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Falta misandria no movimento trans, 2

Este texto é pra esclarecer algumas idéias que surgiram aqui.
Ele acabou virando um zine impresso.
O PDF do zine está aqui.
Você pode entrar em contato comigo pelo FB ou por e-mail.
Tem mais textos meus sobre gênero aqui.
Eduardo Ochs, agosto/2015
Versão: 2015nov14

As seções estão divididas em 5 blocos: Introdução, Corpo, Nismos, Homens, Categorias.
As mais bem escritas, de longe, são as da seção Homens.

Links para algumas idéias-chave:
aliados
babacas *
ciências sociais *
coração aberto
dialogar *
doença
drogas
esganar
generalizações *
inconsequência
iniciativa
"lavou, tá novo" *
máfia *
ômis
pedofilia
pertencimento *
predador
ridicularizar
Rio de Janeiro


1. poe-a-cara-no-sol

(2015jul17)

Quando você tem certeza de que é trans desde cedo, e você sai do armário cedo, põe a cara no sol, e leva porrada pra caralho porque está lutando pra ser feliz seus problemas são uns; por exemplo, todas as zilhões de pessoas tipo o segurança do banheiro do shopping, que é um louco recalcado que nunca nem pôde pensar em cortar o cabelo de um jeito diferente, e que vai tentar te punir pela tua coragem e pela tua liberdade.

Quando você tem certeza de que é trans desde cedo e leva porrada pra caralho em todo lugar você vê transfobia em todo lugar e tem mais que denunciar mesmo.

Quando você cria a certeza de que é trans bem mais tarde, depois de uma vida inteira tentando ser meio genderless e achando que valia a pena poder passar por cis na rua e ser meio invisível, como eu - porque afinal de contas as pessoas que podem te endender são mais raras que príncipes encantados - os problemas são outros.

Eu levei bem pouca porrada "externa" porque eu previa quais eram as áreas perigosas, e não me arriscava nelas... mas aos poucos eu vi que o que pareciam "áreas perigosas" pra mim eram coisas enormes, como as que as outras pessoas chamam de "vida afetiva", "vida sexual", e até "vida social", porque "vida social" inclui gente falando com naturalidade em mesas de bar sobre desejo, galinhagem, namoros e família, e a sensação de que tudo isto era impossível pra mim tava me destruindo.

Eu não tenho como falar em primeira mão sobre sofrer transfobia, mas posso repassar centenas de notícias sobre isso, e centenas de relatos em primeira pessoa fantásticos de gente que escreve sobre as suas vivências brilhantemente bem. O link tá aqui - espero que isto me dispense de falar sobre transfobia eu mesmo.


2. expulsao

(2015jul17)

Me expulsaram de um grupo trans do Facebook em maio de 2015, e essa expulsão me doeu bem mais do que acho que deveria.

Disseram que eu estava "relativizando transfobia" e "concordando com um texto transfóbico". A minha leitura do que aconteceu é a seguinte. Os problemas das pessoas "trans desde cedo" são tão grandes e urgentes que quando a gente olha pra eles não sobra espaço pra mais nada. Talvez os problemas das pessoas "trans tardias", em especial com as que se treinaram pra não dar muita bola própria aparência, como eu, sejam totalmente incompatíveis com os das pessoas "trans desde cedo", e não possam ser discutidos nos mesmos espaços.

Exemplo: pra mim tem valido a pena esclarecer em que sentidos eu me identifico muito mais com mulheres e nada com homens - mas isso é um trabalho enorme, algumas respostas e explicações só me surgem depois de eu procurar por elas por anos... e em certos espaços se eu puxo assunto sobre isso pra saber como as outras pessoas conseguiram as explicações delas parece que eu estou cobrando que todas as pessoas trans tenham explicações tão sólidas quanto as que eu tento exigir de mim - e aí parece que eu estou questionando elas de um jeito que quase ninguém questiona as pessoas cis.


3. proibicoes

(2015jul17)

É muito agressivo a gente dizer "você não é mulher porque x, y, z", e a gente vê as pessoas que dizem isso como idiotas, fundamentalistas, transfóbicas, etc... Então há uma proibição entre as pessoas "legais" de dizer isto, mas esta proibição é problemática porque é inevitável a gente pensar sobre como a gente constitui a nossa personalidade com elementos "masculinos" e "femininos"...

Deveria haver mais espaço, pelo menos entre as pessoas "legais" que estão construindo seus gêneros permanentemente, pra gente conversar sobre essas coisas em nós - incluindo, por exemplo, que fulane fez certa coisa grossa e estúpida que pra gente é coisa de ômi, ou que a gente queria ter conseguido fazer direito certa gentileza mas travou no meio porque ela nos pareceu feminina demais.

O "masculino" era o que eu era obrigado a ser, e que era uma farsa e uma prisão. O "feminino" era mais verdadeiro, mas era proibido. Aos poucos eu fui encontrando jeitos de contornar algumas das proibições sem levar muita porrada. A gente devia poder conversar mais sobre as proibições, que cada pessoa percebe diferente e que variam de lugar pra lugar; sobre medos, reais e imaginários; sobre os truques que cada um de nós descobriu ou inventou.


4. trans-de-verdade

(2015aug15)

Até pouco tempo atrás quando alguém dizia que eu não sou trans de verdade eu ficava muito incomodado - e eu sumia, e ia me angustiar escondido num canto.

Agora eu tenho a resposta.

Cara, eu sou de verdade. Você é que é só uma cópia.

Você se encaixou em padrões já existentes pra te verem como trans - em algo descrito por teorias médicas/psiquiátricas, ou em algum grupo reconhecido socialmente, ou você se apóia em alguma "teoria de gênero" dessas que diz que basta você se identificar com o gênero tal e fazer mais X, Y e Z, e aí você é do gênero tal.

Quando alguém não acredita nas teoricas médicas ou etc nas quais você se apóia, aí babau - a pessoa diz que você não é trans, você é uma farsa, você é doente.

O meu trabalho pra conseguir inteligibilidade social é dez vezes melhor do que o seu. Ao invés de eu querer que as pessoas aceitem alguma teoria, eu exponho as minhas questões de um jeito que gera diálogo.


5. allen-ginsberg

(2015jul24)

Lewis Carroll era pedófilo, Monteiro Lobato era racista, a Milfwtf é transfóbica, portanto devemos detestar tudo que eles escreveram, denunciá-los publicamente e organizar boicotes contra eles - e contra as pessoas que os defendem, e depois contra as pessoas que não os atacam.

Os argumentos pra minha expulsão do "Transfeminismo <3" foram que eu "relativizei transfobia" e "concordei com uma página transfóbica".

No auge da demonização da pedofilia, na década de 90, o Allen Ginsberg se filiou publicamente à NAMBLA para apoiá-la. O argumento dele era mais ou menos o seguinte. Décadas antes todas as sexualidades e gêneros diferentes dos "normais" eram vistos como perversões, crimes, aberrações. Agora que gays e lésbicas estavam conseguindo alguma aceitação social eles estavam tentando esconder os tipos menos "respeitáveis" dentre eles, como os gays afeminados escandalosos e as lésbicas masculinas, e demonizar os pedófilos e também, em menor grau, as feministas pró-porn e o povo de BDSM. Os pedófilos daquele momento - década de 90 - correspondiam exatamente aos gays de 40 anos antes.

Esse argumento do Allen Ginsberg é de uma profundidade assombrosa. Como uma história Sufi, à medida que a gente pensa nele, mesmo que só lembrando dele involuntariamente, ao longo de dias, meses e anos, ele vai revelando mais camadas de significado, mais elementos implícitos, mais interpretações, mais jeitos de dividir as partes dele entre literal e performance.

Agora deixa eu contrastar o argumento do Allen Ginsberg com algo bem comum hoje em dia. Uma pessoa X posta no Facebook que todo mundo tem que boicotar tudo que tem a ver com o Lewis Carroll, porque ele é um pedófilo FDP. Os amigos dela vão seguir o que ela diz e boicotar o Lewis Carroll também, imagino - se não for isso, se os amigos dela disserem "lá vem aquela chata de novo", então qual é o sentido de propor o boicote, se a proposta vai funcionar ao contrário do que deveria?

Qual é o efeito de um argumento ou de uma proposta - de boicote, ou seja lá do que for? O efeito de um argumento como o do Allen Ginsberg é fazer as pessoas pensarem sob vários pontos de vista e discutirem com cada vez mais profundidade, tanto na fase inicial em que metade das pessoas do grupo querem dar porrada nele e botar ele pra fora, quanto depois. E os efeitos de propor num post de 4 linhas um boicote ao Lewis Carroll, ou de expulsar alguém que, como eu, estava "relativizando transfobia" e "concordando com um texto transfóbico"?


6. heloisa

(2015aug27)

Poucos depois de me expulsarem do "Transfeminismo <3" eu tive o seguinte diálogo com um conhecida, neste thread aqui.

Heloisa: Olá. Eu sou feminista interseccional. Se você é machista ou anti-feminismo: vaza.

Se você é uma mulher feminista, mas seu feminismo é trans-excludente, se você deslegitima identidades e subetividades trans binárias ou não binárias, se você deslegitima a bissexualidade ou se você acha que você tem ~direito~ a ter banheiros só pra você ou ~espaços só entre mulheres com bucetas~ - este aqui não é seu lugar. Faça um favor a nós duas e ponha-se para fora do meu facebook. Por que se eu vir publicação transfóbica, eu vou cair em cima. E daí você não me venha com argumentos de ~sororidade~, porque isso que você chama de sororidade eu chamo de opressão e silenciamento.

Eu: Eu sou trans mas tou aos poucos escorrendo pra fora dos grupos trans porque FALTA MISANDRIA NO MOVIMENTO TRANS!!! A gente fica batendo em TERFs só porque pega bem - porque é uma unanimidade óbvia que elas são nossas inimigas - e porque a gente tem medo de ao invés disso atacar os ômis e uns comportamentos de ômis que a gente às vezes têm sem perceber - como falta de tato, invasividade, total desrespeito pelos gatilhos dos outros -, porque tem muita gente trans que gosta de ômis...

Eu passei três anos sem conseguir olhar nos olhos de ninguém, por sequelas de violência sexual - eu ainda tenho muitos restos de fobias - e nos últimos dias eu li alguns textos de RADs e TERFs sobre como elas tentam lidar com fobias e sequelas, tentam criar espaços seguros, e coisas assim, e tive a sensação de que eu me identifico muito mais com esses temas do que com 95% do que eu vejo as pessoas trans discutindo... e tou com uma sensação muito forte de que eu quero encontrar algum jeito de respeitar as fobias delas ao invés de brigar com elas.

Se você achar que isso é transfobia ou traição da minha parte e quiser me deletar, tudo bem... a gente já se viu ao vivo mas a gente nunca conversou, talvez você seja ômi. =\

Heloisa: Eduardo, acho que é importante levar em conta que sua particularidade não é universal. Nenhuma particularidade é universal. Universalizar é excluir. Se você se se identifica com as estratégias de lidar com as opressões, mas também nota o quanto aqueles grupos são excludentes, talvez seja uma boa abertura para você pensar em como adaptar aquelas estratégias pra outras realidades. Amigue, não se iluda. As feministas radicais NÃO VÃO aceitar sua integração, mas você pode usar as estratégias com uma metodologia de consciência de oposição diferencial. Eu acho péssimo dar referências bibliográficas, mas não me sinto legitimada pra aprofundar esse debate, de forma que sugiro a leitura de Chela Sandoval, Methodology of the oppressed. Ela fala, justamente, sobre como criar pontos comuns em diferentes inquietações.

Eu: Acabei de conseguir baixar um PDF do "Methodology of the Oppressed", e tou lendo. A introdução da Angela Davis é ótima. Obrigado!

Confesso que quando eu li a sua frase "As feministas radicais NÃO VÃO aceitar sua integração" a primeira coisa que eu pensei foi: vish, a Heloísa é uma pessoa gregária, e eu não - acho que nós temos noções _completamente_ diferentes de "pertencimento", como é que eu explico qual é a minha?... Mas logo depois vi que eu não conseguiria explicar de improviso - então vou pôr isso na pilha das coisas que eu algum dia quero esclarecer...

Eu fiquei de tentar esclarecer qual é a minha noção de "pertencimento". Talvez um resumo curto funcione melhor do que algo bem detalhado; lá vai.

O único "grupo" ao qual eu já pertenci de verdade foi o movimento Free Software. As pessoas não costumavam se encontrar ao vivo, e isso era bom. As discussões eram praticamente todas em mailing lists públicas, nas quais ninguém respondia na hora - a gente sempre gastava algumas horas, ou um dia ou dois, pensando na nossa resposta, e depois escrevendo-a e revisando-a, antes de mandá-la. A nossa reputação era feita principalmente pela qualidade do que a gente escrevia - mensagens e software - que era o que alguém encontraria pesquisando pelo nosso nome nas ferramentas de busca da época.

Eu - e acho que a maior parte das outras pessoas - íamos parar no movimento do Free Software porque a gente queria aprender a programar, e a gente queria aprender a programar porque nós queríamos virar fodões em algo que nos era acessível, e nós eramos uns nerds socialmente ineptos. Aos pouquinhos a gente aprendia a usar os programas que já existiam e a fazer os nossos; aprendíamos a fazer boas perguntas e a responder as dos outros; líamos coisas que os outros recomendavam e recomendávamos as melhores coisas que conhecíamos; aprendíamos a criar nossas homepages e a disponibilizar nossas coisas lá - e neste processo passávamos de "girinos", que mal sabiam fazer uma pergunta, para pessoas públicas... nós nos empoderávamos, e o que produzíamos e disponibilizávamos ajudava as próximas pessoas a poderem aprender e se empoderar mais rápido ainda.

"Pertencer" ao movimento Free Software queria dizer acessar o material já produzido e produzir o nosso. O foco era produção, e o empoderamento era consequência. Matar tempo com outras pessoas do movimento, ir pro bar falar besteira, fazer as piadas certas, etc, tudo isto era irrelevante.


"Ficar com cara de tacho na mesa do bar" tem sido uma das minhas expressões preferidas pra descrever o estado de mutismo, paralisia e medo no qual eu ficava em muitas situações sociais, e do qual eu tento sair.

Se eu leio textos de feministas radicais, produzo a partir deles, e eles me empoderam, no sentido de que eles me ajudam a virar uma "pessoa pública" que fala e se posiciona ao invés de ficar muda e paralisada, então eu estou "pertencendo" ao mundo das (idéias das) feministas radicais no mesmo sentido em que "pertencia" ao movimento Free Software. Nunca me ocorreu a idéia de ir tomar cerveja com as feministas radicais ou pedir pra ser aceito nos mesmos espaços físicos que elas...



7. ingles

(2015sep15)

Quando a gente cita um livro em Inglês é comum as pessoas ficarem putas da vida, acharem a gente metido e dizerem que ninguém é obrigado a saber Inglês.

"Ninguém é obrigado a saber Inglês" é uma fórmula curta que todo mundo entende. Ela tem pressupostos subentendidos que são considerados "óbvios" - uma noção de hierarquia, privilégios, e de "elite" versus "pessoas comuns".

Eu adoraria conseguir fórmulas curtas, inteligíveis, que expressassem problemas meus - por exemplo: "ninguém é obrigado a saber conversar no bar", "ninguém é obrigado a saber beber cerveja", "ninguém é obrigado a saber dar pinta", "ninguém é obrigado a saber lidar com machistas", "ninguém é obrigado a saber lidar com seu corpo e seus desejos", "ninguém é obrigado a ter vida afetiva/sexual", etc.

Ler muito, aprender Inglês, treinar até saber escrever bem, etc, são coisas que não dependem só de oportunidades e estrutura familiar - dependem de um investimento de energia enorme que faz muito mais sentido quando as coisas de pessoas "normais", como brincar na rua quando a gente é criança e namorar quando a gente é mais velho, nos são muito difíceis.


8. reinventar-a-roda

(2015oct18)

Um conhecido que dá aula numa universidade do Nordeste pediu pra conversar comigo por chat sobre a situação onde ele trabalha - que é parecida com a que me motivou a escrever o "Saia do seu quadradinho" - e nós conversamos uma hora ou duas. Tem várias coisas absurdas acontecendo lá, e quem tenta denunciá-las sofre retaliações. Além disso, praticamente todo mundo ridiculariza quem tenta fazer algo, dizendo "não vai dar em nada". Esse meu conhecido contou que estava pensando em criar um grupo na internet pra discutir como as pessoas podem denunciar coisas de modos mais eficazes e com mais segurança, e quando ele contou isso eu automaticamente me imaginei no lugar de uma pessoa convidada pra fazer parte do grupo, que se pergunta: "será que eu quero fazer parte disso? Será que eu quero investir tempo e energia nesse grupo?"... e eu me vi respondendo "não", e o grande motivo era a sensação de que as pessoas do grupo estavam tentando reinventar a roda, redescobrindo tudo sozinhas, ao invés de lerem e compartilharem uma quantidade colossal de textos de ativistas que estão disponíveis por aí...


9. aqui-se-pensa-bem

(2015oct18)

Às vezes a gente se engaja numa causa social que não é a nossa porque a gente quer salvar o mundo um pouquinho - e porque a gente está de saco cheio de estar cercado de injustiças e não poder sequer pensar sobre elas sem ser ridicularizado e as pessoas dizerem "não adianta nada". Às vezes a gente escolhe uma causa porque ela é a mais gritante e mais urgente, e algo fez com que ela virasse notícia nos últimos dias. Mas eu tenho a sensação de que o que mais faz com que a gente permaneça numa causa e num grupo é a sensação de que "aqui se pensa bem": "aqui eu consigo ferramentas pra nunca mais viver cercado de gente que me ridiculariza e me manda parar de pensar". Ou seja, a gente se liga a uma causa meio porque a causa é importante em si, e meio porque a gente cresce, e "se empodera", se envolvendo com ela.




Corpo

10. aspecto-fisico

(2015jul20)

Eu tou em tratamento hormonal há 9 meses. Meu corpo tá mudando, e meu cabelo também, mas ainda não mudaram o suficiente.

Às vezes alguma pessoa "muito trans" reclama de mim porque me acha "pouco trans" - porque eu ainda não visto roupas femininas nem maquiagem, nem peço pra me tratarem no feminino, e daí não sofro discriminação nem transfobia.

Eu ficava me perguntando o que é "ser mulher" pra essas pessoas "muito trans" que me estranham... mas agora acho que hoje em dia tenho perguntas bem melhores do que "o que é ser mulher pra você?" - tipo: "quando é que você viu que continuar a ser, ou parecer, cis, era insuportável? Era insuportável porquê, de que jeito?..."

Eu andei escrevendo sobre os meus motivos pra transicionar. O aspecto físico era algo secundário pra mim, o central era eu poder sinalizar que eu tinha tentado fazer algum tipo de "papel de homem" durante décadas, de muitos jeitos, e sempre tinha dado muito errado, e agora foda-se tudo, esse negócio de "homem" é uma farsa que eu não aguento mais.

O central pra mim é que eu funciono de um jeito completamente diferente do "lavou, tá novo".

Quanto ao aspecto físico - as mudanças - pôxa, deixa eu lidar com isso com mais tempo. Eu passei a minha vida "de homem" mal conseguindo me olhar no espelho, e aproveitando que eu podia ser bem largado. Por enquanto ainda é prático eu ficar mais ou menos invisível.


11. e-ai-comeu

(2015jul27)

Às vezes eu tentava contar sobre alguém por quem eu tinha ficado encantado, e conversado durante horas sobre coisas quase inimagináveis, pra amigos meus que só ficavam perguntando: "e aí, comeu"?

Tem assuntos que impedem outros. A obsessão das pessoas por sexo fez com que eu tivesse que procurar os nichos - raríssimos - onde estavam as pessoas que, como eu, tinham carências emocionais muito maiores do que as carências sexuais. Nesses nichos a gente conversava sobre pessoas e relacionamentos, quase nunca sobre sexo.

Em julho/2015 uma amiga-de-amigos fez um post no Facebook que eu achei corajosíssimo, falando de como a coisa que ela mais queria é ter uma vida afetiva normal, e como isso acaba sendo difícil para pessoas trans. Eu pedi correndo pra virar amig dela, e contei que eu tou há meses escrevendo sobre outras coisas mas tentando chegar exatamente aí... só que era como se o termo "vida afetiva" fosse algo tão absurdo de mencionar, tão ininteligível, que eu tivesse que preparar o caminho falando de centenas de outras coisas antes.

Outras pessoas trans que eu conheço têm postado no Facebook sobre cantadas absurdas que elas levam tanto "no mundo real" quanto online, e os foras que elas dão nos caras, e as grosserias que elas recebem de volta.

Fiquei pensando sobre como a gente constrói relacionamentos. Muita gente que eu conheço começa por tesão e sexo, e daí algumas relações com alguém com quem transar era ótimo depois vira algo mais duradouro e mais profundo.

Durante décadas eu tentei conversar como a minha mãe sobre como eu tentava sinalizar certas coisas claramente pra poder encontrar pessoas compatíveis comigo e a gente começar relações com as bases certas. Ela não entendia - ela achava que eu estava complicando tudo, que relações aconteciam naturalmente, era só a gente deixar acontecer sem racionalizar demais. Aí, tentando ver isso como um conselho, eu tentava não pensar, e apagar os traços do que eu já tinha pensado de um jeito parecido com apagar os "pensamentos de viado" pra nunca nem lembrar que eu já tinha pensado eles.

Hoje em dia eu acho que quase todas as relações que acontecem "naturalmente" vão ter uma bagagem enorme de padrões sociais - a gente vai ser assombrado pelos padrões de sexo e beleza que a gente vê nas revistas, filmes e TV, e a gente vai ter que lidar com família e amigos dizendo que a gente deveria estar com uma pessoa diferente e do jeito e tal e tal - e a gente não vai ter ferramentas suficientes pra lidar com tudo isso.

Dxô contar uma coisa. Alguns dos meus relacionamentos que me deixaram as lembranças mais preciosas, e que foram com pessoas das quais eu sou muito amigo até hoje, foram sem ou praticamente sem sexo; dois desses foram com pessoas que tinham com seus próprios corpos uma relação mais ou menos tão difícil quanto a que eu tinha com o meu. Cada um de nós era um "porto seguro" um pro outro; nós começamos esses relacionamentos frágeis e arrebentados, e nos reconstruímos juntos.

É praticamente impossível falar sobre esses relacionamentos no Facebook.


12. blindagem

(2015aug02)

Outro dia uma amiga postou este texto, que tem um termo que eu vou passar a usar: blindagem emocional. A blindagem emocional é um elemento importante da cultura da galinhagem na qual a gente vive - nela uma das coisas que dá mais pontos de valor na hierarquia social é a sua capacidade de galinhar, isto é, de pegar alguém (e alguém socialmente aceitável!) rápido, e de nunca ficar solteiro e sem sexo durante muito tempo. A sua capacidade de galinhar mostra pra todo mundo que você é uma pessoa livre, feliz, bem-sucedida, desejável, empreendedora, comunicativa, bem resolvida, etc. É claro que o jeito como se cobra capacidade de galinhar das mulheres é muito mais complicado e cheio de armadilhas que pros homens... qualquer pequeno deslize e elas viram - ta-rááá! - "galinhas".

Só que não é sobre isso que eu quero falar. Os "double standards" da cultura da galinhagem pras mulheres já forma discutidos à beça por aí.

Outros elementos que são básicos pra blindagem emocional e pra galinhagem são descartabilidade e intercambiabilidade. Se um namorado, ou ficante, ou conhecido, ou amigo, diz ou faz uma besteira grande a gente se fecha pra ele - "a fila anda"! - e daqui a pouco a gente põe no lugar uma outra pessoa do "tipo" que a gente gosta.


13. junkies

(2015aug13)

Quando eu tinha 12 anos o Carlos apareceu na minha turma. Não lembro se ele só não se dava bem com o outro colégio ou se ele tinha sido expulso mesmo.

O Carlos era mais esquisito que eu e lia tanto ou mais do que eu, mas ele não era nada tímido. Nós viramos melhores amigos. Ele levou um ano pra me convencer a experimentar maconha... mas, bom, o que eu queria era falar dos meus amigos - os "junkies" - que eu conheci através do Carlos.

A gente não queria ser hipócrita como a sociedade em torno de nós. A gente queria encontrar jeitos de ter menos máscaras e menos segredos - mas não era nada fácil. O trabalho era em várias direções: a gente só se tornava capaz de lidar mais abertamente com os nossos proprios segredos à medida que a gente ajudava as outras pessoas com os "segredos" delas.

Esse grupo dos adolescentes junkies-cabeça me marcou por ter sido o primeiro grupo em que eu estive no qual as pessoas eram muito éticas - e essa ética estava sempre em discussão, e em construção.

Algumas questões que volta e meia reapareciam nas nossas discussões me marcaram muito, também. Tipo: e se a gente se apaixonar por uma pessoa socialmente mal vista, que a nossa família e os nossos amigos e conhecidos rejeitam? E: será que a gente já consegue se fascinar pelas pessoas principalmente pelo que elas são por dentro, ou a gente ainda é dominado pelos padrões sociais de beleza? Como podemos não nos fechar pra pessoas incríveis? E se a gente se apaixonar por um amigo do mesmo sexo?

Eu tou usando o termo "se apaixonar", mas a gente ficava imaginando que relações amorosas só valiam a pena se fossem mais do que o que a gente tinha pelos nossos melhores amigos. Relações como as das pessoas que começam a namorar, viram umas patetas e se afastam dos amigos não nos interessavam - aliás, a gente achava que havia algo de muito errado com elas.

Depois eu caí em grupos que funcionavam ao contrário dos meus amigos adolescentes-junkies-cabeça - grupos nos quais era ridículo você se expôr emocionalmente ou você se apegar à pessoa com quem você está ficando ou namorando.


14. expectativa-e-rejeicao

(2015aug18)

Eu não entendo mais como as pessoas falam sobre sexo - qdz, como se fosse algo físico.

Expectativa e rejeição são temas muito maiores, e o assunto "sexo" impede que se fale deles.

Quando eu me aproximo de alguém eu tenho expectativas enormes, que eu tento esconder porque me disseram que expectativas assustam as pessoas. Tento dar o melhor de mim pra ter mais chance de no ser rejeitado; e lido com o medo de ser rejeitado agora, e com as memórias das rejeições passadas.


15. impulsos

(2015aug21)

A lição mais importante que eu aprendi na minha adolescência é que toda vez que eu me interessasse fisicamente por uma pessoa eu ganharia um "não".

Às vezes as pessoas tentam descobrir se eu sou gay/hetero/etc me fazendo uma pergunta que pra mim é bizarra: "por quem você sente atração?" Pôxa, qual é a relevância de por quem a gente sente atração quando a distância entre a gente sentir atração e a gente fazer algo é praticamente infinita?

Quando eu era adolescente e me percebia tendo fantasias com os meus melhores amigos isso gerava um segredo, e constrangimento, e medo - e aí eu tinha que procurar jeitos de conversar sobre isso tudo com esses amigos... porque afinal a graça de ter melhores amigos era a gente ser o mais transparente possível com eles, e a gente volta e meia tentar conversar sobre coisas sobre as quais a gente não fazia idéia de como conversar...


Será que eu era um monstro por ter atração por amigos? Será que eu era alguém que talvez devesse até ser deletado, afastado e denunciado? Ou será que outros amigos sentiam coisas parecidas também? Como eles lidavam com isso pra que não fosse tão grave?

Tesão por garotas acabava sendo algo completamente diferente. Havia uma pressão social enorme pra que transformássemos os nossos impulsos, mesmo os menores, em ação, e os "experts" - estávamos cercados por eles em todo lugar - ficavam nos bombardeando incessantemente com dicas que eram sempre formulinhas de como fazer a pose certa e mandar a mentira certa.

Pra quem que, como eu, queria acima de tudo uma existência menos bruta, menos burra e menos hipócrita, lidar com a atração por amigos - longe das formulinhas e regrinhas! - acabava sendo algo bem mais promissor que tesões heteros.


Um modo bem útil de classificar as pessoas - e repara, gays procuram outros gays pra namorar, homens heteros procuram mulheres, etc; é natural "classificar" as pessoas um pouquinho quando a gente está procurando alguém que se encaixe na gente - é a partir de como elas lidam com seus impulsos, e com o agora e o depois.

Tem um vídeo bem interessante (link aqui), de um vlogueira que eu geralmente acho sexocêntrica demais, no qual ela fala de como as pessoas que eram esquisitas quando adolescentes ficam diferentes quando adultas das pessoas que eram "normais", "bonitas" e "desejáveis"; e ela termina o vídeo com vários relatos que ela ouviu de casos em que as pessoas que "sempre foram bonitas" acabam sendo preteridas em entrevistas de emprego porque supõem que elas sejam meio burras, ou que vão distrair os colegas, criar situações sexuais no trabalho, etc. Eu assisti esse vídeo pensando em como cada pessoa lida com seus impulsos; nas minhas fantasias as pessoas que "sempre foram bonitas e desejáveis" têm um modo bem mais direto que as outras de lidar com os seus impulsos - pra elas interesse e atração facilmente viram dar em cima, cantadas, sexo.

Já pras pessoas muito esquitas, como eu, se eu conseguisse que os meus impulsos e desejos não fossem sentidos como inconvenientes, a minha vida já ficaria mil vezes melhor... em poucas palavras: se a minha atração por pessoas fosse vista como elogio, e nunca como cantada.


Outro ponto importante é que eu não queria sexo.

Na verdade isso é o melhor resumo em poucas palavras que eu tinha para algo bem mais complicado.

Quando eu andava com os junkies a gente se preparava - ao longo de anos! - pra experimentar coisas incrivelmente fortes, como Ayahuasca e LSD, que a gente sabia que tinha gente que quando tomava não conseguia dar conta da experiência, pirava e nunca mais voltava direito.

A gente sabia que quase tudo que a gente veria numa experiência com psicodélicos já estava na nossa cabeça de alguma forma... tem muita coisa que a gente esconde da gente mesmo, e a gente podia se deparar com algumas coisas destas - talvez distorcidas! - e a gente ia ter que passar os meses seguintes lidando com o que a gente viu.

Além disso, não fazia sentido a gente fazer merda - com os outros ou com a gente mesmo - e depois dizer "ah, desculpa, eu tava doidão! Hahaha!"... a gente se preparava pra agir do modo mais reponsável e consequente possível, mesmo que só 10% da nossa cabeça estivesse funcionando de um modo familiar e confiável.

Essa relação que a gente tinha com drogas fortes virou a minha referência pra como eu deveria lidar com sexo. Sexo tinha o poder de mexer com tantas coisas minhas enormes, como expectativas, rejeições e medos, além das memórias que ficam como que guardadas nas tensões corporais, que só fazia sentido fazer com pessoas que soubessem que estavam fazendo algo que podia ser muito grande - as pessoas "normais", pras quais sexo é "bom", "natural", "simples", "acontece", eram pessoas que eu tinha que evitar a todo custo.

Acho que o único modo que eu tenho pra definir as pessoas que "são o meu tipo" é falando de modos de lidar com atração, desejo, impulsos... eu sei que eu preciso de pessoas que, como eu, quando sentem tesão por alguém simplesmente deixam passar -


16. consensual

(2015oct02)

Eu li este post aqui,

"Sexo consensual" é só sexo. Usar este termo dá a entender que existe algo como "sexo não-consensual", o que não existe. Isso é estupro. É o que isso precisa ser chamado. Só existe sexo ou estupro. Não ensine às pessoas que estupro é só outro tipo de sexo. São dois eventos estritamente diferentes. Você não diz "nadando respirando" e "nadando sem respirar", você diz nadando e afogando.

e pensei: essa não é a divisão que importa pra mim - PRA MIM.

Às vezes uma pessoa engana a outra. Ela finge que é confiável e que entende bem as questões da outra, inclusive entende como sexo funciona pra essa outra - e pra essa outra sexo é uma coisa enorme, cheia de consequências, exatamente como tomar drogas muito fortes ou fazer piercings complicados, e que só faz sentido numa relação de confiança, com comprometimento, responsabilidade, etc -

Aí essa pessoa come a outra e depois desaparece, banaliza e distorce o que aconteceu, e passa a ser escrota e a sacanear a outra de todos os jeitos possíveis.

Houve consentimento na hora? Sim. Mas os efeitos podem ser bem graves - aconteceu comigo.

A sensação que me dá quando eu leio algo tipo esse "só existe sexo ou estupro" é que isso é o discurso de um mundo com ênfase demais no aqui e agora, e no qual as pessoas são 100% capazes de entender a linguagem verbal e corporal dos outros rápido.

A divisão que importa pra mim - repito: PRA MIM - é entre "inconsequente" e "atento, reponsável, consequente". Só que eu nem me atrevo a falar sobre isso, acaba que toda vez que eu tento falar ou escrever sobre isso todas as palavras e expressões que me ocorrem trazem a sensação de que não vão me entender, ou vão me entender errado e até me sacanear, e eu engasgo, entalo.

Aí eu li este outro post - de alguém que conseguiu falar sobre essas coisas sem engasgar no meio:

Tenho preguiça de cantada. Tenho preguiça de pegação. Tenho preguiça de suruba. Tenho preguiça de gente que quer me comer sem ter a menor curiosidade quanto ao ser humano que eu sou. Tenho preguiça de Tinder. De Happn. De sexo casual. De sexo virtual. De beijo sem contexto. De joguinhos. De aproximação blasé. De ter que fingir que não estou tão interessada. Tenho preguiça de homem que não é super atento ao prazer feminino. De quem é cheio de frescuras e exigências com o corpo. De homem que diz "vamos nos falando". Tenho preguiça de gente que não gosta de compromisso. De quem confunde compromisso com propriedade. Tenho preguiça de poliamor. Tenho preguiça de "não estou sabendo lidar com isso". De quem não sabe dizer "não". De quem fica se autoafirmando sexualmente. De quem não tem coragem de se deixar emocionar. De quem tem discurso libertário e não ousa viver o que diz. De quem acha que é muito longe pra gente ir. De quem acha que estamos indo muito rápido. De quem não liga pra lealdade. De quem não consegue ver o sagrado do outro. De quem não entende o quanto eu sou grata ao feminismo por todas essas preguiças. De quem tem medo de que eu fique sozinha, já que aprendi a estar comigo. De quem caiu no conto do esvaziamento das relações, de quem chama tudo isso de liberdade, de quem não faz questão de ser resistência afetiva no mundo.

"De fingir que não estou interessada." Eu me interesso por pessoas sim, até com frequência, mas às vezes eu acho que não tem mais jeito de uma pessoa me fazer sentir que ela é confiável. Nem se ela jurar por escrito, com sangue, quatro vezes, uma em cada fase da lua diferente. Nem se ela der mil provas diferentes de integridade e sensibilidade. Talvez eu consiga confiar, e aí me abrir de novo, com alguém que tenha tantas cicatrizes quanto eu de lutar contra essa merda desse Rio de Janeiro, em que a inconsequência, o "lavou, tá novo" e o "sexo é bom e gostoso e natural e etc" são tão hegemônicos.


17. desculpas

(2015oct14)

Há umas semanas atrás uma amiga minha - que fala sem parar, e que é a pessoa mais masculina com que eu convivo com frequência - chegou na minha casa num ataque de ódio, porque um amigo-de-Facebook e crush dela com quem ela andava conversando horas toda noite só falou com ela um pouquinho na noite anterior, e de manhã ele reapareceu, veio falar com ela, e se desculpou.

Ela contava o que tinha acontecido, e a toda hora ela repetia: "ele não precisava se desculpar" -

Eu tentei conversar com ela. Tentei falar que o que ela estava dizendo era estranho, que tem diferenças importantes entre "precisar", "poder" e "querer", e tentei explicar as consequências da gente proibir as pessoas em torno da gente de se desculparem porque a gente vê insegurança como culpa. Ela ou não entendeu ou não ouviu - ela fala muito e ouve pouco - e depois de, sei lá, meia hora ou uma hora, eu explodi, disse que eu não queria ser cúmplice daquilo, e que ela não precisava contar aquilo pra mim, e que eu não precisava ouvir aquilo. Ela ficou meio pasma, mas viu que era sério, pegou as coisas dela e foi embora.

A minha raiva levou horas pra passar, e no processo de lidar com ela eu entendi um montão de coisas. Primeiro (e essa eu já sabia), que eu já fui vítima de uma situação assim - no relacionamento mais importante que eu já tive a pessoa, que no início lidava super bem com vulnerabilidade e insegurança, virou uma outra pessoa, que interpretava qualquer dúvida minha como sinal de que eu estava escondendo algo grave - e eu tenho fobias enormes de cair de novo numa situação dessas. Segundo, que as pessoas em torno de mim lidam com se desculpar de jeitos muito diferentes, e tem até algumas que não se desculpam de jeito nenhum, porque consideram que se desculpar é coisa de gente inferior. E terceiro, e mais importante, que é que muitas vezes eu emperro com pessoas que eu gosto porque eu queria me desculpar com elas - por exemplo, por não ter respondido à altura algum gesto simpático delas, ou por eu ter sumido um tempão - mas eu fico com medo delas se incomodarem com desculpas...

No mundo dos ômis quem manifesta insegurança leva porrada.


Um problema que eu tenho com cariocas é que toda vez que eu concateno cinco pensamentos em sequência eles dizem "ih, o cara, aí, não complica, relaxa", e eu fico imaginando que muita gente faz algo parecido com quem se desculpa, que se as minhas desculpas têm mais de duas frases e não são dadas com o sorriso casual certo eu vou então eu vou receber uma espécie de "ih, o cara, aí, não complica, relaxa"...


18. coracao

(2015oct18)

Há uns dois anos atrás eu comecei a escrever fragmentos pra um texto grande sobre como eu acabei lidando com sexo e gênero; ele ia se chamar "sexofóbico como resposta", e eu escrevi à beça mas não consegui chegar nem perto de terminá-lo... a idéia principal à qual eu queria chegar sempre pedia mais e mais seções preparatórias, e o trabalho começou a parecer infinito.

A obsessão atual com sexo, corpo e partes do corpo, me incomoda, mas eu vi que algumas das coisas mais importantes que essa obsessão nos impede de ver, pensar sobre e discutir, podem ser localizadas em partes do corpo.

Eu pretendia citar trechos de livros do Peter Brook - talvez sejam todos do "Ponto de Mutação" - nos quais ele conta de duas viagens da companhia dele na década de 1970, uma pelo interior da África, outra pelo Afeganistão. Na viagem pela África eles se apresentavam em aldeias minúsculas, nas quais muitas vezes ninguém falava Inglês ou Francês, se apresentando sobre um tapete grande, com pouquíssimos adereços ou objetos de cena. Na viagem pelo Afeganistão eles estavam tentando preparar o terreno pra filmar o "Meetings with Remarkable Men".

O que é preciso pra estabelecer boas relações com pessoas em países distantes, com línguas e costumes muito diferentes? Por "boas relações" eu entendo relações de atenção e gentileza, nem predatórias e nem egoístas... as idéias-chave da resposta são "ser verdadeiro" e "coração aberto", que são coisas que eu não consigo nem mencionar em público sem muita, muita preparação.




Nismos

19. sororidade

(2015aug02)

Tem definições que são importantes não em si, mas pelo uso que se fará da definição que for escolhida como "certa". As trans e as feministas ficam brigando, muito, pela definição de "mulher", que, pelo que eu entendo, determina:

• Quem a gente vai considerar "uma de nós"
• Quem a gente vai considerar oprimida e não opressor
• Quem a gente vai considerar digna de cuidado mesmo que esteja agressiva e surtando
• Quem a gente vai considerar bem-vinda nos nossos grupos

O que acaba sendo resumido - porque as pessoas precisam de expressões curtas - em:

• Quem a gente vai considerar digna de sororidade.

A briga sobre uso de banheiros - as trans devem poder usar banheiros femininos, que são espaços seguros, ou têm que usar os banheiros masculinos, onde os ômis acham divertido bater e estuprar quem quiserem? - tem ficado bem visível, e ela em geral é traduzida numa outra questão: quem é mulher?

Confesso que eu acho que responder "quem pode usar o banheiro feminino" com "quem é mulher, ué!" me parece um tiro no pé - e acho que se a gente pensa em termos de espaços seguros e comportamentos esperados (pra manter aquele espaço seguro) tudo fica bem mais claro.


20. limites-da-sororidade

(2015oct18)

Num grupo feminista do qual eu participo - ao vivo! - às vezes, teve um dia em que um dos assuntos principais foi uma garota que tinha ido como convidada umas semanas antes, ficou a reunião inteira calada observando, e depois pegou posts, que deveriam ser privados, da "versão Facebook" do grupo, e fez posts públicos ridicularizando-os. Tava todo mundo P* da vida com ela, e ninguém fez nenhuma fala consistente defendendo essa garota e dizendo que coitada, ela foi enganada pelo patriarcado, devemos salvá-la e perdoá-la 100%.

Deixa eu comparar isso com o que acontece em grupos trans. Um tema recorrente neles é: as mulheres trans têm que poder usar os banheiros femininos, mas umas mulheres cis ficam dizendo que claro que não, é absurdo deixar esses homens vestidos de mulher entrarem nos nossos banheiros, eles querem nos espiar e nos estuprar...

...aí as trans dizem: "esse medo é ridículo, é transfobia", ignorando que os lésbicos barbados desconstruindo gênero da p.46 são "trans", ignorando que pra algumas radicais até um olhar masculino inconveniente é "estupro", e estendendo a "sororidade trans" pra casos demais.


21. homens-podem-ser-feministas

(2015sep03)

Uma pergunta recorrente em grupos feministas é: "homens podem ser feministas?"... É engraçado como muita gente tenta respondê-la como se ela fosse uma pergunta de sim ou não, ao invés de vê-la como uma pergunta-provocação que leva a discussões bem ricas e que só se disfarça de pergunta de sim ou não.

Tem muita coisa que a gente só consegue contar pra pessoas com vivências parecidas com as nossas, em situações nas quais a gente vai ser escutado, e em ambientes seguros. Pra mim um ambiente com babacas como o cara desta seção aqui, que acham ridículo não sacanear os outros, é exatamente o oposto de um ambiente seguro.

Outro dia, num chat com uma amiga, eu propus que das próximas vezes ela tentasse descrever com mais detalhes os casos que ela conhece de homens que querem "ser feministas". Eu consigo imaginar alguns - por exemplo, o cara que quer ser reconhecido como "feminista" pra isso ser um selo de aprovação, um crachá que permita a ele circular por certos ambientes e ser considerado "seguro" e "legal"... mas será que ele vai saber se retirar de espaços que deveriam ser só pra pessoas com certas vivências muito dolorosas e muito diferentes das dele?


22. onibus

(2015oct18)

Achei que este texto, postado há poucos dias atrás, poderia ter gerado discussões interessantíssimas - se a autora tivesse escrito o final dele com mil vezes mais cuidado e lucidez... ela conta de um dia em que ela estava num ônibus, subiu uma senhora vendendo trufas, e aí o cara sentado do lado dela comprou várias e deu uma pra ela, de um jeito tão simpático e sem esperar nada em troca que ela não teve como não aceitar, e passou o dia feliz. Bom, eu devo ter lido o texto aplicando mais o "Principle of Charity" do que a maioria das outras pessoas, porque achei que ele podia, e devia, ter gerado uma discussão bem interessante...

É simplista achar que todos os homens são opressores do mesmo jeito e no mesmo grau, que todos os homens se beneficiam do machismo do mesmo jeito e no mesmo grau, que todos os gestos de gentileza masculinos são igualmente perigosos e carregam exatamente as mesmas segundas intenções por trás; e, bom, já que existem homens que compactuam mais com o machismo e outros que compactuam menos, deve ser possível pelo menos imaginar homens que combatem o machismo e conversar sobre como eles, aham, "seriam"; e, dentre eles, uns vão ser mais ingênuos e outros menos... e, caramba, eu tenho certeza de que os homens não-ingênuos que estão tentando combater o machismo fazem o possível pra manter o coração aberto e pra serem transparentes e verdadeiros sempre que dá, e que eles são atentos aos efeitos de pequenos gestos e atitudes... e imagino que eles às vezes se arrisquem a ser gentis com mulheres cis heteros, que é algo que eu em geral não me atrevo a fazer porque eu fico em pânico só de pensar que podem achar que eu tou cantando alguém.


23. credito

(2015nov08)

Meu pai era sobrevivente de campo de concentração.

Deixa eu copiar aqui um trecho do discurso que eu preparei pra cerimônia de homenagem feita 30 dias depois da morte dele.

O meu pai dizia que o Holocausto era tão pior do que qualquer outra coisa que perto dele qualquer outra atrocidade, passada, presente ou futura, perdia a importância. E isso era muito opressor, porque queria dizer que o mundo tinha uma dívida infinita com ele - ele podia fazer qualquer coisa, podia explodir a qualquer hora, pra descarregar coisas que aliás ele nem entendia, e ele seria sempre desculpado. E isso fazia todo o sentido, mas era insuportável.

Eu levei 30 anos pra conseguir lidar abertamente com isso - e foi da seguinte forma: "ele tinha um crédito gigantesco por ter passado pelo que passou. Mas esse crédito não é infinito, e agora, depois de décadas, ele acabou". E esse corte era algo bem mais pesado do que parece - era algo inadmissível, pra todo mundo. Eu me dispunha a ser considerado um monstro, por ele, pela minha família, pelos amigos dele, talvez até pelos meus amigos - a gente não se recusa a pagar a nossa dívida com a família - a dívida de cuidar de quem cuidava da gente - impunemente. Então eu não pediria mais ajuda a nenhuma dessas pessoas.

Então essa foi uma das situações na minha vida nas quais eu decidi sacrificar a minha respeitabilidade, todo um grupo grande de contatos, toda uma rede social - a rede de proteção que a gente tem por default quando nasce numa certa classe, com um ou dois dos nossos pais sendo judeus -

Eu ia terminar o discurso olhando nos olhos de todo mundo da platéia e dizendo que agora a gente já tem boas condições pra pensar sobre as atrocidades passadas e as atuais; sobre como fica quem sobrevive a elas; sobre reação histérica a atrocidades; sobre tentar esconder memórias dolorosas embaixo do tapete pra gente conseguir fazer cara de que está tudo bem; e sobre o que a gente pode fazer pra não ser detestado - mas eu acabei boicotando a cerimônia e não indo nela.


O meu pai "podia" ser grosso, estúpido e paranóico sempre que quisesse - mas, repara, esse "podia" tem vários níveis e vários sentidos possíveis - "vão cuidar dele como de alguém querido que está em desespero", "as pessoas vão entendê-lo", "as pessoas vão ajudá-lo", "ninguém vai ficar magoado com ele ou constrangido pelo que ele fizer"... ou então: "não vai ser demitido do emprego", "vai ter atenuantes se criar uma briga e for parar na polícia"... ou: "não vai levar reprimendas em público", "vai ser tolerado", e "os amigos vão se afastar em silêncio".

O que acabou acontecendo com ele foi bem próximo de "os amigos vão se afastar em silêncio".


Quando eu vejo pessoas apontando transfobia, homofobia, racismo, machismo, etc em todo lugar eu penso nisso. Elas podem ver transfobia homofobia racismo machismo etc em todo lugar, mas será que o efeito disso é o que elas querem? Elas vão acabar se isolando, e será que vale a pena? Pra mim é importante a gente conquistar aliados, e bons aliados...


24. ta-saindo-tudo

(2015nov08)

Um cara chega no homeopata com um furúnculo gigantesco no cotovelo, doendo a beça e saindo pus. O homeopata vê aquilo, abre um sorriso de orelha a orelha, e diz: "que bom, tá saindo tudo!"


Em 26/out/2015 eu anunciei timidamente o link pros textos deste zine no grupo Assexuais, dizendo:

Gente,

eu continuo achando que o termo que eu inventei pra me descrever há quase 15 anos atrás - "sexofóbico" - é mais adequado (e mais interessante!!!) do que "demissexual" ou "assexuado"...

Tou fazendo um zine no qual boa parte dos textos é sobre isso. Talvez interesse...

As reações foram hostis. Pessoas dizendo que o termo "sexofóbico" é ruim porque é pesado, depois algumas falas na linha desta,

O foco do grupo é promover o encontro de pessoas dentro do espectro da assexualidade e desmistificar a ideia de que somos doentes por não gostarmos de sexo. Pra gente não é doença; não estamos doentes. Por isso usar o termo sexofóbico é meio ofensivo na nossa opinião.

e depois duas pessoas me disseram que eu devia tentar fazer terapia... o que me deixou bem surpreso! Fiquei pensando em qual era a visão dessas pessoas de "terapia" - e entendi, pela enésima vez, que linhas diferentes de Psicologia têm visões bem diferentes do que é tratamento, o que é doença e o que é saúde. Nas linhas que fazem mais sentido pra mim, quando a gente tem problemas grandes e enraizados demais, produzir a partir deles é uma das coisas mais saudáveis que podemos fazer - e é melhor ainda quando a gente produz algo que pode ajudar outras pessoas que têm questões parecidas.

Eu pensei em explicar isso no grupo e dizer que, pôxa, na minha visão quem acha que histórias traumáticas não devem e não podem ser discutidas abertamente é que precisa de terapia. Alías, estávamos no auge da campanha do #PrimeiroAssédio - mas mesmo assim eu acabei não respondendo nada.




Homens

25. homem-de-verdade

(2015jul17)

Eu tenho lembranças claras de quando eu era pequeno - 6, 7, 8 anos. Praticamente tudo, até os menores gestos, era dividido entre "coisas de homem" e "coisas de mulherzinha/fresco/maricas/viado", e a gente vivia o tempo todo se testando uns aos outros e tentando passar nos testes e ser "homem de verdade" e não "viado"...

Era um pesadelo, e várias coisas que eu queria e achava legais eram "coisa de viado". Isso me deixava muito grilado, e eu tentava conversar sobre isso com a minha mãe e o meu analista (é, porque eu era patologicamente tímido e a minha mãe era psicanalista, então ela me pôs pra fazer análise muito cedo). Os dois diziam:

"Homem de verdade" não existe, e você não é viado.

Acho que foi daí - de muitos anos de conversas frustrantes com a minha mãe e com esse psicanalista farofa - que eu aprendi que termos como "homem", "mulher" e "viado" têm muitos significados; que pra dialogar sobre eles com alguém a gente tem que entender quais desses significados a outra pessoa usa; e que algumas pessoas, como a minha mãe e o farofa, acham que esses termos são universais e querem dizer exatamente o significado que eles têm na cabeça naquele momento...

Eu aprendi também que essas pessoas que acreditam no um significado só são loucas e deveriam ser evitadas; e aprendi também que elas são numerosas demais e estão perto de mim em lugares demais, e evitá-las é impossível.


26. coisa-de-viado

(2015jul17)

Tinha muitos tipos de pensamentos que eram "coisa de viado". Os "homens de verdade" nunca pensavam aquelas coisas. Só que eram tantos tipos de pensamentos que eram "coisa de viado" que eu não acreditava que os "homens de verdade" nunca tivessem pensado nenhum deles.

O tom do modo como os homens falavam tinha certezas demais.

Eu fui chegando à conclusão de que os "homens de verdade" apagavam as memórias de terem pensado cada coisa que não deviam. Quando eles diziam que nunca tinham pensado as coisas proibidas isso não era exatamente uma mentira - eles acreditavam totalmente. Eles viviam com muito poucas memórias, porque eles viviam num eterno presente - sem memórias, e sem interior.

Essa sacação me fez entender um princípio básico do masculino: o "lavou, tá novo". Nada se fixa: a cicatriz de um machucado desaparece no dia seguinte, a dor de um chute na canela passa em segundos, uma brincadeira babaca de um coleguinha daqui a dois minutos a gente já esqueceu. Por trás disso tem a idéia de que a gente está sempre se treinando pra ficar cada vez mais fortes - e a gente sacaneia nossos amigos "de brincadeira" não só porque "é engraçado", mas também porque quem é sacaneado ri em triunfo quando vê que é já é forte o suficiente, e a sacanagem não doeu.


27. mentira-inferno-misterio

(2015jul20)

O mundo masculino - pra mim - era uma mentira, porque era baseado na gente estar sempre esquecendo coisas, fingindo que nada doeu e fingindo que a gente gostava exatamente das coisas certas, um inferno, porque a gente vivia em pânico e não podia baixar a guarda um segundo, e um mistério, porque eu não conseguia entender como os meninos e os homens adultos conseguiam ter caras mais ou menos felizes vivendo daquele jeito.

Eu comecei a pensar muito sobre "homens" e "mulheres" e "masculino" e "feminino" desde bem pequeno, porque eu precisava pensar em termos de jeitos de funcionar. As "mulheres" eram verdadeiras, podiam prestar atenção nas coisas, e o modo delas de conversarem incluía perceber como a outra pessoa funcionava, e aí criar situações confortáveis nas quais a gente pudesse até lidar com cuidado com coisas que doíam, como segredos. Eu queria poder ser mais ou menos daquele jeito quando eu crescesse, mas eu não conseguia visualizar bem como... por eu ser homem eu tinha que manter uma casca de dureza, que não parecia compatível.

Quando eu era pequeno eu era um mini-nerd, e eu gostava muito de ciência, talvez pra copiar o meu pai, que era engenheiro. Aí eu achava que se eu fosse cientista, inventor e gênio eu seria livre (num futuro distante).

Quando eu era adolescente eu já não dava mais bola pra ciência - os caras que eu achava os fodões mesmo eram artistas, principalmente diretores de cinema e escritores. Eu queria - ou precisava - virar uma pessoa incrivelmente interessante quando eu crescesse, pra eu poder ser amigo dos Mishimas e Fassbinders.


28. mafias

(2015nov08)

Há muitos anos atrás eu assisti um filme sobre máfia que me marcou muito. Eu adoraria saber o nome dele.

Um dos personagens é um adolescente que vive rondando seus dois amigos que já são da máfia, esperando que eles o convidem pra entrar pra máfia também. Um dias esses dois amigos levam ele pra um porão pra um "teste", que ele só vai entender direito quando chegar lá. Quando ele chega nesse porão tem um cara amordaçado acorrentado a uma parede que ele vai ter que torturar e matar.

Eu sempre vi o mundo masculino em torno de mim como uma máfia, uma rede de relações baseada em cada um acobertar as escrotices dos outros. Torturar os caras acorrentados no porão era um ritual de pertencimento. Aprender a fazer coisas que antes te dariam engulhos sem se incomodar, e aprender a gostar delas, era confundido com coragem.


A Julia Serano conta (no "Whipping Girl", cap.4) que antes dela começar a TH, na "fase testosterona" dela, era como se as emoções dela estivessem sempre no fundo do palco, e era facílimo fazer com que uma cortina descesse sobre elas e as tornasse praticamente imperceptíveis e irreais - ela quase sempre podia fazer isto num estalar de dedos. Depois da TH, na "fase estrogênio", as emoções não se tornaram nem maiores nem dominantes, só mais nítidas.


29. sessao-coruja

(2015nov08)

Eu tentava encontrar alguma noção de homem que me fizesse sentido, e que eu pudesse tentar ser. Eu lia muito, a TV Globo às vezes passava coisas incríveis - como filmes do Sam Peckinpah - de madrugada, o Cineclube Estação Botafogo abriu quando eu tinha 13 anos, e tinha outras cinematecas na cidade - então eu tinha muitas referências estrangeiras pra usar.

O melhor que eu consegui foi uma noção de "homem" como alguém plenamente responsável pelas consequências do que faz, com a obrigação de entender como pessoas bem diferentes de mim poderiam ser afetadas pelo que eu fazia, e com coragem pra peitar os meus próprios colegas sempre que necessário... só que aos poucos eu vi que essa noção de "homem" não tinha nada a ver com as das pessoas em torno de mim.

Lá pelos 24 ou 25 anos, quando eu desisti de vez de ser "homem" em qualquer sentido que fosse, a minha atitude passou a ser "eu não vou mais ser cúmplice desses caras em nenhum sentido, eu quero é que eles se fodam". E se eu precisasse me explicar eu diria: todos os homens que eu já conheci são burros e covardes.


30. iniciativa-e-marta

(2015jul24)

As mulheres "dão mole".
Os homens "tomam a iniciativa".
As mulheres dizem "não" (e riem).
Os homens "insistem".

Isso era uma das coisas nas quais eu não conseguia fazer "papel de homem" de jeito nenhum, e aí eu me ferrava. Essa, em particular, foi uma das coisas que mais me deixou suicida quando eu tinha 17 anos. Eu era apaixonado pela minha melhor amiga, a Marta, e ela ficava me provocando, me dando mole, me cobrando que eu "tomasse a iniciativa", e toda vez que eu tentava ela me dava uma patada, sinalizando que a minha iniciativa não tinha sido boa o suficiente, que eu não tinha segurança, desejo e impulsividade suficientes, e que eu tentasse outra vez.

A Marta era grande, forte e poderosa. Eu era magrelo, frágil, encurvado pra frente, tímido e excessivamente cerebral. Às vezes a gente ia na Mariuzinn de Copacabana, que era a uns 10 quarteirões da casa dela, e quando a gente entrava na pista de dança ela num instante virava o centro das atenções, dançando com todo mundo ao mesmo tempo. Eu queria ser como ela quando eu crescesse.




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31. dividir

(2015aug02)

Quando eu era pequeno eu dividia as pessoas entre "homens" e "mulheres" do jeito óbvio. Quando eu passei a ter muitos conflitos com os "homens de verdade" eu passei a dividir as pessoas entre os "homens" (que eram péssimos), as "mulheres" (que eram boas ou neutras), e as "pessoas" (que não seguiam papéis de gênero aprisionantes, e eram bem melhores). Mas nos últimos anos tudo ficou confuso; às vezes decidir quem era "homem" ou "mulher" só servia pra tentar encontrar os pronomes certos... eu não conseguia fazer as noções que eram intuitivas pra mim dialogarem com a miríade de rótulos que se usam hoje em dia - e, óbvio, isso tornava a minha transição bem complicada. Eu estava querendo deixar de "ser" o quê, pra me tornar o "quê"?

Tem um trecho d'"O Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas" que me marcou muito, que é sobre encontrar os conceitos certos, que nos permitem fazer as distinções certas, e daí ver as coisas com clareza - sem as confusões de antes - e aí encontrar o melhor modo de agir.

O conceito que me parece realmente útil agora, e que todo mundo entende, é o de "Ômi". "Ômis" e "humanos" - ainda não há um termo para o oposto de "ômi" em uso corrente, então deixa eu improvisar e usar "humano" - têm modos de funcionar completamente diferentes e incompatíveis, e valores e códigos éticos incompatíveis também. Deixa eu citar um texto escrito por um ômi (fontes: aqui e aqui), que eu acho especialmente revelador:

SOBRE AMIZADES E POLÍTICA: Percebi pela Análise Sociográfica das Redes Sociais como que a forma como nós, reacionários direitistas trogloditas conservadores do mal nos tratamos é... legal pra caralho! Um posta uma coisa, outro xinga de corno pelo gosto musical ser uma bosta, chamamos respondemos com considerações sobre as preferências sexuais do primeiro, rola uma zoada com a mãe, aí um terceiro manda beijo irônico, todos mandamos um ao outro tomar no cu e termina sempre com umas indiretas sobre o Morgen escrever demais.

Sabe por quê? Porque nós somos amigos pra caralho, porra!

E a função social de um amigo é te zoar em público antes que outras pessoas o façam. É por isso que provas são tão difíceis, que o treinamento no Exército é barra pesada e também por isso que inventaram palavrões.

Aí você vê o pessoal de esquerda. E é tudo um fru-fru mongo, um teatrinho de lambeções sem ofender a hipersensibilidade alheia, um troca-troca de vaidades que faria a corte de Luiz XIV parecer a Banheira do Gugu.

Todo mundo se chama de "companheiro" (você precisa chamar seus amigos de "amigos", ou só fala: "Chega aí, bichona"?), todo mundo respeita o gosto musical um do outro (ABSURDO DOS ABSURDOS, isso não pode acontecer nunca entre 2 seres humanos adultos, conscientes e vacinados!!), nunca se vê uma ironia, uma tirada escrota, um cutucação que doeria no ego caso você não tivesse motivo pra ter um, uma piada ofensiva em público, uma inocente virulência preconceituosa com alguma deficiência ou estigma social de alguém por algum motivo... "Hey, camarada, você saiu muito bonita na foto, embora talvez tenha preferências por outras mulheres e devo respeitar sua opção sexual que você escolheu conscientemente e não devo ter opiniões sobre sua sexualidade"... chama logo de GOSTOSA, seu baiacu!

E você percebe que é tudo uma falsidade do caralho, que eles precisam sempre dessa masturbação mútua coletiva só para acreditarem que são MESMO interessantes, já que os membros do mesmo grupinho são também interessantes, conscientes, livres de preconceito, politicamente corretos, progressistas, chatos que só um livro do Gabriel Chalita e o cúmulo do progresso humano sem nunca precisar ler sequer as orelhas de Karl Popper.

Puta merda, um mundo em que não podemos xingar os próprios amigos?! Fora a linha leste do trem em horário de pico, poucas coisas parecem tanto a definição de inferno quanto esse moralismo ridículo em que cada pensamento impuro precisa ser engolido, silenciado e guardado para se pedir perdão no fim do dia.

Sou reaça porque sou legal pra caralho.


Quando eu fui saindo dos meios masculinos porque eu nem conseguia compactuar com o que acontecia neles eu não via "homens" e "mulheres" simplesmente como grupos que lidavam diferente com sexualidade - tipo: quem penetra e quem é penetrado, quem toma a iniciativa e quem não - e com roupas, aparência, enfeites e trejeitos; isso era ínfimo. O que era mais importante pra mim era que eu via "homens" e "mulheres" como modos diferentes de ver o mundo, com códigos de valores, de ética e de comportamento diferentes e muitas vezes incompatíveis. Por exemplo, praticamente todo mundo vai reconhecer o tipo de babaquice do cara acima como algo tipicamente masculino... né? Certos tipos de comportamento são obrigatórios ou tolerados em meios masculinos e inadmissíveis em meios femininos; outros são o contrário.


32. engenheiros

(2015aug18)

Na geração dos meus pais, principalmente entre galeras como a da minha mãe, a expressão "cabeça de engenheiro" era bastante usada, e tinha um significado preciso - um tipo muito específico de arrogância e tacanhez.

O meu pai era engenheiro (e ogro), e ele ficava muito puto quando ele via que eu e a minha mãe estavamos usando a expressão "engenheiros" na nossa conversa. Ele se metia, dizia que fulano era legal e era engenheiro, beltrano idem, então a gente não podia falar mal de engenheiros, a gente não podia generalizar.

Eu levei anos pra conseguir uma primeira resposta razoável pra isso. Eu dizia que o Heidegger e o Günther Grass eram legais e tinham sido nazistas, então ele não podia falar mal dos nazistas, ele não podia generalizar.

Tempos depois eu encontrei uma outra resposta muito melhor, e que não era uma provocação.

Falar "OS engenheiros" e falar "TODOS os engenheiros" são coisas completamente diferentes. Se eu digo "TODOS os engenheiros são do jeito tal" e a pessoa com quem eu tou falando me dá um exemplo de um engenheiro que não é desse jeito tal, então pronto, ela ganhou: o que eu estava tentando afirmar não vale mais. Mais se eu digo que "OS os engenheiros são do jeito tal" eu estou usando implicitamente a minha noção do que é um engenheiro "típico" - que comporta exceções - e tentando ver se ela bate com a do meu interlocutor...


33. hombres-y-machos

(2015sep03)

Tem um livro interessantíssimo, que eu comprei na liquidação da Leonardo da Vinci, chamado "Hombres y Machos - Masculinity and Latino Culture". O autor, Alfredo Mirandé, é um sociólogo/antropólogo/etnólogo que trabalha nos Estados Unidos e é de origem mexicana, e ele começa o livro contando umas histórias da família dele pra introduzir a idéia de que as referências de "homem de verdade" no México são diferentes das anglo-saxãs - e, além disso, são diferentes dos estereótipos que os anglo-saxães têm do que são "hombres" e "machos" para os latinos.

Repara, só nisso já aparecem várias idéias diferentes de "homem"... e o livro começa com várias histórias - umas da família dele ou de conhecidos, outras de filmes e livros de ficção, outras de outros estudos de ciências sociais - das quais ele tira elementos pra tentar caracterizar o que mexicanos de várias classes, idades, lugares, níveis de renda, etc, entendem por "hombre" e por "macho"; daí ele desenvolve uma metodologia, prepara uma pesquisa, realiza montes de entrevistas, organiza os dados que obteve, e apresenta conclusões.

Eu adoraria ter as ferramentas de Ciência Sociais que esse cara tem pra eu poder organizar e contar "do jeito certo" muitas coisas que eu vivi e observei sem que me digam que eu estou fazendo generalizações idiotas. Por exemplo, no meio em que eu cresci o modo de falar masculino incluía uma obrigação de ridicularizar que quando eu comecei a andar com mulheres eu vi que entre elas era bem menor.

Um ponto importante: a gente dificilmente vai chegar ao ponto de poder fazer uma pesquisa de campo com muitas entrevistas, como o Mirandé fez, mas a fase anterior, de procurar literatura e coletar elementos em discursos tanto reais quanto ficcionais, a gente pode fazer com pouquíssimos recursos; e tem uma "fase zero", que consiste na gente coletar e organizar as idéias e discursos de gênero que já estão na nossa cabeça, que não exige recurso externo nenhum, e que acho que todo mundo interessado em gênero deveria fazer... e depois que a gente organizou isso com um mínimo de honestidade e cuidado a gente consegue conversar com colegas (mini-pesquisa!) sem ser considerado chato.


34. falar-mal

(2015nov08)

Às vezes falar mal dos outros é um modo da gente ir esclarecendo como a gente não quer ser.

Um dos meus assuntos preferidos desde que eu tenho, sei lá, 16 ou 17 anos, era falar mal dos homens (e das pessoas "normais") - mas esse assunto correspondia a um problema prático, que era: se a gente não queria ser como os "homens" e as "pessoas normais", que tinham pontos cegos enormes e eram burras, estúpidas e hipócritas, qual era a alternativa? Como a gente podia construir pra gente um modo de funcionar bem melhor?


35. PUC

(2015nov08)

Eu comecei fazendo umas matérias de Matemática na PUC-Rio como ouvinte num tempo em que eu era um outsider total, aí me identifiquei com o curso e com as pessoas, e me transferi pra lá.

Depois de alguns anos os meus colegas começaram a ficar amigos de estudantes de Engenharia e a tentar grudar neles absorvendo os seus valores - o que foi um inferno pra mim, porque esse pessoal da Engenharia tinha uma hierarquia social muito rígida, na qual os seus pontos vinham basicamente de 1) você ser popular e descolado e galinhar bem, 2) você ter excelentes notas, 3) você ter o perfil do estagiário perfeito, que vai ser aprovado em todos os processos de seleção e entrevistas.

Eu cheguei a namorar uma pessoa desse grupo, a Paula Engenheira... mas quando ela contou pras amigas que gostava de mim ela ouviu coisas como "Paula, aquele Daniel que você namorava já era o fundo do poço, mas esse Eduardo é pior ainda".


Todo mundo acha preconceito uma coisa abominável, mas eu vejo um contínuo entre preconceito, que é péssimo, e uma outra coisa que eu chamava de "preconceito operacional", que todo mundo faz, e que é humana e ok. O meu "preconceito operacional" contra engenheiros funciona da seguinte forma: "deve ter gente legal no meio deles sim, mas no geral eles nem enxergam as coisas que eu valorizo e lidam com naturalidade com coisas que eu considero intoleráveis. Eu preciso de amigos - mas não vou mais investir nenhuma energia nesse pessoal porque é roubada, vou procurar amigos em outros lugares".

(A minha engenheirofobia é parecida com a minha hetorofobia. Heterofobia "existe", mas heterofobia e homofobia são coisas de naturezas muito diferentes.)






O zine em PDF (ou impresso) tem os textos acima e mais alguns -
uma versão resumida da discussão que me fez ser banido de grupos trans,
uma troca de e-mails com a Silvia,
e dois textos meus antigos:
"Daniel e iniciativa" e
"História de T".

A versão impressa tem uma reprodução pequena do quadro abaixo colada na capa.
A encadernação é com costura manual e dá bastante trabalho pra fazer, então
cada "edição" tem poucos exemplares. Se você quiser um, entre em contato.
Puvis de Chavannes - Jeunes filles au bord de la mer