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Página sobre leis de desarmamento

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Acho que o problema principal do Brasil não é nem a corrupção nem o crime, é a burrice. E armas emburrecem. (Edrx)


From: "Mayra" <mayra@referendosim.com.br>
To: <mayrajuca@uol.com.br>
Subject: os argumentos da Mayra
Date: Thu, 13 Oct 2005 18:36:09 -0300

Amigos, quanto tempo! Muito trabalho, como vocês sabem. Eu queria ter feito esse e-mail bem antes, mas a correria não deixava (continua brabíssimo!). Eu tenho visto, lido e ouvido muita coisa que realmente confunde geral e não posso deixar de contribuir de alguma forma para tornar as coisas mais claras. Sei que os spams e opiniões sobre o referendo na internet já estão enchendo o saco, mas quero muito que vocês leiam minha opinião pessoal, os argumentos da Mayra, que nem sempre estão nos textos que tenho escrito como profissional a serviço desta campanha.

Sei que entre vocês há os que votam ``sim'' convictos, há os que votam ``não'' convictos, e há os indecisos. Democracia é isso aí and I like it!

Mas confesso que sofro quando vejo que uma estratégia de marketing relativamente bem feita está dividindo pessoas que têm os mesmos ideais.

Que pessoas que já tiveram armas e/ou ainda têm -- e gostam -- defendam seu direito de comprar mais, eu entendo. Hoje descobri lendo O Globo que a Cora Rónai gosta de armas, já teve algumas, e até viajou com seu revólver na cintura... Fiquei pasma, nunca pensaria isso dela, mas tudo bem, democracia é isso.

Quem se sente lesado por não poder comprar sua arminha de fogo tão bonitinha, e depois não poder trocá-la um dia por um modelo mais moderninho, deve mesmo votar ``não''. Apesar do risco de acidente, do risco de num momento de muita raiva acabar usando a arma, do risco de ao ser assaltado reagir e perder a vida em vez de bens materiais e do risco de não reagir e perder apenas a arma para o bandido...

Mas sei que a maioria dos meus amigos não tem, nunca teve nem pensa em ter uma arma. E mais: não se sente seguro sabendo que seu vizinho tem uma arma em casa. Mais ainda, sabem que arma não defende ninguém, que a legítima defesa da vida é deixar o ladrão levar o que for, e cobrar da polícia, dos parlamentares e do governo que as políticas de segurança funcionem. Afinal é o nosso governo, eleito democraticamente e são os parlamentares que nós elegemos. Só que muita gente que pensa assim está repetindo coisas como ``o governo quer tirar um direito do cidadão''; o governo não consegue desarmar o bandido e quer desarmar o cidadão'', ou ``é proibido proibir''...

Peraí, gente. Eu acompanho essa história, que já tem uns seis anos, há pelo menos dois. A primeira campanha para pressionar os parlamentares a revisarem as leis de controle de armas foi em 1999! A legislação brasileira era permissiva e havia mais de 70 projetos no congresso para reformá-la, mas o lobby poderosíssimo não deixava que nenhum passasse.

Foram ONGs de diferentes estados, entidades religiosas tipo CNBB e outros grupos sociais organizados, como parentes de vítimas de violência (no Rio, as Mães do Rio sempre foram militantes), fora pessoas que se engajaram pessoalmente, como Marcelo Yuca, que organizaram marchas e atos públicos para ganhar a mídia, junto com as pesquisas que passamos a desenvolver, que depois de quatro anos fizeram o congresso finalmente aprovar o Estatuto do Desarmamento, que nasceu de uma comissão que analisou os projetos já existentes e formatou num estatuto.

O assunto estava no congresso há muito tempo e só avançou por força de pressão popular, disso que chamamos ``opinião pública''. Na bancada da bala, tentou-se de tudo, de distribuição de dinheiro e presentes até apresentação de dados totalmente furados, pesquisas fraudadas, e os pesquisadores, ao lado das ONGs, tiveram que desmentir um por um até desmoralizar todos eles. Só quando pesquisas apontavam que 80% da população brasileira era favorável ao desarmamento, foi que finalmente derrotamos esse lobby.

Eles lutavam contra o Estatuto e todas as leis positivas para reprimir o tráfico de armas, para aumentar as penas para porte ilegal de armas, para desarmar o bandido e os brigões de rua, para marcar e rastrear munições vendidas a polícias... O tópico da proibição do comércio para civis era o que mais criava polêmica, mas não era o único, e eles não deixavam passar de jeito nenhum. Foi quando se propôs o referendo para que a população decidisse que a maioria dos deputados, mesmo os contrários à proibição, aceitaram que a saída era a mais democrática. E o lobby perdeu. Pelo menos aquele round.

Ainda assim, tentaram adiar o referendo até inviabilizá-lo e tentaram sabotá-lo a todo custo. Finalmente, o referendo saiu e estamos aqui. As ONGs, pesquisadores e movimentos sociais que são antigos na luta, fazendo a campanha do sim. E os deputados financiados historicamente pela indústria de armas -- como a Forjas Taurus -- e de munição - como a CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos) -- fazendo a campanha do não. Vocês sabem quem são eles? Pesquisem!! Jair Bolsonaro, Alberto Fraga, Luis Antônio Fleury Filho... Saibam!

Então, que fique claro: o Estatuto, o referendo, a proibição da venda de armas, são causas que a sociedade civil colocou em pauta e batalhou muito para emplacar. Não são imposições de governo nenhum. Se no governo Lula há figuras que apóiam o Estatuto, como o ministro Marcio Tomaz Bastos, por exemplo, isso é outra questão. É questão de bom senso, eu diria, uma vez que as pesquisas apontam, sim, para as muitas vantagens da proibição da venda de armas e munição.

Eu cito, mole, cinco:

(1) reduzir o número de armas de fogo em circulação ajuda no controle destas armas. (2) evita acidentes que ferem e matam principalmente crianças e adolescentes. (3) reduz em muito o número de crimes cometidos por motivos como ciúme de marido machão, ódio de sócio roubado, vingança de amante traído.... (4) diminui o índice de suicídios, já que com uma arma de fogo à mão a chance de escapar da morte é mínima. (5) reduz a quantidade de armas disponíveis para os bandidos.

Agora, quais são mesmo as vantagens de votar não? Impedir que o ``governo'' desarme o cidadão porque não consegue desarmar o bandido? Nem é o governo que quer desarmar e nem é culpa do governo a falência da segurança pública. É aqui que eu queria chegar.

O governo -- nenhum governo -- não consegue fazer a segurança pública ser eficiente, a polícia ser eficaz e se moralizar, a legislação melhorar, por causa da ação de lobbistas como esses deputados que estão defendendo as armas na televisão e se escondem atrás daquela atriz loura que faz pose de jornalista. É um lobby que defende historicamente a opressão, a tortura, a impunidade de autoridades diante de abusos de poder, as leis permissivas que encobrem práticas ilícitas e geram sempre lucro para algum grupo que lhes garante verba na hora da campanha eleitoral. Isso é que me dá um misto de tristeza e raiva: esse lobby está fazendo uma campanha nojenta, mas bem sucedida, que conseguiu confundir pessoas que estão do mesmo lado. Estão conseguindo dividir a esquerda!!!

Eles falam que a violência é produto da desigualdade social, mas não falam que suas propostas incluem a pena de morte, que seus slogans incluem o clássico ``bandido bom é bandido morto'', que na sua opinião todo favelado é bandido, e que para eles os negros e pobres que mais morrem por arma de fogo não contam, porque são bandidos!! Suas idéias são o que há de mais conservador no cenário político nacional, desde a ditadura, que aliás, alguns deles defendem abertamente. Gente, tenho ido a debates. Tenho visto os defensores do não falarem sem uso de atores anônimos. É inacreditável o tipo de coisa que dizem!! Além de mais gente armada, se o não ganhar a gente vai ter esses trogloditas fortalecidos...

Mas enfim, se vamos apenas dizer sim ou não para uma lei que está no Estatuto, devemos nos concentrar nisso, certo?

O "não" representa apenas a manutenção de um livre comércio de armas para civis, tanto para cidadãos que pensam que a arma poderá ser uma proteção, quanto para os que sabem que é um instrumento de ataque e querem ter o seu direito de usá-la quando considerarem que devem; além dos que ganham com a revenda para criminosos, que sabemos, existem e não são tão poucos. Em todos os casos, o ``não'' interessa, e muito, à indústria e aos comerciantes de armas. São eles que estão criando -- ou financiando - os slogans da campanha, tipo ``vagabundo agradece''. Mas eles é que agradecem o uso indiscriminado de armas, por 'mocinhos' ou 'bandidos', agradecem ao contrabando que compra a arma aqui, manda para o Paraguai e depois volta ilegalmente com ela. Eles ganham dinheiro com tudo isso!

O que vai mudar em relação à violência com o voto "não"? Nada. Pior, talvez mude sim, para muito pior, pois a propaganda pró-``legítima defesa'' é a propaganda pró-armas, e muita gente já está garantindo a sua. Cidadãos armados, descrentes das polícias, dos governos, de tudo. Será que assim não estaremos radicalizando a situação de barbárie? Cidadãos ordeiros com suas armas atiram nos bandidos; ou bandidos mais rápidos no gatilho atiram antes no cidadão, que pode estar armado...

E quem está lutando por polícias melhores e políticas eficientes de segurança? Quem briga pela educação de qualidade? Quem grita contra a desigualdade social?

Continuaremos sendo nós, que hoje nos concentramos nesta questão tão pontual, tão mais simples do que fizeram parecer.

Depois de 68, depois do tempo em que a geração de meus pais pegou em armas, e todo o país sofreu com a dor que restou desta experiência, estamos no tempo de lutar sem as armas. É o aprendizado da nossa geração. Ou não é? Alguém tem dúvida? O engraçado é que do outro lado estão - disfarçadas, mas estão lá - as mesmas ideologias que meus pais combateram! E até as mesmas pessoas, em alguns casos!! A guerra agora não passa por armas, passa por consciência de cidadania, de solidariedade, de ética. A vitória do não, meu querido amigo, vai fortalecer uma gente que desconhece esses princípios. Eles manipulam agora com maestria irritante os conceitos ideológicos que sempre desprezaram. Tudo em nome de dinheiro, claro, já que hoje o instrumento da opressão é esse.

Eu realmente queria que fosse diferente. Me coloco à disposição para tirar dúvidas -- humildemente! -- dos indecisos; para fornecer material aos decididos pelo SIM que topem partir para a conquista de outros votos -- é a reta final!! -- e também, ufa, me apresento para o debate com os que continuam votando no não...

Esse foi meu esforço pessoal e cidadão para falar aos meus amigos sobre meu voto no referendo.

Beijos, saudades, e até um chope, que seja breve!

Mayra

PS. Quem quiser pesquisar, conheça http://www.referendosim.com.br/. Se quiserem, tenho resposta para TODOS os spams do não que circulam por aí, é só pedir.