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Proposta pra logotipo do ICT

Minha proposta para o logotipo da nova unidade do PURO/UFF, o "Instituto de Ciência e Tecnologia" (clique para ampliar):

JPEG:

PNG:

Original em SVG, criado com Inkscape: aqui.


(Obs: descobri que essa versão fica ruim quando convertida pra preto-e-branco... o "C" fica claro demais e a imagem fica desequilibrada. Vou tentar fazer uma versão "grayscale-friendly" depois).

(Obs 2: dentre os outros logos submetidos o que eu mais gostei foi este).



Outro dia eu mostrei o meu logotipo pra uma colega minha (em tom de "vote em mim!"), e ela me disse algo que me deixou meio, hm, pasmo. Ela disse que se a gente escolhe um logotipo que fala das marteladas que a gente leva na cabeça a gente está como que consolidando a situação das marteladas, e fazendo com que a gente nunca vá se livrar do padrão de levar marteladas na cabeça.

Refraseando isso um pouquinho: se a gente fala dos problemas a gente atrai mais problemas ("lei da atração").

Acontece que isto também pode ser visto de outro modo: se a gente fala abertamente dos problemas e tenta resolvê-los a gente atrai outras pessoas que também falam abertamente dos seus problemas e tentam resolvê-los; e se a gente nega os nossos problemas e fica doente por causa disso a gente atrai outras pessoas que também negam os seus problemas e ficam doentes por causa disto...

Na família da minha mãe as pessoas tinham um ditado: "em casa que não tem pão todo mundo grita e ninguém tem razão" - e acho que isto se aplica ao que anda acontecendo no PURO. Deixa eu dar um pouco de contexto. Agora o almoxarifado e o setor de informática estão funcionando com um sistema informatizado de requisições; antigamente se a gente precisava de uma resma de papel A4, um apagador, um grampeador, coisas assim - a gente frequentemente precisava dessas coisas com urgência, por exemplo pra dar uma prova que iria acontecer daí a poucos minutos - bastava passar na sala do Paulo Mariano, falar com ele e pegar. Agora não: agora a gente tem que preencher uma planilhinha, acessar o http://ss.puro.uff/ (na intranet do PURO), preencher um formulário e anexar a planilha, e só depois disso a gente pode ir pegar o material.

O papel A4 que a gente costuma receber foi trocado por um outro BEM pior, áspero e que às vezes vem até com folhas furadas, de tão irregular que ele é. As salas estão sem apagadores de quadro branco - vou ver consigo uns 3 ou 4 pra distribuir pelas salas do 2º andar (será que o almoxarifado tem apagadores?) - e na sala de professores onde eu fico, o container GP-2, o roteador WiFi está tão ruim que estamos tendo que subir numa cadeira variás vezes por dia, tirá-lo da tomada por alguns segundos e recolocá-lo, pra ver se ele reseta e "despira"... mas ele está ficando cada vez pior, e o setor de informática disse que não tem como trocar, porque o PURO não tem um sobressalente. Vários professores do GP-2 já reconfiguraram os seus computadores pra se conectarem no roteador do container vizinho, que é de professores de um outro departamento - mas com isso eles ficam ser poder usar a impressora.

Os professores do RCT, quase todos, são "eficientes" - eles se viram do melhor modo possível dentro das condições e regras existentes, sem reclamar muito - e o modo deles de lidar com situações difíceis é estabelecendo regras (obs: estou escrevendo "eles" quando falo dos professores do RCT porque eu sempre acabo achando que eu funciono mais como os professores do RIR do que como os do RCT). Pois bem, agora o almoxarifado e o setor de informática também estão funcionando por "eficiência" e "regras": a maior parte do material que eles controlam está dentro dos containers empilhados do lado do Julien's, que são de difícil acesso, e muitas das coisas que a gente precisa eles não têm... e eles não têm verbas emergenciais pra comprar, por exemplo, toner de impressora quando o estoque acaba, ou roteadores novos. Ao que tudo indica, eles estão tendo que funcionar com migalhas de infra-estrutura (como nós professores), acabam sendo responsabilizados por tudo que pifa ou acaba e que não pode ser consertado ou substituído, e acabam tendo que ficar na defensiva...

Há algum tempo atrás a gente recebeu um comunicado do setor de informática, dizendo que pra preservar os computadores e datashows existentes nas salas de aula passa a ser proibido mexer nos cabos deles - em particular, passa a ser proibido aos professores conectarem seus laptops aos datashows - e além disso quem for dar aula nos containers passa a ter que pegar a chave na secretaria, assinando um papel que vale como um termo de responsabilidade, e passa a ser obrigatório devolver a chave na secretaria depois, assinando a ficha de devolução - hoje em dia quando há uma chave é comum a gente passá-la para o professor que dá aula logo depois da gente, e ele assina a devolução depois. Mas, bom, o ponto crucial aqui é que os professores passam a ser responsáveis por tudo que se estragar nessas salas.

(Parêntese: eu dou todas as minhas aulas escrevendo no quadro, sem computador e sem projetor, então vou ser um dos menos afetados por tudo isto... outros professores do RCT usam projetor em quase todas as aulas, e curiosamente ainda não ouvi eles reclamando... mas o que importa aqui é outra coisa.)

Se a gente vai ter que assinar papéis a cada aula dizendo que qualquer dano que acontecer no equipamento dos containers-salas-de-aula é responsabilidade NOSSA, isto só pode ser porque alguém resolveu acusar o pessoal do almoxarifado/manutenção/informática/etc, dizendo que a reponsabilidade era DELES; caiu-se num jogo idiota de empurrar culpas, de que a culpa deveria ser de ALGUÉM - quem? E ela foi pros funcionários, e eles estão tendo que se defender das próximas culpas...

(Pra mim é óbvio que a responsabilidade pelos equipamentos que se estragam deveria ser TODOS nós - professores, alunos e funcionários - e que se ela deixou de ser de todos é porque algo no tecido social se estragou... mas acho que poucas pessoas no RCT conseguem pensar assim.)


Um livro que eu encomendei chegou! É um livro de ensaios, chamado "Ser feliz hoje - reflexões sobre o imperativo da felicidade" (Editora FGV; organizador: João Freire Filho). Li pouca coisa dele por enquanto, mas tou achando ótimo... durante muito antes eu me senti um Don Quixote solitário lutando contra a "Ditadura da Felicidade" no Rio de Janeiro, que torna as pessoas falsas e superficiais... scaneei um artigo, o do organizador, tá aqui:

(Link pro PDF do scan)

O meu argumento preferido atual contra a idéia de que "falar sobre problemas atrai outros problemas" é baseado em quantidade de energia. Se a gente não tem telefone no PURO, às vezes não tem xerox que os professores possam usar, às vezes falta toner durante meses, e a gente praticamente não tem internet, quanta energia a gente gasta pra conseguir agir como se estivesse tudo bem? Tem medidas simples e (suficientemente) concretas pra isto... a gente não precisa chegar num número final, então a gente pode simplesmente tentar se lembrar de quanto tempo a gente gastou pra se virar com essas coisas todas faltando, quanto trabalho a gente teve pra criar outros ambientes - em casa, em mesas de restaurantes, o que for - nos quais o nosso trabalho rendesse, e na diferença de rendimento da gente no PURO e nesses lugares; e quanto tempo a gente gastou ficando triste ou irritado com tudo isto, e se sentindo idiota por estar triste e irritado ao invés de ser "funcional" e "eficiente"... Ou pelo menos quanto tempo a gente gastou pra que queixas nossas, sobre coisas básicas, fossem ouvidas.


O resto do meu "argumento" é meio frágil - ele ainda não vai fazer sentido pras pessoas totalmente "eficientes", que nunca tiveram problema nenhum; mas espero que ele faça pelo menos um pouco de sentido pra cada pessoa que já se desesperou com as nossas condições de trabalho a ponto de ficar doente - e acho que não são poucas.

Se uma pessoa A acredita que os outros deveriam ajudá-la a esquecer os problemas e ser só "feliz" e "positiva" - no sentido do artigo scaneado acima - então as outras pessoas que ficam fazendo todo mundo se lembrar da existência dos problemas atrapalham essa pessoa A; e uma pessoa B que acha que negar os problemas não adianta - por exemplo, eu 8-\... a minha experiência é de que as coisas podres que eu tento fingir que não existem acabam fermentando nos porões de minh'alma e me causando problemas muito maiores depois - vai se sentir péssima por estar cercada de "especialistas em negação"...

Voltando ao ditado: é óbvio que o PURO é uma "casa que não tem pão"... e as pessoas "gritam" em estilos totalmente diferentes: umas propõem regras em reuniões, e essas regras são votadas e passam a valer; outras fazem planilhas pra mostrar pro mundo que a gente merece mais do que tem; outras, como eu, fazem coisas que podem parecer viagens amadorísticas e inúteis - acho que a gente nem tem ferramentas concretas pra fazer com que todas as regras sejam aplicadas e pra se defender de certos tipos de negligências e incompetências; muitas coisas estão fadadas a continuarem impunes, e em muitos casos os seus perpretradores sabem disso, e o nosso poder de pressão sobre eles é ínfimo -, e quase todas as pessoas vão acabar cometendo certas "sabotagens", voluntárias ou involuntárias... veja este trecho da resenha do livro do Kjerulf - estamos à beira de começar a jogar os lençóis no lixo - ou melhor, siga o link e procure por todas as ocorrências da palavra "hospital" nele.

although it's hard (for obvious reasons) to arrive at a very close estimate, I would guess that the costs of waste and sabotage alone, by disgruntled workers, are more than enough to offset any savings on labor costs. In one particular hospital, with one of the worst levels of understaffing and stress and the greatest perceived adversarial attitudes from management that I have ever seen, I have noticed that orderlies almost never swipe bar codes to charge supplies to patients; more often than not they throw dirty linens in the trash to save a trip to the dirty laundry bin. The justification is always the same: "This can come out of the money they're making by working us like dogs. They want to save themselves money by working us harder; we save ourselves trouble by costing them extra money--it's a pretty good trade."


Na casa onde eu cresci a pessoa X arrancava com a mão a coxa do frango que estava na mesa; a pessoa Y chamava a X de porca; a pessoa Z dizia que não aguentava mais tanta agressividade, "será que a gente não podia se comportar como uma família normal?"; e todos acusavam os outros sobre os seus modos de lidar com dinheiro... Quase todo o "pão" ganho do mundo exterior vinha através do patriarca, e muitos obtinham o merecimento de uma parte desse pão fazendo trabalhos pra ele; outros viviam em culpa. Quando o patriarca passou a ganhar muito menos as coisas ficaram bem complicadas.

(Continuo depois.)