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"Sexofóbico" como resposta

(Original aqui. Estou convertendo aos poucos.)
(Eu nunca divulguei estes textos, mas fiz uma menção breve a eles aqui.)




1. Introdução


1.1. Introdução mesmo

Eu descobri que era transgênero em 2002, mas só consegui me decidir a começar a terapia hormonal - ou, pra usar um termo mais curto, a "transição" - em 2014. A partir disto ficou bem mais fácil eu conseguir lidar com o que eu sou, e eu passei a ter um rótulo curto que me explicava razoavelmente bem: "transexual".

Este texto é feito de vários fragmentos, uns que eu escrevi antes da "transição", outros depois, e eu comecei a trabalhar nestes fragmentos com vários objetivos - muitos objetivos.


O meu primeiro objetivo era submeter um texto super caprichado pra alguma conferência de gênero, ir lá apresentá-lo, conhecer um monte de gente legal, e aí eu passar a me sentir menos isolado e a minha auto-estima melhorar um pouquinho. Repara, esse primeiro objetivo correponde a dialogar com um grupo específico: os militantes de gênero que vão em conferências.


O meu segundo objetivo era poder responder coisas para as pessoas "normais", as que acham que esse negócio de transição é maluquice total e que não resolve nada, só piora tudo, e não tem nada a ver comigo... repara, hoje em dia muitos "normais" já sabem que a expectativa de vida de uma travesti no Brasil é de 30 anos - então porque eu iria querer virar trans? Seria por fetiches sexuais? "Mas as travestis sofrem tanto!"... Como é que eu explico pra essas tais pessoas "normais" que o meu caso não tem quase nada a ver com roupas ou com sexo? E a gente está sendo bombardeado pela mídia a toda hora com reportagens sobre crianças trans que "sempre souberam" que o gênero delas não é o que atribuíram a elas no nascimento... bom, esse não era o meu caso, eu era tímido, esquisito e pensava muito em suicídio, mas eu até me virava com essa história de "ser menino"... então, como eu não encaixo na categoria do "sempre achou que era menina" deve ser porque eu "não sou trans de verdade", não?... Além do mais, as pessoas "normais" costumam achar que "passabilidade" é o maior desejo das pessoas trans - e um dos motivos de eu adiar o início da minha transição por tantos anos era porque eu pensava "eu não posso fazer algo tão sério enquanto eu tiver expectativas irreais", e "passar por mulher" me parecia uma expectativa irreal... e um dos cliques que me permitiu começar a transição foi que eu vi que "ser homem" era tão infernal pra mim que "virar trans" bastava; mudar de "homem" pra "trans" já seria um alívio enorme, se eu algum dia chegaria a "mulher" ou não, isso não tinha importância.

Então, as pessoas "normais" poderiam ter um monte de perguntas sobre mim, mas elas dificilmente as fariam explicitamente - e eu vi que eu iria viver com medo dessas perguntas assim mesmo! Como lidar com isso? Bom, aí eu resolvi que eu iria "virar trans" sem nenhum alarde, mas, por outro lado, sem nenhum segredo - as respostas estariam disponíveis, por exemplo na minha homepage.


Sobre o terceiro objetivo, um amigo meu, o Maurício, disse uma vez uma frase que mudou a minha vida: "resumiu tanto que ficou errado". Tem respostas que não dá pra resumir além de um certo ponto sem elas ficarem erradas, e tem perguntas que são feitas de um jeito que espera uma resposta curta também... e a resposta certa não cabe numa resposta curta. Como é que a gente se defende dessa cultura que acha as respostas têm sempre que ser curtas, e que gênero é uma série de classificações e definições e de questionários cheios de perguntas de "sim" ou "não"? O terceiro objetivo deste texto é mostrar alguns jeitos da gente se defender da exigência de respostas curtas, algumas brechas... e esses jeitos tem a ver com tom: que tom a gente vai escolher? Um tom jonalístico? Confessional? Científico, médico? Denunciador? Vitimizante? Acadêmico?


O quarto objetivo é explicar esta idéia aqui: que eu demorei tanto pra transicionar por uma espécie de heroísmo idiota. Tem pessoas que têm doenças brabíssimas, como doenças de pele grotescas ou um tumor na testa do tamanho de um braço, que fazem com que elas nem possam andar na rua direito porque os outros ficam horrizados com elas - e mesmo assim essas pessoas têm uma puta garra pra viver, elas se tratam, aproveitam a vida como podem, e são felizes... isso só pode ser porque ter um corpo "perfeito" não é tão importante, ou seja, a gente tem que ser capaz de se virar com o corpo que tem, e aliás é bom que cada pessoa saiba se virar com os defeitos físicos dos companheiros também...

Eu queria ser alguém acima de preconceitos, que não discriminasse ninguém por a pessoa ter um corpo fora do padrão, e eu esperava que como uma "recompensa" do universo por isso eu fosse conseguir me cercar de pessoas que iriam até me ajudar a lidar com as dificuldades que eu tinha com o meu próprio corpo, que estava todo errado - porque eu parecia um homem, né... então eu vivia repetindo pra mim mesmo que o corpo não pode importar muito, ele tinha que ser algo muito secundário, irrelevante, até, e que as pessoas têm que se ligar pela alma...

Eu repetia pra mim mesmo que pessoas sobrevivem a guerras e genocídios, a doenças horríveis e tal, e eu não podia ser fresco, eu tinha que lidar heroicamente com um corpo disfuncional... que se eu fosse fresco as pessoas não iriam gostar de mim, e se eu fosse heróico elas iriam, e eu seria até uma referência de como lidar com disforia de gênero deixando o corpo pra lá - o meu exemplo ajudaria outras pessoas...

Como é que eu consegui mudar de posição? Não foi fácil! Primeiro eu vi que eu não tinha mais absolutamente nada a perder - mas além disso eu ainda precisei encontrar vários motivos extras pra eu me livrar do pensamento de que a transição seria só um capricho, uma frescura, porque tinha "só" a ver com o corpo... Um lado meu impunha um pedágio, e dizia: "você só passa além daqui quando tiver conseguido justificativas muito boas, impecáveis". Aos poucos eu encontrei esses motivos, que me permitiram ultrapassar o pedágio - eles não são óbvios, e eu quero compartilhá-los. As palavras-chave são "dicionário", "voz", "memória", "armadura", "espelho".


O quinto objetivo tem a ver com o título. Numa época, em que era importantíssimo eu definir a minha orientação sexual e as pessoas em torno de mim não entendiam a idéia de "gênero" de jeito nenhum, eu dizia que eu era sexofóbico... e às vezes isso era a resposta perfeita pras perguntas sobre a minha orientação sexual, porque as pessoas ficavam curiosas do jeito certo, e depois de mais 5 minutos de conversa elas já mais ou menos que me entendiam... mas às vezes dava tudo errado, elas diziam que eu era doente, tinham chiliques e começavam a me provocar e me agredir. Então: como é que gente complicada como eu pode lidar com uma sociedade tão sexocêntrica quanto a nossa? Vou contar umas idéias e umas historinhas sobre isso numas seções lá no meio deste texto.


O último objetivo, ou motivo, é totalmente pessoal. Eu passei a maior parte da minha vida "sem voz"; deixa eu explicar. Às vezes a gente se cala sobre certos assuntos porque tem "certeza" de que ninguém vai nos entender... aí a gente fica repetindo pra gente mesmo "deixa pra lá", "não tem importância", etc, toda vez que os assuntos voltam à nossa cabeça. Os efeitos desse "deixa pra lá" de anos às vezes são enormes, e têm até reflexos físicos - a gente fica "pra dentro" e "pra baixo". E às vezes alguém faz uma grosseria absurda com a gente que a gente não consegue responder na hora, e depois a gente fica semanas pensando no que poderia ter respondido, e tentando preparar uma resposta pra usar da próxima vez... eu descobri, quando eu era adolescente, acho, que escrever me ajudava a organizar minhas idéias, a preparar respostas "pra usar da próxima vez", e, mais importante ainda, me permitia parar de pensar nessas coisas... escrevendo eu podia parar o trabalho de preparar a resposta, ou a explicação, perfeita na hora que eu quisesse e retomá-lo depois sem perder as idéias que eu já tinha tido.

Este texto acabou virando algo como a gaveta na qual a gente guarda nossas anotações. Alguns textos - seções, na verdade - eu acho fantasticamente bons, mas muitos me dão vontade de me desculpar - tipo, "desculpa, esse aí é algo que eu escrevi pra mim, pra não perder as idéias... eu quero reescrevê-lo, mas ainda não deu tempo".


1.2. O dicionário

No início de 2014 eu tive uma depressão monstro, de passar dias praticamente sem conseguir levantar da cama... e fora da cama, mas perto dela, numa mesa, tinha uma pilha de provas que eu tinha que corrigir, e que ficavam cada vez mais atrasadas. Eu tava muito mal.

Aí eu peguei um dinheiro que eu tinha guardado e fiz uma viagem pra Vancouver, pra, entre outras coisas, tentar encontrar uma grande amiga que eu não via há anos... e pra passar uns dias num lugar que não fosse tão doente quanto o Rio de Janeiro.

Deixa eu dar um pouco mais de contexo.

No meio do meu doutorado eu consegui uma "bolsa sanduíche" que me permitiu passar os primeiros 8 meses de 2002 no Canadá. Aí eu saí do Rio de Janeiro, onde eu me sentia um alienígena e onde as pessoas me chamavam de doente - vou contar bem mais sobre isso depois -, e fui pra Montreal, onde em três dias eu já estava me sentindo mais em casa do que eu jamais tinha me sentido no Rio... lá as pessoas me entendiam, achavam o meu jeito de funcionar fofo, e confiavam em mim. Eu fiz amigos incríveis lá. Um desses meus amigos - o melhor amigo, aliás - era o Chris.

Depois que eu voltei pro Brasil eu achei que eu ia conseguir manter contato com todos os amigos de lá do Canadá, mas quando a nossa vida é uma luta só e a gente nunca nem consegue relaxar a gente acaba tendo dificuldade de pra mandar e-mail, carta, ou telefonar... é fácil mandar carta quando a gente pode contar do que vai bem e dizer que está com saudade, mas é super difícil escrever quando tá tudo uma merda e o tempo que a gente gasta escrevendo a carta faz a gente ficar culpado porque a gente devia estar tentando trabalhar.

Um dia, depois de anos, eu mandei um e-mail pro Chris, super tímido, começando com algo como "Oi, você lembra de mim, andamos juntos na época tal, eu era o cara brasileiro branco e magro com um cabelo black power"... e ele respondeu hiper fofo, tipo "claro que lembro, bobinho!" - ele também lembrava de centenas de cenas - e disse "...mas passa a usar esse outro e-mail aqui, porque eu tou mudando de sexo e vou parar de usar os contatos com nomes masculinos".

Eu fiquei muito grilado, era tipo a quinta vez que alguém me dizia isso, e eu vivia pensando: "porra, todos os meus amigos tão mudando de sexo menos eu... porque é tão fácil pras pessoas terem certeza do que querem, e pra mim é tão difícil?"...

Então no início de 2014 eu viajei pra Vancouver, e uma das coisas que eu ia tentar fazer lá era encontrar a Elizabeth, que tinha sido o meu melhor amigo em Montreal 12 anos antes... Eu nem sabia se isso ia dar certo, porque a Elizabeth parecia tão enrolada pra responder e-mails pessoais quanto eu, mas no resto do tempo eu iria tentar colar no pessoal da livraria anarquista lá de Vancouver, porque as pessoas que trabalham nesses lugares são voluntários legais cheios de bons contatos.

Eu e a Elizabeth acabamos conseguindo nos encontrar várias vezes, e tivemos muitas conversas enormes... e logo na primeira dessas conversas apareceu uma coisa incrivelmente importante, que me deixou pensando durante semanas, que foi a seguinte. Nós estávamos tentando contar as novidades, mas eram tantas que a gente não tava conseguindo entender o que o outro contava porque a gente se perdia, então a gente resolveu mapear o que cada um de nós tinha feito nesses doze anos, e a gente começou a organizar uns diagramas que tinham os anos, onde a gente estava, em que a gente estava trabalhando ou o que estava estudando, com quem a gente estava namorando ou casado ou o quê, ou se estávamos solteiros de que jeito, as nossas tentativas em cada época de nos definir numa orientação sexual e numa de gênero, coisas assim... e num momento eu usei a expressão "príncipe encantado", e ri, e disse que tem várias expressões que eu uso que parecem ter o gênero trocado, e umas eu só posso usar com pouquíssima gente, mas outras, como "príncipe encantado", são engraçadas do jeito certo, desarmam as pessoas e criam uma curiosade boa, e aí eu me permito usá-las com bastante gente...

Aí a nossa conversa passou pra um outro nível, pra uma espécie de meta-conversa, e a gente começou a falar de como a gente gasta muita energia pra traduzir as coisas que a gente pensa e sente pra uma linguagem que os outros entendam...

A Elizabeth disse: "pois é, depois que eu mudei de sexo eu passei a gastar infinitamente menos energia com essa tradução".

Aos poucos, nos dias e nas semanas seguintes, eu fui vendo quanta coisa é interpretada de um jeito quando é dita por um homem e intepretada diferente quando é dita por uma mulher; eu vi como eu vivia tendo praticamente certeza de que tudo que eu queria dizer de mais importante iria ser interpretado errado, apesar dos meus esforços enormes de tradução... eu vi que quando a gente vai interpretar o que uma pessoa diz ou faz a gente usa um "dicionário" se a pessoa é homem, e outro "dicionário" diferente se a pessoa é mulher; e eu vi que muitas das coisas mais importantes pra mim não podem ser expressas nas "palavras", no "vocabulário" do dicionário masculino.

Um dos primeiros exemplos que me veio foi "elogio". Quando um homem faz um elogio isso "quer dizer" coisas bem diferentes do que quando uma mulher faz um elogio.

Por mais que a gente tente ser puro e transparente as pessoas vão sempre procurar, e "ver", segundas intenções por trás de cada gesto nosso - e, por trás dessas segundas intenções, um padrão, o modo como a gente lida com a nossa energia, principalmente com desejo e com afeto.

Eu tinha pouquíssima afinidade com o modo de funcionar masculino. Eu vivia até em guerra com o mundo masculino, e até me culpando e me sentindo péssimo toda vez que alguém fazia alguma babaquice machista perto de mim e eu deixava isso impune, sem atacar a pessoa...

Por mais que eu lutasse e sinalizasse "eu não sou" e "eu não pertenço" as pessoas me "liam" como alguém com padrões, códigos, desejos e segundas intenções masculinos... e alguma coisa em mim me dizia que eu não podia criticá-las por isso, porque o que acontecia era que elas olhavam pra dentro de mim, procuravam algo de masculino no meu núcleo e encontravam. Por mais que eu combatesse esse lado homem/monstro dentro de mim ele estava lá, e as pessoas o percebiam. Essa coisa masculina no meu núcleo podia ser pequena, atrofiada, e estar sob controle, mas ela estava lá.


Aí eu entendi que eu podia começar o tratamento hormonal mesmo sem ter nenhuma expectativa de ter "passabilidade" no futuro. Eu não precisava de uma transição de "homem" para "mulher", que eu nunca ia conseguir que fosse completa o suficiente; se eu mudasse de "homem" para "trans" já seria suficiente pra mim. Bastava que eu tivesse a marca simbólica de "eu comecei a terapia hormonal", pra eu poder sentir o "eu não pertenço ao mundo masculino" com bem mais certeza, e eu parar de me sentir um covarde ou uma farsa. Não era mais "eu preciso de tratamento hormonal" - agora era algo como:

Eu trabalhei pra caralho - eu tentei me encaixar no mundo masculino de vários jeitos durante décadas - e não preciso dizer pra mim mesmo "tenta mais um pouquinho". Eu tenho um emprego estável como professor numa universidade federal. Eu tenho "inteligibilidade social" quase zero, porque todo mundo me "lê" (erradamente!) como homem - e isso me deixa mal, e paralisado. Eu não tenho nada a perder. Eu mereço tentar a terapia hormonal. Continuar dizendo "ainda não" é covarde, e mesquinho.

Essa sacação sobre o "dicionário" e sobre quanta energia eu gasto pra "traduzir" o que eu penso e sinto pra termos que os outros entendam pode parecer algo pequeno, mas foi o que fez a balança virar. Eu iria começar a TH, mesmo que fosse algo só pra mim e pra uma meia dúzia de pessoas queer e trans que iriam entender o que eu estava fazendo, me levar a sério, e me dar apoio.

A TH acabou funcionando infinitamente melhor do que eu esperava.


1.3. Querelle

Quando eu tinha 14 anos abriram um cineclube perto da minha casa - o Cineclube Estação Botafogo. Eles tinham um esquema no qual a gente podia virar sócio pagando só um pouquinho por mês e aí assistir quantos filmes quisesse. Eu comecei a passar muitas tardes por semana lá.

Quando eu tinha uns 15 anos eu assisti Querelle, do Fassbinder, feito em cima do livro do Jean Genet. Até aquele momento eu nunca tinha ouvido falar nem de Fassbinder, nem de Genet.

Antes de falar do filme deixa eu explicar umas coisas sobre o mundo no qual eu vivia. Eu vivia num mundo incrivelmente homofóbico. "Viado" era só um xingamento - a gente não conhecia ninguém que fosse homossexual, e aliás eu tinha todos os indícios de que ninguém da minha família conhecia alguém que conhecesse alguém que conhecesse alguém que fosse homossexual - mas a gente passava o tempo todo fazendo todo o possível pra não "ser viado", porque "ser viado", mesmo que fosse durante um instante só, significava cair num abismo social sem volta, era pior do que ser um leproso e um pária, era a gente passar a merecer porrada de todo mundo a toda hora, até a gente desaparecer e apagarem todos os traços (bons) da nossa existência.

Eu sabia que esse mundo super homofóbico era um mundo de mentiras e medo. A gente vivia em alerta, sempre preparado pra reagir quando a gente fosse sacaneado pelos colegas - a gente tinha que peitar na hora a pessoa que nos desafiava e dar uns motivos que mostrassem que a gente não era viado... e, bom, esses motivos eram improvisados na hora, então claro que não eram algo nem muito profundo nem muito verdadeiro...

Vários traços meus eram "coisas de viado" - tipo eu ler muito, detestar atividades físicas, não gostar de ser escroto com os coleguinhas, e ficar mal quando me sacaneavam - então a minha situação era bem complicada, não "ser viado" me tomava muita energia.

Mas deixa eu voltar pro filme.

Todos os atores do filme são homens super musculosos, e a única personagem feminina é a Madame, a dona do bordel da cidade em que o navio do Querelle está ancorado. O Querelle, que é o personagem principal, é um marinheiro que está sempre testando sua coragem ultrapassando cada vez mais limites. Ele já vinha cometendo pequenos crimes, e ele resolve que está na hora de experimentar matar alguém pela primeira vez. Ele assalta um cara numa rua escura, mata esse cara a facadas, e logo depois resolve experimentar algo que é um tabu dez vezes maior que o assassinato.

O bordel da cidade tem uma regra que todo mundo conhece. Quem quiser transar com a dona do bordel tem que jogar dados com o marido dela, que é um cara negro enorme. Se o cara ganhar nos dados ele transa com a dona do bordel, e se ele perder ele tem que dar a bunda pro marido dela.

O Querelle vai no bordel, diz que quer transar com a Madame, joga dados com o marido dela, e rouba nos dados - ele roda um dos seus dados pra ele dar um valor menor, pra perder no jogo.


Assistir Querelle me fez repensar toda a minha noção de coragem... e, além disso, o filme quase que dava uma fórmula, em dois passos, pra se a gente quisesse sexo homo: 1) seja incrivelmente corajoso, 2) vá pro submundo.

Eu até hoje ainda não sei qual seria uma "fórmula" correspondente pra quando a gente sonha em poder deitar a cabeça no colo do nosso melhor amigo.


1.4. Ogro

Logo depois que o meu pai morreu um amigo dele, chamado Paulo Blank, resolveu organizar uma cerimônia de 30 dias pra homenageá-lo. O Paulo inventou que uma das coisas que teria nessa cerimônia era que eu recitaria umas coisas em Hebraico - na verdade eu leria a pronúncia disso escrita no nosso alfabeto, porque eu não sei uma letra de Hebraico - e isso teria um efeito mágico: eu me reconciliaria com a memória do meu pai, o perdoaria, e seria algo super comovente, eu começaria a chorar e seria abraçado e consolado pela comunidade judaica presente...

Eu achei essa idéia um absurdo e negociei o seguinte: eu toparia recitar as formulinhas mágicas se eu pudesse escrever um texto meu e lê-lo na cerimônia também. O que eu acabei escrevendo começava assim:

Todo mundo lembra do meu pai como uma pessoa marcante. Ele era engraçado, espirituoso, surpreendente, e frequentemente inconveniente. Isso certamente tinha a ver com uma estratégia de sobrevivência. O meu pai sobreviveu ao holocausto, e num certo momento ele era a única criança do campo. Todos cuidavam dele, todos depositaram as suas esperanças nele, todos prestavam atenção nele, e, mesmo que à distância, todos ficavam imaginando o que ele seria depois. Acho que durante o resto da vida dele quase tudo que ele fazia era uma resposta a milhares de pessoas. Ele passou a vida inteira respondendo tanto aos horrores pelos quais ele passou quanto às pessoas que tentaram protegê-lo dos horrores, deixando ele viver num mundo à parte no campo. Depois ele viveu em outros mundos à parte - fazendo papel de gênio.

Ele me educou da melhor forma que ele pôde, mas isso queria dizer que ele achava que eu tinha que ser forte e brilhante. Ele tinha expectativas altas e me testava o tempo todo. Ele não sabia o que era relaxar. Ele tinha medos muito grandes, era defensivo, mordaz, irônico. Num certo momento eu me toquei de que se eu tinha visto o meu pai falar "a sério" - sem ironia - uma ou duas vezes a cada ano, era muito.

Eu era fresco e mimado porque eu tinha revistas em quadrinhos e brinquedos, vivia com os meus pais numa casa grande, a gente tinha empregados, e eu nunca tinha passado fome. Eu era um burro porque aos 7 anos de idade eu não tinha uma ``linguagem acadêmica''. Eu era preguiçoso porque eu nunca tinha pego uma caixa de engraxate pra ganhar o meu próprio dinheiro. Eu era infantil. Esse era o mundo no qual eu vivia antes dos 10 anos de idade. E eu tinha certeza de que todo mundo era assim, como eu, e que eu era incompetente porque eu era medroso e não conseguia nem me livrar dos meus medos nem ter a confiança que os outros garotos tinham.

Meu pai tinha um mecanismo muito difícil de se lidar. Ele nunca assumia o que fazia - aliás ele nunca reparava no que fazia. Ele não tinha um ``eu'' com o qual ele lidasse lucidamente. Ele só lidava com ``verdades'' e com ``lógica''. Quando ele era agressivo ele nunca notava. E ele sempre tinha razão. Não era ``achava que tinha razão'', porque no mundo dele não existiam ``achos''. E nós não tínhamos provas científicas e argumentos irrefutáveis de que ele tinha sido agressivo. Aliás, quando nós conseguíamos algum e ele entendia ele dizia que não tinha tido a intenção.

(Eu até hoje tenho medo das pessoas que fazem as coisas sem prestar atenção e que quando fazem algo ruim ``não tinham a intenção''. Não sei como reestabelecer um diálogo com elas quando há algum desentendimento. Me sinto muito mais à vontade com gente assumidamente cruel - eu frequentemente sei desarmar pessoas cruéis fazendo algo engraçado, e aí consigo conversar com elas.)

Meu pai foi uma pessoa muito marcante pra mim também. Eu passei a vida inteira me defendendo dele.

Eu me afastei dele - fisicamente - quando pude, mas isso não resolve tudo. Quando a gente está longe de uma pessoa que é importante pra gente aquela pessoa continua com a gente - como memórias, introjetada. Eu tentei me afastar do meu pai tanto fisicamente quanto emocionalmente. Mas o fantasma dele continuava comigo, me assombrando. Me atropelando como um trator. Me dizendo coisas pras quais eu procurava respostas, e não encontrava nenhuma resposta - porque eu precisava de respostas que ele fosse entender, mas a especialidade dele era não entender nada.

Aí depois disso tem um trecho que eu vou pular, e aí vem a parte que é realmente importante pra este texto aqui sobre gênero. Lá vai:

O meu pai dizia que o Holocausto era tão pior do que qualquer outra coisa que perto dele qualquer outra atrocidade, passada, presente ou futura, perdia a importância. E isso era muito opressor, porque queria dizer que o mundo tinha uma dívida infinita com ele - ele podia fazer qualquer coisa, podia explodir a qualquer hora, pra descarregar coisas que aliás ele nem entendia, e ele seria sempre desculpado. E isso fazia todo o sentido, mas era insuportável.

Eu levei 30 anos pra conseguir lidar abertamente com isso - e foi da seguinte forma: "ele tinha um crédito gigantesco por ter passado pelo que passou. Mas esse crédito não é infinito, e agora, depois de décadas, ele acabou". E esse corte era algo bem mais pesado do que parece - era algo inadmissível, pra todo mundo. Eu me dispunha a ser considerado um monstro, por ele, pela minha família, pelos amigos dele, talvez até pelos meus amigos - a gente não se recusa a pagar a nossa dívida com a família - a dívida de cuidar de quem cuidava da gente - impunemente. Então eu não pediria mais ajuda a nenhuma dessas pessoas.

Então essa foi uma das situações na minha vida nas quais eu decidi sacrificar a minha respeitabilidade, todo um grupo grande de contatos, toda uma rede social - a rede de proteção que a gente tem por default quando nasce numa certa classe, com um ou dois dos nossos pais sendo judeus -

Na verdade eu só fiz isso porque eu tinha muito pouco pra perder. Pode parecer meio estranho isso da gente se afastar da família "por não ter quase nada pra perder" - e em enterros a gente

etc, etc, etc. Bom, porque é que comecei falando disto - dessa cerimônia e da minha relação com o meu pai? Por dois motivos. O primeiro é quase impossível falar sobre gênero sem falar em opressão e sofrimento e sem quantificar esse sofrimento, e eu não quero falar da hierarquia das opressões porque toda vez que a gente compete por quem é mais oprimido, e portanto mais merecedor, eu perco de lavada, porque sob muitos aspectos eu fui e sou incrivelmente privilegiado... então pra eu não passar a minha vida inteira só calado num canto e invisível eu me treinei pra nunca competir na hierarquia das opressões - e eu acho que esse treino é bem util, e o meu treino se reflete nas minhas escolhas de modos de escrever... então quem estiver tentando aprender a não competir na hierarquia das opressões talvez consiga aprender alguns truques novos quando reler isto aqui com atenção.

O segundo motivo é que muita gente tende a querer localizar a origem das nossas questões sexuais ou de gênero num lugar só, e o meu pai era tão ogro - até quase psicopata nas relações com algumas pessoas da família - que as pessoas dizem "ah, você tem uma relação péssima com o masculino por causa da sua relação com o seu pai... você só precisa resolver essa coisa com o seu pai na sua cabeça" - e o meu ponto é o seguinte: coisas que estão nas camadas mais superficiais e recentes das nossas memórias podem ser modificadas facilmente; às vezes até alguém nos dá um argumento racional pra gente ver como o nosso modo de lidar com aquilo está ruim, e a gente diz "nossa, você tem razão", e, plim, mudou. Coisas que estão em camadas mediamente profundas são mais difíceis de mudar, porque a gente já fez mais conexões a partir delas, então é como tentar arrancar uma planta cujas raízes se estendem num raio de meio metro, exige bem mais energia do que arrancar uma erva que nasceu na semana passada... e certas coisas, como as nossas relações com os nossas pais, têm origens tão antigas e profundas que são como plantas cujas raízes se entremeiam com absolutamente todo o resto que existe - arrancá-las completamente, se fosse possível, demandaria uma energia dez vezes maior do que a que a gente tem, e algumas dessas raízes talvez estejam fundo demais, estão além do que a gente conseguiria alcançar com o racional e a linguagem... então hoje em dia eu acredito que o melhor que eu posso fazer é o seguinte:

(continuar)


2. Imagens


2.1. A princesa

Deixa eu usar uma imagem. A sua família se muda pra outra cidade, e você vai pra outra escola. Na sua escola antiga você era só uma criança introversiva que não se relacionava direito com ninguém. Na escola nova alguma coisa deu um clique - outra criança te perguntou alguma coisa e achou as suas respostas interessantes, e em poucos dias você estava sendo convidado pra festas - na escola antiga você era esquisito por ser totalmente incompetente pra esportes; e as festas eram só uma confusão de pessoas barulhentas sendo mais barulhentas ainda, pessoas correndo pra lá e pra cá bebendo e se sacaneando, todo mundo querendo que tudo fosse como nas festas de adolescentes dos filmes americanos - mas na escola nova ser introversivo não é pecado, você foi adotado por um grupinho que às vezes se reúne pra conversar por horas, e eles sabem que as pessoas que falam menos são as que às vezes aparecem com as melhores idéias, e conjuram as melhores imagens -

Aí um dia - desculpa, tá ficando difícil escrever sem gênero, então deixa eu usar o feminino - uma das suas melhores amigas te convida pra uma festa maior, em que vai ter bem mais gente, e onde você não vai conhecer praticamente ninguém. Você acha essa amiga fascinante, ela acha você fascinante também, e ela age de forma meio protetora com você. Vocês duas entram juntas na pela porta da casa enorme cheia de gente, e naquele momento você é a amiga daquela garota, e você compartilha um pouco da aura dela, vocês são duas princesas entrando numa festa numa castelo - e a sua versão anterior, a menina tímida da outra escola, é só uma memória distante -

Eu vivi muitos anos acreditando que a vida era assim: que eu iria em algum momento encontrar a festa certa, a em que as pessoas realmente interessantes estavam, e eu entraria nela como uma princesa, e tudo funcionaria... minhas qualidades, que eram algo praticamente sem valor na escola enterior, iriam brilhar como um colar de diamantes através de um vestido leve e semitransparente; eu seria adotada, e a versão anterior de mim, que vivia em humilhação e vergonha, se tornaria só uma memória distante.


2.2. Príncipe encantado

Algumas pessoas detestam a expressão "príncipe encantado", porque acham que "isso não existe"... eu gosto dela.

O príncipe encantado é alguém que nos salva por mágica. Tem uma frase que é: "qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de mágica"... qualquer coisa que o príncipe encantado saiba fazer que esteja muito adiante do que as pessoas do nosso círculo sabem fazer é, num certo sentido, mágica. Se as pessoas do nosso círculo chamam o diferente de esquisito e de idiota, chamam o cara que não canta ninguém de viado e não sabem conversar, então quem nos entende e nos aceita e conversa com a gente é um príncipe encantado que nos salva "por mágica".

Outra coisa legal da expressão "príncipe encantado" é a seguinte: todas as mulheres procuram um príncipe encantado. Ora, então os príncipes encantados, que devem ser muito poucos, vão ser disputados a tapa! Como fazer com que eles nos escolham? O que nós podemos fazer pra merecê-los, e como fazer com que eles nos avistem no meio da multidão?...

Pior ainda: e se os príncipes encantados parecerem pessoas comuns, como nós vamos avistá-los e reconhecê-los? E se eles não estiverem prontos? Se da mesma forma que nós precisamos ser salvos eles também precisam ser salvos um pouquinho? Se eles ainda são só príncipes encantados em potencial? Se eles parecem sapos?...

Como é que nós podemos virar pessoas muito interessantes e capazes de "mágica", e nos tornarmos amigos das outras pessoas interessantes e capazes de "mágica"?


2.3. O pitbull

Eu estava voltando pra casa. Era um fim de tarde, hora do rush, e tanto a rua quanto a calçada estavam lotadas. Nessa época um dos assuntos mais discutidos, e que sempre aparecia nas manchetes dos jornais, era o que fazer com os pitbulls. Eles eram os cachorros preferidos dos "pitboys", que eram uns garotos ricos mimados e vândalos que viviam em academias, e que eram hipermasculinizados e que sempre que podiam se metiam em brigas. Já tinha tido uma meia dúzia de casos em que os pitbulls dos pitboys tinham atacado e mutilado, ou até matado, pessoas, e havia uma campanha em andamento pra tornar pitbulls ilegais, exigindo que eles fossem todos mortos, ou que pelo menos proibissem andar com pitbulls na rua ou tê-los em casas que tivessem crianças.

Então, nesse dia eu estava voltando pra casa, andando por uma calçada hiperlotada de gente, e eu vi que ao lado de uma banca de jornais tinha um espaço praticamente vazio - e nesse espaço tinha um garoto e uma garota, de algo entre 12 e 15 anos, provavelmente irmão e irmã, conversando casualmente entre si, e entre os dois o cachorro deles: um pitbull.

"Dois adolescentes com um pitbull"... nessa época isso normalmente seria algo apavorante, mas os dois tinham um ar tão frágil, eram super sensíveis, super atentos, e o cachorro deles, um pitbull só um pouquinho mais velho que um filhote, olhava pra todo mundo com uns olhões enormes, tristes, doces e carentes, e tentava exprimir, não só com os olhos mas com o corpo todo, algo como "ei, ei, por favor, por favor, vem brincar comigo, eu não vou te fazer mal nenhum!"... e umas poucas pessoas até faziam contato visual com o cachorro e olhavam ele nos olhos um instante, mas todo mundo, absolutamente todo mundo, evitava ele por medo, e então ali, no meio daquele semi-círculo colado na parede cinza de uma banca de jornais, tinha um cachorrinho doce e carente fazendo toda a força pra parecer que tinha metade do tamanho que tinha, e ele sabia que ia ter que ser o mais fofo possível pra que alguém chegasse perto, mas ainda não estava funcionando, ele teria que ser ainda muito mais doce, mais puro, mais sincero... e ele continuava tentando...

Essa cena - essa imagem - nunca me abandonou. Pra mim isto é exatamente o que é ser homem - aliás, melhor, andar dentro de um corpo masculino - num país machista. A gente fala sobre privilégio masculino, mas, bom, privilégio masculino quer dizer principalmente você poder ser estúpido com as pessoas e elas sempre te desculparem - porque elas sabem que você é um animal irracional que não sabe se controlar.

Existe um papo de que o que as mulheres procuram e valorizam são os homens sensíveis. Isto só é verdade até um certo ponto.

Deixa eu voltar pra história do pitbull mais um pouco. A gente tem esse cachorrinho que está fazendo tudo, absolutamente tudo que pode pra merecer que algum dia um "príncipe encantado" apareça e faça carinho na cabeça dele por cinco segundos. Mas o que acontece se vários anos se passam e ninguém se aproxima? Se todo o esforço pra sinalizar pro mundo o quanto a gente quer ser fofo é em vão? A gente gastou um tempo praticamente infinito polindo nossos corações, examinando nossos pensamentos e devaneios, procurando cada coisinha que poderia parecer um gesto bruto, e tentando curar cada migalha de brutalidade por trás, e trocá-la por atenção e cuidado...

Então: imagina que os anos se passam e a gente ainda é visto e tratado por absolutamente todo mundo como um pitbull. Nossa doçura e nossa esperança se desgastam, e dão lugar à amargura... e todo mundo em torno da gente diz pra gente, com as melhores intenções, coisas como: "mas você é um pitbull! Aproveite a sua pitbullzice! Se divirta..."


2.4. William Blake (e BDSM)


2.5. Náufragos e alienígenas

Há uns dez anos atrás o Laerte fez uma série de tirinhas com um personagem que era um náufrago, que fazia as coisas que a gente espera que os náufragos costumem fazer... ele andava com um chapéu e roupas que ele mesmo tinha feito de palha, acendia fogueiras, marcava os dias fazendo talhos numa árvore, e pensava: "Hoje fazem dez anos que eu não vejo um ser humano" - só que a árvore não era uma árvore, era uma poste numa esquina movimentadíssima de uma cidade como São Paulo, então fazia dez anos que ele vivia como um náufrago cercado de gente que ele nem via e que ignorava ele, ou que tratava ele como um mendigo, sei lá, ele fazia fogueiras e coisas assim e ninguém notava...

Eu acho isso muito genial. De vez em quando pessoas me perguntam coisas sobre sexo, e eu só consigo responder: "Como assim?", e por dentro eu penso "ué, sexo com quem?"... A frase do náufrago é genial: "hoje fazem dez anos que eu não vejo um ser humano" - onde estão as pessoas da minha espécie? Eu quero ir pro meu planeta!...


Tem um filme com de 1976, "O homem que caiu na Terra", no qual o David Bowie, magérrimo e com cabelo laranja, faz o papel de um alienígena se passando por humano, que aparece no meio de uma estrada no interior dos Estados Unidos, penhora duas alianças de ouro pra conseguir dinheiro, arranja o telefone de um advogado, e ao se encontrar com ele mostra pra ele uma "invenção", que é uma câmera fotográfica que não precisa de filme num de revelação... essa invenção é a primeira de várias com tecnologias revolucionárias, e eles dois em sociedade criam uma indústria gigantesca e biliardária. O Bowie passa a viver como um gênio excêntrico e recluso, e no fim do filme a gente descobre que um dos objetivos em ele virar biliardário era ele poder construir um foguete pra voltar pro planeta dele, até levando uma quantidade de água e de outras coisas que as pessoas do planeta dele precisavam... mas agentes secretos sabotam a viagem dele, e ele é mantido prisioneiro dentro das mansões dele e não vai pra lugar nenhum. É tristíssimo.


Deixa eu citar dois trechos curtos do "Reflexões sobre a questão gay", nos quais o autor, Didier Eribon, cita outras pessoas:

George Chauncey cita testemunhos de gays que resolveram deixar as cidades pequenas onde moravam depois que um amigo lhes falou de uma estada em Nova York.

E este trecho é da autobiografia do Guy Hocquenghem:

Os anos de infância são vagos, inspiração de um desejo de se diferenciar, aspiração frenética rumo a outras atmosferas, que enchem o peito de lamentos insaciados. Algo entre a promessa de ser um gênio, de fazer a revolução, de ser um santo ou um grande artista, ou ainda de se suicidar às primeiras marcas da idade adulta.

É engraçado, eu tinha exatamente isso quando criança - a sensação de que eu ia ter que me esforçar feito louco, o tempo todo durante décadas, pra poder ser um gênio quando eu crescesse, e aí conseguir viver num círculo de pessoas que eu sentia que eram do meu planeta...


3. Corpo


3.1. Galeano

O Eduardo Galeano tem um poema, ou texto curto, muito famoso, que é assim:

A Igreja diz: O corpo é uma culpa.
A ciência diz: O corpo é uma máquina.
A publicidade diz: O corpo é um negócio.
O corpo diz: Eu sou uma festa.

Esse texto me irritava muito. O meu corpo é uma festa? O caralho!

Um dia a minha amiga Tatiana postou este texto no Facebook. Há alguns anos atrás ela tinha problemas com o corpo dela mais ou menos do tamanho dos meus, e ela é uma super boa escritora e poeta. Aí me veio este adendo ao poema:

O corpo disfórico se contorce em silêncio.

Tá, mas porque disforia de gênero é tão infernal? Porque é que tanta gente "decide" virar travesti, levar uma vida barra pesadíssima com pouca chance de sobreviver além dos 40, porque isso acaba sendo bem menos pior do que a alternativa?...

A sensação que eu tenho é que as narrativas "padrão" das pessoas que mudam de sexo tendem a ir em certas direções e a falar de certas coisas mais familiares, mais fáceis de entender - mas tem outras áreas que raríssimamente são abordadas... tem alguns trechos que me tocaram muito nos livros da ... e da Jennifer Finley Boylan, que falam de coisas que eu nunca vi nada parecido em Português; acho que isso é um indício de quanta coisa ainda há sobre disforia que ainda nunca foi escrita... eu vou tentar fazer a minha parte.

Às vezes umas pessoas me perguntam porque eu comecei a TH, e eu vejo que são pessoas que precisam de uma resposta muito curta. Aí eu digo isto aqui, que é bem curto e bem verdadeiro:

Agora eu entendo porque as pessoas gostam de estar vivas.


3.2. Infância

No início, quando eu era pequeno, eu achava só que eu tinha dado azar. As meninas podiam fazer tudo de legal e podiam pensar e conversar sobre o que queriam e serem sinceras; já os meninos tinham que ficar fingindo o tempo todo que gostavam de um monte de coisas idiotas só pra provarem pros outros que eles eram machos, e ficar fazendo papel de macho era algo tão infernal que a gente vivia explodindo de frustração e raiva... aí o que eu entendia era que os outros meninos descarregavam essa raiva se sacaneando e se batendo, e eles ficavam tão ocupados com isso que eles não tinham tempo pra pensar nada de diferente... e como eu era magro e fraco e tinha defeitos de personalidade eu não conseguia me encaixar e aí eu ficava só vendo tudo como se eu estivesse de fora... e eu tinha a impressão - aliás, a "esperança"! - de que se eu me esforçasse MUITO e virasse uma pessoa muito interessante quando eu crescesse eu acabaria encontrando as outras pessoas que também sabiam que o mundo masculino era uma farsa, e teriam construído jeitos de viver fora dessa farsa...

Aos poucos - a partir da minha adolescência - eu fui vendo que eu funcionava de um jeito bem diferente dos meninos, e comecei a procurar onde estavam as pessoas com as quais eu pudesse me identificar mais e trocar mais figurinhas... e aí tentei andar com homens gays e bis, o que não deu muito certo, depois com lésbicas militantes, travestis e transexuais...


3.3. Sexo estraga tudo

No fim da minha adolescência já estava claro pra mim que a gente tem carências físicas, que a gente resolve ficando com pessoas ou transando com elas, e carências emocionais, que a gente resolve sei lá como; e que eu não dava certo sexualmente nem com homens nem com mulheres, e que as minhas carências físicas podiam ser grandes - porque, caramba, quando a gente é adolescente os hormônios estão furiosos e o corpo tenta mandar na gente... e ainda por cima todos os meus amigos agiam como se a gente tivesse que estar sempre preparado porque ninguém sabe o que vai acontecer daqui a poucas horas, pode ser que a gente acabe transando hoje à noite, então a gente tem que estar sempre preparado - mas as minhas carências emocionais eram muito, muito maiores, e as minhas carências físicas estavam é me atrapalhando, então foda-se esse negócio de tesão e sexo, que isso só me atrapalha.

Às vezes eu precisava resumir muito isso, porque as pessoas em torno de mim não entendiam idéias complicadas, ainda mais quando elas eram tão estranhas, então eu tinha algumas frases de efeito preparadas... por exemplo, "sexo estraga tudo".

Deixa eu tentar fazer o contrário disso agora. Vou tentar contar a história direito, de um jeito que possa ser útil pras pessoas que viveram coisas parecidas com as minhas.


3.4. "Ela tá te tando mole" - o mundo dos códigos

Deixa eu começar esta seção com uma frase-chave da minha adolescência: "Ih, olha lá, rapá, ela tá te dando mole! Você não vai fazer nada?"

A primeira coisa que eu quero apontar nessa frase é que a pessoa que fala ela tá interpretando um gesto de uma mulher - por exemplo, um jeito de olhar - como querendo dizer outra coisa: que ela está dando mole. O cara que diz essa frase acha que existem determinados códigos que são compartilhados por todo mundo, e ele acha que pelo menos em assuntos amorosos as pessoas se aproximam umas das outras usando essa comunicação "em código".

A segunda coisa a apontar é a seguinte: "ela tá te dando mole" e outras frases parecidas falam sobre "estar a fim" e "não estar a fim", mas nunca são muito específicas sobre a fim de quê. Ora, se eu só quero perder a virgindade a qualquer custo eu estou a fim de certas coisas; se a minha casa é um inferno e eu quero me sentir aceito em outro lugar, as coisas de que eu estou a fim são outras; se eu quero me esquecer do meu cotidiano a minha energia é uma, e se, ao contrário, eu quero pensar junto com alguém numa conversa em que a gente compartilhe idéias e memórias e repense nossos modo de agir, aí a energia é oposta à de esquecer...

Eu era completamente incompetente pra essa comunicação por códigos. Tudo dava errado, sempre - e eu me sentia incrivelmente inferior a todo mundo por causa disto.

O caso é que eu tentava sinalizar o que eu desejava e o que eu tinha pra oferecer usando a linguagem dos códigos, e o que eu queria transmitir não cabia nela.

Eu acabei desistindo do mundo dos códigos. Tinha que haver outras pessoas como eu, e essas pessoas certamente formariam um mundo paralelo... elas deviam estar vivendo entre as pessoas "normais", misturadas, mas sem fazer muito alarde da sua diferença. Onde estavam essas pessoas que se comunicavam conversando claramente ao invés de por códigos nos quais cada gesto queria dizer outra coisa?

Se elas também tinham necessidade de outras pessoas parecidas elas já teriam feito o mesmo trabalho de busca que eu estava fazendo... e algumas já teriam encontrado outras, e formariam uma rede. Onde estavam essas pessoas?


3.5. Pessoas bonitas

A coisa mais importante quando a gente vê uma pessoa nova é ter uma noção de quem é essa pessoa e como ela vai reagir a cada coisa que a gente fizer - ou não fizer.

O mundo está infestado de Ômis.

Os Ômis assediam as mulheres de várias maneiras.

Quando eles vêem uma mulher gorda e peluda, por exemplo, eles agem como alguém que vê um tomate podre numa barraca da feira e dá um esporro no feirante. Eles agem como consumidores ofendidos que acreditam que vão melhorar a qualidade dos produtos sendo agressivos.

Quando os ômis vêem uma mulher que está exatamente dentro do padrão - magra, jovem, branca e arrumada - eles agem de um jeito que é uma mistura de várias coisas: admiração, desejo e desrespeito. O desrespeito é eles reduzirem ela a um bife pra se sentirem no controle.

As pessoas me lêem como homem. E se eu sou homem então eu certamente sou ômi também, em maior ou menor grau.

Uma vez eu bolei uma pichação que eu acabei não fazendo, que era assim:

Simpatia é quase desejo
e desejo é quase ameaça

Eu tomo muito cuidado com o meu olhar, porque ele pode ser interpretado como um olhar de ômi. Se eu olho durante mais de dois segundos pra uma mulher pode ser que ela veja isso como desejo, e daí deduza que eu estou vendo ela como um bife.

É difícil pra mim conversar sobre que mulheres eu acho bonitas, porque "bonita" acaba tendo dois significados bem diferentes... um é "está dentro do padrão dos ômis", e outro é "ela me interessa e eu gostaria de me aproximar dela".


3.6. Aproximações

Vamos pensar o caso das mulheres "bonitas" - as que estão dentro do padrão dos ômis.

Elas estão acostumadas a serem muito assediadas e a terem que ficar se defendendo de assédios. E elas sabem que o suprimento de pessoas interessadas nelas, e interessantes, é inesgotável.

Tem uma frase que resume bem uma atitude típica dessas mulheres: "a fila anda". Se ela se cansou de um cara, se algo não funcionou, é só descartá-lo, daqui a pouco vem outro novo. E tem também uma outra frase que eu acho chave, que é a seguinte: "eu sou uma mulher maravilhosa. Você me deseja. Se arraste aos meus pés".

Aos poucos eu entendi que era muito perigoso eu me aproximar de mulheres consideradas "bonitas". O risco de eu levar porrada era enorme, e a chance era ínfima de conseguir estabelecer uma relação baseada em confiança e segurança.

Muitas das porradas que a gente dá são sem a gente notar - então relações nas quais as pessoas sejam muito mais cuidadosas do que o "normal" só são possíveis entre pessoas que estão se esforçando há anos pra serem menos brutas - e acho que essas pessoas são exatamente as que já apanharam muito

(...)


3.7. Obrigado, otário

Quando eu era criança eu queria ser só uma mente sem corpo; aliás, eu desprezava tudo que era físico, e eu tentava ser totalmente racional. Mas aos poucos foi ficando claro que isso não tinha como funcionar.

Eu achava que ser racional me tornava superior. Como eu era idiota... mas eu percebi isso, e quis deixar de ser só "racional" pra me tornar "humano".

Eu virei adolescente numa época horrível. As pessoas agiam como se desejar intimidade e confiança fosse ridículo, porque essas coisas "não existiam". Você tinha que ser desprendido e abandonar as pessoas com quem você se envolvia antes que elas abandonassem você. Você tinha que ser seguro e agir sempre casualmente, como se você já tivesse feito cada coisa mil vezes. Nada podia ser especial.

Eu lembro de ir pra festas e ver as pessoas se atracando nos cantos de jeitos que eu achava bizarros. Perder a virgindade era o ritual de iniciação mais importante de todos, mas como eu conseguiria? Parecia que eu ia precisar querer muito, tentar me aproximar de garotas milhares de vezes, levar milhares de foras e aprender a não me importar com eles, até que algum dia ao invés de levar um "não" eu ouviria alguma espécie de "sim".

Pensa na seguinte cena. Você vê uma mulher que você acha muito atraente, ela se interessa por você, e vocês começam um jogo de sedução que vai ficando cada vez mais sério. Numa certa hora já está tão claro que "sim", e que vocês dois querem muito, que a partir daí o lado animal domina.

Talvez fosse isso que acontecia nos casais que eu via nas festas, se atracando de jeitos que pra mim eram grotescos, loucos de tesão mas conseguindo prestar pouquíssima atenção ao outro. Eles se permitiam deixar o tesão dominar - e pra eles era bom.

Eu não tinha como funcionar desse jeito. Claro que os hormônios da adolescência me deixavam baratinado de ansiedade e tentavam me transformar numa máquina de enfiar, mas toda vez que eu me masturbava, assim que saía a eca do meu pênis era como se eu meu corpo dissesse "Aaaah! Obrigado, otário!", e a sensação era exatamente como de fim de festa - todo mundo foi embora, a lembranças das coisas boas da festa são meio borradas e parecem meio falsas, e sobrou a ressaca, umas coisas quebradas e muita coisa pra limpar.


3.8. O homem com pegada

Deixa eu me focar no personagem desse homem, porque ele é um pouco mais familiar que o da mulher. Ele é o "homem com pegada". Todo mundo gosta dos homens com pegada - eles são um tesão e os outros são uns bananas... e ninguém comenta que isso deles ligarem um lado animal e não pararem mais tem seus perigos - se você está com um deles e desiste no meio ele pode te dar um murro ou te estuprar, porque ele não consegue parar... ele tem até um efeito físico, ele fica com os testículos doendo muito... tem um termo pra isso em Inglês: "blue balls" - mas não sei se tem um termo correspondente em Português.

Pois bem, todo mundo conhece o "homem com pegada"... eu sou exatamente o contrário. Eu me fascino por pessoas às vezes, claro, e fico atraído por elas sim, mas que eu fico com tesão o que eu penso é "pô, que droga, que constrangedor", e eu deixo ele passar.

Eu adoraria que fosse mais fácil dizer numa conversa algo como "Desculpa, eu me distraí olhando pra você, é que eu acho você fascinante... acho você um tesão, na verdade, mas pode deixar que eu não vou deixar isso nos atrapalhar."

Então, num extremo a gente tem as pessoas com pegada e as que gostam delas; essas são as pessoas "normais". No outro extremo estou eu; um dos meus slogans é "sexo estraga tudo", e um dos rótulos que eu uso pra mim é "sexofóbico"...

Um amigo meu, o Maurício, tem uma frase genial, que é: "resumiu tanto que ficou errado". Tem coisas que não dá pra resumir direito, porque são idéias nada familiares que precisam de explicações detalhadas, mas às vezes as pessoas nos exigem resumos em uma palavra ou em uma frase assim mesmo... então, "sexofóbico" e "sexo estraga tudo" são desses resumos tão resumidos que ficam praticamente errados - mas eu aos poucos vou explicar o que eu quero dizer com isso.

A primeira coisa importante que eu preciso contar é a seguinte. Eu me descobri "sexofóbico" em 2001, e a reação das pessoas - no Rio de Janeiro - era péssima, me tratavam como doente de formas bem agressivas, me provocavam, me testavam... mas eu tinha conseguido uma bolsa pra passar boa parte de 2002 em Montreal, e lá foi uma situação paradisíaca - as pessoas entendiam como eu funcionava, trocavam altas idéias sobre isso comigo (porque elas também queriam conseguir nomear melhor o que elas procuravam!...), as pessoas se olhavam nos olhos em quase todo lugar, e foi super fácil pra mim estabelecer relações de confiança... e até aconteceu algumas vezes de eu acabar dormindo junto na mesma cama que os meus amigos mais fofos, mais queridos e mais fascinantes, exatamente porque a gente sabia que ninguém se transformaria de Dr. Jekill em Mr. Hyde, nunca aconteceria algo como alguém dizer "agora já chega dessas besteiras, tá na hora de trepar..."

Aí eu voltei pro Brasil no fim de 2002, super feliz e com a clareza de que sexofobia, quer dizer, essa idéia de que sexo é pra ser deixado super em segundo plano, fazia todo o sentido e me levaria a relações incríveis... e praticamente só me ferrei - até passei três anos em pânico, sem conseguir olhar mais nos olhos de ninguém e com a minha capacidade de confiar em pessoas totalmente destruída, depois de uma situação que pra qualquer carioca "normal" era banalíssima; eu fiquei com sequelas parecidas com sequelas de estupro depois que uma parte minha foi violentade - mas era uma parte não-física, e que ninguém mais tinha algo parecido, então eu nem tinha como conversar sobre isso com ninguém, ninguém entendia...

Outra coisa que aconteceu foi que eu introjetei as idéias de que (...)


3.9. Jack

Deixa eu contar duas histórias que me aconteceram em 2001, e que me fizeram me sentir expulso do Rio de Janeiro.

Eu tinha reencontrado um amigo de adolescência, que eu não via há mais de 10 anos - o Jack - e me reaproximado dele. Ele andava treinando Tai-Chi a beça, às vezes ele dava aula no lugar do mestre quando o mestre faltava. Ele não gostava mais do apelido "Jack", que era como todo mundo chamava ele quando a gente era adolescente, porque ele achava "Jack" muito agressivo... mas eu vou me referir a ele como "Jack" aqui.

A gente se via duas vezes por semana na Sociedade Taoísta, no Cosme Velho, porque as aulas eram lá, e a gente voltava junto de ônibus, porque a gente morava mais ou menos perto, e nisso a gente acabava conversando a beça. Ele me contou que tava fazendo faculdade de dança pra ajudar com as dificuldades do Tai-Chi, e aí eu pensei "bom, quem estuda dança não pode ser muito macho homofóbico", e contei algo sobre um cara por quem eu tinha sido super apaixonado anos antes - e foi isso que quebrou o gelo, a partir daí o Jack se sentiu à vontade pra me contar que ele era homossexual, e ele começou a me contar um monte de histórias que tinham a ver com isso... basicamente, a cada sexta ou cada sábado ele conhecia algum cara que parecia um príncipe encantado, e dessa vez tudo parecia que ia dar certo, mas no domingo o cara não aguentava mais ele; e na semana seguinte era a mesma coisa com outro cara, e na outra semana com outro, e assim por diante, sempre.

Eu tava ficando muito constrangido de ouvir essas histórias. Algo me parecia muito errado... o Jack tava super feliz de me ter como confidente, mas eu estava incomodadíssimo.

Eu estava tentando me posicionar nessa época. "Identidade sexual" era uma das partes mais importantes da nossa identidade, e era como se eu ainda não tivesse... eu ainda estava procurando uma que me descrevesse bem, e era como se eu só tivesse uns fragmentos, uns esboços.

Era muito desagradável não ter uma identidade sexual. Tem uma imagem que eu adoro, que é a seguinte: os pais levando o garoto diabético pra sorveteria pra ele assistir os outros tomando sorvete... então, em quase toda conversa de bar as pessoas falavam sobre seus namoros, suas paqueras, suas conquistas, ou pelo menos sobre o que as atraía, e eu me sentia como o garoto diabético vendo os outros garotos tomando sorvete! Era como se eu fosse a garota religiosa super travada, ou como o garoto nerd patologicamente tímido e esquisto, que toda vez que tentam socializar com os colegas num bar ficam com cara de tacho em todas as conversas sobre amor e sexo, e aí acabam meio que se vendo como inferiores, ou covardes, ou aleijados...

Mas deixa eu voltar pra história do Jack - depois eu continuo sobre ficar com cara de tacho nas conversas de bar. Então, teve uma vez, quando nós já treinávamos há meses juntos, em que nós tínhamos ido treinar num parque de manhã bem cedo - a gente fazia isso de vez em quando. Nós estávamos voltando a pé do parque, o Jack estava tentando me contar do princípe encantado do último fim de semana, tentando pensar sobre o que tinha dado errado dessa vez, e eu resolvi contar uma história minha, apesar da minha ser bem mais banal... eu tinha saído com amigos da faculdade dois dias antes, tínhamos ido parar num bar do Baixo Gávea, numa mesa com 20 pessoas, e eu comecei a conversar animadamente com a pessoa do meu lado, que eu tinha acabado de conhecer, e numa hora eu disse "ah, eu detesto sexo"...

Eu e o Jack íamos atravessar uma rua quando eu disse isso.

Ele começou a berrar comigo, urrar, de ficar vermelho - "O QUÊÊÊÊÊÊ? Você NÃO PODE dizer isso!!!! Você precisa se TRATAR!!!! ISSO É DOENTE!!!!!!"

Eu não consegui dizer nada.

Eu levei meses sem conseguir dizer nada, só com a certeza de que é muito difícil ser sexofóbico no Rio de Janeiro.

Só meses depois me ocorreu uma boa resposta. "Jack, há poucas décadas atrás você seria visto como muito doente, e seus namoros com homens seriam ou muito difíceis ou impossíveis... Você só pode fazer essas coisas agora tão facilmente porque algumas pessoas consideradas doentes lutaram pra caralho pra não serem mais vistas como doentes. Você deve muito a pessoas que fizeram o que eu estou tentando fazer agora".


3.10. História de testosterona

Deixa eu contar uma história do meu tempo de muita testosterona - aliás, melhor, do tempo em que eu vivia envenenado por testosterona. Vou contar só uma delas, porque esse tipo de coisa acabava acontecendo tipo uma vez a cada dois anos.

Primeiro um pouco de contexto. Em 2001 eu estava no meio do doutorado, estudando pelo menos umas 12 horas por dia, e pensando nos meus assuntos de pesquisa quase o tempo todo, até quando eu dormia. Eu tinha um bocado de tempo "livre", e eu aproveitava pra fazer aulas de coisas como circo - acrobacia aérea - e Tai-Chi, pra eu ter mais energia e não enlouquecer.

Pois bem. Até alguns anos antes disso a minha estratégia de vida era baseada em eu ser magro e frágil e ser covardia alguém me bater; ou, em outras palavras, em os caras fortes nunca me verem como alguém que competia com eles.

Eu nunca soube lidar com as babaquices machistas que os caras falam pros outros amigos babacas machistas rirem, e em 2001 eu comecei a pensar o seguinte: alguém tem que começar a mostrar pra esses caras que nem todo mundo acha essas babaquices engraçadas - e como ninguém mais tá fazendo isso, porque não tem ninguém mais sentindo muita necessidade de fazer isso, esse alguém vai ter que ser eu.

A gente acha que Tai-Chi deixa as pessoas calmas, mas no meu caso não foi bem assim - Tai-Chi me deixou poderoso, controlado e preciso.

Eu vou contar a história da segunda vez em que eu "fiz alguma coisa".

Era 2004, acho, e eu e umas dez outras pessoas passamos meses preparando um evento de Software Livre. O evento ia acontecer num domingo, de manhã e de tarde, num espaço cedido pelo Insitituto de Física da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, e quase todo mundo da organização morava no Rio.

No sábado de tarde eu e mais uma meia dúzia de pessoas fomos pra lá pra UFF pra instalar nos computadores as coisas que faltavam. A gente achava que ia ser fácil, mas lá ficou claro que a gente ia ter que virar a noite trabalhando... e às duas horas da manhã a gente viu que a gente ia ter que correr na casa do Diogo, num subúrbio do Rio, pra pegar o computador dele e fazer sei lá mais o quê, pra poder terminar tudo mais rápido.

A gente foi no fusca do Luís, com o Luís dirigindo, e na volta, lá pelas 7 da manhã, a gente pegou duas pessoas no caminho - dois palestrantes do evento - pra dar carona pra elas pra Niterói.

A cena que eu quero contar aconteceu no meio da ponte Rio-Niterói. No banco de trás do Fusca estávamos eu, à direita, o Diogo no centro, e à esquerda um dos caras pros quais a gente deu carona. Não lembro o nome dele, então vou chamá-lo de O Imbecil.

O Imbecil tava falando que tudo era coisa de viado - era a única "brincadeira" que ele conseguia fazer pra socializar.

Aí ele disse que gato era coisa de viado.

Aí o Diogo disse que tinha 8 gatos.

A gente tinha acabado de passar horas na casa do Diogo com os 8 gatos.

Então. Eu já tava vendo tudo vermelho, e eu sabia que se eu não fizesse nada, se eu ficasse em silêncio e fosse cúmplice daquela idiotice, eu ia passar os meses seguintes muito mal.

Eu disse pro Imbecil que esse negócio de "isso é coisa de viado" é coisa de viado.

Eu disse que se ele tratava a gente como homens eu ia tratar ele como homem também.

Eu me debrucei por cima do Diogo, que, lembrem, era quem estava no meio do banco de trás, e apertei o pescoço do Imbecil com toda a força, e enquanto ele ficava roxo eu berrava que ele era um covarde e outras coisas, e mandava ele reagir. Eu queria ficar batendo a cabeça dele contra o vidro do carro, mas ele ficou molinho pra eu não bater muito, e não deu pra eu bater.

Não sei quanta experiência vocês têm com essas coisas, mas quem tem alguma sabe que nós somos animais - brigas são simplesmente situações de muita energia, e elas em geral acabam quando o vencedor se define, ou quando a gente resolve de algum outro jeito, juntos, essa energia toda que apareceu, e transforma essa energia de briga em outra coisa. Em brigas de cães ou de ursos, por exemplo, raramente alguém se machuca muito - a briga termina antes. Com humanos é assim também, em geral.

Aí a gente chegou no evento, e as pessoas ficaram sabendo dessa história, em várias versões - algumas pessoas até perguntaram pro Imbecil o que eram aquelas marcas de unha no pescoço dele - e claro que não aconteceu nada comigo... primeiro porque a história era engraçada e exótica o suficiente pras pessoas ficarem à vontade de ficar do meu lado ao invés de do lado do Imbecil, e segundo porque o traço principal do universo masculino, pelo menos aqui no Brasil, é o direito à babaquice. Essa foi uma das poucas vezes nas quais eu exerci o meu direito à babaquice ao invés de ficar sempre tentando pateticamente ser racional e respeitável, e foi incrível!...

Essa história é uma das mais preciosas que eu tenho entre as minhas memórias. Desculpem, eu sei que muitos de vocês vão ficar chocados, mas essa história é como uma pequena jóia pra mim... talvez - e isto está me ocorrendo agora - porque foi uma das pouquíssimas vezes nas quais eu consegui usar o meu lado masculino, que em geral era tão problemático, pra fazer algo espetacular.


4. Transição


4.1. O espelho

Eu me perguntava a toda hora: "será que o que eu estou fazendo é de verdade?" - e com isso eu tive que procurar algum critério pro que seria "de verdade", até porque eu sempre tive uma vozinha na minha cabeça dizendo que nada do que eu fazia era verdadeiro o suficiente ou bom o suficiente, que tudo que eu fazia era ridículo, que tudo meu tinha defeitos gigantes -

Agora eu acredito que a gente vive uma farsa quando a gente precisa de cada mais energia pra sustentar o que a gente acredita que é; quando os nossos pilares de sustentaçao vão ficando cada vez mais frágeis e há cada vez mais situações e memórias que a gente precisa evitar. A "verdade" seria o oposto disso: a gente está ficando mais verdadeiro quando a gente consegue se comunicar com cada vez mais gente, ouvir as pessoas melhor e pensar junto com elas, mesmo que a gente tenha mais dúvidas que certezas; e quando a gente tem acesso a cada vez mais memórias. Viver uma farsa é ter que bloquear memórias e pensamentos; ser verdadeiro é não precisar bloquear, mesmo que a gente precise às vezes atribuir significados e explicações novos para memórias antigas.

Depois que eu saí do armário eu lembrei de uma memória muito forte da minha adolescência, que estava enterrada, esquecida. Teve um período de uns dois anos no qual toda vez que eu via o meu reflexo num espelho isso estragava o meu dia - então eu andava pela rua com muito cuidado com pra onde eu olhava, e eu mantinha tapado com papel pardo o espelho do meu banheiro (eu tinha um banheiro só pra mim lá na casa dos meus pais).

Acho que quase todas as pessoas trans sempre se viram como alguém do gênero oposto ao sexo biológico... mas eu não sou assim, porque eu nunca me via direito - eu sempre fazia o possível pra que o meu aspecto físico fosse algo muito secundário, quase irrelevante.

Agora, depois que eu comecei o tratamento hormonal, eu consigo olhar pra mim.


[Há pouco tempo atrás eu reli os meus cadernos daquela época... novas interpretações; vergonha de nunca ter sido o que eu queria]


4.2. Armadura

A coisa mais impressionante que aconteceu quando eu comecei a terapia hormonal foi quase imediata - eu tomei os remédios, fui dormir, e acordei diferente. Antes meu tórax era um bloco rígido, como uma armadura... muitos músculos meus estavam tão rígidos há décadas que eles não mandavam nenhuma informação pro meu cérebro - eles não mudavam nunca, não havia nada pra mandar. Quando eu acordei tinha, sei lá, 20, 50, 100, 200 músculos que era como se eu não tivesse antes, e que passaram a ter mobilidade e sensibilidade. Era enlouquecedor, mas era fantástico.

Eu ainda estou tentando pôr direito em palavras porque é que às vezes, principalmente quando eu tinha cerca de 20 anos, eu cruzava o olhar com alguém na rua durante um ou dois segundos e o olhar dessa pessoa me salvava o dia. Olha esta idéia daqui: podia ser que eu sentisse que com aquela pessoa eu poderia tirar a armadura. Essa pessoa me dava um vislumbre, e aí eu conseguia imaginar - aliás, planejar - um futuro no qual eu não precisaria mais viver de armadura...

O que aconteceria se eu afinal conseguisse me aproximar de uma pessoa dessas e me abrir com ela? Acho que eu explodiria, eu diria "obrigado" e "que alívio" e que eu procurava algo assim sem conseguir encontrar, e eu começaria a chorar - mas isso é tão perigoso, né, porque aí provavelmente a outra pessoa iria me achar um chato, dependente, descontrolado...

Garimpando nos meus cadernos de anotações eu encontrei esta frase: uma armadura de espinhos que protege o meu coração.


5. COMMENT


5.1. Iniciativa e não

Por um lado eu tentava descobrir um modo de tomar iniciativas que fizesse sentido pra mim, por outro lado a gente tentava encontrar as pessoas que tivessem mais a ver

Perder a virgindade era o ritual de iniciação mais importante de todos - e era algo que provaria que eu não era mais um idiota.

A gente aprendia a identificar de longe as pessoas mais interessantes, que poderiam ter a ver com a gente (pelo gosto musical, por exemplo - Psychocandy)

Não fazia sentido eu me comportar como se eu fosse um homem - mas eu demorei anos pra eu encontrar jeitos de responder certas coisas que as pessoas sempre diziam. Por exemplo: "cara, ela tá te tando mole, você não vai fazer nada?" - "Ué, eu também tou dando mole pra ela, e ela tem muito mais prática de se aproximar de outras pessoas que eu"... e se uma mulher realmente esperasse que eu "tomasse alguma iniciativa" quando ela me desse mole, era fácil: ela tinha demonstrado que ela era a pessoa errada, ela tinha sido reprovada no teste.

Eu procurava pessoas que fossem "do mesmo planeta que eu", e elas eram muito poucas... tinham que ser pessoas que também não ligassem pra códigos de gênero, e tinham que ser pessoas que lidasses com tesão do mesmo jeito que eu...


5.2. Tesão

Porque eu evito as pessoas seguras

O meu modo de gostar das pessoas não fazia sentido (Gwen)


5.3. circo

Naquela época era como se nada pudesse sequer tocar na bunda da gente, que era uma região tão proibida do corpo masculino que só palhaços de circo - criaturas de outro planeta - podiam fazer brincadeiras com ela... o Querelle me fez ver


5.4. e genocídios

Blake

"A gente saiu mas não aconteceu nada"

Leminski: "eu amo"

A gente vira ativista e vê genocídios em todo lugar;


5.5. (antiga - deletar)

Este texto é um "work in progress", que por enquanto é feito de fragmentos que ainda não se juntam bem. Alguns dos fragmentos foram escritos antes de transição, outros depois.

Antes da transição as pessoas às vezes me perguntavam o que eu era, se gay, hétero ou bi, esperando uma resposta curta, e a melhor resposta curta que eu encontrei nos últimos anos era: "eu sou encalhado"... há muitos anos atrás eu tinha uma resposta muito melhor, que era "eu sou sexofóbico" - e em algumas épocas esta resposta funcionava bem, porque ela criava a curiosidade certa, as pessoas perguntavam "como assim, sexofóbico?", e eu explicava, e elas entendiam facilmente as explicações, e o fato delas entenderem acabava me permitindo estabelecer relações super fofas e sinceras com elas... mas em outras épocas ninguém entendia a minha explicação, e era como se ninguém fosse entendê-la porque ela não fazia absolutamente sentido nenhum, e a minha vida virava um inferno...

Este texto tem vários objetivos diferentes. O primeiro é dar respostas pras pessoas em torno de mim, que certamente vão ficar intrigadas - e, em geral, incomodadas - com essa história de eu "agora" ser transexual, principalmente porque eu sou bem diferente dos casos de que elas ouviram falar... por exemplo, eu me treinei durante décadas pra quase não dar bola pra minha aparência, porque eu queria que ela fosse algo muito secundário - eu queria que as pessoas praticamente só prestassem atenção em como eu pensava e como eu me comportava, porque desse modo elas acabariam me vendo como alguém "sem gênero"... então agora eu estou tomando hormônios e o meu corpo está mudando aos poucos, e isto é visível pra quem prestar atenção, mas fora isto eu praticamente não tenho mudanças visíveis - tirei a barba com laser, e só... então eu não estou fazendo nenhum alarde da minha transição, mas ao mesmo tempo não estou fazendo nenhum segredo - e isto é exatamente o contrário de algo que a gente vê bastante por aí, que são as pessoas trans que querem ser reconhecidas por todos no gênero "novo", oposto ao atribuído no nascimento... eu ainda não estou me preocupando com pronomes nem com passabilidade, porque eu ainda estou preso em outras preocupações que pra mim são bem mais urgentes...

O segundo objetivo é o seguinte. As histórias das pessoas trans que "sempre souberam" que não eram do gênero atribuído a elas no nascimento têm tido muita visibilidade, mas existe bastante gente que viveu décadas tentando fazer o papel do gênero de nascimento e só decidiu transicionar bem mais velha. Precisamos ter mais acesso às narrativas dessas pessoas que transicionam mais tarde, e eu resolvi fazer a minha parte escrevendo a minha.

O terceiro objetivo tem a ver com estilo. Muitas pessoas trans acabam contanto as suas histórias de jeitos quase que padronizados, quase como se primeiro elas tivessem preenchido um grande formulário com itens de "sim" e "não", e depois tivessem recheado as respostas do questionário com um pouquinho de Português... precisamos de mais narrativas em forma livre - nas últimas seções deste texto vou explicar porquê.

O quarto objetivo tem a ver com sexualidade e relacionamentos. A nossa sociedade é obcecada por sexo, e isso transforma a vida de pessoas como eu, que têm carências afetivas não-sexuais enormes e complicações sexuais tão grandes que fazem que a gente deixe sexo de lado, num inferno.

O quinto objetivo tem a ver com opressão. Eu sou super privilegiado em muitíssimos aspectos, e faz anos que eu nem sequer sou chamado de viado na rua... será que eu, por ser trans, posso falar em nome das pessoas trans que estão sendo discriminadas, espancadas e mortas? Não, mas posso fazer várias outras coisas úteis... e coisas que talvez até me ajudem a me preparar pra quando eu estiver mais andrógino e portanto mais visível, mais discriminável, mais espancável e mais assassinável! Que coisas são estas?


5.6. (bem antiga, escrita antes da transição - deletar)

Eu gastei muito tempo e energia, durante dez anos, procurando toda a informação que eu podia sobre hormônios e sobre jeitos de remover cirurgicamente a coisa entre as minhas pernas. Mas se passaram doze anos, e eu ainda não fiz nada de concreto.

Às vezes eu me olho no espelho e o que eu vejo me faz pensar: "ai meu deus, eu perdi a batalha. Eu pareço muito masculino, e deve ser muito tarde pra mudar. Os hormônios masculinos ganharam." Mas outras vezes o sentimento é de eu escolhi as prioridades certas. Esses sentimentos vêm e vão; eu oscilo. Eu não tenho certeza de nada.

Eu às vezes imaginava como seriam as entrevistas com os médicos que me avaliariam como candidato pra tratamento com hormônios e cirurgia - eles tentariam medir objetivamente o meu sofrimento. Quando eu comecei a preparar esta fala eu

- e só há pouco tempo atrás eu percebi como a tentação