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Falta misandria no movimento Trans

(Esta página contém coisas escritas entre 2015may02 e 2015may05, juntadas de qualquer jeito - em ordem cronológica, mas só. Umas são bem legíveis porque eram mensagens para grupos, outras são e-mails pra uma das minhas amigas mais próximas, e neles eu me permito falar coisas que a gente só fala em privado e às vezes só com muitas aspas e preâmbulos. Eu ainda nem tive tempo de marcar o que é o quê - espero que seja óbvio.)
Minha página com textos sobre gênero.
A discussão original no Transfeminismo <3.


** Virginia Guitzel, texto de TERF, e comentário meu grande
# https://www.facebook.com/groups/893489824014645/permalink/951061474924146/
# https://mail.google.com/mail/ca/u/0/#sent/14d13bce981030a7 meu e-mail pra Silvia
# https://milfwtf.wordpress.com/2015/04/28/o-queer-promove-estupro-corretivo-de-lesbicas/

Eu sempre leio esses textos de TERFs com uma certa curiosidade... e só agora, depois de pensar horas nesse aí enquanto eu rolava na cama, acho que entendi o porquê.

A autora dele fala de certas coisas irracionais como se fossem perfeitamente racionais e razoáveis. A gente sabe que coisas são essas - são "deslizamentos", como a Bia explica super bem neste texto aqui,

http://transfeminismo.com/o-banheiro-e-a-ideologia/

entre "pênis", "estuprador em potencial", "estuprador", "estupro corretivo", etc.

As afirmações do texto são delirantes e até nocivas pra outra pessoas; disto a gente está careca de saber e de dizer. Deixa eu falar sobre OUTRA coisa.

A autora tem uma segurança pra falar dessas coisas que tem um quê de invejável. Tenho lido ultimamente um monte de textos de pessoas que tiveram problemas de auto-aceitação enormes, mas que agora escrevem coisas como "eu sou gorda e negra, mas agora eu tenho orgulho disso, eu sou foda, e eu me amo". Esse tom, que eu chamo de "empoderado", dialoga bem com os discursos de certeza que a gente vê por aí em todo lugar - em muitos meios a coisa mais importante pra você ser ouvida é você ter _muita_ segurança do que está dizendo.

Bom, deixa eu copiar aqui um trecho de uma das minhas primeiras mensagens de saída do armário. Ela ficou super bem escrita, e não vale a pena eu tentar parafraseá-la ao invés de copiar do original.

"No início, quando eu era pequeno, eu achava só que eu tinha dado azar. As meninas podiam fazer tudo de legal e podiam pensar e conversar sobre o que queriam e serem sinceras; já os meninos tinham que ficar fingindo o tempo todo que gostavam de um monte de coisas idiotas só pra provarem pros outros que eles eram machos, e ficar fazendo papel de macho era algo tão infernal que a gente vivia explodindo de frustração e raiva... aí o que eu entendia era que os outros meninos descarregavam essa raiva se sacaneando e se batendo, e eles ficavam tão ocupados com isso que eles não tinham tempo pra pensar nada de diferente... e como eu era magro e fraco e tinha defeitos de personalidade eu não conseguia me encaixar e aí eu ficava só vendo tudo como se eu estivesse de fora... e eu tinha a impressão - aliás, a "esperança"! - de que se eu me esforçasse MUITO e virasse uma pessoa muito interessante quando eu crescesse eu acabaria encontrando as outras pessoas que também sabiam que o mundo masculino era uma farsa, e teriam construído jeitos de viver fora dessa farsa..."

Então, voltando ao texto da TERF... o que ele tem que é um pouquinho invejável é que a autora consegue falar de assuntos que são gatilho pra ela - e "pênis" é mega-gatilho pra ela - sem engasgar no meio de cada frase pela certeza de que não só não vai ser entendida como vai ser patologizada.

Quantos assuntos a gente tem, principalmente sobre motivos que nos levaram à transição, e fobias e gatilhos que permanecem mesmo depois da transição, que a gente mal se atreve a conversar com meia dúzia de pessoas mais próximas?

O tom da TERF autora do texto pra mim é um tom masculino, pelo excesso de afirmações e pela falta de auto-crítica =(... mas eu fiquei imaginando, nesse tempo em que eu fiquei rolando na cama e pensando depois de ler o texto dela, o quanto pode ser empoderador pras mulheres irem em encontros de RADs cheios de TERFs e poderem falar livremente sobre coisas que em outros espaços pareceriam paranóias, e serem ouvidas.

Na verdade acho que o principal motivo de eu pensar tudo isso é que eu tenho tido super poucas oportunidades de encontrar outras pessoas trans ao vivo, e algumas coisas que eu tenho lido de ativistas trans - por exemplo isto (principalmente os comentários):

https://www.facebook.com/andreigiu/posts/1559902204276071

me dão uma nóia de que em eventos trans eu talvez acabasse ficando à margem num canto sem conseguir me expôr ou puxar papo com quase ninguém, porque a minha vivência é bem diferente dos relatos que eu vejo... eu comecei a TH muito tarde, e antes disso eu vivi meio invisível, tentando fazer com que aparência física, namoros, sexo, etc, ficassem bem em segundo plano na minha vida - eu pensaria direito nessas coisas quando eu crescesse... então, sei lá, vai que os espaços trans estão ocupados só pelas pessoas que tem questões "externas", as pessoas que o tempo todo põem a cara no sol e levam porrada, e elas não têm mais questão "interna" nenhuma?...


Tudo bem que várias pessoas aqui acharam o texto de TERF péssimo sem nem lê-lo... mas eu fui relê-lo agora pra escrever mais sobre ele - ou aqui ou só pra uma amiga minha - e achei ele MUITO bom.

Eu tinha ficado com a impressão de que a autora deixava _explícito_ que ela tinha sido violentada, e aí a partir desse ponto do texto ela iria se permitir falar sobre os gatilhos dela e sobre ela ver estupro em todo lugar... agora que eu reli eu vi que não é bem assim, tá só implícito, mas escrito de um jeito tão forte que dá pra inferir as vivências dela - que, aliás, depois que eu fucei um pouco mais o site dela, vi que estão escritas em detalhes em outros posts.

Tem uma coisa lá no meio do texto dela que eu achei MUITO foda. Ela diz: "NÃO SABER LIDAR COM UM NÃO PARA UMA INVESTIDA SEXUAL É SOCIALIZAÇÃO MASCULINA". Eu tou há meses tentando deixar mais claro o que é "homem", "mulher", "masculino", "feminino" pra mim e porque o "mundo masculino" era um inferno, e essa idéia é uma boa chave de pensamento.


...e eu ia comentar aqui que acho uma estratégia ruim a gente chamar as histórias pesadas dos outros de mimimi, porque isso praticamente convida as outras as pessoas a dizerem que as nossas histórias são mimimi também... mas fiquei deixando pra quando eu conseguisse escrever de um jeito mais caprichado, e agora vi que ao invés de usar as minhas palavras eu posso fazer uma citação. Lá vai.

"Quem se omite diante da dor não escolhe a neutralidade. Escolhe afundar ainda mais a vítima numa lama de culpas, nojos e medos. E eu só tinha o papel para enfrentar o que passava sem perder a lucidez."

https://milfwtf.wordpress.com/2014/06/23/sobre-pedofilia-e-a-minha-primeira-historia-de-horror/


** Virginia Guitzel, texto de TERF, e comentário meu grande - para Silvia, 1
# https://mail.google.com/mail/ca/u/0/#sent/14d13bce981030a7
(E-mail da Silvia pra mim depois que eu mandei as coisas acima pra ela)

Muito bom! Acho que você foi no ponto!

Só duas coisas:

Eu acho o termo Terf bem complicado. Em primeiro lugar porque, bom, é pejorativo, né? Já que nenhuma mulher se intitula terf, embora algumas se intitulem perf (P de pênis), pois trans homens são aceitos nos espaços exclusivos. E em segundo lugar porque é um termo misógino. Por que só as mulheres têm um termo para designar o fato de serem trans-excludente quando a sociedade inteira é trans-excludente e quando quem agride, estupra e mata trans são homens cis?

Outra coisa é que só em espaços exclusivos virtuais pude entender o conceito de gênero para as feministas radicais e acho que posso tentar te explicar uma coisa que parece que não está clara para quem não participa desses grupos: o conceito de "identidade de gênero" está fazendo mulheres cis, cada vez mais, irem para o feminismo radical. Não porque elas são transfóbicas, nenhuma delas nega o sofrimento de ser uma pessoa trans que passa por transição, muito menos das trans que se prostituem, das que sofrem violência transfóbica... Talvez você ache ruim o que vou dizer, mas espero que você consiga entender o meu ponto: há homens afirmando serem mulheres não-binárias querendo se impor como mulheres lésbicas. Basta passar um batom e colocar uma saia e dizer "sou mulher" para ser mulher? E automaticamente qualquer mulher cis passa a ser opressora dessa pessoa que a vida toda teve todos os privilégios de ser homem? E a voz dessa mulher não-binária deve se sobrepor à de uma mulher que passou a vida inteira sendo silenciada por ser mulher? Você consegue perceber porque isso é problemático?

Geralmente são homens brancos universitários, barbados, que colocam uma saia e um batom e a partir do momento em que dizem que são mulheres ninguém pode negar isso. Pensa em como essa pessoa é vista por mulheres que têm trauma de estupros ou medo de estupros corretivos. Pensa em como mulheres podem se sentir ameaçadas pela hipótese de que um homem coloque uma saia para se dizer não-binária ou gênero fluido apenas para ter sexo com mulheres.

A maior parte das pessoas que se dizem não-binárias ainda por cima dizem que são lésbicas e que se uma lésbica não quer fazer sexo com eles é porque é transfóbica. O que uma lésbica vê quando isso acontece? Como não ver um homem impondo o seu pênis sobre o corpo feminino? Uma lésbica não pode não gostar de pênis a não ser que tenha passado por traumas? Eu conheço duas meninas que passaram por pressões desse tipo. Onde mais elas iriam poder falar sobre isso se não em espaços exclusivos?

Sério, acho que alguém devia dizer pra esses caras que eles tão fazendo muito mal pra militância trans. Não sei se eles têm fetiche em serem oprimidos ou o quê, mas só vão conseguir que lésbicas e feministas radicais reafirmem que ser mulher não é usar saia.

Um beijo,

Silvia


(E-mail meu pra Silvia, em resposta ao acima)

Eu ando procurando onde, _pra mim_, está o centro da distinção entre homens e mulheres, qdz, quais são os aspectos do "mundo masculino" que fazem com que meios masculinos sejam um pesadelo pra mim...

Nos últimos dias eu andei tentando pensar em termos do que seria "energia masculina" e "energia feminina", principalmente em termos de tipos de desejo, modos de se relacionar com o próprio corpo e com os dos outros... e andei começando a catar coisas que eu li há anos atrás num livro do Reich (o "A função do orgasmo" - bem interessante), num sobre Tantra (que eu não tive paciência pra tentar reler), em livros clássicos de psicanálise que eu nunca tinha lido antes (que gente doeeeenteeeeeee esses psicanalistas!!!), e vi que tem boas coisas no "O segundo sexo"...

Uma idéia-chave (pra mim): um princípio do "masculino" é o "lavou, tá novo"; um do feminino é que é preciso cuidar e prestar atenção, porque tem muita coisa que se for quebrada não dá pra consertar depois.

Lendo os livros dos psis idiotas eu vi uma coisa recorrente, super interessante... "pênis" é automaticamente associado a "poder" e "prazer"; é como se todas as mulheres fossem intercambiáveis e não houvesse muita diferença entre transar com a que você ama muito e uma que é só espólio de guerra pra estuprar... ou seja, é como se a _qualidade_ de conexão com o outro não fosse importante... e eu ando com a sensação de que essa obsessão por definir qual é o nosso "tipo", se a gente é hétero ou gay ou o quê, tem um pouco dessa idéia de que as pessoas-nossos-objetos-de-desejo são intercambiáveis, que a gente pode tranquilamente se livrar de uma e arranjar outra do mesmo tipo...

Claro que isso que eu tou descrevendo é exatamente o oposto de como eu funciono.. pra mim a qualidade da conexão com a outra pessoa é o que mais importa, e lidar com o genital, ou até só com o físico, às vezes é tão complicado que é melhor deixar isso pra lá, ou pra depois - e daí o que eu vivo dizendo e as pessoas não entendem, que é que "sexo estraga tudo" (muitas vezes), e que muitas vezes a gente tem relações sem sexo muito mais fantásticas do que outras com...

Desculpa se tá bagunçado, né, eu avisei que isso eram coisas que eu ainda tou longe de conseguir escrever direito. =)

  Beijos,
     E.

P.S.: ah, "mulheres trans" invasivas, que acham que têm que ser aceitas só porque se auto-declararam mulheres e lésbicas, pra mim são homens sem noção, e esse tipo de cara sem tato e sem noção é exatamente o tipo que eu mais tenho vontade de combater... não que eu consiga fazer muito contra esses caras por enquanto, mas o horror que eu tenho a eles é visceral.

P.P.S.: tou lendo o "Gender Trouble", da Judith Butler, e achando interessantíssimo - ela mapeia bastante coisa da literatura sobre gênero das últimas décadas, torna essa literatura acessível pra quem antes sentia que não tinha contexto pra lê-la (como eu), e deixa o leitor, ou melhor, os leitores como eu, com uma sensação de dever de casa enorme, de "uau, agora preciso ler as coisas tais e tais no original"... por enquanto tou com a sensação de que isso de que basta alguém se declarar homem ou mulher pra automaticamente "ser" homem ou mulher é consequência de uma leitura incrivelmente rasa e errada dos textos dela...


** Virginia Guitzel, texto de TERF, e comentário meu grande - para Silvia, 2
# https://mail.google.com/mail/ca/u/0/#sent/14d1df0fe608eee5

Fiquei pensando sobre as "mulheres trans" invasivas, que pra mim são ômis vestidos de mulher...

Eu só fiquei sabendo em detalhes de um caso desses, o da Heleonora/Léo, aqui no Rio. Eu conheci elx no dia da visibilidade trans, depois um dia ela começou um chat comigo, me dando esporro do nada por eu ter uma página que ela considerava transfóbica entre os meus likes, a gente brigou, ela se recusou a ler as coisas que eu mandava e no final ela postou o link de um "EVENTO PARA VOCÊ ENCHER MEU COPO E NÃO MEU SACO!" (hosted by "Mulher sem frescura"). Eu fiquei triste, fui desabafar com uma garota trans super fofa que eu tinha conhecido no mesmo dia e por quem eu tinha ficado encantado, mas nisso eu ainda tava tentando ver a Heleonora/Léo só como alguém super equivocadx, descarregando nos outros coisas que não devia...

Depois fiquei sabendo que elx já tinha até mandado fotos do pau delx pra pessoas por chat, e que ela tava sendo expulsa de todos os grupos, massacrada, e aos poucos as pessoas que tinham prints das maluquices e grosserias dela foram até se sentindo mais à vontade pra falar delx pelo nome em lugares bem mais públicos das internets... mais um pouquinho seria com nome e sobrenome, mas não vi chegar a esse ponto. E um dia vi ela pedindo alguma recomendação de psicólogo que o plano de saúde dela cobrisse, e depois ela sumiu.

Os ômis vestidos de mulher das baladas da Unicamp são figuras que ainda são meio mitológicas pra mim... você os menciona, mas os grupos nos quais eu tou omitem a existência deles por estratégia - uma estratégia da qual eu discordo. Acho que eles deveriam ser expostos e massacrados também.

Talvez a minha posição seja mais fácil do que as das mulheres trans que querem juntar todas as pessoas trans AMAB num guarda-chuvão, defender todas, e esperar que apareça alguma espécie de sororidade entre elas... porque numa época eu até combati muito explicitamente a cultura do sexo casual, até com surtos meio teatrais sempre que eu achava preciso, porque essa cultura era tão hegemônica que as pessoas ridicularizam quem procurava relações de intimidade, confiança e segurança sem notarem, como se essas coisas fossem um delírio romântico ingênuo, ridículo e ultrapassado - e quando elas faziam isso elas atrapalhavam que gente como eu 1) se expusesse, 2) encontrasse outras pessoas parecidas, 3) existisse (porque eu ficava me sentido errado e doente e tentava mudar).

Outro livro bacana que eu li recentemente, e que eu li num instante porque ele é fácil, não é que nem a Judith Butler, é esse aqui: "Whipping Girl: A Transsexual Woman on Sexism and the Scapegoating of Femininity", da Julia Serano... eu até PDFizei dois capítulos dele a partir do e-book, e pus aqui:

http://angg.twu.net/LATEX/whipping-girl.pdf

Ela mora em San Francisco, é super ativa nas discussões de lá - e a comunidade de lá tem gente super cabeça, né - e esse livro dela, que é de 2007, tá anos-luz adiante do "Gender Trouble" da Judith Butler, que é de 1990... A Julia Serano pensou durante anos no que exatamente era a transexualidade dela, pra conseguir respostas honestas e esclarecedoras que ajudassem todo mundo e fizessem a discussão avançar... e num ponto do capítulo 5 ela diz

"In the years just prior to my transition, I started to express my femaleness as much as possible within the context of having a male body; I became a very androgynous queer boy in the eyes of the world. While it felt relieving to simply be myself, not to care about what other people thought of me, I still found myself grappling with a constant, compelling subconscious knowledge that I should be female rather than male. After twenty years of exploration and experimentation, I eventually reached the conclusion that my female subconscious sex had nothing to do with gender roles, femininity, or sexual expression--it was about the personal relationship I had with my own body."

o que é honesto, e eu achei bem legal por motivos que não valem muito a pena eu contar agora (me ajuda a explicar a minha relação com hormônios), mas não nos ajuda... mas em outros capítulos ela mapeia um monte de características "femininas" que são discriminadas socialmente, tanto quando são apresentadas por mulheres quanto quando por homens... e esse livro me ajudou bastante a pensar como a sociedade valoriza o "lavou, tá novo" e as pessoas serem tanques de guerra insensíveis, e desvaloriza o oposto disso, que é a gente ter atenção e cuidado porque a gente sabe que muitas coisas são frágeis...

Bom, vou parar por aqui. Se você fosse outra pessoa eu me obrigaria a 1) escrever uma conclusão como se você não fosse genial pra conectar as idéias que eu escrevi do seu jeito e ir até além do que eu pensei, 2) me desculpar por eu ter escrito muito... mas você sabe que ler é rápido, escrever é que demora =).

Ah, não, não, péra, tem mais uma coisa que eu queria falar. Enquanto as histórias dos ômis invasivos vestidos de mulher não circulam com mais detalhes cada lado faz os seus "deslizamentos" - no sentido daqui, http://transfeminismo.com/o-banheiro-e-a-ideologia/ - e as trans pensam só nos casos mais extremos, que são poucos, e dizem que as rads estão pegando esses poucos casos e fingindo que são muitos pra espalharem transfobia...

Quando eu crescer mais um pouquinho - nas próximas semanas, espero! - eu quero ter uma terminologia mais fina pra pensar e falar sobre essas coisas, e inclusive reativar as minhas provocações antigas, que tinham uma estratégia bem séria por trás, agora me focando em que "mulher sem frescura" (vide acima) pra mim é ômi, e ômi que quer ser "mulher sem frescura" não é trans não, qdz, não no sentido que eu respeito, pra mim é ômi também. Ou, em outras palavras, sororidade com gente incapaz de sororidade é o caralho.

Beijos! E.

P.S.: agora é que me ocorreu - e as travestis? Como ser solidário com elas, porque elas são a vanguarda do movimento e as mais oprimidas e tal... se elas são obrigadas a serem tanques de guerra, e portanto pessoas duríssimas? Bom, a resposta me veio logo depois da pergunta - as poucas que eu conheci pessoalmente são pessoas super sensíveis e fofas sempre que podem...


# https://www.facebook.com/messages/1685090592


Arthur de Oliveira:
Cara
pq vc segue a era de xysperar?
Eduardo Nahum Ochs:
Você é a Heleonora?
Ela me perguntou a mesma coisa, ela sutou porque viu a eradexysperar entre os meus likes
Até onde eu lembro eu só recebi um meme dessa página até hoje
Cara
Os meus textos estão aqui: http://angg.twu.net/gender.html
Você decida se eu sou transfóbico ou não
Eu acho que um monte de pessoas trans vão começar a me massacrar e a me deletar por coisas que estão ficando claras pra mim... eu tou começando a ver que pra mim foi muito mais importante
Eu ter sido vítima de violência sexual em 2002 e ter passado três anos com sequelas incontrolavemente pesadas e sem praticamente ninguém em torno de mim me entender
(Eu era genderless e sexofóbico nessa época)
Do que eu ser trans
então eu tou tentando pensar nos seguintes termos hoje em dia: uma base do "masculino" é o "lavou, tá novo"... que é o oposto da idéias feminina de que muitas coisas são frágeis e a gente precisa lidar com elas com cuidado e atenção, porque se elas forem quebradas não vai dar pra consertá-las direito
Eu tou há anos tentando esclarecer o que eu sinto como espaços seguros pra mim e essa idéia tá me ajudando
Várias mulheres que eu conheço são ômis pra mim
E talvez eu passe a ver algumas pessoas trans como ômis também
Se eu sentir que não dá pra construir espaços seguros com elas dentro, porque elas vão atropelar os outros e afirmar que a dor dos outros é frescura
É bem possível que quando eu dei like na eradexysperar ela estivesse postando coisas misândricas que eu gostei, e eu salvei uns memes
Mas a coisa que mais deve chocar é que eu tenho visto algumas coisas de rads, sobre lidar com sequelas de violência sexual, que têm me feito pensar "tem coisas úteis aí" - a que a gente deveria se aliar a essas pessoas pra combater os ômis
Ao invés da gente ficar nessa briga de trans versus terfs
Por mim deixa ela terem fobia de gente com pênis
Eu próprio ainda associo o meu, que eu não vou ter como tirar tão cedo
A eu poder ser estúpido e monstro às vezes, porque a sociedade me permite
E me incentiva.
E você?
O que você acha da eradexysperar? E das pessoas que têm ela nos seus likes?


(https://www.facebook.com/heloisamelino/posts/10204111261212312)

Eu sou trans mas tou aos poucos escorrendo pra fora dos grupos trans porque FALTA MISANDRIA NO MOVIMENTO TRANS!!! A gente fica batendo em TERFs só porque pega bem - porque é uma unanimidade óbvia que elas são nossas inimigas - e porque a gente tem medo de ao invés disso atacar os ômis e uns comportamentos de ômis que a gente às vezes têm sem perceber - como falta de tato, invasividade, total desrespeito pelos gatilhos dos outros -, porque tem muita gente trans que gosta de ômis...

Eu passei três anos sem conseguir olhar nos olhos de ninguém, por sequelas de violência sexual - eu ainda tenho muitos restos de fobias - e nos últimos dias eu li alguns textos de RADs e TERFs sobre como elas tentam lidar com fobias e sequelas, tentam criar espaços seguros, e coisas assim, e tive a sensação de que eu me identifico muito mais com esses temas do que com 95% do que eu vejo as pessoas trans discutindo... e tou com uma sensação muito forte de que eu quero encontrar algum jeito de respeitar as fobias delas ao invés de brigar com elas.

Se você achar que isso é transfobia ou traição da minha parte e quiser me deletar, tudo bem... a gente já se viu ao vivo mas a gente nunca conversou, talvez você seja ômi. =\