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Eichmann em Jerusalém - Dinamarca

Política e psicologicamente, o aspacto mais interessante desse incidente é talvez o papel desempenhado pelas autoridades alemãs na Dinamarca, sua evidente sabotagem das ordens de Berlim. É o único caso que conhecemos em que os nazistas encontraram resistência nativa declarada, e o resultado parece ter sido que os que foram expostos a ela mudaram de idéia. Aparentemente eles mesmos haviam deixado de ver com naturalidade o extermínio de todo um povo. Quando encontraram resistência baseada em princípios, sua "dureza" se derreteu como manteiga ao sol, e eles foram capazes até mesmo de demonstrar um tímido começo de coragem genuína. O ideal de "dureza", exceto talvez para uns poucos brutos semi-loucos, não passava de um mito de auto-engano, escondendo um desejo feroz de conformidade a qualquer preço, e isso foi claramente revelado nos julgamentos de Nuremberg, onde os réus se acusavam e traíam mutuamente e juravam ao mundo que sempre "haviam sido contra aquilo", ou diziam, como faria Eichmann, que seus superiores haviam feito mau uso de suas melhores qualidades. (Em Jerusalém, ele acusou "os poderosos" de ter feito mau uso de sua "obediência". "O cidadão de um bom governo tem sorte, o cidadão de um mau governo é azarado. Eu não tive sorte.") A atmosfera mudara, e embora a maior parte deles deva ter percebido que estava condenada, nem um único teve a coragem de defender a ideologia nazista. Werner Best alegou em Nuremberg que desempenhara um complicado papel duplo, e que graças a ele os funcionários dinamarqueses haviam sido avisados da catástrofe iminente; provas documentais demonstraram, ao contrário, que ele próprio havia proposto a operação dinamarquesa em Berlim. Segundo Best, isso era parte do jogo. Extraditado para a Dinamarca, foi ali condenado à morte, mas apelou da sentença, com resultados surpreendentes; devido a "nova prova", sua sentença foi comutada para cinco anos de prisão, da qual foi liberado logo depois. Deve ter conseguido provar à corte dinamarquesa que realmente se esforçara.


(Hannah Arendt: Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal. Companhia das Letras, 2008, pp.193-194.)