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Omnisys, dez/2007 a fev/2008

Eu trabalhei na Omnisys entre 10/dez/2007 e 8/fev/2008 - e fui demitido de um modo bizarro.

Quick index:


1.

(2008aug22 (?))

Eu ainda estou tentando entender o que aconteceu no meu último trabalho... chamar o Aaaaa de "louco" ou de "sem caráter" me parece que seria simplista, e não explicaria certas cenas importantes.

Algumas coisas que eu fiz ofenderam ele em níveis muito profundos - "religiosos", até, no sentido de que correspondem a uma visão de mundo muito entranhada, na qual se baseia a noção dele do que as pessoas podem ser e não podem ser, e em cima da qual se constróem a ética dele, e todos os seus modos de julgamento.

"Podem" tem dois sentidos: o de autorização ("você não pode matar seres humanos") e o de possibilidade física ("uma maçã não pode cair pra cima").


2.

(2008aug26)

Uma das coisas que eu aprendi nesse trabalho foi a importância de uma boa legislação trabalhista... Eu saí de lá sem direito nenhum: o Aaaaa me convenceu de que seria melhor eu trabalhar lá como pessoa jurídica - e aliás eu quase cheguei a abrir uma firma junto com o Bbbbb, só pra eu poder emitir notas fiscais no meu próprio nome - então o único salário que eu recebi foi com uma nota fiscal da firma do Aaaaa, e eu não assinei praticamente nada no tempo todo em que eu estive lá - acho que só as folhas de entrada na portaria, pra eu receber um crachá de visitante e poder entrar no prédio...

O que acontece quando a gente sabe que as chances do nosso trabalho ser reconhecido são ínfimas, e que praticamente qualquer coisa que a gente fizer vai ser considerada errada, péssima, insuficiente? Isso gera uma espécie de apatia, e de paranóia... externamente, à primeira vista, a gente parece paralisado; mas na verdade estamos dedicando quase toda a nossa energia pra tentar desarmar essa situação, e pra descobrir algo que agrade... mas é como quando a gente joga xadrez com alguém muito mais forte - a gente vê que as nossas peças nunca estão numa posição forte o suficiente, e a gente começa a se preparar pra quando o nosso rei cair...

(Um amigo meu me mostrou há pouco tempo atrás - e por motivos completamente diferentes - uma cena fantástica de um filme chamado Cool Hand Luke. Ela mostra um modo de "ganhar" - a longo prazo -, no boxe, de um adversário muito mais forte que a gente. Num certo sentido eu estava usando uma estratégia parecida com a do Paul Newman: o Aaaaa olhava cada versão do projeto durante alguns segundos, poucos minutos no máximo, e dizia que estava tudo péssimo, e que não tinha nada a ver com a estrutura que ele queria... mas eu "sabia" que o meu planejamento era muito bom - ele tinha montes de stubs nos lugares certos, teria código rodando desde os primeiros dias, e seria muito fácil discutir toda a lógica do programa com qualquer um dos outros envolvidos... era um projeto feito pra começar bem e ser melhorado dinamicamente com o feedback dos outros - veja a descrição do "Chem" na p.12 do "Little Languages" - então não havia como simplesmente jogar tudo fora... bom, voltando: uma das coisas legais de computadores é que é natural guardar versões anteriores, e reaproveitar pedaços - então eu tinha que aguentar os ataques do Aaaaa, encontrar um modo de satisfazê-lo e fazer essa fase crítica passar, e aos poucos eu reaproveitaria montes de pedacinhos dos que ele me dizia pra descartar...)


3.

(2008aug27)

Eu e o Aaaaa conversamos bastante antes dele me contratar - e nós chegamos até a começar um outro projeto - um framework para desenvolvimento para um sistema embedado, que só não foi pra frente porque a firma que ia nos contratar desistiu - e eu tinha certeza absoluta que o Aaaaa tinha uma boa noção de quanta coisa eu não sabia, e de que eu tinha bem pouca experiência em trabalhar junto com outras pessoas...

Bom, acontece que o meu modo de usar o computador é muito diferente do dele - bem mais diferente do que o Aaaaa imaginava que poderia ser. É como se o Aaaaa fosse um instrumentista, mais pra virtuoso, e ele esperasse que eu fosse um super-instrumentista também. Então ele esperava notas muito claras, precisão nos ornamentos, leitura à primeira vista, solfejo, e uma memória musical colossal, ou quase - só que ao invés disso eu sou um programador de sintetizadores, e ao invés de treinar tocar um mordente eu investiria meu tempo em programar um botão que tocasse ele pra mim... e eu sabia que eu tinha que construir uma ponte entre o meu modo de funcionar e o do Aaaaa a toque de caixa pra eu aprender a fazer as tarefas que precisava - e eu não podia esperar que ele aprendesse nenhuma das ferramentas que eu usava...

Eu tinha mil tarefas enormes à minha frente, e no início eu não tinha o menor grilo com isso. Um dos meus objetivos naquele trabalho era exatamente aprender a trabalhar em conjunto com outras pessoas, e, depois de mil anos como autodidata, aprender a fazer as coisas que as pessoas "normais" fazem com computadores nos seus trabalhos.


O quanto eu tinha que me integrar com o Aaaaa e seus amiguinhos?

O modo que eu encontrei, começando na adolescência, pra lidar com uma sensação de inferioridade e esquisitice muito grandes - e com isolamento e exclusão (porque muito pouca gente quer viajar ou ir nas festas junto com alguém que pensa demais) - foi virar uma espécie de control freak. Eu passei a pensar a respeito das conseqüências indiretas e super-indiretas de cada gesto meu, e de cada atitude minha.

Quando eu trabalhava na Vivo da Barra eu ficava bem desesperado de ter que conviver com uns caras que trabalhavam comigo que só falavam de aparelho de celular, kart e putas, e de ir em festas hetero, cantar a namorada de um cara grandão, puxar briga e quebrar o lugar todo. Eles achavam tudo isso divertido e engraçado - talvez porque isso os remetesse a situações de poder e liberdade - mas pra mim isso só remetia a situações de um encurralamento sem solução...

Bom, voltando. Eu precisava me concentrar no trabalho - muito, em muitos níveis. Se eu via que eu estava me incomodando com alguma conversa que não tinha a ver comigo eu dava um jeito de me focar no computador, no que eu tinha que aprender e fazer - eu sabia que se o meu contato com as outras pessoas de lá começasse por assuntos técnicos isso criaria uma aura de não-bobeira em torno de mim...

Era pra gente ficar conectado em dois canais de IRC: o #omnisys, para coisas internas e técnicas, e o #truta.org, onde um monte de amiguinhos do Aaaaa se conectavam. O #truta.org era em grande parte um canal de "huahahahahehehue"s e de "asdfsdfgfadsag"s e de pessoas se zoando e zoando a Microsoft e o Linux, e postando links sobre BSDs...

O Patola aparecia no #truta.org com muita freqüência. O Patola é um cara tacanhamente cartesiano, que já trabalhou na IBM, agora tá fazendo doutorado em Genética, adora Richard Dawkins (que eu odeio: link, link), e ficava puxando assunto no #truta.org sobre transgênicos e doenças e genomas, e tratando todas as outras pessoas como se elas fossem idiotas e ingênuas e acreditassem em fantasias e não soubessem nem pensar nem argumentar.

Patola = irritação e desconcentração.

Será que era pra eu responder pro Patola?

Ah, e ele escrevia muito, e muito rápido.

Tinha um argumento que eu tinha vontade de usar contra o Patola, e que devo ter usado uma meia dúzia de vezes: que ele não estava conseguindo ver as conseqüências das atitudes dele.

Bom, aí o Patola entrava no #truta.org e eu desconectava do canal.

(E daí a pouco eu levava uma bronca: "Ô truta, cê não viu o link que eu te passei agora há pouco no canal não?")


O Aaaaa tinha conseguido que me contratassem lá na Omnisys ganhando um salário um pouquinho maior do que ele ganhava - e acho que isso não era absurdo não, porque afinal eu tinha doutorado, e tudo indicava que tudo ia dar certo; a partir de um certo momento isso virou mais um motivo pra ele ficar tão puto comigo - mas vou voltar a isto depois.

Num certo dia os diretores resolveram - espontaneamente - chamar o Aaaaa e dizer que achavam que ele merecia um aumento, e que iam aumentá-lo. Claro que ele ficou hiper feliz - e eu tenho a impressão de que esse desprendimento dele, de se permitir contratar alguém que iria ganhar mais que ele, deve ter contado pontos a favor dele, e ter ajudado a fazer com que esse aumento acontecesse.

Vamos pular algumas cenas. A nossa sala era um aquariozinho, separada por portas e divisórias meio de fórmica, meio de vidro, de uma área grandona à esquerda onde ficavam um monte de pessoas, principalmente engenheiros, em seus computadores, e de uma outra área, à direita, com muitas bancadas altas cheias de aparelhos eletrônicos. Nesse nosso aquariozinho trabalhávamos nós - o Aaaaa, eu e o Bbbbb - mais o Paulo, que era um engenheiro eletrônico sênior, e mais, às vezes, uma estagiária super novinha que fazia coisas sem absolutamente nada a ver com as nossas, e que era filha (?) de um diretor que não trabalhava no nosso andar, e que eu não cheguei a conhecer.

Então: a nossa sala era meio que isolada acusticamente do resto, e o Paulo muitas vezes estava em laboratórios em outros andares, então estávamos só o Aaaaa, o Bbbbb, e eu, e o Aaaaa tinha recebido o aumento há poucos dias, e um dos temas recorrentes nos monólogos dele era o que ele iria fazer com esse aumento - o do primeiro mês teria que ser usado de forma especial.

"Já sei, Bbbbb! Vou contratar uma puta!"


(2008sep08?)

Em outras épocas isso teria me incomodado bastante - mas dessa vez não, porque por aqueles dias eu estava totalmente concentrado em terminar o Plano de Desenvolvimento de Software de um projeto que estava sob minha responsabilidade, e eu passava os dias e as noites e os almoços e jantares e horas livres mexendo naquilo, escrevinhando anotações na última cópia da versão temporária que estivesse comigo - e basicamente tentando acertar o tom, porque segundo o Aaaaa nada do que eu escrevia estava bom... Mas, bom,


4.

(2008sep02)

Há muitos meses atrás - bem depois de eu ter sido despedido - eu estava folheando um livro chamado "Árabes" (autor: Mark Allen) numa livraria, e gostei tanto deste trecho que resolvi comprá-lo.

Disse que, mesmo assim, tinha gostado do curso, mas que não tinha aprendido grande coisa nas aulas sobre como lidar com as pessoas. A família dele, disse, tinha criado especialistas em lidar com as pessoas durante séculos. Sem essas técnicas, teriam afundado. Ele achou as técnicas apresentadas no curso um tanto simplórias. Na Arábia, o teste é rigoroso. Os pedidos incessantes de oportunistas, velhacos, gente com ambições sociais ou políticas, além dos realmente necessitados, drenam enormemente os recursos e forças emocionais. O xeque só dá certo porque consegue lidar com tudo isso. Conseqüentemente, na maturidade será uma pessoa formidável, ele próprio reforçando a propensão coletiva de possuir um grande líder. Esses dotes políticos é que importam. Nos velhos tempos, um xeque capaz de atender a esses requisitos, mas que não fosse naturalmente talhado para lutar e saquear, ou já estivesse em idade muito avançada, podia continuar como xeque (da porta - shaik al-bab), e para liderar a guerra seria escolhido um outro xeque (da sela - shaik al-shidad). A distinção revela os sólidos fundamentos que sustentam os costumes: a capacidade de atender às necessidades sociais da tribo vem em primeiro lugar, e os critérios mais estreitos de excelência na guerra vêm depois. No mundo tribal, a capacidade para exercer esse poder, essa influência que permite que os outros levem a vida da melhor maneira possível, também é tida como um atributo do sangue puro, algo inerente a este que deve ser aplicado.

Eu sabia que a capacidade de chefiar outras pessoas era algo grande, que eu estava muito longe de ter. Mas a capacidade de receber ordens - e de lidar bem com ordens insensatas e incoerentes - era algo que eu também ainda não tinha, e que, isto sim, eu precisava desenvolver com urgência.

(Num certo momento o Aaaaa disse: "eu não sei ser chefe". Eu concordo - mas as minhas razões para achar isso certamente são totalmente diferentes das dele.)

Aliás, eu achava o Bbbbb um cara genial. Muito bom tecnicamente - apesar de ainda estar no começo - mas, acima de tudo, ele era fantástico em manter a ordem em torno dele - ele lidava bem com as idiossincrasias de todo mundo. Mas, bom, a posição dele na empresa era muito mais fácil, e simples, que a minha - e eu estava vindo de um período de muito desespero.

Um trecho da resenha do livro do Kjerulf:

Still, he sometimes seems rather oblivious to just how strong the objective constraints on workers are. For example, he repeatedly argues that we can't afford not to quit shitty jobs. But he might profit from reading a little Barbara Ehrenreich. Ehrenreich, in Nickel and Dimed, painted a pretty vivid picture of just how shitty jobs can be for the working poor (and I could write a few books on the subject myself); but she also made it quite clear, in Bait and Switch, how desperate the desire for a shitty job can become for the long-term, structurally unemployed. Unfortunately, for many people the alternative to a shitty, soul-eating job is the even more shitty and soul-eating prospect of living on Ramen, having the power cut off, or being homeless altogether. Kjerulf's blithe assurances that better prospects are waiting around the corner remind me a bit of all those motivational gurus in Roger and Me who gushed about the wonderful opportunities that had been opened up for those unemployed Flint auto workers.

Another example of the same thing is his response to people who say "I simply don't have time to help others, I have too much work myself already."

However, when everybody subscribes to this philosophy, everybody becomes less efficient, and people have even less time. If, on the other hand, you can take half an hour to help a co-worker, saving him an hour of work, and that co- worker can return the favor some day, then everybody wins. In effect, we don't have time not to do it. (pp. 80-81)

That may be true. But it's a lot like the mechanic telling you that $100 now will save you $1000 in a few months, or knowing that scraping up the cash to get that tooth pulled now will save a lot more money further down the road. What Kjerulf doesn't seem to understand is that, when the material constraints are bad enough, such "stitch in time" equations are entirely academic. You may or may not have the $1000 in a few months, but you know you sure as hell don't have the $100 now. That's why, as someone so aptly put it, being poor means hoping your toothache goes away. That's why the working poor spend their entire lives renting furniture by the week or rolling over payday advances, paying ten times as much for stuff because they didn't have the money up front to get it cheap.


5.

Um dia o Aaaaa me convidou pra sair com ele e com o Dddddddd. Eu só tinha visto o Dddddddd uma vez - muitíssimos anos antes, no mesmo encontro de BSD no qual eu tinha conhecido o Aaaaa. Nós fomos buscar o Dddddddd, que estava na casa de uma amiga dele, no carro do Aaaaa. Assim que o Dddddddd entrou no carro ele começou a falar - e ele solou durante pelo menos uma meia hora, falando sobre o que ele anda fazendo, sucesso, viagens, cursos, trabalhos, quantidades monumentais de dinheiro, e bolsa de valores - e como hoje em dia todas as empresas que importam, e que sobrevivem, jogam no mercado de capitais - e muitas têm até salinhas com vários terminais, e em cada terminal um carinha aplicando na bolsa e fazendo mil transações.

Eu ouvi calado, tentando ser boa companhia, mas me sentindo preso dentro no mundo errado, e com um caroço crescendo engasgado na garganta. Eu sei que eu sou esquisito, errado, neurótico, recalcado, e tão minoritário que é um milagre que eu ainda não esteja extinto - mas eu fiquei realmente surpreso com aquela situação... Eu nunca me imaginaria jogando na bolsa; pra mim, intuitivamente, era algo imoral...


6. Brejas e vinhos

(2008sep28)

My grandmother, who was born in 1897 in East London (Shoreditch) into deep working-class/workhouse roots, always hated beer for the simple reason that she intuited it to be a means for the working class man to forget the creeping, painful drudgery of his waking life.

http://www.petemccormack.com/social_005.htm#_mcic4

Numa certa época um dos assuntos preferidos do Aaaaa era que um fulano da empresa tinha passado um tempo trabalhando na Alemanha, e lá era comum os caras deixarem uma garrafa de vinho na mesa de trabalho e irem tomando durante o dia.

Eu não costumo beber. Eu fui junky de psicodélicos quando era adolescente, mas nos últimos muitos anos eu tenho me voltado para baratos mais sutis - por exemplo Ioga, Tai-Chi, comida vegan - e eu às vezes me pego dizendo pra mim mesmo coisas como: "se o meu dia tivesse 36 horas eu gastaria meu tempo livre lendo Grothendieck" (é, é pretensioso, eu sei). E eu não entendo essa noção de "amizade" e "companheirismo" que está associada a sair com gente com quem a gente não tem quase nenhum assunto e passar a noite bebendo, rindo e gritando machezas num bar.

Bom, o Aaaaa andava empolgadíssimo com o trabalho e com o crescimento dele na empresa. Eu estava me descabelando pra me adaptar a tudo e pra fazer o que esperavam de mim, e eu estava precisando - muito - de 8 horas de sono por noite, ou quase isso, e o Aaaaa estava maravilhado, e se gabando disso várias vezes por dia, de que ele só estava precisando dormir 4 horas por noite, e ele acordava ótimo.

Várias vezes eu cheguei em casa por volta das 23:30 - depois de jantar sozinho pizza na Ben-Hur, concentrado no PDSW ou em algo de Matemática que eu lia pra relaxar e pra pegar boas vibes - e o Aaaaa já tinha tomado meia garrafa de vinho, e me convidava para acompanhá-lo e conversar. Eu aceitei "a sério" uma vez (eu tinha que me expôr e me entrosar, caramba, mesmo que o meu modo de fazer tudo isso fosse ser meio canhestro no início, e até parecesse meio artificial), e nós conversamos horas - e aceitei menos a sério outras vezes, e tomei só uns dois dedos de vinho, conversei só um pouco e fui dormir.

Nessa vez em que nós conversamos horas o Aaaaa puxou muito o assunto pra grupos políticos com os quais ele simpatiza, como o MST e o EZLN. Acho que as minhas posições políticas não são nada usuais: eu tenho muito pouco interesse por macropolítica, não me encaixo em grupos, acredito em micropolítica e ações individuais, e freqüentemente me identifico com as idéias de autores anarquistas... Eu acabei discordando do Aaaaa em várias coisas: tenho a impressão de que na visão de mundo do MST os valores, a ética e as relações entre as pessoas são ainda mais importantes e centrais que as questões econômicas, acho contraproducente rotularmos as pessoas como "bons", "maus", "burgueses", etc - e acho que já que os "burgueses" tiveram acesso a cultura, educação, etc, nós podemos exigir deles que façam por merecer, e sejam éticos, respeitosos e úteis... não vejo porque tolerar consumismos e playboizices.

No final o Aaaaa ficou puto comigo porque eu respeito junkies, loucos e deprimidos - e pra ele tudo isso são mimadices e frescuras burguesas.

(Por sinal: link, link.)


7. A mesa de vidro

(2008oct31)

Esse título é idiota, mas é bonitinho... bom, vamos lá.

Na sala da casa do Aaaaa tinha uma mesa de vidro. Em cima dessa mesa ficava(m) um ou dois computadores. O Aaaaa criou pra mim uma conta num desses computadores. Evidentemente, eles rodavam NetBSD; e, como sói acontecer nas casas das pessoas que têm muitos computadores, gostam muito de computadores, e entendem à beça de redes, todos os computadores estavam ligados entre si.

Vou chamar esse computador no qual o Aaaaa criou uma conta pra mim de "o computador da mesa".

Por algum motivo o computador da mesa rodava uma versão antiga do NetBSD, e uma versão antiga do Firefox (Netscape, talvez? Não, acho que não chegava a ser tão antiga assim).

Eu obviamente não ganhei uma conta de superusuário no computador da mesa.

Eu pedi pro Aaaaa instalar pra mim uns programas no computador da mesa: zsh, emacs, fvwm. Ele me disse: (obs: acho que o que eu vou contar está um pouco errado - ele instalou alguma coisa sim, mas lembro que foi bem pouco), "ô mano, baixa o ports do NetBSD e aprende a bootstrapear ele e a compilar coisas nele - isso é fácil, dá pra fazer como usuário comum, tá super bem documentado e você vai precisar aprender isso pra umas coisas que a gente vai fazer lá no trabalho. Aprende aí".

Eu quebrei a cara bastante. Não tava bem documentado não, e eu tava tendo que juntar informações de várias páginas páginas da rede sem poder usar o meu sistema de hiperlinks e de gravar comandos... levei várias noites - e alguns dias de fins-de-semana - nisso.

Acabei baixando e compilando o zsh, o fvwm e o emacs a partir das fontes "upstream". Não tive tempo de aprender a fazer o "ports" funcionar bem o suficiente. Um amigo meu de internet - o Marc Simpson - me ajudou bastante, mas não deu.

Esse tempo em casa era o tempo que eu tinha pra fazer coisas não relacionadas com trabalho - trocar e-mails com família, amigos e namorada, por exemplo, e atualizar a minha página pra que ela incluísse as modificações que eu estava fazendo no meu ambiente pra que ele funcionasse em NetBSD - e também era o tempo que eu tinha pra aprender coisas que talvez fossem me facilitar o trabalho depois, mas que eu não poderia justificar gastar tempo "oficial" de trabalho com elas... e isso incluía aprender coisas que eu achava que já deveria saber e não sabia.

Na casa do Aaaaa, na mesa de vidro, eu também estava em teste. Isso era óbvio.


O eev surgiu de uma chutação de balde minha, em 1994. Os caras dos laboratórios de computadores da PUC "ensinavam" coisas e "respondiam" coisas dando dicas muito curtas - que eu chamava de "monossilábicas" - e apontando para documentos e READMEs que também eram difíceis de seguir, e incompletos. Eu sentia que aquilo era uma cultura de fodões, que ficavam impondo testes aos outros ("rituais de iniciação", talvez), exigindo que os outros se mostrassem fodões também, fazendo com que todo mundo se fortalecesse na porrada - e eu não conseguia deixar de associar aquilo com os ritos de macheza que sempre tinham me desesperado tanto -

(Flashback: eu era um CDF mirrado com pele esverdeada; um dos "garotos que jogavam futebol" me dava um cascudo casual toda vez que passava por mim nos corredores do colégio)


8. Casa

(2008sep11 / 2008sep28)

Estava sendo muito difícil pra mim morar com o Aaaaa. Eu precisava de cada vez mais tempo em silêncio todo dia - pra me concentrar, pra me reorganizar, pra descobrir como me colocar diante daquele mundo bizarro em torno de mim - e eu já estava almoçando e jantando sozinho todo dia (eu sou vegetariano), e indo e voltando de ônibus quase sempre, ao invés de ir de carona...

Numa quinta (24/jan/2008) a Tatiana foi lá pra São Caetano pra me ajudar a procurar um apartamento. Nós nos encontramos às 7 e pouco da manhã numa lanchonete perto da Omnisys, e ela passou a manhã descobrindo onde ficavam as imobiliárias, perguntando tudo, e vendo casas e apartamentos lá perto do meu trabalho. Nós nos encontramos de novo na hora do almoço, e no dia seguinte (sexta) de manhã eu só consegui chegar na Omnisys às 11:40, nem pude subir, só deixei coisas na portaria - isso não podia ser tão grave, nós estávamos sempre saindo do trabalho às 10 ou 10:30 da noite, e eu estava concentrado no PDSW em tempo integral nesses dias, evitando até prestar atenção às conversas em torno de mim pra eu conseguir me concentrar melhor - e corri pra imobiliária pra pegar a chave de uma casa que a Tatiana tinha encontrado e recomendado; eu tinha que chegar lá antes que o pessoal da imobiliária saísse pro almoço -

Uma observação importante: por aqueles dias a minha situação no trabalho estava péssima - o PDSW não estava saindo do jeito que o Aaaaa queria, aliás nada estava saindo como ele queria, eu estava levando esporro o tempo todo... Eu pensava: "ok, faz parte, eu fui super honesto a respeito do que eu sabia e não sabia antes do Aaaaa me contratar, em algum sentido ele sabe que eu não tinha experiência nenhuma com essa linguagem de documentos e cronogramas, não tenho nem tempo pra entrar em pânico ou pra ficar tentando descobrir que cara ou teatrinho fazer, a coisa correta a fazer é to keep my nose to my work, entregar um PDSW aceitável assim que possível e melhorá-lo depois, e me comportar de um modo que não puxe pra baixo ninguém em torno de mim"...

Então: eu vi a tal casa com a Tatiana - a Tati avisou que só ia chegar na imobiliária uns minutos depois das 12:00, eu tinha que chegar primeiro -, a casa era OK, e aí eu voltei pra Omnisys... e aí - assim que a Omnisys ficou mais vazia, às 5 e tanto da tarde, o Aaaaa fez uma reuniãozinha comigo e com o Bbbbb, e explicou que estava bem decepcionado, que ele esperava que eu soubesse certas coisas que ele achava que eram óbvias e que "todo mundo sabia" (e que pra mim eram coisas de BSD e vi e admin, e eu nunca tinha precisado aprender - o mundo de Emacs é bem diferente), que ele estava desgastado pelos nossos desentendimentos e brigas e discordâncias,


9. Narrativa

É muito difícil pra mim montar uma narrativa do que aconteceu. Parece que qualquer tentativa minha de escrever tudo isso vai ser lida pelo Aaaaa em algum momento, e ele vai ver o texto como se fosse pra ele, em algum sentido, mas é como se pra ele só existissem duas linguagens, sem nenhuma brecha possível para outras: "winnerspeak" e "loserspeak" -


10. Reunião

LOGS/2008jan29.omnisys

(2008oct28)

Fui demitido por incompetência - tanto técnica quanto psicológica. Até aí tudo bem - eu fiquei chocado, porque havia todo um discurso de que eu era a pessoa certa, que eles valorizavam o que eu sabia e que era a melhor chance possível pra eu aprender as coisas "normais" que me faltavam - mas eu me sentia grato pela oportunidade assim mesmo - eu tinha errado horrores, e aprendido horrores (e quebrado a cara bastante). Então eu queria terminar o que desse do projeto que estava sob minha responsabilidade, pra sair de lá o melhor que desse, com bons "karma points"...

Deixa eu dar agora alguns detalhes da reunião em que foi decidida a minha demissão. Eles esperavam que eu já soubesse mil coisas que eu ainda não sabia (e que no meu mundo baseado em Emacs eu nunca tinha precisado saber), e que eu estava demorando pra aprender; eles esperavam que eu fosse mais independente e descobrisse mil coisas sozinho ao invés de perguntar, e eles esperavam que eu tivesse instalado NetBSD na minha máquina e começasse a me virar num ambiente mínimo todo instalado por mim, ao invés de eu começar no Debian que eu já tinha, rodando shells externos na máquina do Bbbbb...

Parêntese: o Aaaaa reclamou muito - tanto nessa época, quanto antes, quanto depois, da minha "birra" contra usar esses ambientes "crus" - shells puros e outros editores - ao invés do Emacs... só que eu sei, e não adianta tentar argumentar, porque essas pessoas não acreditam, que isso e o meu modo envolvem áreas diferentes do cérebro, que em todas as minhas tentativas de usar interfaces sem o meu esquema de "anotações executáveis" nos últimos, sei lá, 12 anos - algumas, em BSDs ou no Hurd por volta de 2001, se estenderam por meses - eu tinha sido super capenga, e não seria nem honesto eu aceitar o "senso comum" e topar aprender as coisas desse jeito num trabalho que me pagasse mais do que a um estagiário...


11. Pidentes

(2008nov06)

Uma ex-namorada minha morava em Copacabana e a mãe dela era bem chique (o pai dela era super largado). Os pais dela tinham um motorista - o Gilvan - e o Gilvan às vezes falava uma coisas muito engraçadas... por exemplo, ele chamava "pedintes" de "pidentes". Pois então.

O mundo talvez seja das pessoas que sabem pedir. Os meninos aprendem a cantar 100 mulheres, levarem 99 foras, e acharem isso normal (eu não aprendi isso, evidentemente); outras pessoas aprendem a sair por aí bradando que "têm o direito" disso, daquilo e daquilo outro, que foram prejudicadas, e apelam a autoridades, que aí abrigam essa pessoa sob suas asas e decretam que ela é Boa e que as outras são Más, e que as Más devem desculpas e compensações à Boa -

Bom, imagino que essas autoridades existam porque há no ar uma noção de "justiça"; o poder delas deve vir de uma espécie de pacto social muito básico - de que todo mundo considera que é melhor viver onde as pessoas são justas e honestas, e aí criam-se mecanismos pra empurrar as pessoas na direção da honestidade, e pra puxar as orelhas de quem trapaceia muito - e, da mesma forma, tenta-se fazer com que - pelo menos em ambientes de trabalho - as pessoas funcionem bem em conjunto, não se atrapalhem umas às outras, e não se sabotem -

No dia da reunião na qual me avisaram que eu seria demitido - a uns 10 dias do meu segundo mês de trabalho - o Aaaaa me disse que me indicaria para trabalhar em outros lugares; no final da outra semana ele me disse que eu não precisava voltar lá pra São Caetano depois do fim-de-semana, e que eu ficasse no Rio, terminasse em casa o resto do que eu tinha me comprometido a fazer e mandasse por internet, que ele iria passar aquele dia fazendo coisas fora da Omnisys, e que era pra eu e o Bbbbb definirmos o "escopo" do que eu ainda iria entregar ("escopo", "visão sistêmica"... numa hora eu vou escrever sobre essas questões de linguagem), e que ele condicionaria uma parte do pagamento à entrega do que eu devia, mas que ele tentaria fazer com que me pagassem outra parte antes, porque ele sabia que eu iria precisar - isso nunca foi posto por escrito, e nunca mais foi mencionado, então óbvio que eu não podia pedir pro Aaaaa que concretizasse isso (e era um "tentaria"!), então isso acabou só servindo pra eu me sentir pior depois, e mais otário -


12. Respostas rápidas

(2009jan??)

Esse mundo do Aaaaa é o mundo da ansiedade, e das respostas rápidas. "Como é que sai do vi?" ":q!" "Ih, ele sabe! E pra matar uma linha?" ":xpto" "Ô, claro que não, seu burro! Isso troca uma linha com uma coluna!" - "Camisa rosa é coisa de viado!" "Não é não!"... Num certo sentido isto torna fácil testar as pessoas em torno de você, e torna fácil obter respostas - certas respostas.

Uma imagem que eu fiz do Aaaaa - é um exagero, uma simplificação e uma caricatura, mas esse tipo de coisa é útil pra gente pensar sobre o que aconteceu - é que ele é um cara que sabe muito bem uma matéria de um curso de computação - Sistemas Operacionais; aliás um curso desses que fosse todo centrado na análise do kernel do NetBSD - e ele subordina todo o resto a essa matéria, com a justificativa de que o kernel é a base dos sistema... só que não há uma só "base"... eu gosto destes trechos de uma entrevista com a Rebecca Goldstein, que é uma especialista em Spinoza e Gödel:

GOLDSTEIN: It's interesting. Actually, my doctoral dissertation was on the irreducibility of the mind to the physical. We have not been able to derive what it's like to be a mind from the physical description of the brain. So if you were to look at my brain right now, I would have to tell you what it is that I'm experiencing. You can't simply get it out of the physical description. So where does that leave us? It might mean that we're not our brain. It might mean that we have an incomplete description of the brain. Our science is not sufficient to explain how this extraordinary thing happens -- that a lump of matter becomes an entire world. But the irreducibility doesn't in itself show immaterialism. And you can turn it around and say, look, all the neurophysiology that we have so far shows there is a correlation between certain physical states and mental states. And even a dualist like Descartes said there's a one-to-one correlation between the physical and the mental. So I'm not sure that we've settled this question once and for all.

(...)

PINKER: I suspect not. In fact, the reason I'm not a neurobiologist but a cognitive psychologist is that I think looking at brain tissue is often the wrong level of analysis. You have to look at a higher level of organization. For the same reason that a movie critic doesn't focus a magnifying glass on the little microscopic pits in a DVD, even though a movie is nothing but a pattern of pits in a DVD. I think there's a lot of insight that you'll gain about the human mind by looking at the whole human behaving, thinking and reporting on his own consciousness. And that might be true of creativity as well. It may be that the historian, the cognitive psychologist and the biographer working together will give us more insight than someone looking at neurons and brain chemistry.

Então quando alguém conversava com o Aaaaa a respeito de alguém que queria aprender a programar o Aaaaa mencionava um jogo no qual os jogadores programam robozinhos pra lutar contra outros robozinhos, e nas pessoas tentarem escrever novos drivers pro kernel...

Uma vez o Bbbbb fez uma pergunta pro Aaaaa sobre como argumentos de funções, variáveis locais e variáveis estáticas são organizados na memória. O Aaaaa começou a explicar, empolgadíssimo, mas num instante começou a explicar outras coisas, e acabou dando uma explicação enorme sobre "priority rings" e como os argumentos são passados pro kernel em kernel calls...

Eu não sabia bem como interferir pra fazer essas explicações irem pra direção certa... Como fazer algo construtivo sem ferir os brios de ninguém? Em que ponto eu deveria desistir de interferir?

Eu acabei escrevendo em 5 ou 10 minutos um scriptzinho pra GDB que mostrava como vários tipos de variáveis eram alocados na memória. Não documentei ele direito - longe disso - mas a idéia era só fazer algo que fosse "socialmente útil"... naquele momento aquilo respondia uma dúvida do Bbbbb; mas tarde ele poderia servir pra mostrar a diferença entre explicações "abstratas" e explicação "concretas", e pra mostrar um modo de documentar coisas com exemplos executáveis; depois eu poderia usar coisas parecidas com ele pra fazer perguntas detalhadas sobre problemas com (digamos) Qt no IRC ou em listas de discussão, e nesses lugares só perguntas muito bem formuladas acabam recebendo respostas...


13. Proletarização (1)

(2009jan21)

Eu não sei onde eu pus o link pra um texto - era um ensaio, acho - que discutia classes sociais na Inglaterra de hoje em dia... O autor dizia que as diferenças econômicas entre as classes não são mais tão grandes e há uma certa mobilidade entre elas, mas certas diferenças de valores se mantêm - por exemplo, na classe "operária" (o termo não se aplica mais tanto, mas mesmo assim) se valoriza a capacidade de enfrentar situações difíceis e trabalhos extenuantes sem reclamar ou reclamando pouco - que é necessário para manter a família unida em tempos difíceis - e a disciplina, e a subordinação à autoridade, e a capacidade de cumprir ordens - o que é necessário para ser um "bom operário" e conseguir e manter o emprego. Junto com isto - e talvez em conseqüência disto - valoriza-se a capacidade de se integrar no grupo e socializar-se sem destoar (conformidade).

Pois bem: na classe "burguesa", que tem mais acesso à universidade e uma relação totalmente diferente com ela, valoriza-se a independência de pensamento - e daí a (re)discussão de papéis e comportamentos sociais - por exemplo, o que é "masculino", ou que brincadeiras são adequadas - é algo muitíssimo mais natural na classe "burguesa" que na classe "operária"...

Eu andava usando um termo que eu mesmo tinha inventado - ou improvisado - pra descrever o que havia acontecido com o "mercado de informática' do Brasil: eu dizia que ele tinha se "proletarizado", e aos poucos eu passei a achar que esse termo era ainda melhor do que me parecia inicialmente.


O Steve Yegge escreveu um artigo chamado "Done, and Gets Things Smart" no blog dele, que ficou mais ou menos famoso; o trecho abaixo é de um dos comentários.

Another clarification of my assertion "if you're wondering if you're good, then you're not" should perhaps be said "if you need reassurance from someone else that you're good, then you're not." One characteristic of these "animals" is that they are such obsessive perfectionists that their own internal standards so far outstrip anything that anyone else could hold them to, that no ordinary person (i.e. ordinary boss) can evaluate them. As Steve Yegge said, they don't go for interviews. They do evaluate each other -- at Google the superstars all reviewed each other's code, reportedly brutally -- but I don't think they cared about the judgments of anyone who wasn't in their circle or at their level.

I agree with Steve Yegge's assertion that there are an enormously important (small) group of people who are just on another level, and ordinary smart hardworking people just aren't the same. Here's another way to explain why there should be a quantum jump -- perhaps I've been using this discussion to build up this idea: its the difference between people who are still trying to do well on a test administered by someone else, and the people who have found in themselves the ability to grade their own test, more carefully, with more obsessive perfectionism, than anyone else could possibly impose on them.

School, for all it teaches, may have one bad lasting effect on people: it gives them the idea that good people get A's on tests, and better ones get A+'s on tests, and the very best get A++'s. Then you get the idea that you go out into the real world, and your boss is kind of super-professor, who takes over the grading of the test. Joel Spolsky is accepting that role, being boss as super-professor, grading his employees tests for them, telling them whether they are good.

But the problem is that in the real world, the very most valuable, most effective people aren't the ones who are trying to get A+++'s on the test you give them. The very best people are the ones who can make up their own test with harder problems on it than you could ever think of, and you'd have to have studied for the same ten years they have to be able even to know how to grade their answers.

That's a problem, incidentally, with the idea of a meritocracy. School gives you an idea of a ladder of merit that reaches to the top. But it can't reach all the way to the top, because someone has to measure the rungs. At the top you're not just being judged on how high you are on the ladder. You're also being judged on your ability to "grade your own test"; that is to say, your trustworthiness. People start asking whether you will enforce your own standards even if no one is imposing them on you. They have to! because at the top people get given jobs with the kind of responsibility where no one can possibly correct you if you screw up. I'm giving you an image of someone who is working himself sick, literally, trying grade everyone else's work. In the end there is only so much he can do, and he does want to go home and go to bed sometimes. That means he wants people under him who are not merely good, but can be trusted not to need to be graded. Somebody has to watch the watchers, and in the end, the watchers have to watch themselves.

A Tatiana trabalhava no curso de Letras da Universidade de Barra Mansa, dando algumas das matérias de Literatura. No início isso era só um trabalho hercúleo - os alunos tinham tido pouquíssimo contato com literatura antes da faculdade, a biblioteca era mínima, etc - mas com o tempo a UBM começou a ser mais e mais dominada por administrólogos, e isso foi virando um trabalho impossível. O grade do curso foi sendo modificada, e no final só era obrigatório que os alunos fizessem um curso de literatura durante toda a graduação.

O que é que dá pra ensinar de Literatura em um semestre?

Os administrólogos queriam tornar o curso mais atraente para o público da região, e para isso eles queriam fazer com que o curso ficasse mais "prático" e mais "voltado pro mercado de trabalho". O curso foi virando um curso de, sei lá, "treinamento de secretárias". A Tatiana, que foi eleita pelos alunos várias vezes a melhor professora do curso, foi sendo massacrada por um sistema no qual ela não cabia mais, e no fim foi demitida, porque ela "não tinha o perfil". E é verdade, o perfil do curso mudou.

Pra que é que serve Literatura no mercado de trabalho?

A Tatiana acabava assistindo trechos do programa da Leda Nagle de vez em quando, e ela me contava umas coisas aterradoras. A Leda Nagle andava entrevistando muitos administrólogos e consultores, e os administrólogos e consultores, como todo mundo sabe, sabem tudo sobre o Mercado de Trabalho, e sabem que nada mais importa. Pois bem: um desses administrólogos/consultores disse uma vez que a formação acadêmica de uma pessoa não tem quase importância nenhuma; o que se precisa num emprego é sempre diferente do que se ensina na universidade, então o que importa mesmo é o psicológico do cara: se ele tem o "psicológico bom" ele lê a apostila e aprende num instante, e se ele tiver o psicológico ruim nem adianta contratar, porque ele vai achar que já sabe tudo e que não precisa mais aprender nada, ou vai criar confusão ou sei lá o quê... então pra que contratar alguém que pode ser que melhore daí a meses ou anos? Consertar o psicológico de alguém é algo muito difícil, então o melhor é deixar esses caras pra lá... o mundo é duro mesmo, a gente contrata quem pode trabalhar melhor, e os outros que se virem.

Eu estou começando a achar que o "psicológico bom" tem muito a ver com subordinação.

Os administrólogos e consultores são especialistas em saber tudo e mudar tudo. Eles aparecem e trabalham exatamente nas fases em que é preciso mudar muita coisa, e então pessoas e cargos são descartáveis; e eles têm que trazer novas metas, novos critérios de julgamento, novos testes objetivos, estatísticas a serem cumpridas -

Essa mania de "objetividade" e "mensurabilidade" dos administrólogos e consultores faz com que eles não tenham nem mesmo a linguagem para conseguirem pensar no que eu e a Tatiana aprendemos e valorizamos e fazemos. Num mundo dominado por eles - e saturado de pessoas como eles - a Tatiana se ferra, porque ela não é uma boa treinadora de secretárias, e eu me ferro, porque como eu não sei as coisas que o Aaaaa sabe, e ele me julga com os critérios dele, então eu sou um Aaaaa incompetente.

Voltando às classes e castas: as pessoas com uma formação "técnica" aprendem a subordinação e as respostas rápidas primeiro, e talvez aprendam a "pensar" (no sentido que as pessoas "acadêmicas" dão ao termo "pensar") depois - digo "talvez" porque muitas delas não aprendem (porque não precisam tanto assim, e porque esse "pensar" é incompatível com tudo que as fez chegar na posição segura onde elas estão). As pessoas com uma formação "acadêmica", como eu, chegam aos 30 e poucos sem quase nenhuma experiência de lidar com a hierarquia e fazer papel de bom subordinado; pessoas de outras "classes" podem achar que gente como eu não sabe nada, porque elas supõem que a subordinação e as respostas rápidas (e C++, e Java, e bancos de dados, a sysadministrices) são uma primeira fase pela qual todo mundo tem que passar... e que se alguém como eu não tem experiência com isso nem com CVS nem cronogramas nem blablablá, então eu não sirvo...

They do evaluate each other -- at Google the superstars all reviewed each other's code, reportedly brutally -- but I don't think they cared about the judgments of anyone who wasn't in their circle or at their level.

O Aaaaa avaliava "brutalmente" as coisas que eu fazia - e eu acabei avaliando coisas dele brutalmente também. Dá pra pensar que éramos os dois muito novos - ele com 26 anos, e eu com muito mais que isso, mas quase sem experiência em trabalhar na "indústria"... Fico lembrando que eu dei um jeito de adaptar o BlogMe pra ele rodar num dos nossos servidores, que rodava NetBSD, e ele criticou o que eu fiz super duramente - era um protótipo, pô, uma prova de conceito, claro que ainda não tinha documentação. e eu iria fazer aquilo ficar com mais cara de coisa de BSD (i.e., consertar o estilo) pouco a pouco...


14. Polite fictions

(2009jan23)

Quando eu conversava com amigos meus - meses depois da minha demissão - sobre o que tinha acontecido eles muitas vezes diziam: "o Aaaaa se sentiu ameaçado", ou "ele ficou inseguro de trabalhar com alguém que sabia mais do que ele", etc.

Eu discordo. Acho isso simplista, acho que não era assim, e acho que não é bom pensar nesses termos.

Ele teve uns ataques de insegurança sim - ele algumas vezes ficou tentando me convencer a dar valor e a respeitar a experiência dele e o que ele sabia - e isso era bizarro, porque eu tinha uma admiração enorme pelo que ele sabia e pelo que ele tinha conseguido construir - o conhecimento dele já tinha sido testado na prática, inclusive em relações de trabalho com muitas pessoas muito diferentes entre si, enquanto o meu podia ser sólido de um ponto de vista lógico, mas só... os nossos conhecimentos eram de naturezas diferentes, e ele não conseguia perceber o quanto eu valorizava o dele... eu tentei convencê-lo disso, mas não estava dando, e eu não podia gastar energia demais com isso naquele momento - fatos falariam mais alto que argumentos, o caminho certo parecia ser eu fazer o mais rápido possível com que o meu trabalho complementasse a ajudasse o deles...

Mas voltando. Tem uma expressão - acho que é de antropologia, e não vou procurar links pra ela agora - que é "polite fiction", e que se aplica aqui. Uma pessoa P faz uma ação A; não temos como saber os motivos exatos da pessoa P - eles podem ser M1, ou M2, ou M3... - mas vamos ter que nos relacionar com ela, e a interpretação que escolhemos para os motivos dela vai fazer diferença. A interpretação M2 é a mais "bondosa", "educada" ("polite"), e sei lá o que mais; a interpretação M1 é antipática, criaria brigas, destruiria a comunicação; a M2 abre portas, e faz com que as pessoas possam se entender, então escolhemos M2, e a própria pessoa P vai preferir considerar que fez a ação A pelo motivo M2.

Tem duas interpretações possíveis pros motivos do Aaaaa. Uma supõe que ele foi invejoso, imaturo, inseguro, etc, e em algum sentido ele agiu de má fé; essa interpretação é bem prática se a gente quiser pôr a culpa toda no Aaaaa, entrar num acordo simples envolvendo uma pequena indenização por danos morais (eu passei quase um ano desempregado depois da minha expulsão da Omnisys, mas a culpa da Omnisys nisso é ínfima, já que o Aaaaa fez tudo em segredo - e depois dessa história eu voltei pro mundo acadêmico e virei professor universitário) -

Eu prefiro uma outra interpretação, que torna o caso muito mais difícil de resolver, mas que acho que é mais útil pelo menos pras pessoas com quem eu me relaciono, que já passaram por situações parecidas algumas vezes e vão passar de novo outras vezes mais. É a seguinte: o Aaaaa agiu corretamente, lucidamente, e de boa fé, mas de dentro de um determinado sistema de valores, que não é só dele, é de milhões de pessoas hoje em dia...


15. Robôs

(2009jul12)

Hipótese: o Aaaaa achava que existe uma única ordem possível pra se aprender certas coisas (a dele, evidentemente) - então eu deveria ter aprendido primeiro certas tarefas de administrador de sistemas (redes, etc), e depois, ou ao mesmo tempo que isso, aprendido a trabalhar como estagiário e subordinado, cumprindo ordens - mesmo que absurdas -, fazendo tarefas chatas e idiotas, e me familiarizando com burocracias, cronogramas, e um certo ambiente e certas relações sociais...

Como eu tinha começado pelo lado oposto e passado muitos anos tendo muita liberdade pra escolher como resolver meus problemas técnicos, sendo tratado como um igual pelos meus pares (e como um "igual menor" pelos professores - não davam muita bola pra pose, hierarquia e "respeitabilidade" no Departamento de Matemática) eu não tinha passado pela fase de estagiário...

Daí ele me ter dito, entre mil outras coisas, num dia em que ele passou pelo menos uns 40 minutos direto me dando esporro, que eu ainda ia ter que ralar MUITO pra um dia merecer um trabalho de R$3000 por mês...

"Robôs" - boa palavra. É como se ele esperasse que seus funcionários e colegas fossem robôs -

Existe espaço nesse mundo do Aaaaa pra pessoas que aprenderam a não serem robôs? Afinal, o preço pessoal que a gente paga pra virar um robô é enorme; o Aaaaa certamente pagou esse preço - e a minha não-robozice seria o que ofendia ele; ele a interpretava como mimadice, burguezice, falta de respeito, falta de profissionalismo, e pra voltar ao termo fantástico usado pelos departamentos de RH, eu ter o "psicológico péssimo" - as marcas da "liberdade" do Aaaaa eram ele poder ir pro trabalho de camisa de algodão cru, falar gíria e dar em cima de montes de mulheres - e isso me parece pouco... Bom, vamos ver o que acontece - o que será da vida profissional e pessoal do Aaaaa daqui a uns anos? Será que vai dar pra comparar o caminho dele com o meu e a gente ter alguma noção de quem fez as escolhas mais corretas e saudáveis? Claro que eu adoraria acreditar que eu acabei me dando melhor, que eu virei pelo menos alguém mais respeitável, e que o tempo me deu razão... Mas as coisas não são assim.

De The Lives of Animals, o fecho da primeira palestra da Elizabeth Costello:

I return one last time to the places of death all around us, the places of slaughter to which, in a huge communal effort, we close our hearts. Each day a fresh holocaust, yet as far as I can see our moral being is untouched. We do not feel tainted. We can do anything, it seems, and come away clean.

We point to the Germans and Poles and Ukrainians who did and did not know of the atrocities around them. We like to think they were inwardly marked by the aftereffects of that special form of ignorance. We like to think that in their nightmares the ones whose suffering they had refused to enter came back to haunt them. We like to think they woke up haggard in the mornings, and died of gnawing cancers. But probably it was not so. The evidence points in the opposite direction: that we can do anything and get away with it; that there is no punishment.

(Mas voltando um instante à questão dos robôs, e a um problema importante sobre o futuro do mundo... o que deve acontecer com as pessoas que por algum problema estrutural - ou por alguma falta de problema - não conseguem virar esses robôs? E se o molde que se espera dos robôs estiver - como parece - realmente ficando cada vez mais estrito, mais inumano, mais difícil de se encaixar nele, e mais doente em todos os sentidos, psicológico, emocional, ético, moral?...)


16. Direitos

(2009feb04)

Aqui no Rio a gente tem uma relação muito complicada com lei, justiça, polícia, poder público, etc - e até com coisas tipo "ética", que muita gente considera que é uma idéia velha e ridícula que não se aplica mais, que agora é cada um por si -

A polícia do Rio é bem corrupta e mata não me lembro de 4 ou 8 vezes mais que a de São Paulo. Algumas classes de pessoas são mais visadas, evidentemente - pobres e negros têm o "direito" de apanhar calados ("senão...")

A noção de "direitos" das pessoas é louca. Quando a gente pensa em "direitos" aqui a a gente lembra de cenas como a que a minha irmã presenciou há um tempo atrás: o ónibus no qual ela estava indo pro Espírito Santo furou um pneu, o motorista parou, viu que ele não tinha como consertar, explicou a situação pros passageiros e ligou pra central pra pedir o conserto e um outro ônibus pra levar os passageiros... e nisso vários dos passageiros já estavam transtornados bfuando vermelhos, com olhos apertados, peitos estufados, dedos em riste, berrando: "eu vou processar esta empresa! Vocês estão pensando o quê? Eu conheço os meus direitos!" - e ligando dos seus celulares sem parar, enlouquecidos, pra várias pessoas...

Parece que aqui os "direitos" são algo que se invoca aos gritos, como se fossem em trunfo imbatível, algo tipo "eu vou chamar o meu pai e ele vai bater em você" - algo pra assustar o outro - e evidentemente as pessoas que invocam esses direitos-aos-gritos são brancas e bem-nascidas e bem-cuidadas e arrogantes - fight for your right to party, como diziam os Beastie Boys naquele clip hiper irritante...

Então temos uma sociedade de pessoas que ou ficam passivas ou gritam que têm direitos que elas não sabem bem quais são... e acho que essas que gritam não têm muita noção de quanto trabalho dá abrir um processo, e que muito antes de um juiz dar uma sentença vai ter que haver uma tentativa de acordo entre as partes... o que é que vai nortear esses acordos?

O ponto ao qual eu queria chegar é o seguinte: cariocas de modo geral não acreditam mais em justiça; eles sabem que existem leis - em algum sentido - e que em alguns poucos casos essas leis são aplicadas... mas essas leis são tão incoerentes (os jornais só noticiam os absurdos legais, como leis absurdas que foram aprovadas e penas grandes demais ou pequenas demais) que ganha quem tiver o melhor advogado...

Há uns anos atrás eu tive uma briga enorme com o Maurício. Ele andava muito emplogado com a idéia de alfabetizar pessoas "pra que elas pudessem mandar cartas pros jornais se queixando de coisas e aí fazerem valer seus direitos" (tou simplificando, óbvio)... eu não entendia como isso funcionaria, já que como "nada mais importava" deveria ser facílimo ignorar denúncias feitas em seções de cartas de jornais, e num certo momento

(escrever sobre: como pra mim a idéia de que "o estado é vestigial" faz com que as pessoas reaprendam a dialogar; isso e os acordos; a noção sufi de "vingança" - que tem a conotação de algo criativo e positivo - e como parece que ela é oposta à definição legal; eu devo estar usando muitos termos errados; privacidade; como eu faço pra aprender os termos legais? Que termos "existem"? Como fazer novos termos existirem?)


17. Dignidade

(2009feb05)

O Agra Belmonte fala em "dignidade"! Bom, como é que a gente define "dignidade" de um modo que não seja facilmente derrubável pelas pessoas que acham que isso é só pose? É natural pra mim imaginar que pra alguém como o Aaaaa "dignidade" seja parecer perfeito e impecável, e então ele precisa ser capaz de esconder muito bem seus erros pra poder parecer "digno"...

Deixa eu começar por um outro lugar. Pega uma das grandes músicas da Cat Power - por exemplo a versão de "Metal Heart" do Jukebox, ou o cover de "Wonderwall" das Peel Sessions - Aquilo soa tão verdadeiro que é perturbador.

Porque é que certas coisas soam verdadeiras? Pra começar, porque é que às vezes uma voz soa incrivelmente verdadeira, e às vezes outras vozes soam falsas? Uma hipótese - que me ocorreu há pouco tempo atrás - é a seguinte: quando a gente mente certas tensões surgem por reflexo - talvez um daqueles reflexos que nos põem numa postura defensiva - e esse reflexo é dificílimo de controlar conscientemente, e essas tensões se refletem na voz de um certo modo que ouvintes atentos e sensíveis conseguem perceber...

Um modo de aprender a soar verdadeiro é aprender uma técnica muscular; não é claro pra mim quanto sucesso a gente pode conseguir por este método. O outro "método" - que algumas pessoas diriam que é um anti-método - seria irmos eliminando aos poucos todos os motivos que temos para ficarmos defensivos, e levarmos a vida mais verdadeira possível...

(Acho que algo parecido com essa história da tensão e do reflexo acontece em Literatura - a gente percebe, por algo no ritmo e nos modos de lidar com os tons e associações, o quanto o autor hesitava ou deixava fluir... Mas issó é uma outra história que não importa agora. A Tatiana tem um livrão sobre isso, mas não sei se vou poder ter acesso a ele de novo algum dia, já que nós estamos brigados).

Voltando à dignidade: acho que é mais fácil falar sobre dignidade se a gente se foca na função pessoal e social dela...

Encontrei isso aqui no meu caderno amarelo relendo ele outro dia:

É muito difícil a gente escrever artigos quando a gente está deficitário há anos e a gente vive com a sensação de que cada frase nossa está errada

Nesse ano que eu passei desempregado eu tive que lidar muito com a sensação de engasgo, e com a de não ser capaz o suficiente de lidar com as pessoas para levar trabalhos a cabo...

Quando a gente depende de outras pessoas - nesse ano eu tive que voltar a ser sustendado pelos meus pais -

Peraí, antes disso deixa eu falar de algumas memórias muito fortes (algumas delas meio borradas). Era março ou abril, acho, e eu ainda estava tentando - às vezes - entrar num estado no qual eu conseguisse me concentrar o suficiente pra fazer mais uns pedaços do que eu devia pro Aaaaa; se eu conseguisse fazer algo muito satisfatório (ok: bastante satisfatório) ele talvez me pagasse - e quem já programou sabe que quando você está no estado errado horas e dias inteiros se passam sem que a gente produza 10 linhas de código novo usável, mas quando a gente está concentrado e bem não é raro produzirmos centenas de linhas por hora... então metade do trabalho é entrarmos no estado certo - esse dinheiro do meu segundo mês de trabalho me manteria por quase três meses, mas e depois? E, bom, eu estava tentando economizar ao máximo, e ao mesmo tempo lidar com ataques de apatia que duravam dias inteiros - e eu já tinha sacado que a diferença entre o que eu gastava fazendo a minha própria comida e pedindo comida, digamos, do Sobrado das Massas, era pequena, e o que eu fazia estava saindo horrível e gastava tempo demais - mas coisas do Sobrado me deixavam entupido e meio abobado quando eu comia, então às vezes eu tomava coragem e pedia pizza na Pizzaria do Chico, ou ia até lá - em geral pra me premiar quando eu conseguia fazer o dia render - e era mais caro, mas me dava uma referência de que algo ainda podia ser feito com capricho e ser muito, muito bom, e como eu não tinha as válvulas de escape que as pessoas normais têm a pizza do Chico passou a ser a minha referência principal de prazer e alegria, e eu levei um tempão - talvez porque eu tenha absorvido uns comportamentos miseráveis do meu pai, que devem ser resquícios (diretos e indiretos) do tempo dele no campo de concentração - e eu acabei conseguindo decidir que eu ia me endividar (mais) mas ia comer bem às vezes, e isso é envergonhante, né, assumir fragilidades e frescuras quando a gente sabe que o Verdadeiro Profissional - como o Aaaaa - come arroz com feijão queimado quando precisa, e trabalha bem mesmo assim, 16 horas por dia -

Mas voltando à dignidade... meu pai tinha voltado a trabalhar poucos meses antes - com 75 anos -, talvez um pouco motivado pelas minhas tentativas como programador, especialmente essa da Omnisys, que parecia hiper promissora... mas mesmo com esse trabalho meus pais ainda viviam meio apertados.

"Parasita" era uma palavra muito presente na minha família. Meu pai me chamava de "parasita" desde que eu era pequeno - era sempre de um modo ambíguo, uma brincadeira com fundo de verdade - ele nunca falava nem totalmente a sério nem totalmente de brincadeira, isso era um modo pesado dele me pressionar pra eu ficar responsável o meis rápido possível -

"Parasita". O que faz a gente decidir, a respeito de um filho que está tentando mudar de área de trabalho, se ele é um parasita que merece ser mal-visto e pressionado ou se ele é digno de todo o apoio? Os elementos realmente objetivos, mensuráveis, são poucos...

A gente decide pela narrativa da pessoa, e pelo tom dela.

Digamos que ela soe muito verdadeira - os casos de fanfarrões e mentirosos não me interessam. Se ela é ponderada, se ela considera lucidamente todas as possibilidades, se ela entende as nossas perguntas e comentários de um modo aberto e "insightful" (alguém tem uma boa tradução de "insightful" pra Português?), se ela não é nem preguiçosa nem uma daquelas pessoas que medem o valor das atividades pelo sacrifício que elas envolvem, se elas transformam situações de conflito em situações de diálogo, ou as resolvem de algum outro modo digno -

Alguém que é uma boa influência não é um parasita.

Alguém que só veja trabalho e dinheiro e ganhe bem não é um parasita, mas é uma boa influência só num sentido bem limitado.

Alguém que veja vários tipos de coisas valorosas nas pessoas e faz com que elas se valorizem e se entendam é uma boa influência. Acho que isso ficou claro pra mim na época que eu andava muito com os hippies anarquistas do grupo de economia solidária. Ficou claro pra gente que as trocas podiam se dar em muitos níveis, com vários tipos de "moedas" diferentes, e que muitas coisas podiam gerar gratidão e generosidade. (Nem tudo era lindo. Tinha duas pessoas que eu estava louco pra ter uma deixa pra esganar - mas isso não importa agora).

Dignidade tem a ver com poder se colocar, poder ser verdadeiro, ter voz, não estar engasgado.


18. Isso é um absurdo

(2009feb05?)

No final de fevereiro de 2008 eu e o Sebastião tivemos uma discussão enorme, que começou com eu comentando "olha que legal aquele cara que" estava andando de bonde em pé no estribo do bonde (nós estávamos em Santa Teresa), segurando o filho de uns 3 anos num braço, e segurando aquela barra vertical do bonde com a outra mão... O cara parecia tão seguro lá que parecia que eles tinham nascido andando de bonde, e o filho dele parecia (pra mim) mais seguro do que qualquer coisa que qualquer um de nós - eu e o Sebastião - carregássemos nas condições mais ideais...

O Sebastião - que não viu o cara - ficou dizendo que aquilo era um absurdo, que era um perigo, que que seguro coisa nenhuma, que sempre pode acontecer um acidente, que a vida humana é sagrada, que o cara é um irresponsável, um criminoso, que tinha que ser preso...

Eu tentei dialogar, mas essa história do "isso é um absurdo" sempre me irrita muito, era como se o Sebastião fosse aquelas velhinhas que ficam na frente da gente na fila do Banco do Brasil e começam a reclamar com a gente que isso é um absurdo, essa fila, essa demora, a gente paga os nossos impostos, patati patatá... Caceta, como é que eu convenço essas pessoas de que ficar reclamando desse jeito é contraproducente, que elas têm que pensar nos próximos passos e em quanta energia elas perdem só reclamando?... É como se pra elas todos os direitos fossem direitos do consumidor, como se alguém fosse ouvir essas reclamações delas e fazer alguma coisa, como essas pessoas pudessem levar a fila do banco pra loja de volta, e a loja fosse trocá-la por uma fila menor... e, bom, nem todo mundo é ouvido, as pessoas de Ipanema ou do Leblon são muito mais ouvidas do que as mães da favela cujos filhos morrem por balas perdidas...

Eu falei que nem a velhinha nem o Sebastião estão dando o próximo passo. Eu estou tentando, do meu jeito, que pode não ser melhor que o de ninguém, mas é o único no qual eu estou acreditando agora pra mim... "pra mim" porque outras pessoas têm os jeitos delas que fazem sentido pra elas, embora não façam pra mim (por exemplo: Maurício e as cartas pros jornais) e é melhor que elas ajam do jeito delas...

A minha idéia desse "próximo passo" é algo que muita gente acha algo indireto demais, e intangível... ele envolve entender que as outras pessoas - digamos, os caixas e guardas do banco - também devem estar tentando fazer o melhor possível - em algum sentido -, mas talvez eles estejam distraídos, ocupados, sobrecarregados, sem idéias... e a gente é responsável pela atitude que a gente resolve ter, e eu não acho que essa coisa de ficar dizendo que tudo é um absurdo não funciona... então eu acredito mais em ver - e tratar - os outros como iguais... e acho que se a gente fica só dizendo que tudo é um absurdo em algum nível a gente escolheu isso, e a gente é responsável por estar agindo desse modo e não de outro...

(Aliás aí entra a minha sensação de que a cultura é a salvação... quando a gente começa a ter contato com os livros e discos e filmes "de verdade" - não esses óbvios, que são só pra vender - a gente começa a ter insights a respeito de outros modos possíveis de funcionar...)

Anyway: a discussão com o Sebastião continuou por e-mail, telefone, MSN e Gmail Chat, e acabou ficando tão agressiva - ele tava falando que várias posições minhas eram idiotas, então achei que nós estávamos criando uma espécie de ringue de boxe no qual a gente poderia continuar até o nocaute ou até o outro pedir altos, e peguei super pesado com ele - me centrando nessa história dele ficar dizendo que isso e aquilo "é um absurdo", que o nível de sensação de não ter nada pra perder dos criminosos é algo que está completamente além da nossa compreensão, que eles não são humanos, etc... bom, a coisa ficou tão forte - eu disse coisas incrivelmente pesadas pra ele - que depois ele parou de falar comigo de vez.

Meses depois eu estava discutindo isso dos vários sentidos de "isso é um absurdo" com um amigo meu linguista e ele me passou links de um cara de semântica (Kai von Fintel) que é especialista em "modalidades". Um artigo introdutório bom é esse aqui.

Um dos exemplos que eu e o Sebastião mais usamos na nossa discussão foi o caso do "garoto arrastado" (João Hélio). Vou reduzir "é um absurdo um garoto de 6 anos ser arrastado no asfalto por quilômetros preso no cinto de segurança" pra "é absurdo matar garotos de 6 anos". Algumas variações do "é um absurdo que...":

(1) "É absurdo matar garotos de 6 anos"
(2) "A lei diz que é errado matar garotos de 6 anos"
(3) "A lei diz que matar garotos de 6 anos é algo punido de formas pesadíssimas"
(4) "A lei diz que quem mata garotos de 6 anos pode ser linchado"
(5) "Não mate garotos de 6 anos"
(6) "Não faça piadas sobre matar garotos de 6 anos"
(7) "A família do garoto de anos está transtornada e com toda a razão"
(8) "Qualquer parente de um garoto de 6 anos assassinado enlouquece"
(9) "Qualquer parente de um garoto de 6 anos assassinado enlouquece de vez"
(10) "Não fale com aquela mulher, o filho dela de 6 anos foi morto, ela deve ser louca"
(11) "Quando eu fiquei sabendo da morte do garoto de 6 anos eu fiquei transtornado"
(12) "Toda vez que eu lembro da morte do garoto de 6 anos eu fico transtornado"
(13) "Todo mundo que fica sabendo de garotos de 6 anos assassinados fica transtornado"
(14) "Todo mundo que fica sabendo de garotos de 6 anos assassinados fica transtornado pra sempre"
(15) "Todo mundo fica transtornado quando lembra de garotos de 6 anos assassinados"
(16) "Todo mundo tem que ficar transtornado porque um garoto de 6 anos foi assassinado"
(17) "Todo mundo tem que ficar transtornado pra sempre porque um garoto de 6 anos foi assassinado"
(18) "Quem não fica transtornado porque um garoto de 6 anos foi assassinado é um monstro"
(19) "Quem não berra que o assassinato do garoto de 6 anos é um absurdo é um monstro"

Eu era o monstro, evidentemente.

Outra direção possível:

(1) "É absurdo matar garotos de 6 anos"
(2) "Garotos de 6 anos não são assassinados"
(3) "Notícias sobre assassinatos de garotos de 6 anos são falsas"

Agora algumas variações sobre "a vida humana é sagrada":

(1) "A vida humana é sagrada"
(2) "A vida humana deveria ser sagrada"
(3) "A vida humana tem que ser sagrada"
(4) "A vida humana não está sendo considerada tão sagrada quanto deveria"
(5) "Deus disse que a vida humana é sagrada"
(6) "As leis dizem que a vida humana é sagrada"
(7) "Eu considero a vida humana sagrada"
(8) "Eu geralmente considero a vida humana sagrada"
(9) "Meu amigos consideram a vida humana sagrada"
(10) "Meu amigos e parentes consideram a vida humana sagrada"
(11) "Meu amigos e parentes e colegas de trabalho consideram a vida humana sagrada"
(12) "Todas as pessoas boas consideram a vida humana sagrada"
(13) "Meu tio fascista considera que a vida das `pessoas de bem' é sagrada"
(14) "Em lugares civilizados a vida humana é sagrada"
(15) "Aqui a vida humana é sagrada"
(16) "A vida das pessoas daqui é sagrada"
(17) "A vida das pessoas daqui é sagrada em qualquer lugar"
(18) "Temos que dar uma lição nesses bárbaros que mataram pessoas daqui que estavam lá"
(19) "A prioridade é dar uma lição nos assassinos dos tipos tais e tais"
(20) "A vida das pessoas que estão aqui é sagrada"
(21) "Pessoas que descobrem que suas vidas não são sagradas atacam outras"
(22) "A vida humana deveria ser sagrada porque pessoas que descobrem que suas vidas não são sagradas atacam outras"
(23) "A vida humana deveria ser sagrada porque algumas pessoas que descobrem que suas vidas não são sagradas atacam outras"
(24) "A vida das pessoas que não consideram a vida dos outros sagrada não é sagrada"
(25) "A vida das pessoas é sagrada até que elas cometam um crime, e volta a ser sagrada quando elas pagam por este crime"
(26) "A vida das pessoas é sagrada até que elas cometam um crime, e depois do crime nunca mais volta a ser sagrada"
(27) "A vida humana é sagrada, mas umas porradas não matam"
(28) "A vida humana é sagrada, mas às vezes a gente se descontrola"
(29) "A vida humana é sagrada, mas a gente tem que poder brincar"
(30) "A vida humana é sagrada, mas ele não podia estar ali"

Eu me vejo cercado de atrocidades de todos os graus, e fico com a sensação de que as pessoas que acham que as atrocidades são raríssimas estão vivendo em mundos felizes e protegidos... aí essas pessoas ficam só no "isso é um absurdo!" como se isso funcionasse bem o suficiente, como se não houvesse uma necessidade urgente e permanente e desesperada de fazer algo mais eficaz...


19. Aftermath ("item a item")

(Contar sobre o pus, os dentes, a falência da linguagem.)

(Contar sobre o currículo perfeito.)

From:    Aaaaa
date:	 Thu, Feb 21, 2008 at 9:12 PM
subject: Re: Status das pendencias
	
On Thu, Feb 21, 2008 at 06:16:41PM -0300, Bbbbb wrote:
> So' mais uma coisa edrx, a previsao inicial de conclusao era de dez
> dias. Qual a previsao atualizada? Valeu.

eduardo, por favor, essa estimativa *item a item*;

[]z
LOGS/2008apr28.aloph


20. Alguns links

sisrot-da-1.tex            sisrot-da-1.pdf      
sisrot-pdsw-1.tex          sisrot-pdsw-1.pdf    
sisrot-pdsw-2.tex          sisrot-pdsw-2.pdf
sisrot-pdsw-workplan.txt   
sisrot-pdsw-3-duvidas.txt  sisrot-blocos-1b.pdf 
sisrot-pdsw-3.txt          sisrot-pdsw-3.odt.pdf
sisrot-pdsw-3.tex          sisrot-pdsw-3.pdf    
sisrot-pdsw-4.tex          sisrot-pdsw-4.pdf    
sisrot-pdsw-5.tex          sisrot-pdsw-5.pdf    

LOGS/2008jan29.omnisys
LOGS/2008apr28.aloph
sisrot/                <- versão 0
e/sisrot.e.html#makefile

tmp/aloph-2008oct22.html
Segunda 10/dez/2007: meu primeiro dia na Omnisys
Sexta   25/jan/2008: aviso de que eu não ficaria mais lá
Segunda 28/jan/2008: reunião com o Ppppp pra avisar que eu "iria pra Europa"
Sexta   08/fev/2008: meu último dia em São Caetano

   December 2007             January 2008            February 2008    
Su Mo Tu We Th Fr Sa     Su Mo Tu We Th Fr Sa     Su Mo Tu We Th Fr Sa 
                   1            1  2  3  4  5                     1  2 
 2  3  4  5  6  7  8      6  7  8  9 10 11 12      3  4  5  6  7  8  9 
 9 10 11 12 13 14 15     13 14 15 16 17 18 19     10 11 12 13 14 15 16 
16 17 18 19 20 21 22     20 21 22 23 24 25 26     17 18 19 20 21 22 23 
23 24 25 26 27 28 29     27 28 29 30 31           24 25 26 27 28 29 
30 31 
.           Omnisys ---------- CLA
             |      \        /  :
             |        Sisrot    :
             |         PD       :
Orbisat - - Aaaaa     PDSw      :
        \    |  ____/           :
         \   | /                :
            Eu --------------- UFF





21. "A ética protestante e o espírito do capitalismo" (Max Weber)

(http://en.wikipedia.org/wiki/The_Protestant_Ethic_and_the_Spirit_of_Capitalism)

Now, all Franklin's moral attitudes are coloured with utilitarianism. Honesty is useful, because it assures credit; so are punctuality, industry, frugality, and that is the reason they are virtues. A logical deduction from this would be that where, for instance, the appearance of honesty serves the same purpose, that would suffice, and an unnecessary surplus of this virtue would evidently appear to Franklin's eyes as unproductive waste. And as a matter of fact, the story in his autobiography of his conversion to those virtues, or the discussion of the value of a strict maintenance of the appearance of modesty, the assiduous belittlement of one's own deserts in order to gain general recognition later, confirms this impression. According to Franklin, those virtues, like all others, are only in so far virtues as they are actually useful to the individual, and the surrogate of mere appearance is always sufficient when it accomplishes the end in view. It is a conclusion which is inevitable for strict utilitarianism. The impression of many Germans that the virtues professed by Americanism are pure hypocrisy seems to have been confirmed by this striking case. But in fact the matter is not by any means so simple. Benjamin Franklin's own character, as it appears in the really unusual candidness of his autobiography, belies that suspicion. The circumstance that he ascribes his recognition of the utility of virtue to a divine revelation which was intended to lead him in the path of righteousness, shows that something more than mere garnishing for purely egocentric motives is involved.

-- (find-webercapw3m "pro_eth_2.html#ben-fra" "appearance of honesty")

From a purely quantitative point of view the efficiency of labour decreases with a wage which is physiologically insufficient, which may in the long run even mean a survival of the unfit. The present-day average Silesian mows, when he exerts himself to the full, little more than two-thirds as much land as the better paid and nourished Pomeranian or Mecklenburger, and the Pole, the further East he comes from, accomplishes progressively less than the German. Low wages fail even from a purely business point of view wherever it is a question of producing goods which require any sort of skilled labour, or the use of expensive machinery which is easily damaged, or in general wherever any great amount of sharp attention or of initiative is required. Here low wages do not pay, and their effect is the opposite of what was intended. For not only is a developed sense of responsibility absolutely indispensable, but in general also an attitude which, at least during working hours, is freed from continual calculations of how the customary wage may be earned with a maximum of comfort and a minimum of exertion. Labour must, on the contrary, be performed as if it were an absolute end in itself, a calling. But such an attitude is by no means a product of nature. It cannot be evoked by low wages or high ones alone, but can only be the product of a long and arduous process of education. To-day, capitalism, once in the saddle, can recruit its labouring force in all industrial countries with comparative ease. In the past this was in every case an extremely difficult problem.

-- (find-webercapw3m "pro_eth_2.html#rat-tra" "effectiveness")

Labour in the service of a rational organization for the provision of humanity with material goods has without doubt always appeared to representatives of the capitalistic spirit as one of the most important purposes of their life-work. It is only necessary, for instance, to read Franklin's account of his efforts in the service of civic improvements in Philadelphia clearly to apprehend this obvious truth. And the joy and pride of having given employment to numerous people, of having had a part in the economic progress of his home town in the sense referring to figures of population and volume of trade which capitalism associated with the word, all these things obviously are part of the specific and undoubtedly idealistic satisfactions in life to modern men of business. Similarly it is one of the fundamental characteristics of an individualistic capitalistic economy that it is rationalized on the basis of rigorous calculation, directed with foresight and caution toward the economic success which is sought in sharp contrast to the hand-to-mouth existence of the peasant, and to the privileged traditionalism of the guild craftsman and of the adventurers' capitalism, oriented to the exploitation of political opportunities and irrational speculation.

It might thus seem that the development of the spirit of capitalism is best understood as part of the development of rationalism as a whole, and could be deduced from the fundamental position of rationalism on the basic problems of life.

-- (find-webercapw3m "pro_eth_2.html#ide-cal" "Philadelphia")




me: "loser" e' uma palavra pesada
      mas eu odeio winners e gente competitiva - e gente que pensa em termos de winners e losers
      num certo sentido eu sou um angry loser
Tatiana: mas vc acha que não está na categoria de vencedores por conta só de auto-estima ruim?
me: em outro sentido os vegetarianos anarquistas que eu conheci - principalmente os do Canadá - me ajudaram a me distanciar totalmente desse mundo dos winners e losers
Tatiana: entendo...
me: é que quando a gente pensa em winners e losers a gente pensa numa certa hierarquia social e certos padrõezinhos
      eu não quero ser um winner
      eu quero cabecas de winners espetadas em estacas em torno de mim