O argumento dos assassinos do índio Galdino(Ou: "Uma falácia moderna", ou: "Porque o Artur Buchisbáum merece porrada". Work in progress - por enquanto estou só juntando links e trechos de e-mails). (Resumo: eu já pensei em esganar o Artur em público, num corredor de um EBL, até ele ficar roxo). Bom, eu disse que eu tava escrevendo uma mensagem que eu ia mandar pra lista "explicando" porque é que o Artur é o culpado de tudo. Não sei se a conexão disso com o resto é clara, mas digamos que não importa, e vou meio que ensaiar o argumento - que é meio esburacado - explicando ele pra você agora... O Artur comparou alguem que criticou ele com os nazistas, então acho que não seria muito absurdo eu usar esse argumento com ele. É o seguinte: os garotos que incendiaram o índio Galdino não tinham más intenções - eles queriam só fazer uma brincadeira, e brincadeiras são coisas boas... e se eles vêm de um meio onde as brincadeiras são agressivas, como é que a gente vai criticar isso? Cada pessoa vem de um meio diferente, e nós temos que respeitar todas as culturas, não é? Agora, por outro lado, apesar de que era só uma brincadeira, nós não queremos viver com medo de sermos incendiados e mortos... há um conflito de interesses aqui: um grupo de pessoas que vai defender o direito de brincar e se divertir, versus um outro grupo de pessoas que querem um pouco de tranquilidade e segurança... e nesse ponto acho que é bom a gente comecar a pensar nas conseqüências de "darmos razão", isto é, de incentivarmos, um desses compartamentos ao invés do outro... Eu considero - por razões pessoais que eu já vou explicar; quando eu digo que são "pessoais" eu quero dizer que elas não são absolutas, e eu não espero que todo mundo concorde com elas - que o comportamento do Artur é (ou "era", mas vou usar o presente) destrutivo. Eu acho que uma das funções da universidade é dar acesso a toda uma cultura acumulada durante séculos; a maior parte das idéias dessa cultura estão escritas, e a gente precisa da linguagem para entender essas idéias... "Linguagem" aqui é algo que pode ter vários sentidos: no sentido mais estrito são palavras, sintaxe, gramática; num outro sentido essa "linguagem" inclui tons, modos de construir frases e de organizar argumentos, modos de interagir e de prestar atenção, vários niveis diferentes de intenções que fazem parte do que está sendo dito, inserção de expressões formais ou informais num contexto com o registro oposto, modos de evocar situações, de transmitir imagens, de conquistar a atenção do leitor ou do ouvinte... Bom, na minha opinião (pessoal!) a atitude do Artur com relação à linguagem é muito destrutiva; ele está numa posição de responsabilidade, como professor de uma grande universidade, e ele transforma a linguagem numa coisa árida, e que todo mundo está usando errado; e ainda por cima é desanimador tentar discutir com ele - ele é inatacável: ele tem o direito de pensar do jeito dele; ele quer beleza e harmonia; ele é espiritualizado, bom, e medita; as intenções dele são as melhores possíveis; ele é até humilde, e está sempre assumindo o quanto ele sabe pouco sobre certas coisas - e eu não posso nem dizer isto em público, ou diretamente para ele, porque ele vai contestar cada uma das minhas frases... Eu me sinto meio encurralado com a presenca do Artur na lista de discussão, por motivos que ainda não estão totalmente claros pra mim - e certamente ainda estou muito longe do ponto em que eu vá conseguir explicar isso pro proprio Artur de um modo que ele entenda - mas não consigo deixar de achar que a minha sensação é parecida com a que eu teria se um garoto que morasse perto de mim tivesse um cachorro que achasse divertidíssimo morder a perna todo mundo, e ninguem se incomodasse com isso a não ser eu, e todo mundo concordasse que o garoto e o cachorro têm todo o direito de serem assim. No caso do garoto e do cachorro eu gastaria um bocado da minha energia tentando descobrir como me proteger das mordidas, e que cara fazer em público já que eu sou o único maluco fresco que não consegue achar divertido ou natural ser mordido pelo cachorro... Tem um ponto que vem logo antes do momento em que a violência física aparece, e que já é bastante interessante, e que em muitos casos pode ser suficiente... é o ponto em que o cara escroto sabe, e todas as outras pessoas também, que todo mundo quer que ele leve porrada. Se o cara escroto der mais algum motivo, por pequeno que seja, e alguém usar isso como desculpa pra bater nele, os outros não vão interferir - e vão apoiar o cara que bate, defendê-lo e acobertá-lo se necessário, e no mínimo aplaudí-lo (mesmo que silenciosamente) - Às vezes a gente pensa que numa matilha o líder é sempre o mais forte - mas não é bem assim. Um animal psicopata com o qual ninguém quer se meter é respeitado de uma certa forma, mas um outro, que saiba levar os outros para lugares mais seguros e com mais comida, que guie as atenções para quem precisa de ajuda, e que faz com que os conflitos se resolvam com o mínimo de dano - esse animal é protegido pelos outros, e os outros prestam atenção nele por vários motivos - porque os sinais que ele passa são valiosos, e porque vale a pena para os outros aprenderem com o seu modo de funcionar, de prestar atenção no que está em torno, de transmitir informação, sinalizando -
Godwin invertido: os nazistas também estavam fazendo o melhor possível, eles também queriam um mundo melhor, e eles também decidiram que certas pessoas eram más... Precisamos decidir que tipo de atitude geral vamos considerar "boa" - se quem vai com a multidão (e vira o nazista), quem vai com alguma minoria revoltada (e vira o "terrorista aplicado"), quem age por seus próprios princípios sem esperar reconhecimento ou respeito (e vira o "terrorista puro"), ou quem se omite... (Classificar quem vai com a religião e a família, e se exime) Se a gente não discute abertamente sobre a vontade e a necessidade de esganar o Artur a gente também está se omitindo - ele quer se integrar no meio dos lógicos, quer fazer algo que interessa e ser respeitado, mas ele não está conseguindo descobrir como - é possível que ele nem esteja conseguindo entender os nossos valores -
O F.M. Alexander tem críticas bem interessantes à pedagogia da "Free Expression" no "Conscious Constructive Control of the Individual"... Uma idéia que eu ainda não consigo formular de um modo correto o suficiente para que eu consiga sustentá-la: parece que o subtexto das mensagens do Artur sempre diz: "eu estou tão certo quanto vocês", ou "eu estou mais certo que vocês", ou "eu também tenho o direito de que as minhas idéias e motivações sejam consideradas válidas" - e essa sensação de que "alguém é melhor que alguém" se torna tão grande que não sobra mais espaço para trabalhar em conjunto, e para discutir idéias e melhorá-las... ou mesmo para ler literatura - ficção; não-técnica e não-religiosa - sem esperar "respostas"... Sobre a mensagem do Rodrigo ("R→A", acima): quando eu dava aula de Geometria Analítica na UERJ tinha uma aluna que não entendia porque é que nós estávamos estudando aquelas coisas. Eu tentava explicar do melhor modo possível, mas tinha um momento que eu dizia: olha, se você está aqui espera-se que você já tenha uma noção de porque estudar isto e onde isto vai te levar - e a maior parte dos seus colegas sabe isso, em algum sentido, ou pelo menos eles já estão fazendo um ato de fé ou de confiança, e se dispuseram a estudar primeiro e encontrar as implicações profundas depois, ao longo do caminho - e eu não posso gastar mais do que 5 ou 10 minutos de cada aula explicando esses "porquês" só pra você... Com o Artur é a mesma coisa. Muitos de nós já desistiram de dar resumos e porquês pra ele, e nós não estamos conseguindo dizer "agora chega", porque soa irracional e grosso...
Eu às vezes admiro o Artur pela coragem com a qual ele defende os pontos de vista dele, mas porque é que a argumentação dele tem que ser sempre tão canhestra e cheia de falácias básicas (como ataque a "straw men")? O conteúdo emocional do que ele diz é muito claro - tem muita frustração lá - mas ele não consegue encontrar uma linguagem na qual ele consiga ao mesmo tempo ser honesto a respeito dessa frustração e ser "objetivo", argumentando claramente... Quando a gente lê, por exemplo, "O Tao da Física", "O Zen e a arte da manutenção de motocicletas", o "Cosmic Trigger", ou o "Magick Without Tears" do Crowley, a gente vê um processo de pensamento claro, que guia o leitor passo a passo, e o envolve gradulamente numa forma de pensar não-"ocidental", não-"cartesiana". Porque é que o Artur não consegue fazer isso - e ao invés disso o que ele diz soa como cagações de regra, acusações, e simples listas de itens (temas e autores)? Porque é que eu sempre tenho a sensação de que as noções de "diálogo" e de "narrativa" do Artur estão tão danificadas que... - talvez porque ele se sinta o tempo todo enfrentando inimigos que são totalmente impermeáveis a coisas que não sejam "argumentos objetivos"?... |