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História de T

Deixa eu contar uma história do meu tempo de muita testosterona - aliás, melhor, do tempo em que eu vivia envenenado por testosterona. Vou contar só uma delas, porque esse tipo de coisa acabava acontecendo tipo uma vez a cada dois anos.

Primeiro um pouco de contexto. Em 2001 eu estava no meio do doutorado, estudando pelo menos umas 12 horas por dia, e pensando nos meus assuntos de pesquisa quase o tempo todo, até quando eu dormia. Eu tinha um bocado de tempo "livre", e eu aproveitava pra fazer aulas de coisas como circo - acrobacia aérea - e Tai-Chi, pra eu ter mais energia e não enlouquecer.

Pois bem. Até alguns anos antes disso a minha estratégia de vida era baseada em eu ser magro e frágil e ser covardia alguém me bater; ou, em outras palavras, em os caras fortes nunca me verem como alguém que competia com eles.

Eu nunca soube lidar com as babaquices machistas que os caras falam pros outros amigos babacas machistas rirem, e em 2001 eu comecei a pensar o seguinte: alguém tem que começar a mostrar pra esses caras que nem todo mundo acha essas babaquices engraçadas - e como ninguém mais tá fazendo isso, porque não tem ninguém mais sentindo muita necessidade de fazer isso, esse alguém vai ter que ser eu.

A gente acha que Tai-Chi deixa as pessoas calmas, mas no meu caso não foi bem assim - Tai-Chi me deixou poderoso, controlado e preciso.

Eu vou contar a história da segunda vez em que eu "fiz alguma coisa".

Era 2004, acho, e eu e umas dez outras pessoas passamos meses preparando um evento de Software Livre. O evento ia acontecer num domingo, de manhã e de tarde, num espaço cedido pelo Insitituto de Física da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, e quase todo mundo da organização morava no Rio.

No sábado de tarde eu e mais uma meia dúzia de pessoas fomos pra lá pra UFF pra instalar nos computadores as coisas que faltavam. A gente achava que ia ser fácil, mas lá ficou claro que a gente ia ter que virar a noite trabalhando... e às duas horas da manhã a gente viu que a gente ia ter que correr na casa do Diogo, num subúrbio do Rio, pra pegar o computador dele e fazer sei lá mais o quê, pra poder terminar tudo mais rápido.

A gente foi no fusca do Luís, com o Luís dirigindo, e na volta, lá pelas 7 da manhã, a gente pegou duas pessoas no caminho - dois palestrantes do evento - pra dar carona pra elas pra Niterói.

A cena que eu quero contar aconteceu no meio da ponte Rio-Niterói. No banco de trás do Fusca estávamos eu, à direita, o Diogo no centro, e à esquerda um dos caras pros quais a gente deu carona. Não lembro o nome dele, então vou chamá-lo de O Imbecil.

O Imbecil tava falando que tudo era coisa de viado - era a única "brincadeira" que ele conseguia fazer pra socializar.

Aí ele disse que gato era coisa de viado.

Aí o Diogo disse que tinha 8 gatos.

A gente tinha acabado de passar horas na casa do Diogo com os 8 gatos.

Então. Eu já tava vendo tudo vermelho, e eu sabia que se eu não fizesse nada, se eu ficasse em silêncio e fosse cúmplice daquela idiotice, eu ia passar os meses seguintes muito mal.

Eu disse pro Imbecil que esse negócio de "isso é coisa de viado" é coisa de viado.

Eu disse que se ele tratava a gente como homens eu ia tratar ele como homem também.

Eu me debrucei por cima do Diogo, que, lembrem, era quem estava no meio do banco de trás, e apertei o pescoço do Imbecil com toda a força, e enquanto ele ficava roxo eu berrava que ele era um covarde e outras coisas, e mandava ele reagir. Eu queria ficar batendo a cabeça dele contra o vidro do carro, mas ele ficou molinho pra eu não bater muito, e não deu pra eu bater.

Não sei quanta experiência vocês têm com essas coisas, mas quem tem alguma sabe que nós somos animais - brigas são simplesmente situações de muita energia, e elas em geral acabam quando o vencedor se define, ou quando a gente resolve de algum outro jeito, juntos, essa energia toda que apareceu, e transforma essa energia de briga em outra coisa. Em brigas de cães ou de ursos, por exemplo, raramente alguém se machuca muito - a briga termina antes. Com humanos é assim também, em geral.

Aí a gente chegou no evento, e as pessoas ficaram sabendo dessa história, em várias versões - algumas pessoas até perguntaram pro Imbecil o que eram aquelas marcas de unha no pescoço dele - e claro que não aconteceu nada comigo... primeiro porque a história era engraçada e exótica o suficiente pras pessoas ficarem à vontade de ficar do meu lado ao invés de do lado do Imbecil, e segundo porque o traço principal do universo masculino, pelo menos aqui no Brasil, é o direito à babaquice. Essa foi uma das poucas vezes nas quais eu exerci o meu direito à babaquice ao invés de ficar sempre tentando pateticamente ser racional e respeitável, e foi incrível!...


Essa história é uma das mais preciosas que eu tenho entre as minhas memórias. Desculpem, eu sei que muitos de você vão ficar chocados, mas essa história é como uma pequena jóia pra mim... talvez - e isto está me ocorrendo agora - porque foi uma das pouquíssimas vezes nas quais eu consegui usar o meu lado masculino, que em geral era tão problemático, pra fazer algo espetacular.


(Links: gênero, Rape Recovery Journal, este texto no FB, Falta Misandria no Movimento Trans)