Quick
index
main
eev
maths
blogme
dednat4
littlelangs
PURO
(GAC2,
λ, etc)
(Chapa 1)

emacs
lua
(la)tex
fvwm
tcl
forth
icon
debian
irc
contact

A verdadeira biblioteca e o maníaco das horas-bunda (e-mail pro colegiado)

Oi Sandra,

é importante que as pessoas entendam que nós estamos numa universidade, não numa escola técnica. Isto deveria ser óbvio! Deixa eu fazer uma citação ao invés de parafresear...

A verdadeira Universidade é um estado de espírito, aquela grande herança de pensamento racional que nos foi legada através dos séculos e que não existe em nenhum lugar específico. É um estado de espírito regenerado no decorrer das eras por um corpo de pessoas que tradicionalmente recebem o título de professores; mas nem esse título faz parte da verdadeira Universidade. A verdadeira Universidade não é nada menos que o próprio corpo da razão, que se perpetua.

Além desse estado de espírito, a "razão", existe uma entidade jurídica que, embora infelizmente chamada pelo mesmo nome, é outra coisa completamente diferente. É uma empresa sem fins lucrativos, um ramo do Estado, com um endereço específico. Possui bens, paga salário, recebe dinheiro e, nesse processo, pode reagir às pressões do legislativo.

Mas essa segunda universidade, a pessoa jurídica, não pode ensinar, gerar conhecimento ou avaliar idéias. Não é, de modo algum, a verdadeira Universidade.

Isto é de um capítulo d'"O Zen e a arte da manutenção de motocicletas", um clássico dos anos 70. Tem o capítulo inteiro aqui: http://angg.twu.net/zamm-13.html.

A "verdadeira universidade" é a porta de acesso para a "verdadeira biblioteca". A "verdadeira biblioteca" é o conjunto de tudo que já foi escrito até hoje - milhões de livros, a imensa maioria deles escrita por pessoas de culturas tão diferentes da nossa que não conseguiríamos entendê-los sem preparação.

A "verdadeira universidade" transforma as pessoas primeiro em "consumidores" destes livros, porque as torna capazes de lê-los; e depois em "produtores" de livros, porque os alunos aprendem a argumentar e escrever bem, e no fim das suas graduações eles escrevem TCCs, e talvez artigos.

As atividades culturais - donde o exemplo extremo canônico é obviamente a Xereca Satânik - fazem com que as pessoas tenham acesso a visões de mundo muito consistentes e muito diferentes das mais comuns que a gente encontra por aí. Sem as atividades culturais, as de convivência e as discussões políticas nós nos transformaríamos todos em maníacos das horas-bunda... deixa eu fazer uma outra citação:

Nos últimos dias, tem gerado bastante discussão um vídeo (...) gravado por um estudante do curso de Administração da USP. Nele, um grupo de estudantes negros toma alguns minutos da aula para, em linhas gerais, abordar o racismo estrutural da Universidade de São Paulo, mas são interrompidos pela professora e também por alguns alunos que, nas suas palavras, "querem ter aula". O episódio evoca uma série de temas e, entre todos eles, quero aqui destacar um perfil de estudante que as melhores universidades do País têm selecionado em seus vestibulares e, cumprindo sua função social, seguem formando em seus espaços acadêmicos: o maníaco das horas-bunda.

A expressão "horas-bunda", curiosamente, aprendi com um excelente professor da faculdade de Letras, na própria USP. Ele, professor-titular nas três estaduais paulistas, insistia conosco na necessidade de não vermos a sala de aula como um fim, mas como um dos espaços de aprendizado. Dizia ele que muitos alunos agiam como se o simples ato de sentar-se numa sala de aula fosse o suficiente para serem bons estudantes e, para debochar dessa atitude, ele a tratava carinhosamente como um acúmulo de "horas-bunda".

O que eu acho pior em virarmos maníacos das horas-bunda é o seguinte. Nós queremos dar boas aulas e fazer pesquisa bem, e os alunos querem aprender o máximo possível - mas tem coisas que reduzem o nosso rendimento... por exemplo, se fazem uma grande injustiça com a gente ou com um colega ou parente nosso, a gente não vai conseguir se concentrar tão bem. Os maníacos das horas-bunda não conseguem nem ter clareza de quais as injustiças que os incomodam, e são completamente incapazes de resolvê-las e de criar um ambiente mais justo e mais propício para a concentração de todos!!!

Desculpe se ficou parecendo que eu respondi só a este trecho pequeno do seu e-mail,

Afinal, as pessoas estão aqui para exercer seu trabalho que é na formação de profissionais, através do ensino, obviamente que entendemos aqui o ensino em várias dimensões. Enfim, este lugar foi construído para as pessoas estudarem, para desenvolverem pesquisas, para fazer alguma coisa em prol da melhoria da vida da coletividade!

é que o seu e-mail estava cheio de termos, como "instituição de ensino", "necessidade de confronto", "o mais importante", "em prol da melhoria da vida da comunidade", "comunidade", "jogo perverso sem limites", "bom senso", "demagogia", "saudável", "dialogar" e "exposição", que têm significados muito diferentes para pessoas com visões de mundo diferentes, e tive a sensação de que você estava usando eles com o significado que eles têm pra você sem considerar os significados para os outros... O que eu escrevi são coisas nas quais eu venho pensando há muito tempo, e que acho que são idéias-chave pra conseguirmos lidar com as nossas diferenças.

[[]],
    Eduardo Ochs
    eduardoochs@gmail.com
    http://angg.twu.net/


P.S.: Esqueci o link pro texto sobre o maníaco das horas-bunda! Tá aqui.