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Sobre competência (pra ganhar dinheiro)

Eu queria conseguir esquecer dos problemas rapidamente, como as outras pessoas em torno de mim. Mas eu não consigo. Algumas coisas que foram ditas na reunião do CONPURO de 25/nov/2010 - a que tinha como um dos pontos de pauta "esclarecimentos sobre o projeto ANVISA" - não me saíram da cabeça até agora, e ficam voltando... é MUITO desagradável.

Uma delas foi o João dizendo que acha um absurdo essa coisa dos brasileiros terem vergonha de dizer abertamente o quanto ganham; que nos EUA é exatamente o contrário, lá as pessoas têm orgulho de dizer "eu ganho 100000 por mês", porque isso quer dizer que elas VALEM 100000 por mês.

Outra foi o Fontana dizendo que eles ganham as bolsas de entre 4500 e 11000 reais por mês da ANVISA porque eles são competentes e o trabalho deles é muito bom, e se os outros não são competentes é problema deles.

Outra foi o João dizendo que quem repassou o e-mail da denúncia sem checar a veracidade dele é um irresponsável, que deve ser processado por calúnia, difamação e danos morais (detalhe: no almoço de 25nov2010 ele disse que se fosse ele que tivesse recebido aquele e-mail anônimo que o Fábio recebeu ele teria acionado a polícia pra descobrir de quem foi, processado o aluno, e recorrido em todas as instâncias... e aí o aluno ia perder uns 50 ou 60 mil se defendendo, e ia aprender uma lição - e ele, João, tem um seguro-advogado que permite a ele mover um processo desses de graça). Bom, pelo menos essa do "tem que ser processado por calúnia, difamação e danos morais" eu consegui responder!... Eu expliquei que eu é que tinha repassado o e-mail, junto com um texto extra, e fiz isso mesmo sabendo que eu corria o risco de ser processado e aí passar três anos gastando metade do meu salário com custas de processo... e não fiz isso nem anonimamente nem levianamente. Eu já fiquei doente várias vezes por questões relacionadas às condições de trabalho no PURO (ainda não tive nada que afetasse a minha vida profissional, mas estava à beira de, e já tive estragos enormes em todo o resto da minha vida) e, realmente, eu não tinha como checar sozinho se as denúncias eram verdadeiras, mas o que eu fiz foi pra pra gerar discussões, que eu acreditava que iriam melhorar as condições de todos.


Eu ainda penso com freqüência que eu ganho metade do que o Neves ganha, e um terço do que o Moacyr ganha, e portanto eu valho metade do que o Neves vale, e um terço do Moacyr; o Neves é duas vezes melhor que eu, e o Moacyr é três vezes melhor.

Fiquei sabendo que muitos funcionários ganham bolsas da Prefeitura - bolsas de fixação? - como auxílio e incentivo para ficarem em Rio das Ostras. A prefeitura não tem nos repassado as verbas que deve, então por enquanto estas bolsas estão sendo pagas pela FEC, mas elas terão que ser cortadas em breve - até porque os acordos com a Prefeitura acabaram. Parece que os valores dessas bolsas são meio arbitrários - e que é comum quando a gente pede a um funcionário pra assumir uma tarefa extra que ele pergunte quanto de bolsa ele vai ganhar. E, evidentemente, os que não ganham essas bolsas se sentem desvalorizados, e, por motivos humanos que todo mundo entende, eles ou não assumem as novas tarefas ou as fazem mal. Criou-se uma situação na qual a gente vale o que ganha, e as comparações com os colegas - e a sensação de injustiça - são inevitáveis.

Com os cortes das bolsas pra funcionários vamos começar um processo de desnevização do PURO. Tomara que dê certo.


A questão da "competência" (pra ganhar dinheiro) fica me voltando à cabeça. O RCT só tem um incompetente assumido - que sou eu. Eu tentei virar programador numa época, exatamente pra ganhar dinheiro - o meu objetivo era juntar o suficiente pra eu ir pra Inglaterra fazer o curso de formação em Técnica Alexander - e deu tudo errado. Eu não tinha a estrutura psicológica pra ser um bom profissional. Eu me incomodava com questões "éticas" da vida dos outros que não eram da minha conta, achava que muitas brincadeiras que eles faziam pareciam "bonding rites" de mafiosos, e, por mais que eu tentasse fazer com que isso não transparecesse e não afetasse o meu trabalho, eu acabava ficando desgastado, e os meus colegas ficavam muito incomodados por eu não me entrosar e me expeliam. Isso aconteceu várias vezes, e eu voltei pro mundo acadêmico.


Era pra nós nos concentrarmos em educação, pesquisa e em criarmos condições pra esse lugar funcionar, mas tá difícil não ficar pensando demais em dinheiro. Na verdade a gente tinha vários mecanismos pra fazer com que as questões de dinheiro fossem sempre secundárias, mas eles foram subvertidos.



(Update: não sei por quanto tempo eu ainda vou conseguir manter o controle... daqui a pouco eu também vou virar uma célula cancerígena, devorando os recursos do organismo do qual eu faço parte e provocando mutações malignas nos meus poucos colegas saudáveis. Vou decretar que eu fui mordido pelos zumbis - afinal, depois de tantos anos tentando resistir - e agora virei um deles. Não serei mais responsável pelos meus atos: estarei simplesmente fazendo o que todos fazem, me alimentarei de carne humana fresca e - nham, nham! - cérebros, porque isto é da minha natureza. Farei parte da massa, serei rico, inconsequente, normal e feliz.)