}

- O seu pai morreu.

- Hm, agora só precisamos nos proteger do fantasma dele.



% --------------------
\rrjday{Domingo 12/mar/2006}

Cláudia:

Você fez um estrago fudido - e depois, o que você fez pra tentar
consertar? Pediu desculpas um pouquinho, tentou esquecer, me disse pra
esquecer, me chamou de rancoroso -

Porra, eu tou cansado de viver numa cidade em que memórias e
pessoas são tão descartáveis -

Eu queria é que ela reconhecesse que eu tenho algo tipo um
coração, seja lá o que for isso (e a palavra soa brega, então eu
evito) - que eu tenho feridas demais doendo há tempo demais, e admito
que isso é uma merda - mas eu faço um esforço louco pra lidar com isso
do modo mais honesto possível, e tento ter mil coisas boas pra
compensar



% --------------------
\rrjday{Sexta 10/mar/2006}

Eu tou cansado de lembrar que 90\% da cabeça dele me acham um
idiota e um fresco (e são exatamente os 90\% que ele não controla) e
que ele só tem orgulho do meu diploma de Doutorado, pro qual eu nem
ligo muito - o que eu queria era que ele entendesse que ele me educou
de um jeito super duro e que eu aprendi a responder essa dureza sendo
duro também - eu queria pelo menos o olhar surpreso e respeitoso que a
gente imagina que um mestre espadachim faça quando luta com um aluno e
vê que ele chegou ao seu nível, mas não, o meu pai só me vê como um
monstro grosso e insensível



% --------------------
\rrjday{Terça 7/mar/2006}

Tem uma cena que se repete no final do ``Les Ma\^\i tres du Temps'' em
que o garoto é atacado por insetos gigantes que ficam picando a cabeça
dele -

Pra mim essa cena é alguém sendo atacado por pensamentos.

Eu lembro dela várias vezes por dia.

\bsk

Comprei de novo uma caixa de Minerva Brisa (sabão em pó). Eu
gosto do cheiro dele, acho que ele limpa bem, mas não gosto muito da
sensação nas roupas depois, pelo menos quando elas estão molhadas -
acho que são as bolinhas de silicone.

\bsk

encolhido feito uma bolinha

com as mãos nos ouvidos

gritando em silêncio



% --------------------
\rrjday{Domingo 26/fev/2006}

Hello Ms.\ Carnivore!

Your love juices stink too much.

Sorry!

Bye.



% --------------------
\rrjday{Terça 24/jan/2006 (?)}

Eu estou cansado de fingir que daqui a pouco vai estar tudo bem
porque eu vou ter esquecido a minha raiva

(Daqui a pouco de novo as pessoas em torno de você não vão
existir, só vão existir o noticiário e os judeus)

E você vai ser grosso com as pessoas em torno de você porque
você não tem o menor contato com os sentimentos delas

(``Ah, desculpe, eu não percebi'' - claro que não percebeu)



% --------------------
\rrjday{Terça 28/dec/2005}

Ele chega de noite e eu me levanto maravilhado pra recebê-lo, e
ele pergunta, ``quais são as novidades?'', e, putz, não tenho novidade
nenhuma exatamente porque eu passei o dia boba de felicidade e
expectativa esperando que ele chegasse deitada na soleira da porta,
agora tenho medo de que a minha falta de novidades seja sinal de que
eu fiz tudo errado, se eu fosse mais casual eu teria tanta coisa pra
contar, se eu fosse um cachorro a minha felicidade bastaria, mas eu
não sou e ele me cobra novidades, malditas novidades.



% --------------------
\rrjday{Domingo 18/dec/2005}

Ele se senta no sofá na frente da televisão e espera a morte chegar

e a morte vem infinitamente devagar



% --------------------
\rrjday{Terça 6/dec/2005}

1.

- ``Deixa eu te ajudar''

- ``Você não tem nada do que eu preciso''

\bsk

2.

You are like a hurricane

There's calm in your eye


% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
\newpage

% «rrj2»  (to ".rrj2")
% (find-TH "rrj2")
\rrjfile{RRJ2}


% --------------------
\rrjtopday{Sábado 20/mai/2006}

Eu vi as pessoas dançando tão bonito umas com as outras no
Democráticos e vi ela e ela se abraçando e se dando um beijo e dessa
vez eu sorria, porque eu lembrava como era dançar com ele, como nós
dançávamos tão devagar, e era porque nós éramos tão cuidadosos, porque
entre meninos é tudo tão mais complicado -

Eu mordia os lábios. Poucas vezes eu fui tão bonito quanto
quando eu dançava com ele.

Todo mundo nos olharia se nós estivéssemos ali; aliás, todo
mundo nos olhava quando nós dançávamos - a graça era essa. Nós
achávamos bobo ignorar as pessoas em torno de nós; e qualquer
movimento mecânico ou falso faria as pessoas se distraírem e voltarem
pro seu amargor habitual.

Não sei rotular a relação que há entre nós; outras pessoas se
beijariam, ou até transariam, ao atingirem um centésimo da intimidade
que eu e ele tínhamos quando dançávamos.

Hoje, pela primeira vez em muito tempo, eu me lembro dele, e me
lembro, e me lembro, e sou tomado por saudades, e não censuro as
minhas memórias.



% --------------------
\rrjday{Quinta 11/mai/2006}

Eu devia ter telefonado quando vi que não ia mais dar tempo pra
fazer a visita, ao invés de ter só mandado uma mensagem pelo celular.
Mas naquela hora parecia que tudo era foda-se e tanto faz, e ao mesmo
tempo era tudo igual e banal, eu tinha acabado de tomar um banho
gelado porque a minha flatmate tinha sido utterly unhelpful mais uma
vez, ela estava ocupada e quando eu fui pedir alguma dica pra
conseguir acender o aquecedor sem ele fazer aquela coisa de explodir
que ele fez das outras vezes ela deu uma explicação em duas ou três
frases toscas nas quais evidentemente faltavam pedaços.

Um dia eu ainda vou saber pedir ajuda direito, e eu vou saber
reclamar e cobrar ao invés de ficar só desistindo e caindo nesse loop
mental de ficar tentando transformar tudo em palavras e historinhas.

Hoje de manhã o gato cinza da minha rua, que no início era bem
meu amigo, estava fazendo coisas que eu não consegui entender.

Hoje de manhã, antes de eu sair e encontrar o gato, eu esperei a
ligação do cara que parece que tem uma proposta de trabalho pra mim em
Recife, e ele não ligou.

Ontem eu fui visitar os meus pais e vi que o meu pai está ainda
mais chato, mais encurralado e mais patético. Ele foi super simpático
comigo, me perguntou coisas, me mostrou coisas - e hoje eu estava
vendo como é que a minha raiva dele continua intacta, apesar de que às
vezes ela quase é contrabalançada por um pouco de pena. Eu volta e
meia vejo que estou esperando ele morrer, e fico pensando se não é a
hora de começar a dizer isso abertamente, pelo menos pros amigos mais
próximos - só que aí parece que eu viro um monstro, que não existem
mais certos e errados, e que tudo foda-se e tudo tanto faz.

\bsk

É que eu não tenho quase nenhuma lembrança boa dele. Mas há
muitos anos eu me defendo tanto dele que parece que não sobra nenhuma
brecha por onde ele possa fazer algo de bom - o máximo que acontece é
às vezes ele ser menos desagradável.

Ou seja, sob um certo ponto de vista é tudo culpa minha. Que
lindo, que legal, que divertido - né? Mas eu já estou acostumado.

\bsk

Alguns amigos dos meus pais me arranjaram uns contatos de
trabalho, tipo mande currículo para o fulano de tal. Fico pensando o
que eles fariam se eles descobrissem o que eu sinto por ele. Acho que
é por isso que eu fico tão surpreso quando eles me ajudam.



% --------------------
\rrjday{Quarta, 3/mai/2006}

Reunião sobre realocação.

Devo poder continuar trabalhando na mesma empresa, mas numa
outra posição, mais técnica, usando menos linguagens (só C e SQL),
tendo que lidar com os mesmos bugs do Windows, tendo que ir pra Barra,
com o mesmo horário (8 horas por dia), e ganhando a mesma coisa.

\bsk

{\bf Hay for the horses}



% --------------------
\rrjday{Sábado, 29/abr/2006}

% unibanco.html

Um dia eu estava lendo um livro nas mesinhas do Espaço Unibanco
e três garotos de terno vieram fazer uma ``intervenção poética'' (uma
``intervenção patética'', na verdade) lá no hall do cinema e nos
empurrar seus livrinhos... eu fiquei tão irritado que eu escrevi
{\bf isso aqui}, que infelizmente por causa da
divisão em linhas pode parecer poesia...

Porque poesia é tão bonito. Porque o poeta. Pra comer muitas
mulheres. Oh yeah.

(Ei, menino de terno)



% --------------------
\rrjday{Quarta 19/abr/2006}

(Sobre terça 18/abr/2006)

Fiquei conversando com um cara - uma anabranquete - na Oficina
da Semente. Puta que pariu, que coisa irritante - aquele discurso de
que o conhecimento já está todo dentro de você, você não precisa de
nada externo, de que não-sei-quê e não-sei-que-lá ``não existem'' (o
bem? a verdade? a felicidade?), citações ao ``What the bleep do we
know?'' e à Física Quântica...

Um exemplo marcante que ele deu: que na família dele todo mundo
bebia um copinho de cachaça todo dia e ninguém sabia como era viver
sem isso; e agora que ele experimentou viver sem cachaça ele não quer
nem mais fazer contato de novo com a versão antiga dele, que
funcionava na mesma sintonia que a desses caras.

Eu posso não estar querendo beber cachaça agora, mas eu quero
muito conseguir me comunicar com esses parentes que bebem na
historinha que o cara contou: eles têm uma percepção diferente da
minha.

Eu quero tudo, e quero ter contato com todas as minhas partes,
boas e ruins.

O pior de tudo isto foi o cara falando que o objetivo da Arte é
o momento da criação e só, e que a idéia de comunicação com outros é
balela. Tá, anabranquete, fica aí com a sua cabeça transcendental e
com o êxtase das comidinhas. Eu sou diferente, e eu tenho horror a
pessoas que não têm interesse por livros, idéias, modos de pensar
diferentes e obras de arte.

E aí ele vai ficar me olhando com aquele olhar superior. Com que
cara eu gostaria de olhar pra ele de volta?

Eu olhava nos olhos dele e era tão óbvio pra mim porque é que
ele tinha entradas enormes e aqueles tufos de cabelo pro lado e pra
cima: excesso de um determinado tipo de pensamento. Agora eu quero
desintoxicar daquilo.



% --------------------
\rrjday{Segunda 17/abr/2006}

Aula de Aéreos que não teve. Almocei na Oficina da Semente
e acabei ajudando os caras num evento no Jardim Botânico.



% --------------------
\rrjday{Sexta 14/abr/2006}

Lutando contra a depressão sem saber direito porquê e sem saber
o que eu vou encontrar do outro lado.



% --------------------
\rrjday{Quinta 13/abr/2006}

It is lonely up here

It is so sad down there

Come, join me

Says the suicide

And she's so right



% --------------------
\rrjday{Quarta 12/abr/2006}

Encontrei o Meleca na rua.




% «rrj3»  (to ".rrj3")
% (find-TH     "rrj3")
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
\newpage
\rrjfile{RRJ3}


% --------------------
\rrjtopday{Sábado 30/dec/2006}

Andou acontecendo de novo. Agora está mais fraco, mas durante
mais ou menos uma semana foi bem forte. Eu começava a pensar em como
seria o meu próximo trabalho careta e logo me vinham as imagens dos
dois sociopatas do grupo de programadores em C -

``Sociopatas'' ou ``engenheiros''? Não sei - quando eu era criança e
eu descobri a palavra ``sociopata'' eu pensei ``uau, é isso que eu quero
ser quando eu crescer'' - e todos os estudantes de engenharia que eu
conheci eram que nem aquele Raphael do grupo de C, ou pelo menos meio
que nem ele - o outro sociopata em nunca cheguei a conhecer direito e
nunca soube o nome dele, mas em teoria eu teria que trabalhar junto
com ele também...

Foi ouvindo as histórias deles que eu entendi porque as boates
hetero - em que eu nunca vou - cobram tão caro a entrada: é porque de
vez em quando caras como esses vão lá e quebram tudo. E depois eles
ficam contando as histórias e rindo, rindo - ``Aí, mermão! Aí,
mermão!''

\begin{quote}
  and he had a job

  and he brought home the bacon so

  no one knew
  
  he was a mongoloid, mongoloid

  happier than you and me
\end{quote}

E uma das coisas que mais dóem é pensar que um cara desses é um ótimo
profissional, muito melhor que eu (aspas em algum lugar - onde?) - o
chefe manda fazer alguma coisa e o cara faz; não importa se fica
mal-feito ou ilegível, ele faz. E todo mundo reconhece quanto esforço
é necessário pra se fazer um programa ilegível de 5000 linhas como os
dele, e pra ele fazer remendos no programa depois; pouca gente
reconhece o esforço necessário pra um hippie como eu fazer um programa
de 500 linhas, limpo e legível, que resolve o mesmo problema que o do
cara... ah, o meu é bem mais fácil de consertar e de estender que o do
cara, mes eu levo o mesmo tempo pra ter uma primeira versão rodando
que ele, e eu só consigo ter pique pra fazer o que eu faço porque ao
invés de eu passar os meus horários de almoço puxando a cara num
sorriso, comendo uma gosma qualquer e falando sobre carros e bundas de
mulheres eu passava os meus horários de almoço sozinho, indo em algum
dos pouquíssimos lugares daquela merda de Barra da Tijuca que tinha
opções vegetarianas, e lendo Jean Genet ou Virginia Woolf.

Uma vez eu pedi pra esse Raphael pra ele converter pra um certo
formato uns documentos on-line que a gente tinha sobre um projeto que
ia ficar sob minha responsabilidade; os originais estavam num formato
que só podia ser lido direito em Windows (``aí, mermão, pra mim esse
negócio de Software Livre é babaquice, isso não devia existir, eu não
dou de graça os programas que eu faço de jeito nenhum, esse negócio de
compartilhar é coisa de viado, e esse pessoal devia parar com essas
frescuras de ficar usando sistemas diferentes e fazer tudo em Windows
de uma vez'') - aí eu fui tentar mostrar pra ele como é que eu usava
esse outro formato e ele não quis ir ver no meu computador de jeito
nenhum (``não preciso ver, eu conheço esse formato''), e eu tive que
tentar fazer ele levantar puxando ele pelo crachá - lá os crachás
ficam numas cordinhas no pescoço da gente - mas ele não quis levantar,
acho que eu devia ter torcido mais (que será que teria acontecido se
eu tivesse apertado até ele mudar de cor? Nananana, Raphael, sorria, é
brincadeira, pára de frescura, claro que você está gostando, sorria -
cada um tem um jeito de brincar, cadê o sorriso? Vem cá, baby) - mas
parece que mesmo o pouquinho que eu fiz já pegou meio mal. Bom,
whatever - não me arrependo.

\bsk

Desde que eu tenho 14 ou 15 anos que eu não apanho por ser
esquisitão ou por os caras acharem que eu sou viado - mas é como se
isso fosse uma possibilidade permanente.

Sexofóbicos não apanham. São chamados de malucos, excluídos,
discriminados, descartados - e só. Não é preciso empurrá-los pra baixo
na hierarquia (como a gente empurra alguém pra baixo da água numa
piscina) - eles já estão fora da hierarquia de qualquer modo.

Essa macheza desses Raphaéis é social - eles estão o tempo todo
fazendo coisas para serem aceitos pelas pessoas do grupo deles, que
pra eles é como se fosse o único grupo que existe e que importa. O
``aí, mermão''; o ``isso é coisa de viado'' - o que acontece se há alguma
reviravolta e eles passam a ser considerados viados, ou malucos
(mesmo, de hospício), ou losers? É algo inconcebível pra eles - é uma
espécie de morte -

O grupo deles massacra viados e nerdzinhos frágeis - ``gente
inferior''.

Eu não sou um nerdzinho frágil - eu caí fora desses grupos há
muito tempo - eu morri - e doeu, muito (it's an open wound that never
heals, etc).

Algumas das minhas referências: junkies de psicodélicos, xamãs
mendigos, Lobo Solitário, Sandman, terroristas suicidas -

Das vezes em que eu esganei alguém nos últimos anos era sempre
eu sozinho contra a pessoa que eu esganava. Eu não contava com ninguém
do meu lado, mas eu prestava atenção a todas as pessoas em torno, eu
estabelecia uma comunicação com elas, e aí elas não me atacavam em
grupo como se eu fosse o invasor, o ``ele'' (versus o ``nós'') - elas não
conseguiam me transformar num ``ele'', numa coisa -

Os homens - os Raphaéis, mas esses é que são os homens homens de
verdade - formam máfias - eles acobertam as escrotices e burrices uns
dos outros - esse Raphael, por exemplo, trai a mulher pra cacete -

Covardes

\bsk

Quando passaram ``O Triunfo da Vontade'' da Leni Riefenstahl e eu vi
aquelas cenas da Convenção de Nuremberg, centenas de milhares de
jovens em formação perfeita ouvindo os discursos de Hitler, aí é que
eu entendi direito como deve ser bom pra caralho fazer parte de um
grupo, ou melhor, do ``todo mundo'' - mas eu nunca consegui. Por um
lado eu tentava, e sempre dava errado; faltava algum clic, faltava a
naturalidade que aqueles caras tinham - volta e meia alguma coisa me
puxava pra fora da situação em que eu estava, {\sl zuuuuuum,} e num
instante eu passava a ser um observador, e eu estranhava aquela
situação e aqueles papéis, como é que aquelas pessoas podiam ter tanta
convicção daquilo? Aquilo era raso e falso, como histórias escritas
por idiotas, como música ruim - e aí eles percebiam o meu
estranhamento e me estranhavam também -

Por outro lado, quando era criança a coisa que eu tinha mais
medo era quando eu crescesse eu virar uma pessoa medíocre (é, com
esses termos mesmo - depois é que eu passei a usar outros). Quase
todas as pessoas em torno de mim eram ``medíocres'', e eu os via como
mortos-vivos.

(Acho que se eu fosse uma criança feliz eu não pensaria desse
modo. Mas eu achava que a única coisa que compensaria a vida que eu
levava, e que faria tudo valer a pena, seria algo muito especial no
futuro).

Aos 17 anos, depois de uma tentativa de suicídio frustrada, eu
me arrastava. O único futuro que eu via pra mim era eu virar um
vegetal num manicômio. Continuo achando um absurdo terem me mantido
vivo; quem chega a um ponto como o em que eu estava não se recupera.
Os deuses ainda vão me pagar por tudo isso - mas isso é outro
assunto.

Eu tomei precauções pra que eu não pudesse virar um dos
``medíocres'', um dos mortos-vivos. Eu criei anticorpos. Eu queimei as
pontes.

\bsk

Alguns dos meus amigos matemáticos na faculdade tinham amigos
estudantes de engenharia; eu não entendia como.

Se a gente vê um bicho que come grama e outro que come pequenos
roedores a gente diz: são espécies diferentes. Eu olhava pros
estudantes de engenharia e pensava: eu não consigo nem entender como é
que alguém gosta das coisas que esses caras gostam, não consigo nem me
pôr no lugar deles. A bioquímica emocional deles é o oposto da
minha.

Eles gostavam de poder, coisas, mentiras, diversão, cerveja,
galinhagem, trophy girls, de se sacanearem mutuamente, de tiraram
onda, de serem espertos, de competirem, e de pisarem em losers.

\bsk

Então: andou acontecendo de novo. Durante uma semana as imagens
ficaram me vindo dezenas de vezes por dia - por exemplo, eu cortando
as falanges da ponta dos dedos da mão do Raphael com um alicatão
(``sorria, Raphael, sorria'') -

Quase todos os homens são meus inimigos.

Era pra eu sentir alívio por eu não ser como eles - mas é mais
fácil a gente se lembrar das coisas que incomodam, e da mesma forma
que eu às vezes sou atacado por esses surtos de crueldade (que, óbvio,
ficam só dentro da minha cabeça, como uma bad trip), eu às vezes sou
atacado por crises de inveja e raiva - eu sei que eu não teria como
ser como eles, mas eu fico olhando pra essas pessoas ``normais'' como um
garoto diabético olhando pros outros garotos tomando sorvete.

\bsk

Acho que esses flashes de crueldade - e mil outras coisas que eu
detesto - têm a ver com hormônios.

(Aliás eu comecei a ficar vegetariano - em 2001 - pra tentar
controlar essas crises. Funcionou bastante, mas isso é outra
história).

Há anos que eu penso em experimentar Androcur pra ver o que
acontece - mas eu queria experimentar o Androcur sem tomar
antidepressivos junto, e dizem que aí o efeito pode ser devastador, e
eu ainda não tenho estrutura pra isso. Estou há anos sempre deixando
isso pra depois, e me preparando mais e mais.

Se funcionasse eu poderia consolidar o efeito com uma
orquiectomia... eu teria que ficar tomando doses pequenas de hormônios
de tempos em tempos pra não ficar totalmente sem hormônios, e eu odeio
alopatia, mas seria um pequeno preço a se pagar. E aí depois da
orquiectomia eu poderia conseguir uma penectomia...

Mas essas coisas me fechariam portas para trabalhos caretas, e
eu já tive um pouco de acesso a caminhos mais sutis pra equilibrar
essa bagunça toda. Nada disso tudo pode ser feito apressadamente - mas
se os pensamentos ficam vindo é melhor lidar com eles do modo mais
honesto possível.



% --------------------
\rrjday{Sexta 24/nov/2006}

São Paulo, 18/nov/2006: de repente eu descobri que todas as outras
quatro pessoas na mesa comigo - pessoas envolvidas com Software Livre,
mas paulistas - eram ferrenhamente anti-Lula, e elas falavam como se
qualquer pessoa minimamente razoável fosse ser anti-Lula também.

Aí eu confessei timidamente que eu votei no Lula duas vezes, que eu
gosto dele, que eu acho que ele fez um governo centenas de vezes
melhor do que eu achei que seria possível fazer, que ele pegou um país
destruído, que pela estrutura do governo qualquer um que chegasse à
posição dele se corromperia bem mais do que ele se corrompeu, que eu
achava que ele seria destruído pela mídia em poucos meses e isso não
aconteceu, etc...

(Marta: eu me lembro daquela época em que o ``A Sociedade do
Espetáculo'' sempre pipocava nas nossas conversas, e aos poucos o
livro começou a ser citado em artigos em jornais, e nós ficávamos
revoltados porque os artigos sempre eram escritos por gente com uma
compreensão do livro infinitamente mais superficial que a nossa...)

As pessoas na mesa falaram que governos e empresas eram igualmente
corruptos e daninhos mas que as empresas funcionavam melhor, que a
telefonia antes e depois, etc -

Acontece que eu não quero saber se celular vai funcionar melhor ou
pior, se carro isso ou aquilo, o que me importa é se os meus sobrinhos
vão conseguir estudar direito em colégios públicos, o quanto as
pessoas em torno de mim vão ter que pagar em planos de saúde, o que
elas podem conseguir depois de horas nas filas do INPS, e me importa
saber como é a vida das pessoas das favelas, com quem afinal a gente
aqui no Rio convive tanto... fodam-se os fucking winners e seus
celulares (se bem que todo mundo tem celular hoje em dia), o que me
importa é o próximo assalto, e que tantas pessoas estão deprimidas e
sem saída, umas estão tomando bolinhas, outras não, e que a Marta se
matou em novembro de 2004.

(Em sonhos nós éramos como os amigos do Guy Débord, terroristas que
iam sendo inexoravelmente localizados e abatidos quase sem
estardalhaço. Mas nosso interesse por macropolítica era quase zero, já
que macropolítica é feita quase só de vícios de pensamento e de ruído,
então na vida real nós eramos só aqueles malucos incompetentes vivendo
nas bordas da sociedade, deixados pra morrer por si sós.)



% --------------------
\rrjday{Quinta 23/nov/2006}

Eu não deixaria qualquer um me furar, eu não transaria com
qualquer pessoa, e são pouquíssimas as pessoas que eu gostaria de ter
ao meu lado se a gente comesse bolo de maconha ou tomasse um ácido
(nossa, há quanto tempo eu não faço nenhuma dessas coisas - muitos
meses, alguns anos, dez anos)

É fácil usar o safeword e dizer ``pára, não põe mais uma agulha''.
Drogas são muito mais sérias - uma vez que a gente tomou, tenham
batido ou não, não dá pra reverter até tudo passar - mas as poucas
pessoas que interessam sabem disso muito bem.

Onde é que estão as pessoas pra quem a gente pode dizer ``essa
história de sexo não está funcionando, vamos tentar usar a energia pra
outras coisas''?

Eu estou tentando me livrar de um ``fantasma'': uma cena que se
repete - que eu me envolvo com alguém e daqui a pouco essa pessoa me
massacra ou me troca por outra, porque pra ela sexo é uma coisa física
e simples e boa e pra mim não é -

Eu fico sem saber se eu devo tentar esquecer isso e tirar a
energia desse pensamento ou se eu devo pensar mais sobre isso até
conseguir definir mais ou menos bem com palavras como essas coisas são
pra mim.

No Canadá eu podia dormir com meus amigos e amigas (com amigos é
mais difícil; só quase aconteceu, mas não chegou a acontecer mesmo),
mas aqui as coisas são diferentes... Uma vez uma amiga minha daqui me
disse uma coisa que me deixou horrorizado: essa amiga minha, A, estava
namorando B mas brigou com ele; aí ela saiu com C e B ficou com muito
ciúme. Como assim, eu perguntei, e acabei descobrindo que ``sair com''
quer dizer ``trepar'' - assustador isso, porque pra mim ``dormir com''
quer dizer ``dormir com'', e eu fico até com medo de lembrar do que
``dormir junto'' quer dizer pras pessoas normais daqui... aliás, foi
numa dessas que a Aline me agarrou e me comeu - e depois ficou se
esquivando e tirando onda e me manipulando - e isso acabou virando a
pior coisa que já me aconteceu, pior do que eu ser filho do meu pai,
pior do que a minha adolescência, pior do que eu ter sobrevivido à
minha tentativa de suicídio quando eu tinha 17 anos, que na época era
a minha única esperança.



% --------------------
\rrjday{Segunda 20/nov/2006}

Aconteceu com um amigo meu:

- Tá tudo bem?

- Não, tá tudo péssimo!

- Ah, mas não pode ser assim não! A gente tem que dizer que as
  coisas estão bem.

- Então tá tudo bem.

- Então tá bom. Muita força pra você, qualquer coisa me liga.



% --------------------
% \rrjday{Segunda 13/nov/2006}
% 
% Eu morro de tesão por você, mas por favor, me deixa acreditar
% que o que eu quero é algo flexível, como o que a gente tem com gatos,
% que brincar com eles quer dizer uma coisa diferente a cada vez, quer
% dizer descobrir o que eles estão a fim e não ser invasivo, e tem vezes
% que eles nem querem que a gente chegue perto demais mas eles nos olham
% de igual pra igual e isso já nos salva o dia



% --------------------
\rrjday{Sábado 4/nov/2006}

Da última vez que eu encontrei a pessoa X (terça, 23/outubro,
por acidente, depois de um seminário na UFF; o domingo que eu fiquei
doente foi dia 15/out) a gente conversou um bocado, e ela ficou
tentando pôr as coisas em termos de atração física e definição sexual
-

Cada vez eu tenho mais raiva disso. Desde pequeno eu acho que a
gente deveria tentar não discriminar pessoas só por detalhes físicos
etc etc - ah, mas depois eu fiquei tentando pensar nesses termos da
pessoa X, nem que fosse só pra eu ter uma resposta pras próximas vezes
em que as pessoas em torno de mim começassem a conversar sobre essas
coisas (esse tipo de conversa me irrita e me frustra, quando elas
acontecem eu desligo) -

Que tipo de coisa eu gosto numa transa: o espírito de ``na hora a
gente vê''. Algo que eu detesto e que me aterroriza: pessoas que
separam o físico do resto.



% --------------------
\rrjday{Quinta 2/nov/2006}

De {\sl Diane Arbus - A Biography}, pp.243-244:

\begin{quote}

  Diane would also show her contacts to Walter Silver, a
  documentary photographer who lived near her in the West Village.
  Diane liked his work and he liked hers. ``We'd compare prints,''
  Silver says, and then sometimes Diane would have coffee with him at
  the Limelight, where many photographers still hung out -
  photographers like Weegee, Robert Frank, and Louis Faurer. ``We'd all
  sit together at a big table and Diane would sit with us,'' Silver
  adds. ``She'd never say a word - she'd just listen and then suddenly
  you'd look up and she'd be gone. She was the only woman who was ever
  in our little group.''

  Which was her choice, of course, but some people got the feeling
  that Diane thought of photography as a man's profession. ``I
  remember, though, that once I mentioned that women might be better
  photographers than men because women can inspire greater
  confidence,'' John Putnam noted, ``and Diane said, `Look, I'm a {\sl
  photographer}, not a woman photographer.'\,''

  As for making a great photograph, Diane believed men and women
  were equal, but she also knew that for many of her magazine
  assignments she was being paid half a man would be paid and this
  bothered her. Still, photographing for magazines was to only way to
  survive; all the photographers she respected did magazine work.
  % Walker Evans, for example, had subsisted for years on the money he
  % earned from {\sl Fortune}. He was contracted to do one tycoon a month
  % for the magazine.

\end{quote}

Insegurança e baixa auto-estima parecem ser território feminino
- não, não é bem isso - tem vários modos de lidar com isso, muitos
femininos, uns (poucos) masculinos

...em geral ``downright losers''; as exceções a gente conta nos dedos
de uma mão, acho, e são sempre muito impressionantes e caem fora dos
padrões de gênero usuais. As que me vêm à cabeça agora (``fragilidade
e lucidez ao mesmo tempo''): David Bowie no ``Low''; os irmãos Reid no
``Psychocandy''; Ney Matogrosso no Secos \& Molhados; talvez o J.
Mascis no Dinosaur Jr., principalmente no ``Just Like Heaven'' e no
``Bug'' -

Estou me expressando mal, mas depois eu tento de novo.

Ah - eu fiz essa conexão porque às vezes eu fico pensando que
talvez eu esteja condenado a ganhar sempre metade do que os ``homens''
ganham - pelo menos se eu continuar aqui no Brasil. Parece que aqui
competência não importa muito, pose e assertividade é que sim...



% --------------------
\rrjday{Terça 31/oct/2006}

Dizem que pra gente viver como frila - e trabalhar em casa - a
gente precisa de uma auto-disciplina monstro, e eu não sei se eu tenho
- pelo menos não do jeito dos outros.

Quando essa minha história com a pessoa X estava no seu pior
momento eu passei uma semana vivendo como um zumbi. Teve um domingo em
que eu acordei muito zonzo e espirrando muito; eu tentei fazer algo de
útil no computador e nada andava, aí eu resolvi interpretar isso
como um sinal de que eu tinha que descansar e me joguei na cama. Das
poucas vezes que eu acordei eu vi que que eu mal tinha forças pra
rolar um pouco pelo chão e alcançar alguma coisa (a minha cama é um
futon, ela fica pouco acima do nível do chão), então no domingo
inteiro eu mal passei seis horas sentado ou de pé... e depois disso eu
tentei lembrar o que eu tinha feito nessa semana e não consegui - sei
que eu não perdi nenhum compromisso, sei que na terça eu dei um
seminário na UFF que foi bastante bom, sei que eu devo ter parecido
bastante normal, e sei que algumas vezes eu me via conversando comigo
mesmo sobre essa história com a pessoa X, e eu ria, porque era
estranho e engraçado eu não saber se eu estava triste ou não, aliás,
eu não saber como eu estava -

\begin{quote}
    % http://bobdylan.com/songs/mosttime.html
    (Bob Dylan - Most of the Time)
\end{quote}

Sei que durante essa semana em que eu fui um zumbi eu quase não
tive energia pra mexer num programa que eu estou fazendo como frila, e
isso me grila - os ``profissionais'' que eu conheço que trabalham em
profissões caretas, quase todos - digamos, os que trabalhavam comigo
na Barra - são cascas vazias sem nada dentro... e ainda por cima eu
sempre me meto em coisas que exigem um bocado de conhecimento e
dedicação, que não dá pra fazê-las banalmente -

De onde é que aqueles garotos nerds do trabalho da Barra tiravam
energia pra fazer aqueles programas enormes, áridos, horríveis? De
dinheiro, kart e putas? De ficarem rindo e se chamando de viados?



% --------------------
\rrjday{Domingo 29/oct/2006}

Agora a Camila se mudou de volta pra cá, dessa vez com o
namorado, que é super gente boa; a casa virou uma festa permanente, e
esse domingo foi um entra-e-sai de convidados trazendo garrafas. Eles
zanzavam entre o terraço - onde as pessoas estavam ``trocando uma
idéia'', whatever that means - e a cozinha.

A máquina de lavar vai embora na terça. A geladeira também, mas
tem uma reserva (uma antiquíssima), e vai entrar uma nova no lugar da
que sai.

Eu falei ``...de volta pra cá'', mas eu não estou em casa, estou
matando tempo na rua, tentando pôr as idéias no lugar e tentando lidar
com uma coisa engasgada na garganta.

Acho que a minha Pepsi de 2L foi embora também - as pessoas da
cozinha fizeram alguma menção a ela logo antes de eu sair de casa pra
votar, e a Camila quer que as coisas da cozinha sejam de todo mundo.
Isso é foda, porque eu sou vegetariano (com tendências vegans fortes)
e ela é super carnívora e junkfoodívora. Ah, e eu tinha nojo das
panelas que ela deixava em cima do fogão - a frigideira de ovo frito e
a sanduicheira que eu nunca tive coragem de abrir - e daquelas cracas
em torno das bocas do fogão que um dia, na época em que ela estava
morando fora, eu levei meia hora com um bombril pra tirar 90\% delas. O
forno eu só abri uma vez, pra esquentar um treco, e nessa hora eu
mantive a minha capacidade de abstração ligada no máximo, então eu não
sei como ele estava.

O meu plano era usar a Pepsi pra virar a noite programando. Vou
ter que ligar pra Camila pra saber o quanto sobrou e se eu preciso
comprar outra.

A noção de sujeira das pessoas é diferente, né - eu aprendi isso
no tempo em que eu morava com o Meleca, ele se preocupava com poluição
e contaminação por metais pesados e nem reparava que toda vez que ele
entrava na cozinha feito um bólido pra preparar alguma coisa voavam
pedacinhos pra todo lado, e eles ficavam no chão. Isso me desesperava,
eu costumava andar descalço em casa e o Meleca nessa época estava
sempre com um pijama branco encardido e chinelos de sola de sisal - e
pressa, muita pressa, pra tentar disfarçar a depressão - então ele
passava pela cozinha super rápido e sem atenção e logo voltava pro
quarto dele pra fumar mais skank. Como eu não sabia o que fazer com
isso eu passei a deixar as minhas havaianas perto da cozinha e eu só
usava elas pra entrar lá.

A minha noção de sujeira e a do Tião são super compatíveis. Nesses
tempos de Camila fora nós mantivemos a cozinha e o banheiro bem
usáveis, mas a gente deixava a poeira no chão da sala (a ``Sala da
Camila'') no lugar até nos incomodar - tipo três semanas -, mas isso
era uma brincadeira e um gesto de liberdade.



% --------------------
\rrjday{Sábado 28/oct/2006}

Acabou. Aliás, já acabou há semanas, e cada vez que eu tento
escrever sobre isso sai algo totalmente diferente.

A pessoa X acabou comigo porque ela descobriu que gosta de
mulheres (e o meu corpo é masculino, né; do resto a pessoa X (diz que)
não tem queixas, muito pelo contrário - melhor que a Cláudia, que
acabou comigo porque queria um homem de verdade), e há meses atrás a
pessoa X rechaçou uma amiga apaixonada por ela porque ela (X) gostava
de homens.

Obs: claro que isso é a minha versão da história, e a minha
versão já mudou várias vezes, e memórias são mais legais que
fotografias porque fotografias ficam iguais com o tempo e memórias a
gente pode distorcer à vontade... e as coisas que eu escrevi sobre
isso antes eram ruins e chatas, e problemas têm que ser interessantes
e divertidos, senão eles afastam as pessoas.

Quando eu era adolescente o meu cabelo era um Black Power
gigantesco. Ele afastava algumas pessoas - quase sempre as pessoas de
quem eu queria distância - e fazia outras pessoas (legais) se
aproximarem.

Pessoas vestidas de problemas

\bsk

Ouvindo: Furtwängler, 9ª de Beethoven, gravação de 1942 com a
Filar\-mônica de Berlim.

Lendo: Diane Arbus - A Biography (Patricia Bosworth)



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\rrjday{Terça 24/oct/2006}

Má-formação congênita, problemas hormonais graves -

Eu tenho esse blog há quase um ano e ainda não consegui escrever
nada sobre isso



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\rrjday{Sexta 13/oct/2006}

Ele me deu a mão pra eu cheirar e eu pensei: ``será que ele andou
caçando perto das bromélias?'' - apesar do cheiro ser um pouco
diferente -

Aí ele fez festinha em mim. Ele era fofo.
 
\bsk

Me mostra o que você sabe fazer com luvas de látex e um balde de
astroglide.



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\rrjday{Quinta 12/oct/2006}

Idéia para um cartaz pra ser colado no poste na base da
escadaria:

\begin{quote}
  Qual é a função desses policiais da escadaria?

  É tirarem dinheiro de gente inocente?

  Eu estou cansado de ter medo e raiva toda vez que eu subo
  essa escada.

  Quero ser ``protegido'' por gente decente.
  
  (Que vergonha precisar de um cartaz anônimo pra dizer isto)
\end{quote}



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\rrjday{Quarta 9/aug/2006}

Passei pela casa dos meus pais e vi os dois se desvanecendo
juntos.

Às vezes eu penso, como seria bom se a guerra em que nós vivemos
fosse mais explícita e as nossas velhices e mortes fossem mais dignas,
interessantes e coloridas.

Eu queria o meu ``Malone Morre'' de volta. Será que eu o emprestei
pra alguém - e anotei pra quem - na época em que eu me mudei pra um
lugar menor e resolvi que os meus livros precisavam circular?

A Zedka tem um exemplar, de qualquer modo.

\bsk

Antigamente o Beckett era só um escritor fodão e um Prêmio Nobel
bem dado. De um ou dois anos pra cá eu tenho ouvido cada vez mais
gente se referindo a ele como alguém fundamental, a oitava maravilha
do mundo, que bom que nós temos Beckett. O que houve? Eu lembro de ter
ficado muito perturbado por ``Rockaby'', mas tenho lembranças vagas do
resto (comprei vários livros dele numa viagem à França quando eu tinha
15 ou 16 anos), e nunca li o Godot direito.

Será que essas pessoas consideram que o Beckett encontrou uma
chave pra entender o mundo de hoje?

\bsk

No Congresso Vegetariano tinha algumas dessas pessoas de 80 e
poucos anos super ágeis, super vitais, com vozes claras e sem vibrato.
Elas atribuem a saúde delas à alimentação (são crudívoras, em geral),
mas as pessoas da família delas dizem que não é possível, que é uma
questão de genes.

É meio antipático a gente ficar dizendo pras pessoas passarem a
comer coisas que elas não conseguem comer de jeito nenhum.

Acho que a grande questão é: porque é que algumas pessoas se
dispõem a mudar de alimentação e a terem hábitos mais saudáveis (e a
tomarem o controle das suas vidas nas suas próprias mãos) e outras
não?

E a geladeira da minha mãe cheia de queijos e frios. E eu não
posso fazer nada. Eu entendo as razões dela.



% --------------------
\rrjday{Domingo 6/aug/2006}

Taxista filho da puta, quando eu perguntei na rodoviária se era
táxi normal ele explicou com mumbling words e risadinhas de carioca
gente boa que ``brxstlpqtlhmqsz 3 reais'', e eu achei que no máximo era
3 reais a mais em cima da bandeirada - aí chegando aqui defronte de
casa ele fez uma conta mágica em cima da quilometragem e a corrida deu
R\$29,70 ao invés de pouco mais de R\$15... eu fiquei horrorizado,
reclamei, quis os meus R\$0,30 de troco (preu não ir dormir me sentindo
tão roubado), o cara não tinha, e eu disse que então eu ia deixar as
mochilas em casa e a gente descia e rodava até conseguir trocar uma
nota de R\$10 e depois eu voltava a pé...

Aí eu acabei cedendo, deixando o cara com R\$30 mesmo, saindo do
carro num puta mau humor e pensando em fazer o que eu pudesse - e que
não desse muito trabalho - pra que nenhum conhecido meu nunca mais
pegasse esses táxis de cooperativas que cobram quase o dobro dos táxis
normais, mesmo sendo amarelinhos e iguais aos outros.

Tou escrevendo isso com um restinho de raiva - o meu default é
esquecer e agir como se eu não tivesse direito nenhum - como se eu
fosse ainda mais negro e não-consumidor do que eu sou.



% --------------------
\rrjday{Sábado 22/jul/2006}

!!



% --------------------
\rrjday{Domingo 16/jul/2006}

A Bianca disse ``você vai no congresso vegetariano em São Paulo,
né?!'' meio como se fosse uma ordem, e eu adorei isso - em 5 minutos eu
já tinha decidido que ia.

Ontem eu conversei bastante com a minha mãe - acho que está na
hora dela ficar sabendo de algumas Coisas Muito Importantes, por mais
que não façam sentido pra ela num primeiro momento (ou nunca), e por
mais que durante anos ela tenha dito que preferia não saber - aliás,
que ``tinha o direito de não saber''. É hora de forçar a barra e
desfazer bichos de sete cabeças.

Talvez tenha sido essa conversa com a minha mãe que me fez
pensar uma determinada coisa quando a Bianca me falou do Congresso
Vegetariano... Deixa eu transcrever um trecho de um e-mail que eu
mandei em 24 de junho:

\begin{quote}

  Eu 95 ou 96 eu caí no meio do Primeiro Seminário Nacional de
  Lésbicas (é sim -- longa história) e lá eu aprendi MUITAS coisas
  muito importantes... numa das primeiras palestras que eu assisti a
  palestrante estava falando sobre como as lésbicas são invisíveis
  mesmo no meio do movimento feminista, elas participam pra caramba,
  carregam as coisas, fazem o trabalho pesado, dormem (e tarará etc
  etc) com as feministas, e aí quando elas se inscrevem pra falar nas
  plenárias alguma coisa acontece e o tempo sempre acaba antes da vez
  delas chegar. Bom, pra resumir muito, os gays que eu conhecia
  estavam falando sobre sexo e festa, os heteros como sempre falavam
  sobre mulher, política e futebol, e logo nos primeiros minutos da
  primeira palestra em que eu fui no seminário eu vi que as pessoas de
  lá estavam falando sobre visibilidade e auto-estima... Baraaaalho!

  Bom, tudo isso pra contar que eu ando fazendo coisas loucas de
  vez em quando, cada vez mais, aliás, e com uma atitude de quem tem
  muito pouco pra perder e de quem já não tá mais ligando muito pra se
  vai ser entendido ou não, porque muita gente por aí resolveu não
  pensar e não entender e ficar só desprezando tudo, e não dá mais pra
  ficar esperando que essas pessoas me entendam e me respeitem, tá na
  hora de forçar umas barras. E as estratégias que funcionam quando a
  gente é uma minoria de um são muito diferentes das de quando a gente
  é parte de um grupo grande.

  Eu tou com isso tudo muito presente na cabeça agora porque há
  duas semanas atrás eu quase esganei um garoto (20 anos) amigo de uns
  amigos meus que são vegetarianos militantes... ele passou horas
  descarregando uma raiva inexplicável em todas as direções, e quando
  ele falou que tinham que matar drogados, aleijados, débeis mentais,
  gays e todas as pessoas que fossem inúteis pra sociedade eu achei
  que eu não tinha nada que ficar me controlando e era melhor deixar
  as minhas raivas e rancores fluírem...

\end{quote}

Lá no congresso vai ter muitos vegetarianos muito chatos, mas
alguns gatér\-rimos. Lá vou eu, carregar coisas, fazer a minha melhor
cara de roadie invisível, me divertir à beça e ver o que acontece.

Estou ficando incoerente com o meu próprio discurso reclamão -
isso é ótimo.



% --------------------
\rrjday{Quinta 6/jul/2006}

Eu vi ela cantando bem baixo uma música do ``Pornography'' do The
Cure como quem entoa uma maldição



% --------------------
\rrjday{Sábado 17/jun/2006}

Há vários anos atrás eu assisti uma exposição do Mestre Vitalino
no CCCB. Os bonequinhos eram toscos mas muito expressivos, e muitos
deles tinham sido emprestados por museus do Japão e da Alemanha. A
exposição estava lotada. De repente eu me toquei que os personagens
que eram retratados nas esculturinhas - barbeiros, dentistas,
cavaleiros, famílias, noivos, criadores de animais, sempre coisas
cotidianas assim - tinham se reconhecido nos bonequinhos, e tinham
conversado com o Vitalino; alguma transformação estava acontecendo na
vida daquelas pessoas e daquele lugar, parecia que antes era só aqui e
agora, dia após dia, num lugar nenhum, e o máximo que as pessoas
podiam ter eram memórias e histórias, e talvez algumas fotos - e de
repente elas são algo mais, o que elas vivem também pode virar
esculturas, não sei explicar - e não era um caso de artista solitário,
como o que a gente costuma ver - tinha algo muito grande acontecendo
ali. Aí eu tive um ataque de choro totalmente incontrolável no meio da
exposição, e tive que ir correndo me esconder num canto - era uma
época em que eu não chorava nunca, nem escondido.

Do meu caderno principal (o vermelho), escrito em 1987:

Aí o choro foi aumentando e eu soltei a voz e saiu uma voz
grossa e feia e eu me calei outra vez.



% --------------------
\rrjday{Quinta 1º/jun/2006}

Quando eu era pequeno eu fiz vários anos de psicoterapia com um
cara que hoje em dia eu considero como um imbecil. Acho que não faz
sentido omitir o nome dele, então lá vai: Mário Romaguera. Vai que
algum dia alguém se dispõe a furar os pneus do carro dele, sei lá...
antes tarde do que nunca.

Eu tinha alguns assuntos espinhosos que eu queria poder abordar
na terapia, mas eu não conseguia falar deles diretamente - a gente não
fala qualquer coisa pra qualquer um - então eu tentava dar deixas. Eu
esperava que ele entendesse minimamente o que eu dizia e fizesse as
perguntas certas.

Se eu percebesse que o que eu sentia era algo que ele conhecesse
aí eu prosseguiria - aliás não é só que eu estivesse fazendo doce,
também tem uma questão de linguagem... se a gente quer contar uma
coisa X o modo de contar vai ser um quando a coisa é familiar pra
pessoa com quem a gente está conversando, outro quando a coisa é
totalmente nova mas a pessoa fica interessada, outro quando é nova e a
pessoa fica meio horrorizada e meio defensiva, outro quando ela não
entende de jeito nenhum... e o Mário, talvez por algum princípio
profissional que ele provavelmente entendeu errado, era sempre casual
e neutro, e é difícil a gente contar coisas que são super pesadas
nessas condições - e mesmo assim durante anos eu tentei.

Eu só lembrei disso (e resolvi escrever algo sobre) porque me
lembrei da imagem do labirinto. Podemos não ter grandes segredos, mas
nem tudo o que temos está imediatamente à vista, se alguém quiser
saber mais vai ter que andar dentro da gente um pouco, tentar vários
caminhos,

(incompleto - na verdade eu ia começar daí e falar sobre
relacionamentos)




% «rrj4»  (to ".rrj4")
% (find-TH     "rrj4")
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
\newpage
\rrjfile{RRJ4}





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\rrjday{Segunda 17/jul/2007}

\begin{quote}
XVII.

As the master of the day

is Anna Xenia

the master of the night

\msk

is dread.

\msk

I position myself.

It fills up the room.
\end{quote}

Pit-boys na van conversando sobre porrada. Amigos ganhando
pouquíssimo como sempre. A cidade cheia de policiais por causa do
Pan.

Hoje eu tive vergonha de mim mesmo, e raiva, e fiquei pensando
sobre como essas coisas ficam voltando sempre, e como o maior motivo
de eu tentar ser correto é ficar a salvo dos pesadelos.

Passei os últimos dias trabalhando bastante, e encontrando soluções
simples e incríveis. Aí eu hoje fui comer no Beterraba, descabelado,
com a pele ruim por causa de coisas que eu comi ontem, e com a barba
por fazer. No caminho tinha espelhos, e quando eu me olhava no espelho
era horrível, era como ver uma batalha perdida. Eu lembrava as pessoas
em quem a polícia bate (ou mata e depois diz que era bandido), as
pessoas que aguentam trabalhos horríveis - como aquele que eu tive
perto da Praça XV, que pechinchou comigo de um modo pra lá de ofensivo
e violava alegremente todos os acordos verbais.

Tem pessoas que quando eu vejo eu penso ``que pessoa bonita'',
exatamente do mesmo modo como eu acho cachorros e gatos bonitos e
fascinantes - e se algum dia eu for me aproximar de alguma dessas
pessoas eu vou dizer algo simpático e não-invasivo, pra elas não se
assustarem. Mas tem outras pessoas bonitas que que eu olho durante um
instante e só tenho uma inveja que já é quase raiva. Parece que elas
nunca saíram das torres de marfim, e sempre souberam que alguém
cuidaria delas, mesmo se durante alguns períodos elas tivessem
trabalhos-lixo que pagassem pouquíssimo; uma vez por semana elas iriam
a festas e seriam vistas e admiradas e teriam valor.

Quando eu me olho no espelho eu vejo que eu tenho uma cara que
pouca gente entende. Aliás, quando eu olho rápido quando eu estou
muito esculhambado nem eu próprio entendo a minha cara. Eu pareço um
caixote salvo de um naufrágio.

\bsk

A minha mãe tem duas mães. Tem a minha Avó Estelionatária e tem uma
outra, a ``mãe boa'', que ela pode passar meses sem mencionar em
conversas, mas que é uma das grandes referências dela (acho que é uma
vergonha a gente ter uma mãe ``de verdade'' que dá golpe em todo mundo e
a gente ter elegido uma mãe de criação que é uma criatura totalmente
de fora das torres de marfim). A mãe boa dela está morrendo. A outra
ainda vai durar muito, e ela aproveita os momentos em que é tratada
como pobre velhinha pra empurrar documentos falsificados.

Eu comecei a escrever um e-mail enorme pro Sebastião, mas ainda não
consegui terminar. Era sobre imortalidade, principalmente. Eu andei
ouvindo muito Elastica - o segundo disco e as Peel Sessions - e Au
Pairs, e Cat Power, e lendo Henry Miller (Trópico de Capricórnio) e os
diários da Anaïs Nin. A minha grande questão é o que fazer com a
raiva, e com essa sensação de sermos tão descartáveis.

Quando eu vejo notícias sobre policiais mortos eu fico feliz e
sorrio de orelha a orelha. Não tenho mais ouvido histórias sobre
cabeças cortadas e espetadas em estacas, mas eu achava isso lindo - eu
faria.

É muito ruim viver dentro de pesadelos. A gente tem que fazer algo
com eles.

A coisa com que é mais difícil lidar é com a impunidade. É bom
saber que pessoas que são trapaceiras, violentas e estúpidas um dia
vão se ferrar, de algum modo que é conseqüência direta do
comportamento delas.

Os traficantes matam policiais às vezes. ``Bandidos'' às vezes
assaltam as pessoas que têm carros. Pit-boys se quebram uns aos
outros. Preibóis batem com seus carros nas árvores. A vida aqui é
selvagem mas (quase) digna.

Comprei um livro sobre Lampião.




% --------------------
\rrjday{Domingo 10/jun/2007}

Foi preciso que as plantas morressem para que



% --------------------
\rrjday{Quarta 30/mai/2007}

Teve um dia que eu estava no dentista e ele viu que além das cáries
``normais'' - que acho que eram sete - eu tinha duas que iam precisar de
um tratamento de canal - e eu não tinha dinheiro nem pra pagar aquela
consulta, eu ia ter que pedir emprestado pros meus pais e pagar na
consulta da semana seguinte...

Eu não queria ir na dentista que era minha dentista desde que eu era
criança porque ela ia ficar contando de todos os ``garotos'' da minha
idade que são parentes dela e da minha madrasta (``madrasta''? A mãe
da minha meio-irmã por parte de pai, que é 6 anos mais velha que eu) -
e todos esses, hm, garotos, estão super bem de vida, viajam pra cá e
pra lá, têm carros e mulheres/namoradas/filhos, se casam dando
mega-festas (caceta, e eu nem namoro, há três anos atrás a mulher que
eu achei que era o homem da minha vida me chutou porque eu era um
estudante descabelado e pé-rapado - bom, whatever) - e aí ela ia
contar essas histórias, olhando pra mim com cara de ``e você,
Eduardo?'' e eu ia ficar constrangido, com vergonha de ser quem sou,
de boca aberta (``agora abre bem grande''), dizendo ``arrã, arrã -''

% Fiz vários contatos nesse tempo, pra possíveis trabalhos - e as
% pessoas me perguntavam, ``o que você está fazendo agora? Você está
% disponível?'', e eu respondia, ``olha, eu tou num trabalho que me dá um
% certo tempo tempo livre e que eu tou adorando, mas nele eu ganho
% exatamento o suficiente pra pagar as minhas contas muito básicas sem
% sobra nenhuma, não tou podendo nem pensar em comprar uma caixa de
% comprimidos de vitamina C no final do mês, ou um cinema ou um livro,
% quanto mais uma consulta com a homeopata ou o dentista - tá foda'' -
% 
% O ideal mesmo seria alguma espécie de bico no qual eu pudesse
% trabalhar nas noites e fins-de-semana, e que me permitisse continuar
% no meu trabalho até eu ser aumentado - o que, ao que parece, ainda
% vai demorar bastante -



% --------------------
\rrjday{Terça 29/mai/2007}

Ele pechinchou demais, na hora errada. A minha boa vontade foi pro
brejo. Ele quebrou o brinquedo.



% --------------------
\rrjday{Segunda 5/mar/2007}

São pessoas que se eu for estuprado de novo vão dizer que
queísso, tudo é lindo, não se apega a sentimentos ruins não.

Minha casa foi invadida por pessoas assim. Tá bom, não tanto;
mas alguns amigos de pessoas que eu alojei são assim.

Se o João aparecer aqui de novo eu vou cobrir ele de porrada.
Não me interessa se ele vai entender ou não - eu não posso ficar
paralisado só porque ele não entende nada.

Ele acha que tudo o que não se parece com as meditações dele é
coisa de gente inferior.

Ele é parecido com o meu pai - só que pro meu pai as únicas
coisas que existem são as engenheirices dele e os noticiários e a
economia.

Quando o João estiver encurralado num canto apanhando e
apanhando talvez ele veja que quando alguma coisa dói nem sempre basta
meditar e dizer que que lindo, a dor não existe, nada existe a não ser
o infinito amor divino - às vezes é hora de fazer algo de concreto,
usando mãos e pernas e braços e cotovelos, protegendo narizes. Talvez
um dia, daqui a anos, ele entenda que dor e ódio existem porque a
gente também tem que cuidar de um corpo físico que não é uma linda
alma imortal perfeita e cheia de luz. E que enquanto ele se cerca
dessas pessoas sorridentes e espiritualizadas que nunca dizem algo que
é duro e que dói, porque afinal cada um tem o seu processo e a
gente não pode interferir (e, fucking amazing, sic: ``ninguém diz nada
pra ninguém, as pessoas só ouvem e entendem e mudam quando chega a
hora de ouvir e entender'') - que na verdade ele está cercado de
pessoas omissas.

Eu vi a minha sala cheia daqueles hippieóides beatíficos e
sorridentes aben\-ço\-ando a comida de olhos fechados e eu fiquei muito
constrangido e angustiado.

No dia seguinte eu passei mal. Prefiro ``acreditar'' na hipótese
mais engraçada que eu consegui arranjar: que eu passei mal porque não
abençoei a comida e aí ela não desceu nada bem.

A minha sala estava cheia de mortos-vivos e eu não consegui
fazer nada.


% «rrj5»  (to ".rrj5")
% (find-TH     "rrj5")
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
\newpage
\rrjfile{RRJ5}



% --------------------
\rrjtopday{Segunda 06/aug/2007}


Eu decidi me aproximar e fazer algo - e eu o tempo inteiro pensei: ``eu
quero ser responsável pelo que estou fazendo; eu vou lidar com as
conseqüências e as dificuldades''.

Eu fiz tudo com muita atenção.

Eu olhei muito para a forma, a cor, cada detalhe. Deixei a mente
aberta. Cuidei dos galhos e folhas, podei algumas partes fracas e
mortas que seria melhor tirar. Comi algumas das frutas, porque achei
que era um modo natural de fazer com que a árvore se misturasse comigo
e passasse a ser parte de mim. Mas eu lidei muito pouco com raízes até
hoje, e não consigo visualizá-las direito. Eu sabia disso, e talvez a
árvore soubesse também. E nós aceitamos o jogo.

Agora os espíritos das raízes vêm me dar tapas nas orelhas. É
justo. Mas eu preciso ouví-los. Preciso que eles falem comigo. E eu
preciso que eles me ajudem a abrir minha visão.



% --------------------
\rrjday{Domingo 05/aug/2007}

O príncipe encantado é alguém que me entende mesmo quando eu estou
paralisado.

Ele sabe lidar com coisas que as pessoas fingem aos gritos
que não existem. 

Ele corta caminho e avança por cima de convenções
mortas e inúteis. 

Ele me bate do jeito certo, e me liberta.


% «rrj6»  (to ".rrj6")
% (find-TH     "rrj6")
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
\newpage
\rrjfile{RRJ6}

% --------------------
\rrjtopday{Domingo 30/sep/2007}

% (find-angg ".emacs.papers" "texbytopic")
%
\def\hangfrom#1{\def\hangobject{#1}\setbox0=\hbox{\hangobject}%
    \hangindent \wd0 \noindent \hangobject \ignorespaces}

\def\who#1{#1:}
\def\more{+}

\def\mywid{5em}
\def\who#1{\hangfrom{\hbox to \mywid{\bf #1:\hss}}}
\def\more {\hangfrom{\hbox to \mywid{       \hss}}}


\who{me} (isso que eu tou falando tá me ocorrendo agora)

   \more tá - vou te usar como personagem - eu não assisti a cena, mas
         acho que eu vou acertar

   \more um professor tá falando sobre Al Berto e te pede pra ler uma
         coisa dele em voz alta

   \more e depois de você ter lido os alunos estao pasmos e
         enlouquecidos, como o Robespierre e o outro cara depois que o
         Orfeu e as cabeças cortadas cantaram

   \more não bastava o texto em si
    
\who{Tatiana} entendi

\who{me} quando as pessoas olharam pra você lendo aquilo elas viram
         verdade

   \more um nível de verdade que elas podem passar anos sem lembrar que existe
    
   \more todas as associações que elas fazem naquele momento em que
         você está lendo o Al Berto se conectam

   \more elas pensam sobre porque você é arredia e calada e séria
 
   \more elas pensam sobre os poetas de bar
 
   \more elas comparam tudo
 
   \more tudo faz sentido
 
   \more e o ``sentido'' usual que elas estão acostumadas a dar às
         coisas fica tão frágil e patético que elas não conseguem
         desgrudar a atenção de você

\who{Tatiana} eu enxergo isso quando você fala da Anaïs ou de como é
              intensa aquela gravação do Joy Division, quando a R.
              finge que não se encantou pelo Vergílio Ferreira, mas
              por exemplo, até vejo isso no Tião quando ele fala raras
              coisas sobre o Jorge de Sena.

\who{me} sem contar que de repente o silêncio faz sentido também, e as
         pessoas começam a ver que é muito mais intenso ouvir (e focar
         no que elas estão vendo e ouvindo, imaginar) do que a
         performance usual cotidiana delas, o jogo de respostas certas
         na hora certa, as conversas no corredor, a hierarquia social
         das Raquéis e Maffeis

   \more sim - e a impressão que eu tenho é que a gente (talvez esse a
         gente seja um ``a gente'' pequeno - nós dois certamente, e
         algumas outras pessoas) quer, e TEM, que manter contato com
         essa intensidade, que pra maior parte das pessoas parece
         enlouquecedora

   \more nossos bons trabalhos, e até nossas melhores reações
         cotidianas, gestos, respostas, vêm de nós estarmos conectados
         com essa energia e com essa verdade


% --------------------
\rrjday{Quarta 5/sep/2007}


O que me ficou na cabeça sobre o Thermidor esse tempo todo não foi
tanto a história em si, ou a técnica de contá-la - mas eu fiquei me
fazendo perguntas a respeito da história como as perguntas que a gente
faz a respeito de mitos... por exemplo: o que é a técnica do Orfeu de
cantar daquele jeito? O que é que fez com que os mortos cantassem
junto com ele? Algumas vezes eu já assisti espetáculos que faziam com
que todo o resto ficasse irrelevante; durante meses nada mais do que
eu via tinha um décimo da intensidade ou da realidade daquele
espetáculo... por exemplo, acho que as três coisas mais fortes que já
me aconteceram foram a primeira vez em que eu tomei Daime, a vez que
eu tomei LSD, e o show do Iggy Pop... Como é que alguem vira o Iggy
Pop? Porque é que 3000 anos depois as pessoas ainda falam de quando o
Orfeu desceu ao Hades? Porque é que (pequena forçação de barra aqui)
220 anos depois as pessoas ainda falam de quando Orfeu cantou no
depósito de cabeças? Porque é que as pessoas contam essas histórias, e
como é que elas evocam a cena original? Qual é o mecanismo? A gente
precisa disso.

\bsk

...e mais outra coisas menores... como é que ele sabe que o brinco vai
voltar pra ele? O que é que o Sandman tinha pra oferecer para a Lady
Johanna Constantine? Porque é que eles nem precisavam colocar aquilo
em palavras? E claro que isso não são questões abstratas pra mim; à
medida que eu consigo funcionar melhor dentro de uma certa linguagem
que no mundo atual é rara, de um outro nível de percepções e certezas,
eu sei que eu vou conseguir me posicionar melhor dentro de situações
que viraram grandes pesadelos: a Aline me transformando num monstro
canalha que devia rastejar aos pés dela, o meu pai me transformando
num não-sei-o-quê, os grupos de engenheiróides com mentalidade de
pit-boys com os quais às vezes a gente vai ter que conviver em alguma
situação de estudo ou de trabalho.

%*


% «rrj7»  (to ".rrj7")
% (find-TH     "rrj7")
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
\newpage
\rrjfile{RRJ7}

% --------------------
\rrjtopday{Domingo 13/jan/2008}

\begin{quote}
  {\bf
  Raça de Ferro}

  Antes não estivesse eu entre os homens da quinta raça, \\
  Mais cedo tivesse morrido ou nascido depois.           \\
  Pois agora é a raça de ferro e nunca durante o dia     \\
  Cessarão de labutar e penar e nem à noite de se        \\
  destruir; e árduas angústias os deuses lhes darão.     \\
  Entretanto a esses males bens estarão misturados.      \\
  Também esta raça de homens mortais Zeus destruirá,
\end{quote}

Encontrei. Depois de anos procurando - está num número do Sandman
desenhado pelo Milo Manara -

\begin{quote}
  ``Eu podia tocar o desejo deles como se fosse uma {\sl harpa}''.
\end{quote}

\bsk

Ninguém mais vai me violar. Eu já disse isso pra você. Isso é muito
fundo, está além do que pode ser acessado por negociações, pedidos,
ameaças, facadas, doenças, mortes.

\begin{quote}
``Então acabou -''
\end{quote}

Você já disse isso pra mim. E quando você disse eu fiquei pasmo. Você
perdeu pontos - muitos. Eu achava que nós tínhamos a mesma noção de
relacionamentos. Os relacionamentos que interessam estão muito mais
fundo do que as palavras alcançam. Se nós estávamos discutindo
palavrinhas - ``acabou'', ``não acabou'' - então é porque aconteceu
algo de muito grave - sei lá, a pessoa com quem eu me envolvi (que
parecia tão sólida) se perdeu -

Eu disse que sexo era complicado. Eu sabia. As pessoas não sabem, em
geral. Elas se perdem - mesmo as pessoas que interessam, que mais ou
menos sabem onde estão e o que fazem. É como LSD tomado a sério. A
gente só sabe que no dia seguinte nós vamos estar num lugar muito
diferente - vamos ser pessoas bem diferentes do que éramos, com outros
olhares. E às vezes, com as pessoas certas, a gente arrisca.

\bsk

Tem coisas que eu falei, ou fiz, que você já disse que nunca vai
perdoar. Ótimo - porque isso é sinal de que você sabe que não adianta
a gente gastar um monte de energia com pequenas fofuras para mendigar
pequenos perdões.

Quando eu era adolescente as pessoas estavam aprendendo a se pegar
- e eu ficava de fora. Você também ficou de fora, por motivos meio
diferentes, meio parecidos com os meus. As meninas tinham o poder de
fascinar - como eu queria que bastasse eu dar mole pras pessoas que me
interessavam pra que algo acontecesse - eu tentei, algumas vezes -

Hoje em dia nós temos temas muito grandes, muito urgentes, e
estamos tentando lidar com eles do modo mais honesto possível.

Quando o ruído passar o jogo (o de verdade) vai poder começar outra
vez. Até lá -

\bsk

Você já disse - discretamente, mais para si - que gostaria que eu
te visse como um corpo às vezes. Que isso faz falta. Desculpe (você
sabe) - o meu corpo não existe mais, não é mais um corpo - é um
instrumento -




% «haz»  (to ".haz")
% (find-TH "2011-smil")
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
\newpage
\rrjfile{HAZ}

% --------------------
% \rrjtopday{Setembro, 2011}

\begin{quote}
{\footnotesize

(Em 11/set/2011 fizemos uma reunião na casa da Mariana com o Paulo
Blank pra tentar organizar o que seria a Hazkará pro Smil, que seria
no Midrash, em 26/set/2011, das 18:00 às 20:00hs. Num certo momento eu
quase desisti de participar, mas acabei topando - desde que além de
recitar os trecos incompreensíveis eu também lesse um texto, que eu
ainda iria preparar... Em 24/set eu avisei a todos que o texto que eu
estava preparando ainda estava {\sl muito} longe de ser algo que
pudesse ser usado na cerimônia, que eu não iria nela, e que se
virassem sem mim.)

(O texto abaixo é uma das minhas primeiras experiências em escrever
algo para ser lido em voz alta - a versão escrita dele talvez seja bem
difícil de entender.)

}
\end{quote}

\bsk

Todo mundo lembra do meu pai como uma pessoa marcante. Ele era
engraçado, espirituoso, surpreendente, e frequentemente inconveniente.
Isso certamente tinha a ver com uma estratégia de sobrevivência. O meu
pai sobreviveu ao holocausto, e num certo momento ele era a única
criança do campo. Todos cuidavam dele, todos depositaram as suas
esperanças nele, todos prestavam atenção nele, e, mesmo que à
distância, todos ficavam imaginando o que ele seria depois. Acho que
durante o resto da vida dele quase tudo que ele fazia era uma resposta
a milhares de pessoas. Ele passou a vida inteira respondendo tanto aos
horrores pelos quais ele passou quanto às pessoas que tentaram
protegê-lo dos horrores, deixando ele viver num mundo à parte no
campo. Depois ele viveu em outros mundos à parte - fazendo papel de
gênio.

Ele me educou da melhor forma que ele pôde, mas isso queria dizer
que ele achava que eu tinha que ser forte e brilhante. Ele tinha
expectativas altas e me testava o tempo todo. Ele não sabia o que era
relaxar. Ele tinha medos muito grandes, era defensivo, mordaz,
irônico. Num certo momento eu me toquei de que se eu tinha visto o meu
pai falar ``a sério'' - sem ironia - uma ou duas vezes a cada ano, era
muito.

Eu era fresco e mimado porque eu tinha revistas em quadrinhos e
brinquedos, vivia com os meus pais numa casa grande, a gente tinha
empregados, e eu nunca tinha passado fome. Eu era um burro porque aos
7 anos de idade eu não tinha uma ``linguagem acadêmica''. Eu era
preguiçoso porque eu nunca tinha pego uma caixa de engraxate pra
ganhar o meu próprio dinheiro. Eu era infantil. Esse era o mundo no
qual eu vivia antes dos 10 anos de idade. E eu tinha certeza de que
todo mundo era assim, como eu, e que eu era incompetente porque eu era
medroso e não conseguia nem me livrar dos meus medos nem ter a
confiança que os outros garotos tinham.

Meu pai tinha um mecanismo muito difícil de se lidar. Ele nunca
assumia o que fazia - aliás ele nunca reparava no que fazia. Ele não
tinha um ``eu'' com o qual ele lidasse lucidamente. Ele só lidava com
``verdades'' e com ``lógica''. Quando ele era agressivo ele nunca notava.
E ele sempre tinha razão. Não era ``achava que tinha razão'', porque no
mundo dele não existiam ``achos''. E nós não tínhamos provas científicas
e argumentos irrefutáveis de que ele tinha sido agressivo. Aliás,
quando nós conseguíamos algum e ele entendia ele dizia que não tinha
tido a intenção.

(Eu até hoje tenho medo das pessoas que fazem as coisas sem prestar
atenção e que quando fazem algo ruim ``não tinham a intenção''. Não sei
como reestabelecer um diálogo com elas quando há algum
desentendimento. Me sinto muito mais à vontade com gente assumidamente
cruel - eu frequentemente sei desarmar pessoas cruéis fazendo algo
engraçado, e aí consigo conversar com elas.)

Meu pai foi uma pessoa muito marcante pra mim também. Eu passei a
vida inteira me defendendo dele.

Eu me afastei dele - fisicamente - quando pude, mas isso não
resolve tudo. Quando a gente está longe de uma pessoa que é importante
pra gente aquela pessoa continua com a gente - como memórias,
introjetada. Eu tentei me afastar do meu pai tanto fisicamente quanto
emocionalmente. Mas o fantasma dele continuava comigo, me assombrando.
Me atropelando como um trator. Me dizendo coisas pras quais eu
procurava respostas, e não encontrava nenhuma resposta - porque eu
precisava de respostas que ele fosse entender, mas a especialidade
dele era não entender nada.

Deixa eu mudar de direção aqui - porque eu me sinto um adolescente
dizendo essas coisas. Quando a gente é adolescente a culpa de tudo é
dos nossos pais. Eu estava tentando escrever isto que eu tou lendo
agora e eu via que aqui eu me atolava num lamaçal do qual eu não
conseguia sair. Eu queria contar coisas a respeito do meu pai, e não
conseguia fazer isso direito.

O que acontecia entre mim e o meu pai era sutil, na verdade. As
nossas discussões, e o que ele fazia, tinham uma lógica tão estranha,
tão retorcida, que eu não conseguia contar pros outros - era
complicado, eu tentava resumir, montar historinhas, mas não
funcionava. E como eu não sabia contar pros meus amigos as histórias,
aliás não sabia contar elas direito nem pra mim mesmo, eu comecei a
esquecer - aliás, comecei a ``não registrar'': eu me desligava.

% [RULE ----------------------------------------]

\msk

Muito do que a gente faz na vida da gente a gente faz porque está
respondendo os nossos pais - dentro da cabeça da gente a gente está
sempre está um pouco dialogando com eles, com os pontos de vista e
sistemas de referências deles. Quando eu era pequeno eu não queria de
jeito nenhum ficar junto com as crianças que brincavam e jogavam
futebol - eu ficava no meu canto lendo e tentando construir coisas.
Deixa eu ver isso de outro modo agora.

Eu me especializei em afastamentos. É como se a minha frase-chave
fosse: ``eu não quero isso. Eu não quero isso de jeito nenhum''.

Eu gostava das pessoas esquisitas porque elas tinham uma tolerância
maior com histórias estranhas. E os meus pensamentos eram estranhos.
Eu evitava andar com as pessoas que eu chamava de ``normais'' porque
toda vez que eu contava, ou deixava escapar, alguma história pesada
pra uma dessas pessoas ``normais'' eu ouvia: ``mas agora está tudo bem,
não é?'' Eu odiava essa mania de ``tudo bem''.

Quando eu era bem pequeno eu desprezava as pessoas ``normais'' e
``felizes'', porque eu achava que elas ``não sabiam nada''; com uns 10
anos de idade esse meu desprezo já tinha caído por terra. Eu via que
essas pessoas conseguiam brincar, viajar, conversar com gente nova,
etc - elas faziam muita coisa, porque elas não pensavam 10 vezes antes
de fazer cada coisa, como eu.

Durante anos eu tentei montar alguma espécie de ``está tudo bem'' que
fosse resistente o suficiente. Eu queria me misturar com essas pessoas
``normais'', porque eu tinha muito pra aprender com elas. Eu não
aguentava mais ser eu, e eu queria mudar. Mas sempre, em alguma hora,
esse meu ``está tudo bem'', revelava rachaduras, e por trás das
rachaduras algo sinistro, algo contagioso, vergonhoso. Eu era uma
farsa.



% [RULE ----------------------------------------]

\msk

Há uns 5 ou 10 anos aconteceu uma coisa sobre isso. Eu me aproximei da
Daniela, minha irmã por parte de mãe, que não está aqui {\it[Ela disse
    que não iria na cerimônia]}, e descobri que ela SABIA. Ela tinha
passado por coisas parecidas com as minhas, mas ela lembrava de
histórias, e sabia contá-las (às vezes até de modos bem engraçados). A
gente começou a conversar muito um com o outro, e fazer fofocas sobre
o nosso pai/padrasto da Transilvânia. Dito assim parece infantil e de
mau gosto, mas eu tinha que contar, porque isso foi muito
transformador. A gente começou a ter uma linguagem - e só aí eu
comecei a ter memória.

{\it A Daniela é a minha memória.}

\bsk
\msk

Eu estava escrevendo esse texto e muitas vezes via que eu tinha
escrito algo terrivelmente incômodo, e eu pensava, será que eu devo
deixar isso? E eu sabia que todo mundo iria me odiar, mas alguma coisa
me dizia ``não importa'', ``vou deixar isso aí'', e eu comecei a pensar
sobre esse processo, e descobri -

O meu pai dizia que o Holocausto era tão pior do que qualquer outra
coisa que perto dele qualquer outra atrocidade, passada, presente ou
futura, perdia a importância. E isso era muito opressor, porque queria
dizer que o mundo tinha uma dívida infinita com ele - ele podia fazer
qualquer coisa, podia explodir a qualquer hora, pra descarregar coisas
que aliás ele nem entendia, e ele seria sempre desculpado. E isso
fazia todo o sentido, mas era insuportável.

Eu levei 30 anos pra conseguir lidar abertamente com isso - e foi
da seguinte forma: ``ele tinha um crédito gigantesco por ter passado
pelo que passou. Mas esse crédito não é infinito, e agora, depois de
décadas, ele acabou''. E esse corte era algo bem mais pesado do que
parece - era algo inadmissível, pra todo mundo. Eu me dispunha a ser
considerado um monstro, por ele, pela minha família, pelos amigos
dele, talvez até pelos meus amigos - a gente não se recusa a pagar a
nossa dívida com a família - a dívida de cuidar de quem cuidava da
gente - impunemente. Então eu não pediria mais ajuda a nenhuma dessas
pessoas.

Então essa foi uma das situações na minha vida nas quais eu decidi
sacrificar a minha respeitabilidade, todo um grupo grande de contatos,
toda uma rede social - a rede de proteção que a gente tem por default
quando nasce numa certa classe, com um ou dois dos nossos pais sendo
judeus -

Na verdade eu só fiz isso porque eu tinha muito pouco pra perder.
Pode parecer meio estranho isso da gente se afastar da família ``por
não ter quase nada pra perder'' - e em enterros a

\bsk

Talvez daqui a alguns anos eu tenha alguma memória confortável
dele. Mas por enquanto o que eu tenho é isto.

\newpage

\begin{quote}
\footnotesize

(Aqui as minhas anotações pro que escrever viram palavras soltas e
fragmentos de frases. A palavra recorrente, ``monstro'', e ter que me
acostumar a ser ``monstro''; o que fazer, já que não dá pra parar de
ser visto como monstro -
%
% às vezes não é possível parar de ser visto como monstro
%
solução, a gente é tolerado enquanto a gente é {\sl útil} - uma série
de afastamentos~- aos 25 anos eu desisti de ser aceito no ``mundo dos
homens'', e assumi que eu não conseguia distinguir macheza de
estupidez - desde bem antes disso eu já tinha questões enormes com o
mundo hetero - no meio da década de 90, quando essas coisas ainda não
estavam nada na moda (...) - (Desde os 5 anos) Eu não queria ser
parecido com os homens - Eu achava um pesadelo ser obrigado a ser duro
e sarcástico - Eu não queria tratar os outros como objetos - Eu
preferia ter nascido menina)

\msk

(Depois algumas anotações sobre como terminar a minha fala. Eu queria
forçar as pessoas a pensarem sobre {\bf reação histérica às
  atrocidades} -)

\end{quote}




% [P Monstro; me acostumar a ser monstro; monstro útil]
% 
% [br]
% 
% [BE'
% Afastamentos:
% 
% Aos 25 anos eu desisti de ser aceito no "mundo dos homens", e assumi
% que eu não conseguia distinguir macheza de estupidez.
% 
% Desde bem antes disso eu já tinha questões enormes com o mundo hetero.
% 
% No meio da década de 90, quando essas coisas ainda não estavam nada na
% moda
% 
% (Desde os 5 anos) Eu não queria ser parecido com os homens
% 
% Eu achava um pesadelo ser obrigado a ser duro e sarcástico
% 
% Eu não queria tratar os outros como objetos
% 
% Eu preferia ter nascido menina
% ]
% 
% [#
% Eu evitava andar com as pessoas que eu chamava de "normais" porque
% toda vez que eu contava, ou deixava escapar, alguma história pesada
% pra uma dessas pessoas "normais" eu ouvia: "mas agora está tudo bem,
% não é?"
% ]
% 
% [br]
% 
% [P Reação histérica às atrocidades]
% 
% [RULE ----------------------------------------]


Agora que ele morreu a gente pode pensar sobre tudo isso: sobre as
atrocidades atuais e sobre quem sobrevive a elas; sobre tentar
esconder memórias dolorosas embaixo do tapete pra gente conseguir
fazer cara de que está tudo bem; e sobre o que a gente pode fazer pra
não ser detestado.





% «haz2»  (to ".haz2")
% (find-TH "2011-smil")
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
\newpage
\rrjfile{HAZ2}

% --------------------

\rrjtopday{Outubro, 2011}

Eu vou falar do processo, em várias fases, pelo qual eu passei
tentando lidar com tudo isto. Se tudo der certo vocês vão perceber na
minha descrição algo de universal.

Quando eu era pequeno eu tentava fazer tudo certo. Eu tentava ser
inteligente e engraçado, nunca ser bobo, não errar nunca. Mas não
funcionava. Olhando em retrospecto eu queria ser respeitado. Mas se eu
vou direto às memórias que eu tenho daquela época eu me lembro de eu
chorando {\it muito}, muito desesperado, depois de ter pronunciado uma
palavra com a grafia errada, ou de ter feito um raciocínio ingênuo, ou
de não ter previsto algo que depois que aconteceu me pareceu óbvio.

É engraçado, quem me conheceu nessa época lembra de mim como um menino
inteligente e curioso - mas as minhas lembranças - e quando eu olho
pra mim há 30 anos atrás eu só me vejo de dentro - são de trabalhar
feito um louco, o tempo todo, pra algum dia no futuro eu {\sl talvez}
poder sentir que estava tudo bem - e poder relaxar. E aí poder ser
mais espontâneo, talvez.

Eu lembro da sacação de que a minha melhor chance era ser um gênio
quando eu crescesse. E vários anos depois - acho que quando eu tinha
uns 12 - a sacação de que o melhor caminho teria a ver com
computadores. Isso era um caminho masculino, claro -

Por outro lado, outra lembrança muito fundamental, acho que de quando
eu tinha uns 6 ou 7, é da minha turma na Toca do Coelhinho indo
visitar o que seria a sede nova da escola, na Barra, e quase todo
mundo brincando lá fora, talvez num monte grande de areia, e enquanto
isso eu e uma menina conversávamos numa sala, entre as carteiras - eu
detestava sol, aliás - e ela dizendo que preferia ser menino, que os
meninos podiam fazer mais coisas, e eu dizendo que eu preferia ser
menina - não sei o quanto eu expliquei naquela hora, mas o meu
pensamento era claro - as meninas podiam dizer mais coisas, pensar
mais coisas, sentir mais coisas, os meninos precisavam ficar
%
% se defendendo e
%
batendo uns nos outros pra não serem frescos, e quando a gente é
menina isso basta, olham pra gente e a gente é bonita e pronto, não
precisa fazer mais nada, está tudo bem, não era como eu, que não podia
parar nunca, precisava trabalhar feito um louco pra um dia daí a 20 ou
30 anos talvez ficar tudo bem - e os outros meninos, que brincavam,
brigavam e jogavam futebol eram como umas máquinas desmioladas, que
também não paravam nunca, mas não pensavam -









% «rimbaud»  (to ".rimbaud")
% (find-TH "gaiman")
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
\newpage
% \rrjfile{Rimbaud 0}
\rrjfile{\secsubtitlefont Apêndices}

Oi - como eu já disse pra alguns de vocês, há um tempo atrás eu tive
alguns ataques de inspiração e comecei a ter umas idéias de cenas pra
uma peça de teatro de bonecos... o título (que ficou na minha cabeça
durante anos sem que eu tivesse a menor idéia do que fazer com ele) é
um trocadilho esquisito: os franceses pronunciam títulos de coisas
como se os nomes fossem em Francês, e daí ``Rambo'' acaba soando como
``Rimbaud''; como em Português o Rambo II virou ``Rambo II - a missão'',
daí, bom, o resto é óbvio.

Aviso: isso tudo tá INCRIVELMENTE MAL-ESCRITO! É a primeira vez que eu
escrevo cenas de uma história, e quando as inspirações bateram eu
resolvi anotar o que vinha vindo do jeito que desse; foi mais ou menos
como quando a gente acorda e quer anotar um sonho: se a gente puser o
pé no chão antes de começar a anotar as primeiras frases o sonho vai
embora.

Eu não tenho a menor pretensão de transformar isso numa peça de
verdade - pelo menos não num futuro próximo - mas me bateu a sensação
de que eu tinha que pôr essas idéias pra circularem. Então aqui vai o
material, leiam ou não, divirtam-se ou se chateiem, distorçam,
recortem, copiem, joguem fora, roubem idéias, etc. Claro que eu vou
achar ótimo se alguém quiser conversar sobre essa história, mas não
quero ficar com expectativas nem pressionar ninguém; quero só fazer o
que os deuses mandaram pra ver se depois eu ganho mais inspirações.

\lvbox

\lvbox

(2002)


\newpage


{\bf Rimbaud 0 - Missão Abissínia}

\bsk

Ataque de inspiração No. 1 (23 de outubro de 2002):

A peça começa com dois personagens - atuais - contando que estavam
conversando com mais alguém sobre um amigo deles, que gostava de
garotinhos; alguém que estava presente disse ``urgh'', e aí um deles
disse ``é, eu até concordo com você, mas eu não expulsaria o Rimbaud da
minha cama''... depois disso eles viram que a história do Rimbaud
começou a pipocar na cabeça deles com cada vez mais freqüência; essa
peça é a história desse Rimbaud que foi se criando na imaginação
deles, e que não precisa necessariamente ter a ver com o Rimbaud real.

Nisso aparece, no outro canto do palquinho, Rimbaud esperando o navio
que vai levá-lo para a Abissínia. O navio se aproxima muuuito
lentamente (e é uma noite de lua cheia), e ele enquanto isso escreve
coisas num caderno, sobre o que é escrever algo que ninguém mais vai
ler; sobre como ele está tentando abandonar uma cabeça cheia de
palavras pra pisar no mundo real.

\bsk

Personagens da peça:

Felipe e Chris, que são os que conversavam sobre Rimbaud.

Rimbaud.

Aooamu, negro, meio animista, meio muçulmano.

Leão (inspirado em Douanier Rousseau).

Outro negro, esse inspirado nas pinturas do Rousseau.

Verlaine e sua mulher.

\bsk

Rimbaud escreve porque quando ele entra num certo estado as imagens
que ele tem são muito mais intensas que o mundo real. Aos poucos ele
vê que ele constrói esse mundo com as palavras dele; no início meras
fantasias, quase infantis - castelos, torres, mulheres com brilhos nos
olhares - mas à medida que ele vai transpondo em palavras o que ele vê
certas questões se resolvem, detalhes novos se criam, etc.

É de uma dessas mulheres [que ele encontra nesse mundo imaginário] que
ele ganhou o brilho no olho que ele tem - ``vou te contar um segredo:
esse brilho não vem de algo que você tem, não vem de se olhar no
espelho e se achar loura e linda; ele vem de não ter algo, de sentir
frio, de algo não fazer sentido, de sentir falta, de esperar alguém
pra poder se entregar, pra se esquecer da angústia durante um abraço.
O olhar vem por necessidade. O olhar é uma pergunta e uma isca''.

``Sim - caramba. Eu entendo - eu quero - eu preciso. Eu estou disposto
a pagar o preço, seja qual for ele. Desculpe, não sei como dizer -''
``pss, não se desculpe - se você se desculpar mais uma vez o momento
estará perdido. Só você pode saber de onde os seus novos olhos vão vir
-''. Pausa. Espera. Movimentos lentos, hesitantes, quase solenes: é uma
daquelas poucas situações na vida da gente em que a gente não pode
fazer absolutamente nada errado, nem um mínimo gesto. Rimbaud começa a
procurar, e a pensar onde procurar, em voz alta. Não é no chão, não é
na lua, não é na árvore. Não é na poça de lama. Não é no reflexo da
lua. Não é dentro de mim. Não são os seus olhos. Não é um animal (o
leão do Rousseau tinha aparecido silenciosamente detrás de um monte de
areia perto da torre e observava a cena). Olha a mulher de novo.
``Posso?'' - muito hesitantemente, se aproxima, e começa a abrir o
vestido dela, que se arqueia um pouco para trás; Rimbaud se acocora,
tira um dos seus olhos. Abre o vestido. Seus novos olhos estão nos
bicos dos seios dela. Ele põe os olhos novos, bem mais brilhantes;
talvez ele jogue um dos antigos pro leão. A mulher diz: ``nós nos
veremos de novo''. Rimbaud: ``espere! Eu preciso perguntar uma coisa. Eu
vou ser tão bonito quanto você?'' ``Você vai entender.'' Ela fecha os
olhos dele, e vai embora.

Quando ele a encontra de novo ela é a mulher do Verlaine. Ele nunca
consegue olhar pra ela direito de novo, porque ela parece saber tudo,
e em silêncio. E Rimbaud nunca entende a sua dureza.

Verlaine vê em Rimbaud uma maravilha, e uma oportunidade para
experimentar o caos, tanto das suas próprias emoções como dos seus
atos - ir numa sinuca do porto, tomar porres, puxar briga, gastar todo
o dinheiro, ver a lua nascer por um reflexo numa poça de água com óleo
na frente de uma garagem de motos - e ele deitado, com a cara na poça.

Ter Rimbaud perto é um privilégio incrível, uma redenção, e ao mesmo
tempo é viver na beira do abismo; ele pode perder Rimbaud a qualquer
momento, e ele nem entende direito o que é que o toca tanto quando
Rimbaud está por perto, o que é real ou imaginário, o que é sério,
belo, ou ridículo.

Rimbaud: ``Eu me lembro de uma noite em especial - é uma das minhas
memórias mais preciosas. Estávamos na casa de uma amiga, que tinha ido
viajar (a cena vai se transformando na casa da amiga; a janela ao
fundo mostra o Cristo Rendentor). Nós tomamos absinto como se fosse
ácido - LSD. Ficamos olhando um vaso de flores como se fosse uma
televisão. Ficamos abraçados no sofá durante horas. Eu não gostava do
cheiro dele, do Verlaine - ele me lembrava o cheiro de alguém que
procura emprego nos classificados do jornal, de roupas mal lavadas, de
cigarros, de muita energia desperdiçada tentando parecer ocupado -
tentando escapar dos olhares dos outros criando uma imagem medíocre e
comum. E ele era gordo, meio peludo, velho. 40 anos - eu tinha 17. É
engraçado, eu tenho 30 e tantos agora, e tenho vergonha de considerar
alguém de 40 como velho. Mas talvez o que conte sejam os anos passados
sentado na frente da televisão, fazendo pilhas de garrafas de cerveja
vazias, enquanto a sua mulher cuida das coisas da cozinha. O silêncio
entre os dois é que me intriga e me assusta...''

``Mas voltando, como eu queria ser a mulher do Verlaine - uma vida de
pratos e detergentes, esperando o Verlaine, que não vem - e nós
estávamos no sofá, e era tão mágico, porque não importava se os
cheiros dele eram bons ou ruins, não havia mais julgamentos, e ele me
tocava de um jeito que eu nunca mais consegui deixar ninguém me tocar,
e era como se não houvesse mais tempo, como se todas as realidades se
misturassem, como se ele estivesse me ensinando a chegar num mundo que
era tão intenso quanto o meu mundo das palavras, e era através do
corpo... e no fim, quando o sol estava quase nascendo, ele deixou umas
gotas dentro de mim - toda vez que eu me lembro delas é como se fossem
pedras preciosas que ele me deu de presente, e que elas estão a salvo
- são as únicas memórias que eu tenho que são realmente minhas, que eu
tenho certeza de que eu não roubei de ninguém, e que ninguém vai
conseguir me tirar.''

``Mas nós nunca conseguimos repetir isso. Eu nunca mais vi esse
Verlaine, que era tão puramente mágico, e imaterial. Em todas as
outras vezes eles parecia cercado de uma nuvem de horrores e
mediocridades, que o rodeavam como urubus. Um dos meus medos é de ter
roubado a força dele pra mim - e isso por acidente. Eu achava que as
lembranças dessa noite iriam deixar nós dois mais fortes, mas não.
Verlaine definhava, e ia virando cada vez um mero fiapo de si mesmo,
preso num invólucro de carne malcheirosa, de apartamentos de paredes
cinzas de nicotina, de obrigações sociais que o obrigavam ao
silêncio.''

``Eu me sentia responsável.''

``Eu me sentia {\it amaldiçoado}.''

Vai até a janela da casa do Verlaine. Ele e a mulher do Verlaine se
tocam através do vidro, como se um fosse o reflexo do outro.

``Toda vez que eu escrevo um poema algumas das frases são ambíguas - e
quando alguém lê um poema meu, ou até quando eu o releio um ano
depois, essas frases ambíguas perderam o sentido, e não é possível
sequer perguntar o que elas queriam dizer... a poesia é uma forma de
comunicação sem resposta, em que a mensagem não chega até o outro
lado... é como mandar um pedido de socorro num papel dentro de uma
garrafa, mas esquecer de fechar a garrafa, e o papel ir sendo comido
por insetos, ou se dissolvendo... e eu não aguento mais, eu comecei
com poesia porque eu precisava de mundos e de caminhos'' - (a torre e o
caminho aparecem, balançantes, no fundo do palco) - ``e agora o que eu
tenho são só Verlaines se dissolvendo. Eu não aguento mais.''

\bsk


Fragmentos escritos em 28 de outubro de 2002:

O tio do Ooamu morre louco. Em outras épocas os tocadores de tambor da
tribo ainda saberiam como reintegrar alguém que enlouquece, mas agora
não, nós só sabemos olhar para um louco como está perdido para sempre,
inatingível - e o louco olha pra nós como pessoas que eram como ele,
que o entendiam, e que agora não entendem mais, e e nunca vão
entender. Esses abismos entre pessoas não existiam, e vieram com o
domínio francês.

Um cortejo passa com o morto numa rede. Música, mas poucas vozes além
disso. Rimbaud pensa no que fazer e só lhe ocorrem poemas - inúteis.
Ele se sente pobre por não ter um abraço pra dar.

Antes disso deve ter tido uma cena em que o Rimbaud está se arrastando
pelas bordas de um vilarejo, doente, com fome e com sede; há dias ele
não come nada. Ele tinha se isolado dentro dos seus pensamentos e não
queria chegar perto de ninguém. Numa hora ele afinal pede socorro
batendo à porta de uma casinha, e é socorrido imediatamente sem que
lhe perguntem nada; só depois que ele está totalmente recuperado
começam a lhe pedir que ajude em uma tarefa aqui e outra ali, mas com
uma leveza que pro Rimbaud é algo de outro planeta. Ele não vê como se
livrar das suas desconfianças e da sua rigidez.

Rimbaud e Ooamu se encontram pela primeira vez numa cena onírica em
que passa um grupo com vários seres dançando - pessoas, o leão do
Rousseau, e outras criaturas que eu ainda não bolei. O Ooamu fica
curioso pelo jeito do Rimbaud ficar parado e se aproxima dele e faz
algumas perguntas. A conversa deles é cheia de longos silêncios.

\bsk

Ataque de inspiração No. 2 (11 de novembro de 2002):

Sobre porque ele começou a traficar armas:

Num mundo em que as pessoas perderam a sensibilidade, a única coisa
que realmente importa é a morte

\msk

Os meus biógrafos dirão: ``e ele tinha uma esposa africana, muito
bonita'' - ninguém se perguntará: ``mas que relação é essa?'' - Ela se
comportava como esposa, sim; ela parecia servil, sim; mas isso é
apenas uma casca vazia - porque o recheio é outro, e está em outro
lugar. (Rimbaud e a esposa agora falam em uníssono; a entonação deve
lembrar os coros do teatro Nô) ``Porque nós éramos estranhos em nossa
própria terra - porque nós olhávamos para o que ninguém mais via -
porque sempre nos disseram que não tínhamos os pés no chão - porque
nós vivemos num mundo de imbecis - porque nem os nossos corpos
poderiam nos proporcionar alguma paz ou satisfação; porque somos
sempre inquietos, como os tubarões, que precisam nadar o tempo todo
sem descanso, pra não afundar - porque vemos o futuro, o apodrecimento
dos nossos corpos, o apodrecimento das nossas palavras, pernas
amputadas, velhices malcheirosas, e umas poucas pessoas que ainda vão
gostar de nós vão estar gostando de imagens que não têm nada a ver com
o que realmente somos.

Nós estamos juntos porque nós somos um, e somos exatamente iguais.
Porque vemos o mundo do mesmo modo. O universo é uma bola que cabe
dentro da nossa cabeça. (Tiram de dentro de uma caixa um balão preto
com pontos brancos, como estrelas. O balão nem é muito grande; é meio
vazio, aliás. Cantam:) ``Ground control to Major Tom / Ground control
to Major Tom'' (talvez toda a parte principal do ``Space Oddity'', do
David Bowie).

\bsk

Felipe/Chris: Esse Rimbaud é uma parte importante de nós, mas ele nos
assusta.

Rimbaud: Eu crio, cento e tantos anos no futuro, personagens que me
entendam e que vivam num mundo diferente; talvez eles consigam me
apontar uma saída.

F/C: À medida que ele envelhece ele deixa de ser o gênio hipersensível
e passa a ser um monstro de amargura. Ele se fecha em si mesmo, e os
caminhos que ele traça para si não têm saída. Ele mergulha no próprio
umbigo, e o que é pior, o que ele encontra é muito mais intenso e
convincente do que o que está do lado de fora. Nós vivemos nos
esfalfando pra conseguir migalhas de contato com pessoas e com o mundo
exterior. Essas migalhas são pequenas e banais, mas elas nos
alimentam. Esse Rimbaud se envenena com essas atitudes, e nos
envenena. Nós gostaríamos de extirpá-lo de nós, como se ele fosse um
câncer.

R: Eles são amargos e cruéis. Eles não hesitam em descartar uma pessoa
que se torna inconveniente. Eles não hesitam em tachar alguém como
louco, e depois disso passarem a se lembrar dessa pessoa como alguém
que já morreu.

F/C: Como aquelas namoradas que agem como se tivessem direito a tudo e
nos massacram. Aquelas que se vêem como vítimas da sociedade.




% «akhmatova»  (to ".akhmatova")
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
\newpage

De: {\bf Requiem}

(Anna Akhmátova)

\vskip 1cm

{\bf Epígrafe}

\lvbox

Não, não foi sob outro firmamento,

Nem sob a proteção de asas estranhas:

Estive então entre meu povo,

Lá onde meu povo, infelizmente, estava.

(1961)

\vskip 1.5cm

% http://en.wikipedia.org/wiki/Nikolay_Ezhov

{\bf Em lugar de prefácio}

\lvbox

    Nos anos terríveis da ejóvchina passei 17 meses nas filas da prisão
  de Leningrado.

    Uma vez alguém me ``identificou''. Então uma mulher de lábios azuis
  que estava atrás de mim e que nunca, é claro, ouvira o meu nome,
  despertou do torpor peculiar a todos nós e me perguntou no ouvido
  (lá todos sussurravam):

    - E isso você é capaz de contar?

    E eu disse:

    - Sou.

    Então algo como um sorriso passou por aquilo que outrora foi seu
  rosto.

      (1º de abril de 1957. Leningrado.)

\newpage

\begin{verse}
   {\bf 1.}
\\ \lvbox
\\ Levaram-te ao amanhecer,
\\ Atrás de ti, como no enterro, eu ia,
\\ No quarto escuro, choravam os meninos.
\\ Acabava-se a vela sobre o altar.
\\ Nos lábios teus, do ícone, o frio.
\\ O suor mortal na testa... Não dá para esquecer!
\\ Como as mulheres dos franco-atiradores,
\\ Uivarei pelas torres do Kremlin.
\\   (1935. Moscou.)
\\ \lvbox
\\ \lvbox
\\ \lvbox
\\ {\bf 7. Veredicto}
\\ \lvbox
\\ E a palavra de pedra caiu
\\ Em meu peito ainda vivo.
\\ Não é nada, já estava preparada.
\\ Darei um jeito, de qualquer maneira.
\\ \lvbox
\\ Hoje, tenho muito que fazer:
\\ É preciso acabar com o eco da memória,
\\ É preciso que a alma se transforme em pedra,
\\ É preciso reaprender a viver.
\\ \lvbox
\\ Se não... O quente farfalhar do estio,
\\ Uma festa, atrás do meu postigo.    
\\ Há tempo pressentira esse
\\ Dia claro e a casa vazia.
\\   (22 de junho de 1939)
\end{verse}


% «anneclark»  (to ".anneclark")
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
\newpage

\begin{verse}
  {\bf Sleeper In Metropolis}
\\ (Anne Clark)
\\ \lvbox{}
\\ As a sleeper in metropolis
\\ You are insignificance
\\ Dreams become entangled in the system
\\ \lvbox{}
\\ Environment moves over the sleeper:
\\ Conditioned air
\\ Conditions sedated breathing
\\ The sensation of viscose sheets on naked flesh
\\ Soft and warm
\\ But lonesome in the blackened ocean of night
\\ \lvbox{}
\\ Confined in the helpless safety of desires and dreams
\\ We fight our insignificance
\\ The harder we fight
\\ The higher the wall
\\ \lvbox{}
\\ Outside the cancerous city spreads
\\ Like an illness
\\ Its symptoms
\\ In cars that cruise to inevitable destinations
\\ Tailed by the silent spotlights
\\ Of society created paranoia
\\ \lvbox{}
\\ No alternative could grow
\\ Where love cannot take root
\\ No shadows will replace
\\ The warmth of your contact
\\ \lvbox{}
\\ Love is dead in metropolis
\\ All contact through glove or partition
\\ What a waste
\\ The City -
\\ A wasting disease 
\end{verse}

% (find-THfile "anaisnin.blogme")
% (find-livesofanimalstext "piddling distinctions")
% (find-orgfile "Lyrics.org" "Anne Clark - Sleeper in Metropolis")
% (find-orgfile "Lyrics.org" "Iggy Pop: Dum-Dum Boys")



% «eliot»  (to ".eliot")
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
\newpage


{
\def\lvbox{\leavevmode\hbox{}}
\def\onesp #1{\leavevmode\hbox to 4em{}{\sl #1}}
\def\sec   #1{\leavevmode\hbox to 2em{}{\bf #1}}
\def\bigind#1{\leavevmode\hbox to 8em{}{\sl #1}}
\begin{verse}
   {\bf The Hollow Men}
\\ (T.\ S.\ Eliot)
\\ \lvbox
\\ \onesp  {Mistah Kurtz - he dead.}
\\ \onesp  {A penny for the Old Guy}
\\ \lvbox
\\ \sec { I }
\\ \lvbox
\\ We are the hollow men
\\ We are the stuffed men
\\ Leaning together
\\ Headpiece filled with straw. Alas!
\\ Our dried voices, when
\\ We whisper together
\\ Are quiet and meaningless
\\ As wind in dry grass
\\ Or rats' feet over broken glass
\\ In our dry cellar
\\ \lvbox
\\ Shape without form, shade without colour,
\\ Paralysed force, gesture without motion;
\\ \lvbox
\\ Those who have crossed
\\ With direct eyes, to death's other Kingdom
\\ Remember us - if at all - not as lost
\\ Violent souls, but only
\\ As the hollow men
\\ The stuffed men.
\\ \lvbox
\\ \sec { II }
\\ \lvbox
\\ Eyes I dare not meet in dreams
\\ In death's dream kingdom
\\ These do not appear:
\\ There, the eyes are
\\ Sunlight on a broken column
\\ There, is a tree swinging
\\ And voices are
\\ In the wind's singing
\\ More distant and more solemn
\\ Than a fading star.
\\ \lvbox
\\ Let me be no nearer
\\ In death's dream kingdom
\\ Let me also wear
\\ Such deliberate disguises
\\ Rat's coat, crowskin, crossed staves
\\ In a field
\\ Behaving as the wind behaves
\\ No nearer -
\\ \lvbox
\\ Not that final meeting
\\ In the twilight kingdom
\\ \lvbox
\\ \sec { III }
\\ \lvbox
\\ This is the dead land
\\ This is cactus land
\\ Here the stone images
\\ Are raised, here they receive
\\ The supplication of a dead man's hand
\\ Under the twinkle of a fading star.
\\ \lvbox
\\ Is it like this
\\ In death's other kingdom
\\ Waking alone
\\ At the hour when we are
\\ Trembling with tenderness
\\ Lips that would kiss
\\ Form prayers to broken stone.
\\ \lvbox
\\ \sec { IV }
\\ \lvbox
\\ The eyes are not here
\\ There are no eyes here
\\ In this valley of dying stars
\\ In this hollow valley
\\ This broken jaw of our lost kingdoms
\\ \lvbox
\\ In this last of meeting places
\\ We grope together
\\ And avoid speech
\\ Gathered on this beach of the tumid river
\\ \lvbox
\\ Sightless, unless
\\ The eyes reappear
\\ As the perpetual star
\\ Multifoliate rose
\\ Of death's twilight kingdom
\\ The hope only
\\ Of empty men.
\\ \lvbox
\\ \sec { V }
\\ \lvbox
\\ {\it Here we go round the prickly pear}
\\ {\it Prickly pear prickly pear}
\\ {\it Here we go round the prickly pear}
\\ {\it At five o'clock in the morning.}
\\ \lvbox
\\ Between the idea
\\ And the reality
\\ Between the motion
\\ And the act
\\ Falls the Shadow
\\ \bigind                    {For Thine is the Kingdom}
\\ \lvbox
\\ Between the conception
\\ And the creation
\\ Between the emotion
\\ And the response
\\ Falls the Shadow
\\ \bigind                    {Life is very long}
\\ \lvbox
\\ Between the desire
\\ And the spasm
\\ Between the potency
\\ And the existence
\\ Between the essence
\\ And the descent
\\ Falls the Shadow
\\ \bigind                    {For Thine is the Kingdom}
\\ \lvbox
\\ For Thine is
\\ Life is
\\ For Thine is the
\\ \lvbox
\\ {\it This is the way the world ends}
\\ {\it This is the way the world ends}
\\ {\it This is the way the world ends}
\\ {\it Not with a bang but a whimper.}
\end{verse}
}



% «snyder»  (to ".snyder")
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
\newpage

  \begin{verse}
  {\bf Hay for the Horses}			\\
  (Gary Snyder)					\\
    \lvbox{}	    				\\
  He had driven half the night			\\
  From far down San Joaquin			\\
  Through Mariposa, up the			\\
  Dangerous Mountain roads,			\\
  And pulled in at eight a.m.			\\
  With his big truckload of hay			\\
    \quad  behind the barn.			\\
  With winch and ropes and hooks		\\
  We stacked the bales up clean			\\
  To splintery redwood rafters			\\
  High in the dark, flecks of alfalfa		\\
  Whirling through shingle-cracks of light,	\\
  Itch of haydust in the			\\
    \quad  sweaty shirt and shoes.		\\
  At lunchtime under Black oak			\\
  Out in the hot corral,			\\
  ---The old mare nosing lunchpails,		\\
  Grasshoppers crackling in the weeds---	\\
  ``I'm sixty-eight'' he said,			\\
  ``I first bucked hay when I was seventeen.	\\
  I thought, that day I started,		\\
  I sure would hate to do this all my life.	\\
  And dammit, that's just what			\\
  I've gone and done.''				\\
  \end{verse}



% «gaiman»  (to ".gaiman")
% (find-TH "gaiman")
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
% ----------------------------------------------------------------------
%\newpage
%\rrjfile{Gaiman}

% Previous:
\def\mywid{5em}
\def\who#1{\hangfrom{\hbox to \mywid{\bf #1:\hss}}}
\def\more {\hangfrom{\hbox to \mywid{       \hss}}}

% Now:
\def\FROM#1#2{\rrjday{#2}}
\long\def\FROM#1#2{\newpage{\textsf{[#1: #2]}\bsk}}
\long\def\FROM#1#2{\newpage{\textrm{[#1: #2]}\bsk}}
\def\wsk{\ssk}
\def\brktsk{\msk}
\def\psk{\bsk\msk}
\def\mywid{3em}
\long\def\who#1 #2{\hangfrom{\hbox to \mywid{\bf #1\hss}}{#2}\par}
\long\def\more  #1{\hangfrom{\hbox to \mywid{      \hss}}{#1}\par}

\long\def\FROM#1#2{\newpage{De: {\bf #2} \par (Neil Gaiman) \bsk}}



\def\mywid{2em}


\FROM {From} {Thermidor}

\who{J:} {Monsieur Robespierre...}

\more    {Even now it is not too late.}

\more    {You can let me go. I will take what I came for and leave France, and
         never bother you again.}
\wsk
\who{J:} {Remember this: that I offered you one last chance to let the matter die.}
\who{R:} {Mademoiselle, your attempts to threaten me are laughable, and pathetic.}
\wsk
\who{J:} {Very well, Citizen. This is the head of Orpheus. Ripped from his}
\more    {living body by the Bacchante. They used their bare hands.}
\more    {The Women of the Frenzy...}
\wsk
\who{J:} {They threw his head into the Hebrus, and it is said that it still
         called the name of his lost one as it floated down to the sea.}
\more    {This is the head of Orpheus, who bested death, and who now cannot die.}
\wsk
\who{R:} {Do you take us for peasants, Johanna?}
\more    {The myths are dead. The gods are dead. The ghosts and ghouls and
         phantoms are dead.}
\more    {There is only the State, and the People.}
\wsk
\who{J:} {No, Monsieur Robespierre.}
\more    {There is much more than that.}
\wsk
\who{R:} {Enough of this nonsense.}
\more    {Henri -- bring me that head.}
\wsk
\who{J:} {(covering her ears:)}
\more    {Now. Messire Orpheus.}
\more    {Sing to them.}
\wsk
\who{J:} {\it (as if narrated afterwards - written in a page of a diary)}
\more    {My ears were covered, but I could not entirely obliterate the sound
         the head made, as its began its song. Although I possess a Modicum
         of Greek, the most part of the words it used were unfamiliar to me.}
\more    {Still, by what Means or Mechanism I cannot say, I found myself
         deriving some Measure of Sense from its chanting. The head sang
         first of Blood, of the baying, senseless cries of the Mob; of the
         Anger of Women and Men; of the Worm that devours its own Flesh.}
\wsk
\who{J:} {{\it (again, as in a page of diary, not in a balloon)}}
\more    {Then it sang of Freedom, of Liberty of Love. And as it sang, I
         gasped in dumbfoundment, for other voices were also raised in
         jagged Unison. Discordant Voices, Harsh Voices, the Voices of the
         Dead; and my friend (for so I now bethought him) no longer sang
         Alone.}
\wsk
\who{J:} {\it (again, as in a page of diary, not in a balloon)}
\more    {The Ghastly Chorus sang of those who lead; of those who, by Virtue
         or Circumstance, are Raised above the Crowd; who manipulate the
         commonality will-they or nil-they, as a Puppet-master tugs on the
         Strings of a Marionette, or a Romany Traveller pulls the leash of
         his Dancing Bear. It sang of a dream -- and of the Ending of the
         Dream.}
\wsk
\who{J:} {\it (again, as in a page of diary, not in a balloon)}
\more    {I am not able to conceive what it must have been like to hear that
         song unprotected. M.\ St.-J\_\_\_ and M.\ R\_\_\_, and their Manservant,
         stood and listened like Statues, like Men Entranced.}
\wsk
\who{J:} {\it (again, as in a page of diary, not in a balloon)}
\more    {After what seemed an Age, the Song ceased; and still they stood
         there.}
\wsk
\who{J:} {\it (again, as in a page of diary, not in a balloon)}
\more    {And taking what I had come for, I left that Place.}
\wsk
\who{J:} {\it (balloon; knocking down a guard with a punch on the back of the
         head:)}
\more    {My apologies, sir.}
\brktsk
\more   {[Johanna Constantine left Paris shortly after dawn on that day, 8th
         Thermidor, Year II.]}
\wsk
\more   {[On the 9th Thermidor, Louis-Antoine St.-Just, the great orator,
         faltered during his speech before the commonal convention, and fell
         silent.]}
\wsk
\more   {[Maximilien Robespierre, the most powerful man in France, then
         attempted to speak. Until that point he had been listened to with
         awe, or fear, or silence.]}
\more   {[Now, for the first time, he found himself laughed at, and, also for
         the first time, he was lost for words.]}
\wsk
\more   {[That night he and his faction were deposed and arrested, and during
         the arrest Robespierre was shot in the jaw. Or perhaps he fumbled a
         suicide attempt. The truth here is a matter of conjecture.]}
\wsk
\more   {[It is, however, a matter or record that the next day, his shattered
         jaw bound by a paper bandage, he watched St.-Just step up,
         silently, to the guillotine.]}
\wsk
\more   {[And it is also a matter of record that, in the end, Monsieur
         Sanson, the executioner, ripped off the paper bandage that held his
         jaw together.]}
\wsk
\more   {[And that Robespierre's final wordless scream of pain was cut off,
         with his head, by the fall of the weighted blade.]}
\more   {[The Terror died with him.]}



\newpage
\FROM {From} {Orpheus}
% ------------

\who{P:} {Thou hast made the Furies weep, Orpheus. This is unheard of.}
\who{H:} {A nice offer, but pointless. Thou does not belong here, mortal.}
\wsk
\who{O:} {Give me my bride and I will leave this place.}
\wsk
\who{P:} {Thou hast made the Furies cry, Orpheus. They will never forgive you
         for that.}
\wsk
\who{H:} {Thou art disrupting my perfectly-ordered world, Orpheus.}
\more    {So be it. But there are conditions. There are rules.}
\more    {There are always rules.}







\FROM {From} {Ramadan}
% ------------

\who{C:} {Look around you, Dream King.}
\more    {What do you see?}
\wsk
\who{S:} {I see a remarkable place.}
\who{C:} {Indeed -- it is a land of miracles.}
\wsk
\who{C:} {Will you buy it from me?}
\wsk
\who{S:} {I have no desire to be king of any mortal land.}
\wsk
\who{C:} {No...}
\more    {You misunderstand me.}
\wsk
\who{C:} {This is the greatest city that Allah, may he be praised from the
         rising of the sun in the morning to the setting of the sun in the
         evening, and also in the nighttime, and in the hours before dawn,
         has seen fit with which to bless the world.}
\more    {And this is the perfect age.}
\wsk
\who{S:} {So?}
\wsk
\who{C:} {How long can it last? How long will people remember?}
\wsk
\who{C:} {I have seen the world, Dream King.}
\wsk
\who{C:} {I have ridden throught the deserts, and seen the rocks and old
         walls and statues breathed up by the desert wind in the empty
         wasted of sand;}
\wsk
\who{C:} {``and then the wind and the sand come up once more and the remnants
         of cities and palaces and gods vanish for another age of man,
         forgotten and unremembered...''}
\wsk
\who{C:} {This is as good as it's going to be, isn't it?}
\who{S:} {It may be so...}
\wsk
\who{C:} {...but Allah alone knows all. Indeed.}
\wsk
\who{C:} {I am Haroun Ibn Mohammed Ibn Ali Ben Abdullah Ibn Abbas, Caliph of
         Baghdad. I propose to give you this city. My city. I submit that
         you purchase it from me: take it into dreams.}
\wsk
\who{S:} {And in exchange?}
\wsk
\who{C:} {In exchange I want it never to die. To live forever. Can you do
         this thing?}
\wsk
\who{S:} {After a fashion, I can.}
\wsk
\who{C:} {And what needs to happen to make it so? Is there some spell you
         must perform? Is there a quest I must go on, to some far country?
         Is there some grand deed?}
\who{S:} {No.}
\wsk
\who{S:} {All you need to do is tell your people. They follow you, after all.}
\more    {And yours is the dream.}
\wsk
\who{C:} {Very well.}
\wsk
\who{C:} {Hear me, my people! I, your Caliph, Haroun Al Raschid, of the
         Hashimi bloodline, proclaim on this day, in this place, that I have
         given the Golden Age of Baghdad, of Araby, to this one who stands
         by my side.}
\wsk
\who{C:} {It is his forever...}
\wsk
\who{C:} {...providing that as long as mankind lasts...}
\wsk
\who{C:} {...our world is not forgotten.}


\psk


\who{B:} {But what happened to Haround Al Raschid? Or to the old city of
         Baghdad? Or to...}
\wsk
\who{E:} {Hold, little one. Do you have another coin?}
\who{B:} {...no.}
\who{E:} {Any more cigarettes?}
\who{B:} {No.}
\wsk
\who{E:} {Then I think I have spoken enough for today. If you are here
         tomorrow, then perhaps I will tell you more.}
\more    {Go home, boy. These are bad times, and your mother will be
         worrying.}
\wsk
\who{B:} {But how did it work? The bargain? How could the city last?}
\wsk
\who{E:} {Go home.}
\brktsk
\more  {[His question unanswered, Hassan stumbled homeward, picking his way
        in a series or child's shortcuts across the bomb sites and the
        rubble of Baghdad.]}
\wsk
\more  {[And, though his stomach hurts (for fasting is easy, this Ramadan,
        and food is hard to come by) his head is held high and his eyes are
        bright.]}
\wsk
\more  {[For behind his eyes are towers and jewels and Djinn, carpets and
        rings and wild afreets, kings and princes and cities of brass.]}
\wsk
\more  {[And he prays as he walks (cursing his one weak leg the while), prays
        to Allah (who made all things) that somewhere, in the darkness of
        dreams, abides the other Baghdad (that can never die), and the other
        egg of the phoenix.]}
\wsk
\more  {[But Allah alone knows all.]}




\def\mywid{3em}


\FROM {De} {Um sonho de mil gatos % (A Dream of a Thousand Cats)
  }
% --------------------

\who{OG:} {Tsss! É hoje!}
\who{GP:} {O quê?}
\who{OG:} {Ela está aqui. Você vem? Deve ser divertido.}
\wsk
\who{GP:} {Não sei como sair. Não posso atravessar nenhuma das aberturas na
          parede.}
\wsk
\who{OG:} {Lá em cima tem um buraco meio aberto. Você pode sair por ele.}
\wsk
\who{OG:} {Mexa essa cauda, pequenina. Não podemos perder essa.}
\wsk
\who{OG:} {Ohh! Está sentindo isso, criança? É o chamado da noite!
          Corra, corra!}
\wsk
\who{GP:} {Espere por mim. Espere por mim, por favor!}
\wsk
\who{GP:} {Como será que ela é?}
\who{OG:} {Quem sabe? Não é um gato comum.}
\wsk
\who{TG:} {Bem-vindos, andarilhos da noite.}
\who{GP:} {Olá. Estamos indo vê-la.}
\wsk
\who{TG:} {Eu também, embora não acredite muito nela...}
\who{OG:} {Então por que está aqui?}
\who{TG:} {Hummpf. Curiosidade, talvez.}
\wsk
\who{GP:} {Eu quero saber o que ela tem a dizer.}
\wsk
\who{OG:} {Todos nós queremos, jovem. Todos nós.}
\wsk
\who{GA:} {Irmãs... Irmãos... Boa caçada.}
\more     {Obrigada por virem me escutar; por sua disposição em ouvir minha
          mensagem.}
\more     {E espero que quando eu terminar, alguns de vocês possam
          compartilhar de meu sonho.}
\wsk
\who{GA:} {Nem sempre fui como vocês me vêem hoje.}
\more     {Um dia, muitos ontens atrás, eu, e muitos de vocês, servíamos aos
          seres humanos, vivendo no mundo deles: diversão, posse e
          brinquedo.}
\wsk
\who{GA:} {Eu me iludia... como talvez, muitos de vocês se iludem... que
          tinha controle de minha vida.}
\more     {Afinal, eles me alimentavam... me davam conforto e calor.}
\wsk
\who{GA:} {E o que eu dava em troca? Alguma afeição, talvez. Minha presença.}
\more     {Na verdade, era pouco pelo que eles ofereciam.}
\wsk
\who{GA:} {Ele era um gato de rua.}
\wsk
\who{GA:} {Orelha rasgada.}
\more     {Olhos negros.}
\more     {Era minha época de amar. Ele foi o meu escolhido.}
\wsk
\who{GA:} {Nosso prazer um pelo outro, e a consumação de nossa fome mútua,
          foi urrada aos céus, e gritada aos arcos do firmamento.}
\wsk
\who{GA:} {Ele era forte e rápido. Suas garras e dentes eram afiados como o
          inverno.}
\more     {Nunca o vi outra vez. Mas jamais o esqueci.}
\wsk
\who{GA:} {No tempo certo, nosso prazer trouxe frutos, uma maravilhosa
          combinação dos traços de nós dois.}
\more     {Eu antecipava o entusiasmo de como os ensinaria sobre a vida...}
\more     {Os prazeres de se lavar, de caçar, de sobreviver.}
\more     {Eles me sussurravam sua felicidade: por tomar carne de minha
          linhagem, provar o ar e o leite. Eles murmuravam sua crença no
          futuro.}
\wsk
\who{GA:} {Meus humanos, entretanto, não compartilhavam de nossa alegria.}
\who{H:}  {Você sabia que ela estava no cio! Droga! Por que não a prendeu?}
\who{M:}  {Pare de reclamar, Paul! Eles não são uma gracinha?}
\wsk
\who{H:}  {Gracinha? Ela é uma Siamês ``Blue Point'' legítima.}
\more     {Estas bolinhas de pêlo não valem porcaria nenhuma.}
\wsk
\who{GF:} {miip.}
\wsk
\who{GA:} {Eu os senti de longe, na escuridão, enquanto a água fria os
          levava...}
\more     {Eu os senti se debaterem e arranharem cegamente... me chamando, em
          seu pânico e medo.}
\wsk
\who{GA:} {E então eles se foram.}
\wsk
\who{GA:} {Foi só então que descobri o quanto estava enganada. Que éramos
          subordinados. E, enquanto vivêssemos com os humanos, não
          poderíamos nos considerar livres.}
\more     {E eu rezei.}
\wsk
\who{H:}  {Pelo amor de Deus, Marion! Ela nem sabe o que aconteceu... Olha
          só! Ela deve estar até aliviada!}
\more     {A coitada é quase um filhote ainda. Ela não ia aguentar...}
\who{M:}  {Você tem razão, Paul. Mas, mesmo assim, eu me sinto... meio
          culpada.}
\wsk
\who{GA:} {Rezei para a escuridão. Para a noite.}
\more     {Rezei para o Rei dos Gatos, o emissário da raça na Terra, aquele
          que anda entre nós e não o conhecemos.}
\more     {Eu rezei...}
\wsk
\who{GA:} {E sonhei.}
\wsk
\who{A:}  {Por que se aventurou até o coração do Sonhar, pequena gata?}
\more     {Não há nada aqui para você.}
\wsk
\who{GA:} {Vim em busca de justiça; vim pela revelação; vim pela sabedoria.}
\wsk
\who{GA:} {O pássaro voou mais baixo. Mas não ao meu alcance.}
\more     {``Justiça?'', ele repetiu. ``Justiça é uma ilusão que você não
          encontrará nesta ou em qualquer outra esfera.''}
\more     {``Sabedoria?'' Ela não faz parte do Sonhar, ágil andarilha, embora
          os sonhos sejam uma parcela das experiências de cada vida, que é a
          única sabedoria que importa.}
\wsk
\who{A:}  {Mas revelação?}
\more     {Esta é a província do sonho.}
\more     {Ela pode ser sua... mas apenas se seu coração for forte.}
\wsk
\who{A:}  {Vê aquela montanha? Lá existe uma caverna onde vive o misterioso
          Gato dos Sonhos, o regente desse mundo adormecido.}
\more     {Procure-o. Mas cuidado. O caminho até a caverna é difícil. E muito
          pode acontecer a uma pequena gata.}
\wsk
\who{GA:} {Todos os lugares são iguais para mim. Encontrarei a caverna e
          minhas respostas.}
\more     {Não tenho medo.}
\wsk
\who{A:}  {Então boa sorte, filha.}
\brktsk
\more {[Deixei o deserto de ossos e comecei a longa jornada para o lar do
      gato dos sonhos.]}
\wsk
\more {[Atravessei a floresta dos fantasmas, onde os mortos e perdidos
      sussurravam continuamente, prometendo-me mundos se eu parasse para
      brincar com eles.]}
\more {[Fechei meus ouvidos às suas lamúrias.]}
\wsk
\more {[Num certo momento pensei ter ouvido meus filhos me chamando, mas
      ergui minha cauda e continuei em frente.]}
\wsk
\more {[Caminhei através de lugares frios e gelados, onde cada passo era dor,
      cada movimento, um tormento.]}
\more {[Mas eu continuei.]}
\wsk
\more {[Cruzei a umidade que amorteceu minhas patas e encharcou meu pêlo,
      tentando lavar minhas memórias.]}
\wsk
\more {[Atravessei a escuridão e o vácuo, onde tudo o que faz de mim o que
      sou me foi sugado.]}
\more {[Mas mesmo no vazio do puro nada, sem saber mais por que estava andando
      ou o que buscava, eu continuei em frente.]}
\wsk
\more {[Então, depois de algum tempo, saí daquele lugar e meu ser voltou a
      mim: eu estava na montanha do Gato dos Sonhos.]}
\wsk
\more {[Vi a caverna e seus guardiões e disse a eles, ``vim para falar com o
      Gato dos Sonhos''.]}
\brktsk
\who{GR:} {Por que deixaríamos você entrar, pequeninha?}
\more     {Uma pequena bocada, e a maioria pele e osso.}
\wsk
\who{CA:} {Por que o Senhor dos Sonhos deveria ser perturbado por alguém como
          você?}
\wsk
\who{GR:} {E então? Responda.}
\more     {O Senhos dos Sonhos ficará furioso se for molestado sem um bom
          motivo.}
\wsk
\who{GA:} {Vim de muito longe para voltar agora, Grifo.}
\more     {Anunciarei minhas intenções ao Senhor dos Sonhos, e somente a ele.}
\more     {Sou uma gata, e mantenho meu intento.}
\wsk
\who{DR:} {Entre, então, gatinha.}
\more     {Mas esteja prevenida: sonhos têm seu preço.}
\brktsk
\more {[E assim, eu prossegui.]}
\wsk
\more {[O aroma no ar era estranho, mas ainda era felino.]}
\more {[Cada sentido meu gritava para que eu fugisse dali, mas, com o pêlo
      eriçado e as garras preparadas, caminhei vagarosamente para dentro.}
\more {E então parei diante dele.]}
\brktsk
\who{GA:} {Estou aqui.}
\wsk
\who{GS:} {E quem seria você?}
\wsk
\who{GA:} {Uma gata. Uma andarilha noturna. Um corvo morto me mandou aqui, em
          busca de revelação.}
\brktsk
\more {[Tentei parecer confiante, mas, na verdade, estava apavorada.]}
\brktsk
\who{GS:} {Venha comigo, então, pequena irmã, e diga porque me procurou.}
\wsk
\who{GA:} {Eu... eu quero entender.}
\more     {Por que eles puderam tirar os meus filhos de mim? Por que vivemos
          dessa forma? Eu não compreendo.}
\wsk
\who{GS:} {Dizem que apenas um Rei pode olhar um gato de frente.}
\more     {Olhe dentro dos meus olhos, pequena irmã.}
\more     {Olhe dentro dos meus olhos.}
\brktsk
\more {[E assim ele me mostrou a verdade, exatamente como estou contando-a a
      vocês agora.]}
\wsk
\more {[Naqueles olhos eu vi imagens. E nas imagens eu vi a verdade.]}
\brktsk
\who{GS:} {Todos os gatos podem ver futuros e ecos do passado. Podemos
          assistir à passagem de criaturas da infinitude do agora, de todos
          os mundos fracionalmente diferentes do nosso.}
\more     {Nós seguimos coisas espectrais com os olhos. E os humanos nada
          vêem.}
\brktsk
\more {[Mas a realidade que o Gato dos Sonhos me mostrou transcendia tudo que
      eu já imaginara.]}
\wsk
\more {[Muitas estações atrás, os gatos governavam o mundo.]}
\wsk
\more {[Éramos maiores então, e este mundo foi criado para nosso prazer. Nós
      andávamos à vontade, tomando o que queríamos.]}
\wsk
\more {[Naquela época, os humanos eram criaturas pequenas, menores do que
      somos hoje.]}
\wsk
\more {[Os humanos nos tratavam, nos alimentavam e nos acariciavam.]}
\wsk
\more {[E, quando a lua ficava cheia, nós os perseguíamos e comíamos alguns
      deles. Mas preferíamos a caça...]}
\wsk
\more {[...pois eles eram presas mais deliciosas que os pássaros; e, naqueles
      tempos, os ratos eram pequenos e insignificantes demais para o nosso
      prazer.]}
\wsk
\more {[Ah! Dias alegres aqueles... caçar sob a Lua dos Gatos. O Jogo do Gato
      e do Homem...]}
\wsk
\more {[Prrrrrr.]}
\wsk
\more {[Então, um humano surgiu entre eles. Um macho de pêlos dourados.
      Nascido e criado nos jardins idílicos de uma das damas felinas
      sibaritas.]}
\wsk
\more {[O humano teve um sonho, uma inspiração. Ele caminhou entre seus
      semelhantes e disse...]}
\brktsk
\who{H:}  {Sonhem! Sonhos moldam o mundo.}
\more     {Sonhos recriam o mundo, todas as noites.}
\wsk
\who{H:}  {Não sonhem o mundo como ele é agora, dominado por nossos senhores
          felinos.}
\more     {Sonhem um novo mundo. Sonhem um mundo de seres humanos. Sonhem um
          mundo em que nós somos os senhores, em que nós somos os reis e
          rainhas e os deuses.}
\more     {Sonhem um mundo no qual não mais seremos caçados e mortos por
          gatos.}
\wsk
\who{H:}  {Não sei quantos humanos serão precisos, mas temos que fazer isso!}
\more     {Muitos de nós sonharemos, então acontecerá.}
\more     {Sonhos moldam o mundo.}
\brktsk
\more {[E a Palavra se espalhou entre os humanos.]}
\more {[E alguns deles acreditaram e sonharam.]}
\more {[E, por algum tempo, nada aconteceu.]}
\wsk
\more {[Uma noite, porém, o bastante deles sonhou. Não foram precisos muitos.]}
\more {[Mil, talvez. Não mais.]}
\more {[Eles sonharam...]}
\wsk
\more {[E, no dia seguinte, as coisas mudaram.]}
\wsk
\more {[Os humanos ficaram enormes, tornaram-se a espécie dominante; e os
      gatos, presas deles, dos cães, e de suas máquinas de metal.]}
\more {[Presas para o mundo que os humanos criaram.]}
\wsk
\more {[Tudo isso eu vi quando olhei dentro do olhos do Gato dos Sonhos.]}
\brktsk
\who{GA:} {Então, eles sonharam o mundo como ele é hoje?}
\who{GS:} {Não exatamente.}
\wsk
\who{GS:} {Eles sonharam o mundo da forma que ele sempre foi, pequenina.}
\more     {Nunca houve um mundo de damas-gatos e lordes-gatos.}
\more     {Eles mudaram o Universo desde o início de tudo, até o final dos
          tempos.}
\wsk
\who{GS:} {Você compreende agora?}
\who{GA:} {Sim.
          Sim, entendo.}
\wsk
\who{GS:} {Então você já sabe qual será sua tarefa. Sabe o fardo que deverá
          carregar.}
\more     {Você é forte o bastante?}
\who{GA:} {Sim. Espero que sim.}
\wsk
\who{GS:} {Então desperte, criança. Com minha bênção.}


\psk


\who{GA:} {Entendam: eu vi o outro lado do que ele me havia dado.}
\wsk
\who{GA:} {Se eles puderam sonhar...}
\wsk
\who{GA:} {Nós também podemos trazer as coisas de volta. Se acreditarmos. Se
          sonharmos.}
\wsk
\who{GA:} {Dizem que nós somos os sonhos da raça carniceira... e talvez seja
          verdade.}
\more     {Mas, se o bastante de nós sonhar...}
\more     {Se apenas mil de nós sonharmos...}
\wsk
\who{GA:} {...poderemos mudar o mundo.}
\wsk
\who{GA:} {Nós podemos sonhá-lo de novo! Um mundo em que ninguém sofrerá com
          a malícia humana, no qual nenhum gato será morto pelo capricho dos
          homens.}
\more     {Um mundo em que nós mandaremos.}
\wsk
\who{GA:} {Deixei os humanos naquele mesmo dia para espalhar as boas novas.}
\wsk
\who{GA:} {E agora eu viajo de um lugar a outro.}
\more     {Andei léguas sem medida. Passei fome, às vezes; fui ferida. Mas
          prossegui minha caminhada.}
\more     {Numa máquina de metal, eu cruzei as águas frias.}
\wsk
\who{GA:} {Levei a Palavra a gatos solitários e ferozes em lugares isolados.}
\wsk
\who{GA:} {Gritei às estrelas minha mensagem do alto de telhados e a
          sussurrei aos gatos moribundos nos becos.}
\wsk
\who{GA:} {Contei isso tudo a muitos gatos. E, aonde quer que eu vá, minha
          mensagem é a mesma...}
\more     {Sonhem!}
\wsk
\who{GA:} {Sonhem o mundo. Não esta sombra pálida da realidade. Sonhem o
          mundo como ele realmente é.}
\more     {Um mundo em que todos os gatos são reis e rainhas da criação.}
\more     {Esta é minha mensagem.}
\wsk
\who{GA:} {Eu continuarei andando, e repetindo-a, até morrer.}
\more     {Ou até que mil gatos ouçam minhas palavras, e acreditem nelas, e
          sonhem...}
\wsk
\who{GA:} {...para voltarmos ao paraíso.}






%*

\end{document}

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