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TR

(Enviado em 7/jul/2014 para Travesti Reflexiva;
publicado aqui)


Oi Sofia,

você volta e meia publica umas mensagens de saída do armário - até às vezes sem revelar quem escreveu... será que você poderia fazer a mesma coisa com essa minha?... Tou achando super difícil escrever mais coisas nela, tou empacando, será que ela ainda está ruim como está =(?... eu adoraria ser capaz de sair do armário 100% de uma vez só, mas não rola, acho que eu preciso de um pouquinho de feedback de gente do grupo... e a minha foto no FB parece tão cis que eu não lido bem com ela...

Beijos - acho que nem preciso dizer como a TR me ajudou nos últimos meses, né? =)

(Ah, por sinal, toda vez que me bate de novo a paranóia de que eu sou uma farsa - ela é meio incontrolável - eu olho de novo o Rape Recovery Journal, que era o meu blog semi-secreto e que depois eu editei artesanalmente... links:
http://angg.twu.net/rrj-intro.html
http://angg.twu.net/LATEX/rrj.pdf
é impressionante como dar voz ao que a gente sente nos salva, né...)

A mensagem que eu preparei tá depois do "----".

----


Oi pessoas,

vocês podem me indicar páginas sobre trans* que começam o processo com mais de 40 anos?...

Sei que não somos tão poucxs, mas tou achando que ainda somos muito invisíveis!...

Vou começar com hormônios agora em outubro, e ainda não sei bem que mudanças eu posso esperar...

Bom, vou tentar escrever o resto do post como uma saída do armário - mas é meio difícil porque eu nem sei direito como me rotular! Transgênero, transexual, sem gênero, genderfreak?...

No início, quando eu era pequeno, eu achava só que eu tinha dado azar. As meninas podiam fazer tudo de legal e podiam pensar e conversar sobre o que queriam e serem sinceras; já os meninos tinham que ficar fingindo o tempo todo que gostavam de um monte de coisas idiotas só pra provarem pros outros que eles eram machos, e ficar fazendo papel de macho era algo tão infernal que a gente vivia explodindo de frustração e raiva... aí o que eu entendia era que os outros meninos descarregavam essa raiva se sacaneando e se batendo, e eles ficavam tão ocupados com isso que eles não tinham tempo pra pensar nada de diferente... e como eu era magro e fraco e tinha defeitos de personalidade eu não conseguia me encaixar e aí eu ficava só vendo tudo como se eu estivesse de fora... e eu tinha a impressão - aliás, a "esperança"! - de que se eu me esforçasse MUITO e virasse uma pessoa muito interessante quando eu crescesse eu acabaria encontrando as outras pessoas que também sabiam que o mundo masculino era uma farsa, e teriam construído jeitos de viver fora dessa farsa...

Aos poucos - a partir da minha adolescência - eu fui vendo que eu funcionava de um jeito bem diferente dos meninos, e comecei a procurar onde estavam as pessoas com as quais eu pudesse me identificar mais e trocar mais figurinhas... e aí tentei andar com homens gays e bis, o que não deu muito certo, depois com lésbicas militantes, travestis e transexuais...

Até o início deste ano eu não sabia o que fazer com o meu corpo. Eu odiava parecer homem, odiava a coisa entre as pernas, odiava pêlos, e quando eu me olhava no espelho e via o cabelo ficando ralo na área das entradas eu só pensava em como os hormônios masculinos estavam me destruindo... mas tinha umas idéias idiotas na minha cabeça - de que eu não era um "transexual de verdade", de que o problema a ser trabalhado estava todo dentro da minha cabeça, e seria irreal fingir que mudar o corpo resolveria alguma coisa...

Todos os meus amigos próximos que são trans sempre tiveram uma necessidade enorme de "passar" - de serem vistos como alguém do gênero (binário! Homem ou mulher) com o qual se identificam, e que era diferente do de nascimento... e eu não era assim...

Aí só em fevereiro é que eu me toquei de eu não aguentava mais ser "lido" como homem - tem muita coisa que é interpretada de forma diferente dependendo de se quem faz é homem ou mulher -, e que eu já tinha um trabalho estável, e que as vantagens de parecer cis já não me importavam muito, já estavam BEM menores que as desvantagens... e aí eu entendi que nem me importava mais se eu pareceria mulher algum dia ou não; deixar de ser "aparentemente cis" pra passar a ser "visivelmente trans" já era mais do que suficiente...

Na verdade tou achando bem difícil escrever essas coisas agora - acho que todo mundo aqui já passou por algo parecido e vai entender porquê: é difícil a gente contar a nossa história quando a gente se sente muito diferente - e quando a gente não consegue calar totalmente a vozinha na nossa cabeça que diz que a gente está "errado"...


(Eu não consegui escrever nada mais, e mandei assim mesmo.)
(Mais links: gênero, Rape Recovery Journal)