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Sobre a performance Xereca Satânik

A performance aconteceu na 4ª 28/maio/2014.
O 1º debate (áudio indexado) aconteceu na 6ª 30/maio/2014.
O 2º debate foi na 4ª 4/jun/2014, às 18:00, no saguão do PURO.
Áudio indexado da reunião do ICT de 11/jun/2014, que foi parcialmente sobre a Xereca Satânik.
Reportagens sobre a performance: Sidney Rezende 1 e 2, O Globo 1, 2, 3, 4, 5, 6 Meia Hora, O povo, Mídia Latina, Fórum 1 e 2, O Dia, Carta Capital, A Voz de RO
Página de um blog - facanacaveiraoficial - com fotos.
Alguns threads do FB: meu, Clarissa, Ato obsceno, Obscenity laws
Posts de professores: Rai, Vânia, Katia, Flavia, Daniel Caetano 1 e 2, Anibal, Sidney
Textos de alunos: Genesis, Tiago Abs, Juliana Gualter, Bruno Mattos, Giglio 1, Giglio 2, Alice, Gerson, Débora, Kristina, André, Livia
http://blogueirasfeministas.com/2014/06/solidariedade-as-xerecas-satanicas/
https://ninja.oximity.com/article/O-dia-em-que-conhecemos-as-Xerecas-Sat-1 (Fórum)
Estupros em Rio das Ostras motivaram ritual onde mulher teve vagina costurada (O Dia)
Sara Panamby: O caso das xerecas satânicas contra as boas almas inquisidoras
Página do evento, página do debate.

O texto abaixo está longe de estar completo.
Resumo: eu raramente gosto de performances, e essa foi uma das duas únicas que eu lembro que eu achei fantásticas.
Obs: "eu" = Eduardo Ochs. E-mail, FB.


1. Suspensão

(29/maio/2014)

Quando eu comecei a descobrir coisas sobre body modifications em 1993 tudo aquilo parecia impensável. Quando eu fiz os meus primeiros piercings - escondidos - nos anos seguintes, algumas das pessoas que souberam ficaram MUITO chocadas. Quando eu morei no Canadá em 2002 um amigo meu me convidou pra um evento que teria suspensões e pullings - e as pessoas da platéia lá estavam TÃO atentas que acho que todo mundo viu o momento em que uma das pessoas com os ganchos saiu da sintonia, os ganchos começaram a doer de um jeito ruim, e ela teve que pedir pra parar. Todo mundo saiu de lá alterado - Montreal é um lugar onde as pessoas não têm dificuldade de se olhar nos olhos, e dava pra ver pelos olhares que todo mundo que estava lá ficou muitíssimo mais atento... acredito que todo mundo tenha conseguido se ver no lugar de todos os participantes mais ativos - as pessoas dos ganchos, as que preparavam e colocavam os ganchos, a turma da assepsia, os que davam apoio pra que ninguém caísse...

Eu fui um mero espectador, e o meu barato durou uma semana. Lembro da frase de um amigo meu: "I feel high without any drugs".

Rio das Ostras, 2012. Eu resolvi ir na Convenção de Tatuagem que teve no Parque da Cidade em setembro, e no final dela teve um evento com suspensões. Várias pessoas se voluntariaram pra serem suspensas por ganchos, mas era tudo banal - o que também foi a impressão de vários amigos meus. Nós ficamos nos perguntando porquê - era bizarro que algo que deveria ser tão intenso só causasse apatia, e que nem as próprias pessoas suspenas estivessem prestando muita atenção.


2. Xerecas Satânicas

(29/maio/2014)

Eu fui parar no espaço da amendoeira quase por acidente naquele dia. Eu sabia que ia ter uma performance, mas eu não estava dando muita bola pra ela. Num momento eu disse pra minha amiga com quem eu estava conversando "ei, tem umas pessoas peladas, vamos ficar mais perto pra ver o que vai acontecer?" Ok, era uma mulher pelada, duas mais ou menos, e um cara de short, com uma camada de argila na pele, fazendo percussão em canos de metal no chão, perto de uma fogueira - até aí nada de especial. Uma das mulheres semi-peladas começa a batucar, quase sem noção de ritmo, num latão de lixo daqueles grandes, cor-de-laranja, com duas rodas, e a cantar uns funks com letras de protesto - uns que eu já tinha ouvido em manifestações no Rio, outros, como um sobre a Aracruz Celulose, que eram novidade.

Eu tinha ouvido algo sobre Anarcofunk. Será que alguns dos performers eram do Anarcofunk? O que é Anarcofunk? É como se fosse uma banda, com um número pequeno e fixo de componentes, ou é um coletivo grande, ou o quê? Será que algumas dessas letras de protesto - e das que eu ouvia em protestos no Rio - tinham sido inventadas por aquelas pessoas que estavam à minha frente?

Aí a garota pelada pega uma bandeirinha do Brasil de pano, de tipo uns 15x20cm, e começa a enfiar dentro da xereca. Dá um trabalho, ela leva uns 5 mins fazendo isso. Até aí tudo bem, também. Aí ela se deita sobre duas mesas de bar de plástico colocadas uma do lado da outra. A amiga dela - semi-pelada - ajuda ela a terminar de enfiar. Aí essa amiga pega agulha e linha e, pelo menos aparentemente, começa a costurar a xereca da que tá com a bandeira.

Eu tava longe e não dava pra ver direito. Na verdade, como a luz era muito fraca, a gente quase só conseguia ver um pouquinho mais quando espocava um flash, ou quando as câmeras lançavam aquela luz mais forte durante um ou dois segundos que elas usam pra ajustar o foco - e então eu comecei a ter uma relação ambivalente com as câmeras, porque um lado eu ainda tinha a minha relação normal de desprezar as pessoas que não conseguem estar totalmente presentes nas situações, e aí ficam tirando fotos (que vão ficar péssimas) pra postar no Facebook, e por outro lado as luzes das câmeras eram o que permitia a quem estava longe ver um pouquinho mais... eu comecei a perguntar pra pessoas que estavam perto de mim o que estava acontecendo, e todo mundo achava que uma performer estava costurando a outra, mas ninguém tinha certeza absoluta... e eu não via nada que parecesse com luvas cirúrgicas ou desinfecção de nenhum tipo, e ISSO começou a me deixar muito agoniado - eu pensei, q*ralho, que que são essas pessoas? Todo mundo que eu conheço de body modifications hoje em dia é obcecado por esterilização e segurança... que tipo de riscos essas pessoas estão correndo? Que infecções podem acontecer? Elas pesquisaram e têm praticamente certeza de que o risco de ter algo difícil de tratar é muito baixo? Ou a certeza é outra, é a que a da xereca está num daqueles estados alterados nos quais a imunidade do corpo fica altíssima - como a de índios e faquires? Que tipo de cumplicidade existe entre que a que é costurada e a que costura? Será que se a que está costurando se desconcentrar a costurada pode perder a concentração também?... e as pessoas diziam "nossa, isso deve doer muito", mas a costurada se levantou, ficou em pé defronte da fogueira, com um sorriso de orelha a orelha e uma postura imponente de quem está acostumada a ficar nua em público, e começou a desfazer parte da costura puxando os fios com as mãos, tirou a bandeira da xereca, depois segurou-a logo acima da fogo até que ela começasse a se incendiar, ficou dançando com a bandeira em chamas um tempão, e só depois tirou o resto dos fios da costura... depois uma das semi-peladas se deitou na mesa, e a outra começou a fazer pequenos cortes nela um pouco acima do peito com um bisturi - e a que estava sendo cortada começou com uma cara de dor, mas logo depois estava com um sorriso enorme também, e isso eu estava assistindo bem de perto, e dessa vez eu fiquei agoniado porque o jeito de fazer o corte me parecia totalmente sem noção, a que cortava ia e vinha com a ponta do bisturi várias vezes sobre a mesma linha de leve, como se estivesse raspando aquela linha... e como eu formo quelóides com muita facilidade eu sempre tive uma coisa de que cada corte proposital tem que ser feito com muito cuidado e precisão, não dá pra errar... agora é que eu tou vendo que nunca me ocorre me imaginar no lugar de alguém que tenha uma cicatrização mega-boa, e cujas cicatrizes sempre desaparecem...

Outra coisa importante é como a atitude das pessoas que estavam assistindo foi mudando. No início era um mero "uau" com risinhos; depois virou algo tipo "eu não acredito que estou assistindo isso", meio de choque, meio de "nossa, isso vai dar merda" - mas por mais que a performance fosse chocante e até, pra algumas pessoas, talvez ofensiva, ninguém teve nenhuma atitude de interrompê-la... pelo contrário, nossa passividade de espectadores foi quebrada - nós nos tornávamos cúmplices, nós tínhamos que cuidar da segurança da performance da mesma forma que ninguém na platéia de um circo atrapalha um número de corda bamba ou o de um malabarista com facas... aliás, éramos ainda mais responsáveis ainda do que num circo, porque era claro que a performance teria repercussões posteriores, e nós teríamos que defendê-la, e defender o espaço da amendoeira, das pessoas que nas semanas seguintes poderiam querer punir os responsáveis e fechar o espaço...

Depois da performance as pessoas ficaram eletrizadas durante horas - eu fiquei até as 3 da manhã conversando com várias pessoas e grupinhos lá perto da amendoeira, e todas as conversas eram fantásticas. Uma coisa que eu pensei foi: se nós tivermos que defender essa performance quando der merda depois, uma das coisas que podemos fazer é contar algumas das conversas que surgiram, e que nunca teriam acontecido sem a performance.

Logo depois dela eu estava conversando com o Tiago Abs, um amigo meu que estuda Produção Cultural, sobre o quanto dela a gente achava que tinha sido improviso, e ele disse que ele tinha se oferecido pra ajudar fazendo projeções que combinassem com a performance, e o pessoal do grupo disse pra ele: olha, não dá, nem nós mesmos sabemos direito o que vai acontecer - e, bom, eu desconfiava que havia muito improviso, isso explicaria porque muitas partes eram genuinamente chatas, a energia baixava, e outras partes tinham uma energia e uma vida impossível de se ter em coisas ensaiadas... depois eu e o Tiago tivessemos outra conversa super legal, sobre a componente sexual da performance - a dona da xereca ainda passou um tempo andando sem roupa, e todo mundo do grupo aproveitou que a performance tinha acabado pra beber muita cerveja no pouquinho tempo em que eles ainda teriam energia pra isso antes de irem pro hotel... e era legal que normalmente a gente vê de forma sexual corpos nus, mas a atitude de todo mundo com a Raíssa era de admiração e proteção, tipo, se qualquer um desse em cima dela a gente consideraria uma falta de educação enorme, e daria um puxão de orelha no cara -


3. Liberdade com o próprio corpo

(31/maio/2014)

Eu vi, nos dias seguintes à performance, várias pessoas dizendo "cada um pode fazer o que quiser com o seu corpo".

Isso não é verdade. Eu conheço vários caras que não podem nem deixar o cabelo crescer um pouquinho, porque se fizerem isso correm o risco de serem demitidos do emprego, ficarem mal vistos na igreja ou apanharem em casa, e sei até de meios nos quais se um cara fizer um gesto errado de mão os colegas vão sacaneá-lo durante meses, porque consideravam aquele gesto aviadado.

Se eu fosse um cara que não pode fazer nada de diferente com meu próprio corpo e eu ouvisse um estudante de produção cultural dizendo que "cada um pode fazer o que quiser com o seu corpo" eu teria inveja - e raiva. Eu acharia que o estudante não sabe nada da vida, nunca teve que trabalhar, é mimado, é sustentado pelos pais.

Eu não sei porque as pessoas ainda dizem "cada um pode fazer o que quiser com o seu corpo". O tempo de verbo está errado. É ofensivo. "Cada um deveria poder fazer o que quiser com o seu corpo" seria bem melhor.

A gente regula não só o que a gente faz com os nossos corpos como os nossos desejos. A gente se defende dizendo que nunca quis deixar o cabelo crescer, que nunca quis fazer algo sexualmente estranho, que quem quer essas coisas é viado, ih, aê, eu não, eu sou macho, porra, qualé, sai pra lá.

Nesse sentido a performance foi muito ofensiva. As performers queriam se furar e se cortar, e fizeram isso em público. Nós vimos o momento inicial de dor, que logo se transformava em prazer e força. Elas estavam muito além da fase do "não", da vergonha, da mentira, da culpa. A atitude física delas era de sinceridade absoluta. Elas conquistaram o nosso respeito - e não era o respeito de quem olha pro lado e finge que não vê - nós estávamos junto, e formávamos um círculo de proteção.

A gente associa cenas sadomasoquistas com situações de tensão sexual extrema, e com desejos errados - que precisam ser escondidos. Se alguém da nossa igreja ou da nossa família soubesse de nossas fantasias e práticas sadomasoquistas essa pessoa ficaria alarmada e tentaria nos "ajudar" e nos "curar" - talvez até nos delatando para alguém que ela considerasse mais competente.

"Cada um é livre pra fazer o que quiser com o seu corpo" - mas essa liberdade tem um preço, a gente tem que desistir de determinados grupos sociais e de determinados trabalhos pra poder exercê-la. Uma pergunta natural sobre as performers - como elas podem ser assim? - se transforma facilmente num grande "onde": onde elas vivem? Em que meios elas circulam? Elas ainda se relacionam com suas famílias? Como? De onde vem o dinheiro delas? Em que elas trabalham? O quanto do que elas ganham é mesada? Como elas se relacionam com o porteiro, com o Seu Manoel da mercearia, com as pessoas da rua?...

As performers mostraram que não tinham pudor nenhum de fazerem coisas que seriam absolutamente impensáveis para as pessoas "normais", as que têm famílias "normais" e trabalhos "normais" e frequentam igrejas "normais". As atitudes delas diziam: vocês acreditam que dar vazão a certos desejos "errados" é suicídio social - vocês seriam expelidos da família, da igreja, dos trabalhos, dos amigos do clube e do bar, e morreriam à míngua. Nós não nos importamos a mínima com a sociedade "normal", seja a de Rio das Ostras ou a qualquer outro lugar, e estamos aqui, com uma sinceridade impensável pra quem faz concessões aos "normais", somos íntegras e muito fortes - e vejam, o estranhamento inicial já passou, e nós cativamos vocês.

Imagino que seja bizarro ver pessoas que "merecem ser apedrejadas" sendo tão apoiadas pela multidão.


4. Responsabilidade

(3/jun/2014)

Há uns anos atrás eu ouvi falar de uma instalação na qual um artista deixava um cachorro amarrado num canto de uma galeria sem comida e sem água. Os visitantes, e as pessoas que eu ouviram falar da instalação, fizeram um rebu enorme, e num instante organizaram protestos que tiveram apoio internacional. Dois dias depois da inauguração o artista disse: olha, qualquer um de vocês poderia ter trazido água e comida pro cachorro e acabado com a instalação, mas ninguém fez isso.

Se alguém na performance das xerecas tivesse ficado realmente incomodado essa pessoa poderia ter protestado na hora... as performers teriam tido alguma reação - não sabemos qual -, porque elas estavam muito atentas ao público. Mas ao invés disso umas pessoas incomodadas só foram embora, e alguém tirou umas fotos e denunciou depois - dando um resumo completamente distorcido do que aconteceu.

No primeiro debate a gente viu que todo mundo que criticava a performance estava se baseando só em informações fragmentadas e distorcidas. Havia algum modo "objetivo" de mostrar o que a performance realmente tinha sido? Não! Ela não tinha sido documentada, e aliás, os performers teriam se comportado de forma bem diferente se ela estivesse sendo filmada... e tinha pouca luz, e uma filmagem teria pego 40 minutos de música caótica com umas poucas cenas "pesadas" no meio - seria algo insuportavelmente chato de assistir. A performance era infilmável.

No primeiro debate algumas pessoas tentaram criticar quem estava atacando a performance a partir só das fotos, boatos e reportagens tendenciosas, dizendo que essas pessoas não estavam lá e não tinham como saber como tinha sido de verdade. Mas caramba, a gente não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, a gente tem que partir de informações parciais e boatos e a partir disto tentar conseguir mais informações e se posicionar...

(Continua... Esta é a seção mais importante, então volte depois pra ler o resto! =))


5. Mecanismos

(5/jun/2014)

Há uns meses atrás um comediante americano chamado Andrew Bailey postou um vídeo incrivelmente corajoso chamado "Why rape is sincerely hilarious". No vídeo ele começa fazendo umas piadas sobre estupro de um jeito retardado e ofensivo, mas logo ele começa a contar de como ele foi seduzido por uma mulher mais velha quando tinha 13 anos, e a gente vai entendendo como por um lado ele devia achar aquilo ótimo - porque aquilo era exatamente a fantasia dos colegas adolescentes dele - mas por outro lado ele se sentia péssimo e ele nem sabia articular direito porquê... e ele não conseguia saiar daquela situação, ele estava preso, como que numa armadilha, e a vida dele foi entrando em colapso. No fim do vídeo ele diz que ele acha estupro de garotos algo sinceramente engraçado - "porque ele tem que achar" - e pela cara dele, um riso nervoso que no início do vídeo era só idiota mas que agora no final está cada vez mais à beira do choro - a gente entende como essa história pra ele ainda está muito longe de estar superada...

Fazer piada com situações com as quais a gente não consegue lidar é um mecanismo de defesa bem conhecido. Dizer que a pessoa assaltada ou espancada ou estuprada estava no lugar errado, ou fez algo pra provocar, é outro - a gente está dizendo que aquilo nunca vai acontecer com a gente, porque ela foi idiota e a gente é mais esperto que ela.

Vou voltar a este tema dos mecanismos de defesa em breve.

Deixa eu começar a falar sobre arte agora - e também vou voltar a "arte" depois, aos poucos.

Uma obra de arte boa é uma que a gente olha e gosta.
Uma obra de arte ótima é uma que faz a gente pensar.
Uma obra de arte excelente é uma que transforma a gente.
Uma obra de arte realmente excelente é uma que transforma o mundo todo.

Fazer coisas dá trabalho. Uma vez eu li uma coisa genial sobre isso: se você vai pintar uma natureza-morta é uma péssima idéia passar só 10 ou 15 minutos arrumando sobre a mesa os objetos que você vai pintar - porque aí depois de 10 ou 20 horas trabalhando no seu quadro você vai estar se arrependendo muito, porque vai estar vendo o tempo todo como a sua composição de objetos na mesa era sem graça, péssima, até.

Quem viajaria até Rio das Ostras de graça, só com uma ajuda de custo mínima, pra apresentar uma performance ingênua, mal preparada, e que as pessoas vão achar só "boa"? Algumas pessoas fariam isso sim - mas eu não consigo me imaginar no lugar delas. E quem faria uma performance com riscos físicos e até riscos legais, se não tivesse muita certeza do que está fazendo? Ou só com certezas burras? É curioso como tanta gente tem "certeza" de que os performers da Xereca Satânik são idiotas - e, engraçado, pra mim é tão evidente que essa "certeza" é um mecanismo de defesa -


6. As coisas que não deveriam existir

(5/jun/2014)

Em 4/jun/2014 um aluno da Computação do PURO, o Oberdan, publicou um vídeo que satirizava vários argumentos (fracos) das pessoas que estavam defendendo a performance. Confesso que num primeiro momento eu fiquei muito irritado assistindo o vídeo, mas depois vi que era uma síntese genial, e de tudo que eu já vi atacando a performance o roteiro dele era a coisa que mais merecia ser relida muitas vezes. Segue uma transcrição dos diálogos.


- Sim, mas vocês são então alunos da UFF?
- Sim, do PURO.
- (Tosse) Desculpe.
- Somos alunos da UFF-PURO em Rio das Ostras, estávamos tendo um seminário de Corpo & Resistência... foi realizado durante a semana palestras sobre o assunto...
- Palestra sobre o assunto?
- Sim, palestras, então aproveitamos o dinheiro do CNPq e promovemos a arte "Xerecas Satâniks" para protestar contra violência e estupro na cidade.
- Eu tentei entender, levar sério o que eles diziam, mas não fazia o menor sentido. Não dava pra acreditar que era sério que tinha gente apoiando esse vexame. Não pude me conter.
- Então quer dizer que o evento "Xerekas Satâniks" foi "arte" e tinha como foco protesto?
- Sim, inclusive nós tivemos bolsa do CNPq para realizar o evento.
- Sim, foi um evento sério de cunho artístico.
- (Tosse) Desculpa.
- Como eu ia dizendo, ela costurou a pepequinha porque as meninas da cidade são estupradas, então pensamos: "se eu costurar a pepequinha as pessoas vão parar de ser estupradas, porque isso é culpa da sociedade capitalista, dos burgueses, dos..."
- (Ri e se controla) Desculpa. Desculpa, desculpa, sei que é sério. Pois então, vocês acreditam que se costurar pepeca as pessoas da cidade...
- Eu acho que ele não sabe o que é arte. E nem falamos com ele sobre a parte do cerol...
- Perdoe-me a falta de cultura, é que na verdade é um pouco confuso pra mim. Mas este evento visava chocar a sociedade mostrando que a elite intelectual do país é massa de manobra?
- Sim, por isso fizemos de madrugada dentro do espaço da UFF.
- Uhum.
- Porque a UFF é federal. Se quiséssemos mostrar apenas para a população local teríamos feito em uma escola municipal qualquer.
(O apresentador agora está às gargalhadas e não consegue mais se controlar)
- Não entendo a graça. Tinha tudo pra dar certo: crânio, círculo, gente pelada... foi uma festa como qualquer outra. Minha avó até me deu a agulha...
- "Elite intelectual! Pff..."
- Por isso é que o país está assim... lamentável...
- Foi mal, agora é sério. Foi a última vez, não sei o que me deu, mas vamos continuar. Um dos alunos afirmou que o evento cumpriu com a proposta e ao que parece ele veio, está aqui na platéia né, e veio nos falar um pouco da repercussão na mídia...
- Comprada. Faltou dizer que a mídia é comprada. É tudo mentira.
- Sim, chamamos muita atenção positiva para UFF, saímos no G1, na VEJA, todo mundo comenta sobre o evento, tivemos o apoio do CNPq, tá bom ou quer mais?
- Esse burguês safado comedor de McDonnald não deve ler jornal. Fala mais pra ele. Ele tem inveja porque não sabe pensar fora da caixinha. Ele e todo mundo de exatas. Só querem saber de ter um emprego digno, tem até uma empresa na faculdade.
- Lamentável... até oferecem emprego lá dentro.
- Eles são hipócritas. Quando fazem cesariana ninguém reage assim. Porque não pode costurar a pepeca?
- E foi o que aconteceu. Depois disso as pessoas me perguntam: "você estuda no PURO?" e a primeira coisa que me passa na cabeça é negar até a morte, mas eu tive uma boa formação, excelentes professores e esse é o legado que ficou pra mim. Além disso acredito que não devemos julgar um nicho de pessoas por outro.
- Espero que os calouros ou os alunos não envolvidos não tenham de pagar pelo que aconteceu e que algo seja feito a respeito.

Um argumento recorrente contra a performance é de que ela era ingênua - porque era ineficaz! Ora, ineficaz é exatamente o que ela não foi... os performers fizeram coisas que envolviam nudez e um pouco de dor física - coisas que demandam uma certa energia - e a energia que eles despertaram e moveram com isso, não só na cidade de Rio das Ostras como em outros lugares, foi colossal! Então temos que perguntar: será que essa reação foi a que eles queriam? O que eles queriam, afinal? Eles queriam "chocar"? Queriam "protestar pelos direitos das mulheres"? Ou o quê?

Eles participaram das apresentações do seminário, e poderiam ter explicado algo. Eles chegaram atrasados - chegaram no meio da tarde - e os organizadores perguntaram se eles gostariam de fazer alguma fala, apresentar algo, fazer perguntas, e tal. Eles disseram que não, que preferiam só assistir e ouvir, e assistiram as apresentações muito atentamente - e a impressão que o Tiago, que me contou tudo isso, teve, era de que eles pareciam muito familiares com as discussões teóricas.

Depois eles se prepararam pra apresentação, que começou bem atrasada. Segundo os cartazes de divulgação a performance seria às 18:00, mas eles deixaram pra fazê-la quando já tinha mais gente na festa, lá pelas 22:00.

Segundo o Tiago as músicas que o DJ estava tocando naquele dia eram bem diferentes das habituais, e as pessoas que costumavam ir nas festas no espaço da amendoeira pra socializar casualmente, azarar, etc, foram embora bem antes da performance. O foco do ambiente era outro.

Não havia nenhum cartaz na entrada do espaço da amendoeira - eu ia falar "porta", mas é só "entrada" - como aqueles que avisam que o filme é proibido pra menores de 18 anos porque tem isso, aquilo e aquilo outro.

Se houvesse um cartaz desses vários dos argumentos das pessoas que atacaram a performance depois seriam insustentáveis. Mas não havia. E os performers sabiam disso. Quanto ao organizadores, eles sabiam que haveria nudez e que é mais ou menos de praxe que performers não avisam de antemão o que vão fazer.

Depois da performance os performers conversaram só um pouquinho com quem estava lá, depois foram embora pro hotel, e de lá, no dia seguinte, de volta pras suas cidades.

Levou pelo menos uns dois dias pra gente como eu - e pôxa, eu fui na performance - saber que esse grupo tinha sido também o que tinha feito aquela performance na Marcha das Vadias do Rio que deu um bafafá enorme. Eles são deliberadamente anônimos, e eles se expõem muito pouco verbalmente - eles decidiram não falar quase nada... e isto faz com que as pessoas sejam obrigadas a supôr o que eles, os performers, são e pensam - e aí algumas pessoas acham que eles são idiotas sem noção, outras, como por exemplo praticamente todo mundo que foi na festa/performance, acham que eles são brilhantes e sabem muito bem o que estão fazendo...

Será que eles seriam capazes de escrever porque a performance da Xereca foi como foi? Isto foi um dos temas interessantíssimos que apareceu nas conversas pós-performance... Imagine que eles sejam processados por algo como "obscenidade" - vou usar este termo porque já ouvi falar de processos famosos contra livros, peças, pinturas, etc, por obscenidade. Não sei como é a situação no Brasil, mas por exemplo nos EUA algo é obsceno quando contém certos elementos proibidos e não tem méritos artísticos evidentes. Então: será que eles, os membros do grupo de performance, ou sozinhos ou junto com um grupo que se mobilizaria para apoiá-los, conseguiriam produzir um livro de 200 páginas explicando de forma brilhante porque eles fizeram aquela performance daquele jeito, e de forma que esse livro convencesse muita gente que não a assistiu do valor dela?... pelo nível das conversas nos dias seguintes, estava evidente que sim - e aliás um tema interessantíssimo, que bem poderia ser um capítulo do livro, é que a construção de uma obra de arte é um processo mais intuitivo do que racional, porque como cada obra é percebida por pessoas diferentes de jeitos diferentes as variáveis são tantas que um processo com bastante espaço para a intuição acaba sendo mais eficaz que um muito racional... mas muitas vezes é preciso fazer racionalizações a posteriori para poder comunicar este processo para outras pessoas.

No modo como eu imaginei os performers do grupo eles decidiram não falar quase nada, observar como as pessoas da universidade e da cidade funcionavam, e se aproveitar do fato de que o espaço da amendoeira era um espaço razoavelmente protegido - era um espaço acadêmico e eles tinham sido convidados, então era bem diferente de fazer uma performance na rua - e se aproveitaram também de que não havia nenhum cartaz dizendo algo como "classificação indicativa: proibido para menores de 18 anos", "contém cenas fortes", nada assim, e portanto certas forçações de barra poderiam ter consequências posteriores para os organizadores e até para o público. E estas decisões foram meio racionais, meio intuitivas, e meio feitas de antemão e meio na hora.

Pra muita gente aquela performance, numa universidade pública e num espaço sem um cartaz de classificação-indicativa-proibido-contém-etc, não deveria ter existido... mas, repare, coisas como estupro, violência de gênero ou contra LGBTTs, etc, também não deveria existir, e isto pra mim foi um dos elementos mais importantes da performance! Não é nem que eles tenham nos feito "pensar" sobre o que a gente faz contra coisas que não deveriam existir; eles fizeram muito mais do que isto - eles fizeram todo mundo revelar como lida com as coisas que incomodam e não deveriam existir, quais são nossas prioridades, quais são nossas estratégias, quais os nossos mecanismos de defesa -

Talvez o termo "mecanismo de defesa" seja pequeno pro que eu quero falar agora, que é algo mais geral, então vou usar só "mecanismos".


7. Repressão e recalque

(5/jun/2014)

(em breve)


8. Mecanismos sociais

(5/jun/2014)

(em breve)


9. Mecanismos de protesto

(5/jun/2014)

(em breve)




(2014jun16: acabei de acrescentar as seções abaixo, que estão muito incompletas... estou tentando conectar várias idéias-chave - apolíneo versus ctônico/dionisíaco, definição de arte, potência, responsabilidade, uso do próprio corpo, uso de recursos mínimos (comparar com Duchamp), etc, mas ainda falta muito - praticamente só consegui escrever o início de cada seção, que prepararia o terreno pras idéias mais difíceis que viriam depois...)


?. Satânica?

Quando uma vizinha que eu nem conhecia me pediu pra eu caminhar junto com ela alguns quarteirões quando eu estava indo pra festa/performance - porque lá em Rio das Ostras é comum as mulheres terem medo de assaltos e estupros mesmo quando andam por lugares iluminados - ela me contou que tinha ficado assustada com o nome "Xereca Satânik"... eu comentei vagamente que já tinha visto festas com nomes muito mais pesados, mas não quis entrar em detalhes, porque o nome que eu estava pensando era o de uma das festas anteriores, que era "É possível ter prazer anal no Multiuso", e o flyer tinha uma foto da Sandy...

Pra mim era bem óbvio que os organizadores estavam simplesmente fazendo experiências de linguagem, tentando encontrar o tom certo entre o chocante e o engraçado, com umas pitadas de nonsense.

No debate da 6ª feira é que eu vi que várias pessoas - alunos religiosos do PURO - têm uma definição de "satânico" e têm "certeza" de que aquela é a única. "Satânico" pra mim era um termo que tinha dezenas de significados diferentes, cada um deles incompatível com quase todos os outros, e eu achava que era assim pra todo mundo...


?. Potência

No domingo 8/jun/2014 a Vânia, do Serviço Social, postou a carta de apoio abaixo na página dela do Facebook. Imagino que o teor da carta tenha sido decidido em grupo mas que ela tenha feito a redação final.

Nota do colegiado do curso de serviço social da UFF de Rio das Ostras:

BEM-AVENTURADAS SEJAM AS XERECAS SATÂNIKS!

- Por propiciar aos docentes e discentes do Curso de Produção Cultural, responsáveis pelo evento em questão, a oportunidade de refletir sobre o significado e a finalidade social da arte e sobre a responsabilidade e consequência de seus conteúdos;

- Por lançar à comunidade acadêmica mais um desafio para criar alternativas de convívio plural, autônomo e ético, que não se limite à defesa axiológica de tais princípios, mas que sejam efetivamente capazes de orientar uma prática cotidiana fundada nas conquistas humanas essenciais (liberdade, igualdade, alteridade) e em face da diversidade de concepções estéticas, morais e políticas, cujo limite para sua manifestação seja exclusivamente o campo democrático;

- Pela nudez desavergonhada, desmedida, explícita, bizarra que, como espelho, desnudou o moralismo, o autoritarismo e o caráter reacionário daqueles que banalizam a barbárie cotidiana (desigualdade, desemprego, déficit habitacional, violência urbana, violência sexual e de gênero, sucateamento da saúde, da educação) e medem a dignidade humana e o papel da Universidade exclusivamente pela régua de seu moralismo tacanho;

- Por nos lembrar que a Universidade Pública é um espaço de todos, autônomo, plural e laico e que, por isso, não por apelos moralistas, deve pautar suas atividades acadêmicas, culturais e festivas nesses princípios e quando, se por ventura, qualquer desses princípios estiver ameaçado, cabe à própria comunidade acadêmica, no exercício de sua autonomia (conquistada com muita luta) encontrar democraticamente os caminhos que levem à recomposição de tais princípios.

- Por nos alertar sobre os riscos éticos e políticos de práticas que podem favorecer condenações arbitrárias e exemplares (administrativas, judiciais, morais) por parte dos poderes instituídos (gestores, autoridades policiais, mídia) e que podem servir de justificativa para exercer a patrulha ideológica, perseguições e retaliações políticas a grupos e pessoas que no cotidiano acadêmico e social questionam as decisões antidemocráticas, a falta de transparência e os desmandos praticados na Universidade e na sociedade;

- Por nos advertir que grande parte da opinião pública, da sociedade, das autoridades institucionais e policiais não se interessa ou ignora solenemente as mazelas atuais da educação pública, no nosso caso, educação superior federal. Nos advertir que só merecemos sua atenção quando um episódio pontual pode ser explorado com sensacionalismo, sob alegação de ultraje à moralidade, à essência da atividade acadêmica, à formação de novos quadros profissionais e ao financiamento social de nossa atividade. Pouco importa como e o que estamos produzindo em nossos projetos de ensino, pesquisa e extensão. Pouco importa em que condições (falta de, na verdade) estamos realizando nossas atividades. Há oito anos esperamos pela construção de nosso campus Universitário, que prevê obras essenciais para a realização de nossas atividades; pela contratação de docentes previstos nos projetos acadêmicos de nossos cursos, pela aquisição de equipamentos para instalação de laboratórios, por melhorias no saneamento básico, na pavimentação e iluminação públicas. Há oito anos reivindicamos rondas policiais sistemáticas no entorno do Polo, pela incidência de assaltos, roubos e violência sexual que afetam membros da comunidade acadêmica, especialmente mulheres. Em 2012 paralisamos nossas atividades por 120 dias, na luta por melhores condições de trabalho e de ensino. Há oito anos praticamente imploramos a atenção da opinião pública, da sociedade e das autoridades públicas sobre as condições precárias que assolam nossa realidade. Em dois dias, as Xerecas Satâniks conseguiram mais atenção da mídia, da sociedade e das autoridades institucionais e policiais do que toda a comunidade acadêmica nesses oito anos. O poeta tem razão, "a nossa dor não sai no jornal";

POR ISSO, BEM-AVENTURADAS(os) SEJAM AS GENITÁLIAS, OS CORPOS E AS MENTES QUE PARA EXERCITAR A CRIAÇÃO, VIVER A DIFERENÇA, A LIBERDADE, A IGUALDADE E O DIREITO À EDUCAÇÃO NÃO PRECISEM SER COSTURADAS, CENSURADAS, ESTIGMATIZADAS, VIOLENTADAS, REPRIMIDAS, ODIADAS, CONDENADAS E CRIMINALIZADAS.


?. Coisas que enlouquecem

A minha mãe leu o início deste texto - as seções 1, 2 e 3 - há uns dias atrás e teve um chilique. Vou explicar porquê.

Imagine uma pessoa que um dia experimenta maconha e isso acaba sendo o início de um processo no qual ela vai perder toda a sua capacidade de fazer julgamentos acertados e agir moderadamente... ela vai passando pra drogas mais pesadas, fica cada vez mais viciada - apesar de ter um discurso dizendo que não, que ela larga quando quiser - briga com todos os amigos, perde o emprego, vende os bens, e um dia ela mata a mãe o irmão pra roubar dinheiro pra comprar crack, metanfetamina, heroína e krokodil, e na semana seguinte ela morre na sarjeta.

Agora imagina um processo parecido com um garoto que não controla seus pensamentos pecaminosos, por puro espírito de porco ele resolve que não quer ser uma pessoa decente e se casar e consituir família etc, ele segue o caminho do pecado, vira gay e depois uma travesti prostituída e drogada, vira a escória da sociedade e morre na sarjeta que nem o meu personagem anterior.

Outra história: dois caras brigam. Um deles numa hora desiste de controlar a raiva - ou não consegue controlá-la - e mata o outro.

As três histórias acimas são sobre personagens que cedem a tentações e isto é o início de uma decadência sem volta.

A gente está o tempo inteiro lidando com "tentações". O quão próximos nós podemos ser dos nossos coleguinhas maconheiros? Será que eu olhei de um jeito errado pra mulher do próximo? Devemos aconselhar nossos amiguinhos que estão indo pras baladas erradas, vão ficar mal falados e assim nunca vão conseguir casamentos decentes?

Acho que a pergunta fundamental por baixo de tudo isto é: se experimentarmos uma certa coisa "perigosa", se cedermos a uma determinada tentação, será que aquilo vai nos enlouquecer?...

Digamos que você tenha duas opções:

Opção 1
A sua família sente orgulho de você
Você tem os melhores empregos
Você tem a aceitação da sua religião
Você tem total aceitação da sociedade
E você pode andar na rua sem ninguém te olhar torto.

Opção 2
Você é expulso de casa.
Você perde o seu emprego.
A sociedade te despreza.
A sua religião diz que você é uma abominação.
E ainda você pode apanhar na rua, simplesmente por existir.

Você escolheria a opção 2?
Não?
Então porque você acha que alguém escolheria?

Digamos que você esteja com tanta raiva de uma pessoa que você fica imaginando matá-la. É óbvio que o desejo de matar alguém é pra ser reprimido, e isto é comum, e é fácil conversar sobre isto com amigos, as pessoas entendem, perguntam mais, contam histórias delas, dão conselhos, fazem piadas...

Agora digamos que você esteja a fim de uma pessoa do mesmo sexo; antigamente era igualmente óbvio que este desejo devia ser reprimido - aliás, era óbvio também que você não podia nem sequer contá-lo pros amigos, por até ter um desejo destes era grave - mas hoje dia isto é bem menos óbvio.


?. Laica e plural

Na 3ª 3/jun/2014 eu reencontrei na rua um cara que eu não via há um tempão. Ele também se chama Eduardo, e nós faziamos Tai-Chi juntos numa aula que acabou porque o professor resolveu viajar. Eu num instante comecei a falar empolgadíssimo sobre a Xereca Satânik, e ele se abriu e começou a contar várias histórias fortíssimas da vida dele das quais eu nem desconfiava.

A gente estava na Cinelândia, na porta de um templo da Igreja Universal do Reino de Deus, entre um protesto que parecia estar perto da hora marcada pra acontecer e uma linha de pelo menos uns 50 policiais do Choque a postos. Ficamos tentando conversar apesar do barulho dos helicópteros. Ele me contou que quando ele era adolescente ele tinha pernas deformadas e muito fracas e quase não andava. Ele foi parar na Igreja Universal sei lá como, mas completamente cético. Não tenho como resumir aqui o que ele contou que foi acontecendo com ele - mas uma frase dele especialmente luminosa não me sai da cabeça: "Deus me deu pernas novas".

Ele me convidou pra eu assistir uma sessão de descarrego - como observador cético. Bastava eu ir numa IURD, dizer que eu era amigo do obreiro Eduardo tal, que tinha me convidado pra assistir, que aí eu seria super bem vindo pra só olhar sem precisar participar de nada. Ele disse que o pessoal da IURD até gosta quando pessoas céticas vão.

Eu disse que eu não era cético, eu tinha certeza do poder daquilo, que eu tava bem interessado e que eu gostaria de ir sim quando desse, mas que nas próximas semanas ou meses eu provavelmente ainda estaria super ocupado com as minhas coisas de salvar o mundo, teria que ser depois. E perguntei se pessoas que não são céticas, mas que dificilmente irão se converter, também são bem vindas como observadores. Expliquei que eu sou religioso também, que tenho a certeza e a sensação clara de estar no mundo com uma missão, mas que alguns dos meus princípios são diferentes dos que eu percebo na Universal... e pra mim o princípio mais básico é responsabilidade - não me basta ver que algo tem um poder avassalador e faz milagres pra dizer que aquilo "é" verdade (e que portanto o resto não é - tipo "chuta que é macumba", etc). Pra mim a gente é sempre responsável por em quem a gente decidiu acreditar.

Contei que a religião do meu pai era a Ciência, e que ele desprezava e ridicularizava tudo que não lhe parecesse científico e racional, e que até eu ter uns 10 anos de idade eu tentava ser como ele - depois eu vi como aquilo era falho. Contei de como eu fui "salvo" por pequenos elementos que eu catei em vários lugares diferentes e que ajudaram a me transformar - e sou grato a eles, e aí hoje em dia acho que a gente é responsável por encontrar modos de fazer os vários caminhos dialogarem, e que atitudes como chuta-que-é-macumba-isso-é-mentira-é-coisa-do-diabo-só-o-meu-caminho-é-o-certo são péssimas.

E contei que alguns dias antes - acho que na 6ª eu tinha tido uma